A Raposa Já Era o Caçador

Herta Müller · Capítulo 7 de 33

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A Raposa Já Era o Caçador

Dia das melancias, dia das abóboras

 

Há algodão encharcado no vaso sanitário, a água está enferrujada, sugou o sangue do algodão. No assento, sementes de melancia coladas.

Quando as mulheres usam algodão entre as pernas, o sangue das melancias está em suas barrigas. Dia da melancia e o peso das melancias, todos os meses: isso dói.

 

Qualquer mulher pode amarrar qualquer homem a si com o sangue das melancias, disse Clara. Na fábrica de arame, as mulheres contam umas às outras como uma vez por mês, no fim da tarde, misturam o sangue das melancias à sopa de tomate dos homens. Nesse dia, elas não trazem o panelão de sopa para a mesa, mas levam os pratos em sequência até o fogão e os servem. O sangue da melancia espera pelo prato do homem numa colher ao lado do fogão. Elas mexem a sopa com a colher até o sangue se dissolver.

Nos dias das melancias, o arame em tela passa sobre os rostos delas antes de subir no rolo grande e ser medido aos metros. Os teares batem, suas mãos têm ferrugem, seus olhos são baços.

As mulheres da fábrica amarram os homens a si no final da tarde ou à noite, Clara disse, de manhã elas não têm tempo. De manhã elas apressam o despertar dos homens, carregam no rosto uma cama cheia de sono e um quarto cheio de ar parado até a fábrica.

 

A filha da empregada disse, amarramos os homens em nós pela manhã, pela manhã de barriga vazia. Pois nos dias das melancias, a mulher do oficial coloca, pela manhã, quatro coágulos de sangue de melancia no café do oficial, antes de ele seguir para a caserna. Como sempre, ela lhe serve o café na xícara, ainda sem açúcar. Ela sabe que ele usa duas colheres de açúcar e fica mexendo a xícara durante um longo tempo. Os coágulos de sangue se dissolvem mais rápido do que o açúcar. O melhor, disse a mulher do oficial à filha da empregada, é o sangue do segundo dia. Nos passos do oficial sobre a ponte, nas bebidas de todos os seus dias no quartel está o sangue de melancia da sua mulher. Quatro coágulos dão para um mês, cada coágulo dura uma semana.

Cada coágulo de sangue tem de ser do tamanho da unha do polegar do homem que a mulher quer amarrar em si, disse a mulher do oficial. O sangue da melancia se dissolve no café e torna a gotejar depois de ter passado pela sua garganta, ela disse. Ele não passa pelo coração, ele não goteja para dentro do estômago. O sangue da melancia não consegue segurar o desejo do oficial, não existe nada contra o desejo porque o desejo voa, ele se desprende de tudo. Ele voa até outras mulheres, mas o sangue da melancia se deposita ao redor do coração do homem. Ele goteja e envolve o coração. O coração do oficial não consegue reter a imagem de outras mulheres, disse a filha da empregada, o oficial pode trair sua mulher, mas não esquecê-la.

 

Na parede do banheiro está escrito:

À noite, sobre a colina,

os sinos dobram tristonhos

Trata-se de dois versos de um poema, o poema está no livro escolar, as crianças o aprendem na escola. É a letra do professor de física, disse a filha da empregada, reconheço-a pelo “t” e pelo “m”. Os versos sobem a parede, tortos.

Há um marulhar quente entre as coxas de Adina, na porta do banheiro ao lado o trinco é fechado. Adina aperta os cotovelos sobre as coxas, ela quer pressionar o ruído para que ele saia baixinho e constante. Mas sua barriga não sabe o que é baixinho e constante. Sobre a descarga fica uma pequena janela sem vidro, recoberta apenas por teias de aranha. Nunca há uma aranha ali, o barulho da descarga as espanta. Apenas um fio de luz aparece todos os dias na parede e assiste a todos esfregarem o papel de jornal entre os dedos até que as letras fiquem farinhentas e os dedos, cinza. Papel de jornal esfregado não raspa as coxas.

A faxineira diz, não há papel higiênico no banheiro dos professores porque durante três dias consecutivos foi colocado um rolo inteiro e porque em todos os três dias todos os três rolos tinham sido roubados quinze minutos depois e porque três rolos têm de ser suficientes para três semanas.

No regime burguês-senhorial, palha de milho e folhas de beterraba eram boas o bastante, disse o diretor na reunião, naquela época apenas os grandes proprietários de terras tinham papel de jornal. Hoje em dia, todo mundo tem um jornal em casa. E, de repente, o papel de jornal é duro demais para os finos cavalheiros e damas. O diretor arrancou uma ponta do tamanho de uma mão de um jornal, é tão simples quanto lavar a mão, ele disse, ninguém vai me dizer que não sabe como lavar as mãos. Quem não souber isso aos trinta, que aprenda. Suas sobrancelhas uniram-se sobre o nariz, finas e cinzentas como um rabo de rato sobre a testa.

A faxineira sorriu e se esfregou na cadeira ao se levantar, o diretor olhou debaixo da mesa. Hoje todo mundo tem um jornal em casa, o senhor já se esqueceu?, camarada diretor, as folhas de beterraba eram macias demais, o dedo as perfurava, as de bardana eram melhores. Já chega, disse o diretor, senão isso não tem fim.

