A Raposa Já Era o Caçador
Nozes
A mulher das mãos nodosas cospe no pano e esfrega as maçãs até brilharem. Ela coloca as maçãs brilhantes lado a lado, as faces vermelhas para frente e as cicatrizes para trás. As maçãs são pequenas e tortas. A balança está vazia. Ela pesa com duas cabeças de pássaros de ferro, cujos bicos sobem e descem lado a lado, até que as maçãs e os pesos tenham o mesmo peso. E ficam parados. E a senhora conta em voz alta com a boca, até que seus olhos fiquem tão juntos quanto os bicos. Tão duros e silenciosos porque eles sabem o preço.
Os vendedores do mercado são gente velha. Os vilarejos em seus rostos estão sobre o chão de concreto, entre paredes de concreto, debaixo do teto de concreto, atrás de balcões de concreto. Jardins, nos quais a grama se esgueira.
Liviu conta desses vilarejos desde que é professor na planície do sul, onde o Danúbio corta o país. De noites de verão, para as quais o dia inteiro se encaminha, até ficar cansado e se fechar entre os olhos. Onde a cabeça se rende ao sono, antes ainda de o corpo conseguir alcançar o descanso. Liviu conta do sono vigilante dos jovens, do sono torpe dos velhos. E que, na vigilância e na torpeza, os passos do dia batem através dos dedos dos pés e que os dedos das mãos tremem à noite por causa da labuta. E que os ouvidos confundem, no sono, o próprio ronco com a voz do policial do vilarejo e a do prefeito. Que no sonho repetem mais uma vez o que deve ser plantado em cada jardim, em cada canteiro. Pois o policial do vilarejo e o prefeito têm suas contabilidades, suas listas. Eles esperam pelas doações, mesmo quando o pulgão, o fungo, o verme, o caramujo aparecem e comem tudo. Mesmo quando a chuva se esquece do vilarejo e o sol queima até o último fio e torna o vilarejo tão aplainado que a noite entra nele por todos os lados ao mesmo tempo.
Liviu vem de visita à cidade três vezes por ano e não encontra seu lugar no apartamento de Paul, onde ele morou uma vez, e na cidade, onde ele viveu durante tanto tempo. E exige aguardente já pela manhã e chama a aguardente de leite de ameixa.
Paul diz, Liviu anda pelo apartamento como um cachorro preso e pela cidade como um cachorro perdido. E Liviu está preso por um fio, diz Paul, e esse fio quase arrebenta e Liviu sabe disso e fala até sua voz ficar rouca.
Liviu conta das noites no vilarejo, nas quais apenas duas esquinas são iluminadas, a da casa do prefeito e a da casa do policial. Dois quintais, duas escadas, dois jardins vigiados até as folhas por luz. Realçados e quietos. Todo o resto está enterrado. Os cachorros andam no escuro, latem apenas onde há muito a lâmpada se apagou, onde as árvores se adiantam às casas e se inclinam sobre as águas do Danúbio.
Não vemos a água, disse Liviu, não a escutamos no vilarejo. Só a escutamos no meio da cabeça, não temos pés. Isso oprime. Sobre o chão seco, seria possível nos afogarmos dentro dos próprios ouvidos, ele disse.
Às vezes escutamos tiros ao longe, disse Liviu. Não mais barulhentos do que se um galho tivesse sido partido. Apenas diferentes, muito diferentes. Nessa hora, os cachorros ficam em silêncio antes de latir mais alto. Nessa hora, queremos sair pela noite, atravessar a fronteira, atravessar o Danúbio a nado. Apenas com nós mesmos, disse Liviu; nessa hora chegou o fim, sabemos. Olhamos para o canto da mesa, pressionamos a mão no encosto da cadeira e fechamos os olhos por um instante. Eu bebo, disse Liviu. O leite de ameixa queima, os olhos ficam dispersivos e a lâmpada treme, e, quando não há energia, é a vela. Bebo até esquecer que um tiro foi disparado. Até que o leite de ameixa faça minhas pernas tremerem. Esqueço, disse Liviu, até não conseguir pensar em mais nada, até ser inevitável que o Danúbio separe o vilarejo do mundo.
