A Raposa Já Era o Caçador

Herta Müller · Capítulo 31 de 33

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A Raposa Já Era o Caçador

Framboesas congeladas

 

O céu branco e preto ficou vazio, a canção proibida propagou-se em trens, em ônibus, em charretes por todo o país. Em bolsos rasgados de sobretudos e em sapatos gastos por pisadas tortas. Também no carro entre Adina e Paul. Eles voltam para a cidade.

O céu no vilarejo de uma só rua é azul e foi esvaziado de tanto entoar a canção proibida. E o policial do vilarejo vestiu sua calça novamente e deixou o quepe pendurado na árvore. Ele não arrumou suas gavetas, guardou apenas a foto da mulher e dos dois filhos na jaqueta. Na extremidade do vilarejo, ele atravessou o campo em diagonal procurando pelo caminho mais distante.

A vizinha velha carrega seus travesseiros e edredons para dentro de casa, pois como todos os dias, só que mais alto, agora a noite aparece atrás do vilarejo.

Na fronteira, do outro lado do país, onde a planície alcança a Hungria feito a ponta de um nariz e a cancela permanece escura, há uma pequena passagem. Um carro espera diante da cancela. Um homem de pulôver grosso entrega seu passaporte pela janela. O oficial da fronteira lê:

karaczolny albert

Mãe magda, nascida furak

Pai karaczolny albert

Quando ele guarda o passaporte no porta-luvas, uma pinta do tamanho da ponta de um dedo salta do colarinho que está no pescoço do homem. A cancela se abre.

 

Na janela, no alto, a cortina está fechada. O apartamento não está trancado, a chave está na porta pelo lado de dentro. Abi não está no apartamento, nem há um bilhete. O armário está aberto, sobre o tapete há uma caixa de fósforos jogada. No chão da cozinha, uma cadeira derrubada. Sobre a mesa da cozinha, uma garrafa de aguardente cheia até a metade e um copo cheio. Sobre o fogão, uma panela com sopa e começo de mofo.

Não se sai assim de casa, diz Paul, somente quando é preciso.

No café atrás das ruas tranquilas do poder, os vidros foram alvo de tiros. As cortinas vermelhas estão arrancadas. Soldados estão sentados às mesas. Os álamos estão pontiagudos e altos e olham para a água. Onde no verão havia pescadores, veem-se soldados dia e noite. Eles não precisam de horas, o sino bate na torre da catedral e ele próprio não se escuta.

Os teixos verdes e pretos entre a ópera e a catedral estão caídos, as vitrines das lojas, estilhaçadas e vazias. Os tiros nas paredes tão próximos uns aos outros como pedras pretas voadoras.

As escadas da catedral estão ocupadas com velas finas amarelas. Elas tremulam torto como o vento. Os compridos cravos vermelhos, os cíclames curtos, brancos, estão pisados pelos muitos sapatos e ainda não murcharam. As escadas estão vigiadas por tanques e soldados. O anão está sentado sobre o meio-fio ao lado de uma cruz de madeira. Ele leva uma fita preta no braço. Ao esticar as pernas, seus tijolos quebrados ficam sobre a calçada. Ele vende velas amarelas. Na cruz há a imagem de um morto, um rosto jovem, com uma espinha no queixo. A boca sorri e sorri. Adina fecha os olhos, a imagem mostra um anjo, rindo, alvejado com um tiro. Paul ergue o rosto para bem perto do quadro. Uma mulher toda enrolada em panos está sentada ao lado dos sapatos dele. As velas estão na frente dela sobre um pano. Ela come um ovo cozido, mole. Ela mete a ponta do dedo na gema e o lambe. Seu dedo e o canto de sua boca e a gema são amarelos feito as velas. Ela limpa o dedo no sobretudo e segura duas velas na direção de Adina e Paul.

Não consigo rezar, diz Adina, Paul acende uma vela.

Há fotos penduradas na pesada porta de madeira da ópera. Paul ergue a mão sobre o gorro de pele de um homem. Seu dedo toca a foto. É o rosto de Pavel, a boca sorri, sobre o colarinho da camisa há uma pinta. Mais para baixo, o dedo de Adina toca um rosto, é o homem que mijou no rio e logo em seguida pôde caminhar na margem feito um homem tranquilo. Debaixo das fotos está escrito: eles atiraram.