A filha da empregada cutucou Adina com o pé, a faxineira pode tomar todas as liberdades, ela disse, o diretor dorme com ela. Seu marido é eletricista, ontem ele esteve na escola, cuspiu debaixo da mesa do diretor e arrancou dois botões do terno dele. Os botões rolaram para baixo do armário. Depois que o eletricista foi embora, o professor de física teve de afastar o armário da parede e ir à alfaiataria no meio da aula, para pegar agulha e linha. Ele não pôde levar o paletó do diretor. A faxineira tem de pregar os botões novamente, disse o diretor.

A faxineira pode recortar apenas as últimas páginas do jornal, as reportagens, a página de esportes e a programação da tv. Ela tem de dar as primeiras páginas ao diretor, essas vão para a coleção do secretário do partido.

 

Adina puxa a descarga. Diante do espelho no banheiro, a luz e o cabelo de Adina se entretecem, o cabelo está pendurado na luz, não na cabeça, ela abre a torneira. O fecho volta a abrir, o diretor sai pela porta do reservado. Ele se posta ao lado de Adina diante do espelho. Ele abre a boca, acho que estou com dor de dente, diz ao espelho. Sim, senhor diretor, ela diz, os molares dele são dourados, camarada diretor, ele diz, os molares dele têm um brilho amarelo. Para os homens, os dias das melancias são os dias das abóboras, pensa Adina. Ela seca a boca com um lenço passado a ferro e dobrado como um triângulo, passe na minha sala depois da última aula, ele diz tirando um fio de cabelo do ombro de Adina, sim, camarada diretor, diz ela.

O topete brilha sobre a lousa e a pupila do olho brilha, agarra o fio de luz que cai pela janela. As crianças mexem os cotovelos ao escrever, a redação se chama a colheita do tomate. Adina está do lado do barbante de luz junto à janela. A plantação de tomates cresce mais uma vez nos cadernos, ela é feita de verrugas e de letras.

A garota com o sapinho lê:

Há duas semanas os alunos da nossa escola ajudam os camponeses na agricultura. Os alunos da nossa classe ajudam na colheita de tomates. É gostoso trabalhar nas plantações de nossa pátria. É saudável e útil.

 

Diante da escola há um quadrado de grama amarela, atrás fica uma casa isolada entre os blocos residenciais. Adina vê as sempre-vivas sobre o telhado da casa. O jardim, vindo dos blocos residenciais, chegou até a parede. As parreiras se fiam diante das janelas.

De manhã, quando acordo, lê a menina com o sapinho, não visto meu uniforme, mas as roupas de trabalho. Não levo cadernos ou livros, mas uma garrafa com água, pão com manteiga e uma maçã.

Um dos gêmeos escreve manteiga e bate com os punhos sobre o banco.

Uma carroça para diante da casa isolada com as sempre-vivas, um homem desce, passa pelo jardim até a casa carregando uma rede cheia de pães. Ele caminha atrás das parreiras, bem junto à parede.

Às oito horas, todos os alunos se reúnem diante da escola, lê a menina com o sapinho. Somos levados de carro à plantação. Durante a viagem rimos muito. Todos os dias o agrônomo está esperando ao lado da plantação. Ele é alto e magro. Usa terno e suas mãos são bonitas, limpas. Ele é um homem simpático.

Só que ontem ele te deu um tapa na cara, diz o gêmeo, o cavalo está diante do carro vazio, ele não se movimenta, por que você não escreveu isso?, diz Adina.

O outro gêmeo mete a cabeça debaixo do banco, não se pode escrever sobre o tapa, ele diz; ele segura uma fatia de pão com manteiga e cola o pão com manteiga sobre a redação.

A menina com o sapinho arranca uma fita branca de sua trança, enfia a ponta da trança na boca e chora.

 

O homem passa com a rede de pão vazia pelo parreiral, sobe na carroça. Um anão caminha sobre a grama diante da escola. Sua camisa vermelha brilha, ele carrega uma melancia.

Camarada, diz a garota com o sapinho para Adina.

 

Há um relógio de parede acima da porta do diretor, seus ponteiros medem o ir-e-vir dos alunos e dos professores. Sobre a cabeça do diretor há o topete e a pupila. Sobre o tapete há uma mancha de tinta, na cristaleira estão os discursos do ditador. O diretor cheira a perfume, tabaco de talos amargos, sabe por que chamei você?, ele diz, ao lado do cotovelo dele há uma dália retorcida, a água no vaso não é límpida, não, diz Adina, não sei. As sobrancelhas dele se juntam, cinzentas e finas, você disse para os alunos comerem tantos tomates quanto conseguissem porque não podiam levar nenhum para casa. E exploração de menores, foi isso que você disse. Sobre a dália há uma mancha de poeira pendurada na luz, não foi assim, camarada diretor. A voz dela é baixa, o diretor dá um passo sobre a mancha de tinta, ele está atrás da cadeira de Adina. A respiração dele é seca e curta, sua mão toca a gola da blusa dela, passa pelas suas costas, esqueça o camarada, não se trata disso agora.

As costas dela estão rígidas, o nojo não se curva, não tenho verrugas sobre as costas, diz a boca de Adina. O diretor ri, tudo bem, ele diz, ela aperta as costas contra o encosto da cadeira, ele puxa a mão da blusa, dessa vez não vou dar parte, ele diz. A dália toca o ouvido dele, dá para acreditar no senhor?, pergunta Adina. Ela vê nas folhas vermelhas da dália o sangue das melancias. Não sou desses, ele diz. O suor dele cheira mais forte do que o tabaco no perfume. Ele se penteia.

Seu pente é de dentes azuis.