No interior você é um morador da cidade, na cidade você é um camponês, disse Paul a Liviu. Volte à cidade. Ela me conhece e conhece você, lá há uns milhares de policiais de vilarinhos sobre poucas centenas de trechos asfaltados.
Paul começou a cantar e Liviu acompanhou:
Rosto sem rosto
fronte de areia
voz sem voz
O que poderia trocar com vocês?
Dos meus irmãos, um
por um cigarro
Liviu subiu na cadeira, acendeu a luminária com a mão. O fio da luminária voou de lá para cá. E sua sombra também.
Tenho só uma ideia
O que poderia vender a vocês?
O casaco estropiado
tem só um botão
Os olhos de Paul estavam semicerrados e, de cantar, os olhos de Liviu tinham nadado para fora da testa, talvez não fossem seus olhos, talvez fosse sua boca molhada.
A noite tece
um saco de escuridão
Liviu pegou a luminária com a mão. Ele parou de cantar e Paul batia mais forte com as mãos sobre a mesa.
Grama taciturna
um trem de carga apita na estação
criança pequena sem os pais
sapato descalço sobre o asfalto
Através da janela, Paul olhou para as antenas do bloco residencial próximo. Ele se ergueu e empurrou a cadeira junto à mesa. E ergueu a cabeça e levantou os olhos para Liviu. Liviu ria sem som. Não há nenhum fio de luminária pendurado do céu, Liviu lançou ao silêncio, senão estaríamos bem, daria para se enforcar em todos os lugares lá fora.
Não olhe assim, disse Liviu para Paul. E a frase bateu no rosto de Paul. Paul saiu do quarto, Liviu desceu da cadeira. Quando ele estava no chão, ele disse a Adina, como se estivesse dizendo a si mesmo, para mim Paul não é médico.
Paul estava sentado sozinho com sua voz na cozinha e monologava para os outros dois, alto. Hoje à noite, ele disse, um homem e uma mulher deram entrada no hospital. O homem tinha uma pequena machadinha de madeira enterrada na cabeça. O cabo da machadinha parecia ter nascido no meio do cabelo. Não se via nem uma gota de sangue em sua cabeça. Os médicos se reuniram em torno do homem. A mulher disse, aconteceu há uma semana. O homem riu e disse que se sentia bem. Uma médica disse, é possível apenas cortar o cabo, não dá para extrair toda a machadinha porque o cérebro se acostumou. Depois, os médicos extraíram a machadinha. O homem morreu durante o procedimento.
Adina e Liviu entreolharam-se rapidamente.
As cenouras sobre os balcões estão ressecadas, as cebolas, estropiadas. O funileiro está em pé atrás das nozes. Mas ele não está usando seu avental de couro, não há nenhum cordão ao redor do seu pescoço, ele está usando a aliança no dedo. Ele põe a mão nas nozes, elas tilintam como cascalho. Ele tem todos os dedos em ambas as mãos. O homem com as nozes não é o funileiro com as frutas no papel de jornal. Ele não diz, coma devagar para aproveitar bastante cada bocado.
Mas, se fosse, poderia ser.
Ele tem os olhos do funileiro, olha para a balança, os bicos dos pássaros sobem e descem. Os bicos param e os olhos sabem o preço. Adina abre sua bolsa, as nozes rolam para dentro. Duas nozes caem no chão. Adina se agacha.
Um homem com uma gravata de bolinhas vermelhas e azuis agachou-se antes dela. Adina se choca contra o ombro dele, ele segura as nozes fujonas na mão. Adina vê uma pinta no seu pescoço, ela é do tamanho da ponta dos dedos dela. Ele joga ambas as nozes na bolsa dela, elas não querem ir com você, ele diz, não dizemos cabecinha de noz à toa, posso comer uma? Ela assente, ele pega duas da bolsa. Ele fecha a mão, ao caminhar aperta uma noz na outra. A casca estala e ele abre a mão. Uma noz está inteira, a outra, aberta. Adina enxerga o cérebro branco na mão. Ele deixa a casca cair no chão, ele come. Sua pinta salta, sua testa brilha, a outra noz está no bolso do paletó. Como você se chama?, ele pergunta, e está com leite nos dentes, as nozes tilintam a cada passo. Adina pega a bolsa embaixo do braço, o que isso tem a ver com as nozes?, ela diz. O que faremos agora?, ele diz. Nada, diz Adina.