Todos atiraram para o ar, diz o velho com o gorro de pele, o ar estava nos pulmões.

A cortina da janela está fechada. Eles estiveram aqui, diz Paul. A porta do apartamento está trancada. As portas dos armários estão abertas, as roupas, espalhadas pelo chão, os livros, os lençóis, o travesseiro, a coberta. Os discos estão na cozinha sobre o piso. Quebrados, pisoteados.

Adina destranca a porta do apartamento. O banheiro está aberto, a pia está vazia, não há nenhuma casca de semente de girassol boiando no vaso sanitário. O armário está fechado.

Sob a ponta do sapato de Adina, o rabo da raposa se afasta do pelo. Depois a primeira, a segunda, a terceira pata.

Depois a quarta.

Adina empurra o rabo com a ponta dos dedos até o pelo. Depois a pata direita traseira, depois a esquerda, a pata direita dianteira e a esquerda. Essa é a sequência, ela diz. Paul esquadrinha o chão. Não há nenhum fio de cabelo.

Posso ficar aqui?, pergunta Paul.

 

Adina está diante da banheira, água quente escorre do cano, o espelho se cobre de vapor. Ela tira a blusa, mantém a mão debaixo da água. Ela fecha a torneira e torna a vestir a blusa. O televisor fala no quarto.

Vi meus ombros brancos no banheiro, a banheira, o vapor branco, não consigo me despir, ela diz, não consigo me lavar. Ela remexe a bolsa de viagem. A tesourinha de unhas está bem no fundo.

O sono enterra a cabeça antes de a cama ficar quente. Pois Adina e Paul levam para o sono a mesma imagem esburacada que rasga a cabeça, que é maior do que a cabeça.

Eu amei vocês como se fossem meus filhos, disse a mulher do ditador no quarto. Ele assentiu, viu a tesourinha de unha ao lado da mão de Adina sobre a mesa e puxou seu gorro preto de pele sobre a testa. Ele o usava havia alguns dias. Depois, balas foram atiradas através da tela, atingiram a parede de um quartel, no canto vazio mais sujo do pátio.

A parede estava esburacada e vazia.

Dois velhos camponeses estavam deitados no chão, as solas de seus sapatos olhavam para o quarto. Ao redor de suas cabeças havia pesadas botas de soldados formando um círculo. Seu cachecol de seda escorregou da cabeça para o pescoço. Seu gorro preto de pele, não. Era um dos muitos, o mesmo, o último.

Você conseguiria abrir os dois cadáveres?, perguntou Adina, Paul abria e fechava a tesourinha de unha, isso seria pior do que se eu tivesse de mexer no meu pai e na minha mãe, ele disse. Meu pai me bateu muito, eu tinha medo dele. Durante a refeição, quando eu via como sua mão segurava o pão, meu medo desaparecia. Naquela hora ele era como eu, éramos iguais. Mas quando ele me batia eu não conseguia imaginar que ele usava a mesma mão também para comer pão.

Paul expirou profundamente um cansaço de muitos dias. Onde outros têm um coração, eles têm um cemitério, disse Adina, uma porção de mortos entre suas têmporas, pequenos e ensanguentados feito framboesas congeladas. Paul esfregou as lágrimas dos olhos, tenho nojo deles e tenho de chorar por eles. De onde vem essa pena?, ele perguntou.

Duas cabeças sobre o travesseiro, separadas pelo sono, as orelhas estão sob o cabelo. E sobre o sono, atrás da cidade, um dia leve, triste, está à espera. Inverno e ar quente e os mortos estão gelados. Ninguém esvazia o copo cheio na cozinha de Abi.

Clara adormece algumas ruas adiante com a mesma imagem esburacada. O telefone toca através do seu sono. Os cravos inchados vermelhos estão no escuro, a água brilha no vaso. Estou em Viena, diz Pavel, logo alguém vai te procurar e dar meu endereço e um passaporte, você tem de vir rápido, senão não estarei mais aqui.