A Raposa Já Era o Caçador
O jogo das vespas
Já pela manhã, o rosto do menino de olhos bem separados e têmporas estreitas mostra a mancha da solidão. A criança está sentada no banco em meio às outras e está sentada sozinha. Seus globos oculares são vermelhos, os círculos castanhos de seu interior desbotaram.
Durante a aula, Adina fica tentada duas vezes a chamar o menino à lousa. Ela vê, nos olhos dele que atravessam a janela, que os pensamentos não ficam parados atrás do vidro. É um olhar que tem muito a refletir. Adina chama à lousa o menino que se senta na frente do menino ausente. E daí um menino que se senta ao lado do menino ausente. Os olhos nas têmporas estreitas do menino foram para tão longe que não percebem.
Depois da aula, o menino se senta no beiral da janela e boceja. A criança diz que esteve durante a noite atrás da catedral com a mãe, duas ruas atrás da ponte. É onde o padre húngaro mora, muitos foram rezar e cantar lá. Apareceram também soldados e policiais, eles não rezaram nem cantaram, eles apenas observaram. Estava frio e escuro, diz a criança. Quando rezamos e cantamos não sentimos frio, disse minha mãe. Por isso as pessoas não morreram de frio. E porque seus rostos e mãos estavam iluminados pelas velas acesas. As minhas mãos também, diz a criança. Quando seguramos uma vela diante do queixo, ela ilumina através do pescoço e da mão. O menino aperta a mão esquerda, com os dedos abertos, contra o vidro da janela. Os policiais e os soldados estavam morrendo de frio, diz a criança. Adina vê as correntes de verrugas cinzentas nos dedos. Os álamos estão em pé, agudos e pelados, diante do céu. Minha mãe disse, em todo lugar onde não há ninguém é possível haver alguém, assim como no verão às vezes há sombras onde não há nada nem ninguém, diz a criança. Minha mãe disse que são gavetas que não enxergamos e que não podemos abrir. As gavetas estão nos troncos das árvores, no gramado, na cerca, nas paredes, minha mãe disse. O menino desenha com o giz na mão direita sua mão esquerda no vidro da janela, nessas gavetas sempre há um ouvido, minha mãe disse. Lá onde o menino tirou a mão da janela, aparece no vidro o contorno verde de uma mão transparente. O ouvido escuta, minha mãe disse. Quando alguém nos visita, minha mãe sempre guarda o telefone dentro da geladeira, diz o menino. Ele ri e o riso voa para longe do rosto. Ele inclina a cabeça e encosta-a na mão que segura o giz. Eu nunca guardo o telefone na geladeira, diz o menino.
O menino desenha unhas verdes nos dedos transparentes. Onde o contorno dos dedos está tremido, o giz desenha verrugas verdes sob as unhas.
O céu está cinza, isso não é cor porque tudo é cinza. Os blocos habitacionais lá do outro lado são cinza, um cinza diferente daquele do dia, uma outra falta de cor.
Eles não têm verrugas, camarada, diz o menino para Adina. Quando a gente cresce, as verrugas somem, elas passam para as crianças. Minha mãe disse que, quando as verrugas somem, vêm as preocupações.
Um vapor quente sai da boca da criança. Não dá para vê-lo. Lá fora, debaixo dos álamos pontudos, seria possível vê-lo. Logo depois ele estaria pendurado em silêncio no ar. E se afastaria sozinho. Enxergaríamos no ar o que foi dito pela boca. Mas não mudaria nada. Mesmo que enxergássemos algo no ar, seria reservado e não público. Como tudo o que está nas ruas e é reservado e não é público, a cidade reservada, só para si, as pessoas na cidade reservadas, só para si. Somente esse frio cortante que está para todos, não a cidade.
Frutinhas verdes estavam penduradas nos dedos transparentes do vidro da janela.
O cortejo de casamento é pequeno. Ele segue atrás do trator, atrás dos músicos. A casa da juventude fica na primeira rua atrás da trincheira do estádio, é lá o cartório de registro civil. Seis policiais acompanham o cortejo do casamento. Eles se autoconvidaram, eles disseram que casamentos são proibidos porque reuniões são proibidas.
O portão do estádio está fechado, os dinamarqueses já voltaram para casa, mas a canção, a canção proibida, espalhou-se, não parou na cidade.
Cachorros latiram durante a noite, em todas as ruas e mais próximos do que de costume no inverno sem neve, quando a noite fica diante de si mesma. Depois de a noite ter desabrochado há tempos, quando apenas o frio ainda a mantinha na cidade, ainda havia pessoas em trânsito. Era mais tarde do que o caminho de casa mais tardio. Elas atravessavam as ruas com lanternas. E, onde paravam, as lanternas se apagavam e chamas de fósforos nasciam de seus dedos. Eram velas que queimavam.
No caminho de casa, Adina caminha atrás de si. Na esquina, junto ao rolo grosso e enferrujado de arame, um fio de ferrugem se arrasta pelo caminho. No congelar e descongelar, quando a neve não chega, o arame começa a escorrer lentamente. O cachorro olga late diante do barracão de madeira, frutinhas verdes brilham em seus olhos. olga, diz Adina em voz alta. Há uma gaveta na cabeça do cachorro, impossível de ser aberta. O dia está trancado nesse crânio. Ele está retorcido para trás nesses latidos noturnos. O caminho conhece a si mesmo, não tem distância. Os passos tremem e são sempre os mesmos.
Em seguida, os sapatos se apressam, a cabeça está vazia, mesmo que a raposa esteja na cabeça. A raposa está sempre na cabeça.
Sempre quando Adina chega ao apartamento vindo da rua, o frio se enrola nas pontas de seus dedos e arde, pois Adina olha o banheiro. Depois, seu sapato empurra o rabo e duas patas para longe do pelo. Todos os dias.
Um toco de cigarro está nadando no vaso sanitário. Ele não está inchado. Adina põe o sapato sobre a pata da frente. A pata direita da frente se afasta com a ponta do sapato. Ela abandona o pescoço.
Enquanto o coração bate na boca, seus dedos sentem exatamente os locais dos cortes na barriga.
Pavel poderia ser padrinho do casamento, mas desde os dinamarqueses as pessoas não largaram as bandeiras, elas não vão para casa. Pavel tem de ficar à disposição no serviço, dia e noite, ele disse. Onde moram os dinamarqueses?, a bola deles é enfeitiçada, sua pele fina sem sol. Eles moram lá no alto, onde o globo terrestre se junta. Essa é a aparência deles, Paul disse.
Os clarinetes rasgam a música do casamento, os violinos mantêm a cadência mínima apenas entre os blocos habitacionais onde há um eco nos lugares apertados. O acordeão abre e fecha no ritmo. Clara puxa seu salto fino de uma frincha no asfalto. O cravo se quebrou, o cabo está no buraco do botão.
A grande pá amarela está no ar, diante do trator. Na frente, os dentes enlameados. Os noivos estão dentro da pá. O véu tremula, os cravos-brancos da noiva tremem quando passam sobre buracos. As mangas brancas dela estão enlameadas. O anão está usando terno preto e camisa branca e gravata-borboleta branca. Os saltos de seus sapatos novos são tão altos como duas telhas quebradas. Grigore está usando um chapelão, a zeladora, um lenço na cabeça com franjas vermelhas de seda. O zelador carrega uma rosca doce na mão. Seus olhos estão úmidos, ele canta:
A juventude passou
para sempre agora, lindo mês de maio
Mara é a noiva. Ela esperou por esse dia durante dois anos e eis que as reuniões estão proibidas.
Estamos casando, não estamos fazendo política, disse o noivo.
A mordida na perna de Mara já se curou faz tempo. Ela mostrou-a todas as manhãs no escritório, durante semanas. Primeiro era vermelha, depois se tornou maior e azul. Quando ficou verde, tinha alcançado seu maior tamanho. Os dentes cresciam e entravam na pele. Depois ela se tornou amarela, desfiou-se, encolheu e sumiu.
Mara teve problemas com o noivo. Ele quis acabar com o noivado. Ela teve de mostrar a mancha todas as noites para ele e ele se acostumou. Mas ele não acreditava que a mordida tinha sido do diretor. Ele disse, se eu soubesse que não são os dentes de grigore.
Os gansos da neve vivem da neve que não aparece. Não aqui. Eles viram o pescoço e abrem o bico. Eles gritam. Eles claudicam sobre o chão liso. O gelo da noite descongelou, eles abrem as asas, tomam impulso com dificuldade. Quando abrem as nadadeiras, levantam voo. O ar tremula acima da grama, bem próximo a ela, depois para longe sobre as árvores, como se houvesse um farfalhar de folhas na floresta pelada. Lá em cima, voando pelo céu, os gansos da neve se ajustam, deixam que a planície, a plantação e o milho caiam, pequenos, das asas. Não há neve, mas, ao saírem voando, a terra fica amarrada nas suas órbitas, uma bola branca. E embaixo, no chão, há a colina preto-esverdeada, com alguma vegetação. Penas planam atrás deles por um longo tempo.
Os corvos restam na floresta porque ela é preta. Os galhos se fazem de mortos.
Os soldados brincam do jogo das vespas. Eles ficam em círculo. No meio do círculo está o grilo, o polegar encostado na têmpora, os dedos juntos e esticados. O rosto virado para o lado, não pode haver espaço entre os dedos. Eles impedem a visão. Todas as vespas zunem ao redor do grilo, uma delas pica. O grilo tem de adivinhar quem picou. Se o grilo passa muito tempo adivinhando, fica todo picado. O grilo matuta, o grilo tem medo. A mão está bem apertada junto à têmpora, a batida na mão dói. A cada picada o grilo cai no chão. Tantas vezes até não conseguir mais ficar em pé. Durante todo esse tempo e ainda mais. Os lábios das vespas tremem e zunem. O grilo tem de olhar para todas as vespas, tem de adivinhar em pé.
Quando não consegue mais ficar em pé, ao grilo é permitido ser vespa.
Mas depois da última picada o grilo fica deitado na sujeira, sem se mexer. O oficial com o dente dourado toca nele com a ponta da bota. Quando ele se levanta, há manchas azuis ao redor de seus olhos; e, na hora de ser vespa, todos os seus ossos doem.
Ilije está com sorte, hoje não precisa ser o grilo.
No verão, meu filho recebe dez lei meus todas as tardes de domingo, diz o oficial. Seus olhos estão pendurados no céu, ele acompanha os gansos da neve, há neve nas montanhas, ele diz, eles estão mudando de direção.
Ele engole em seco. Meu filho, ele diz, calça suas sandálias brancas sem tirar a nota de dinheiro da mão. Depois vamos de carro até a cidade. Vou ao parque e tomo cerveja e meu filho, com a minha carteirinha, vira a esquina até o bufê do partido, ele gosta tanto de comer bolo. Ele estala a língua no seu dente de ouro, os bolos ficam na vitrine, e a vitrine é tão alta que no último verão seus olhos não a alcançavam. Ele cresceu muito, diz o oficial, no próximo verão já vai enxergá-los melhor. Seu preferido é o bolo com a cobertura verde-clara, diz ele. As abelhas deixam o bolo doce, o cozinheiro diz todas as vezes ao meu filho, pois meu filho é medroso, ele fecha os olhos.
Ele assopra, no ar sua respiração é cinza, a maioria delas fica na cobertura de framboesa, ele diz. A cada verão, a mão do cozinheiro fica inchada pelas picadas de vespas. O inchaço é horripilantemente azul. Quando serve à mesa, o cozinheiro tem de pôr um pano branco sobre a mão. É assim, diz o oficial, no verão as abelhas ficam voando ao redor da cerveja no parque, elas não picam. Seu dente de ouro brilha. Os bolos do bufê do partido são atacados apenas pelas vespas, ele diz.
Ilije olha para o alto da colina preto-esverdeada e, durante um olhar, sente que esse rosto é muito pálido e que o dente de ouro é um bico. O bico de um ganso da neve.
Depois de o tanque estar há algumas semanas na floresta, depois de a trincheira estar pronta há dias, depois de o oficial do dente de ouro estar farto da metade da temporada no quartel e enojado dos sacos de areia no pátio, a marcha da coluna vai fazer a brincadeira das vespas lá no campo, passando pela trilha entre o milho quebrado, do outro lado da colina.
Os gansos da neve claudicam sobre o chão. Eles trazem o frio consigo, sabe-se lá de onde, e encolhem as asas. Eles sempre voam longe. Lá comem neve, sempre voltam, não comem grama, não comem milho. Quando não voam, ficam parados olhando para o céu e evitam a floresta.
A brincadeira das vespas é um bom momento de relaxar, uma bela luta, diz o oficial. Ele não participa da brincadeira, ele a controla. As regras do jogo brilham em seu dente dourado. Vire, ele diz para o grilo. E agora zunam, ele diz para as vespas. Ele as faz zunir pelo tempo que lhe aprouver. Piquem, piquem, ele grita, com vontade, não feito pulgas.