Ela segue na outra direção.
Pavel está junto à porta lateral esquerda do mercado e observa Adina, e a luz enovela redemoinhos de poeira diante de seus olhos. As maçãs de seu rosto se movimentam, sua língua encontra pedaços de nozes mastigados nos buracos dos dentes, sua pinta não salta. Ele pega a noz do bolso do paletó, deposita-a sobre o asfalto. Ele põe o sapato sobre a noz, empurra-a sob a sola até o salto, bem na beirada. Ele joga seu peso bem sobre a noz. E a casca se quebra. Pavel se agacha, tira o cérebro da casca, mastiga e engole.
Um carro preto de placa amarela e número pequeno está parado diante da porta lateral direita do mercado. Um homem está sentado dentro do carro, a cabeça apoiada no volante, e olha disperso para o mercado. Vê uma velha. O balcão de concreto separa a barriga das pernas dela. A velha peneira páprica vermelha. A páprica vermelha cai feito teias vermelhas de aranha pela peneira, cai sempre no mesmo lugar. O monte debaixo da peneira cresce rápido.
A senhora não quer ser perturbada, diz Pavel, não importa, diz o homem no carro, não importa. A velha bate a peneira para limpá-la. Ela alisa a ponta do monte com as mãos, as mãos são vermelhas como a páprica. E seus sapatos.
A língua de Pavel procura pelos pedaços mastigados de nozes no meio dos dentes, suba, diz o homem no carro, estamos indo.
O sol está sobre as caixas de correio na escadaria. As rosas silvestres fazem sombra na parede. Suas flores são pequenas, nascem embolotadas e conseguiriam se prender sozinhas nas mãos.
O olho da caixa de correio não é preto e vazio, ele é branco. E um olho branco de caixa de correio é uma carta de soldado de Ilije. Mas, como na semana passada, de novo não está escrito o nome de Adina no envelope. De novo nenhum selo, nenhum carimbo, nenhum remetente. Dentro do envelope há de novo a folha quadriculada do tamanho de uma mão, arrancada torta, de novo a mesma frase com a mesma caligrafia vou te foder na boca.
Adina amassa o bilhete e o envelope na mão e sente o papel seco na garganta. O elevador permanece escuro, nenhum olho verde está aceso, não há energia elétrica. A escadaria cheira a repolho cozido. As nozes matraqueiam ao caminhar. Adina começa a contar no escuro, em vez das escadas ela conta o sapato direito, sapato esquerdo. E como cada sapato se ergue sem ela e pisa por si. Até cada número ser apenas sua voz, depois uma voz estranha. Sua própria testa começa na voz estranha.
A bolsa com as nozes está sobre a mesa da cozinha, sobre as nozes está o papel amassado, ao lado da bolsa há uma vasilha vazia. A gaveta está meio aberta, faca garfo faca garfo garfo garfo, todos os dentes juntos como um pente. Adina abre totalmente a gaveta, faca grande, no meio o martelo.
Sua mão deposita uma noz sobre a mesa, o martelo bate de leve. A noz racha, o martelo bate três vezes e firme, e a casca se quebra. E o cérebro dentro da casca.
Baratas rastejam sobre o fogão. Sete grandes, marrom-avermelhadas, quatro médias, marrom-escuras, nove pequenas, pretas feito sementes de maçã. Elas não rastejam, elas marcham. Um verão de soldado para Ilije, para Adina nenhuma carta. Há um retrato pendurado na parede do outro cômodo, sobre o qual cai um raio de luz pelas manhãs — Ilije com o uniforme de soldado, o cabelo como o de um porco-espinho, uma folha de grama na boca, uma sombra sobre o rosto, grama ao redor dos sapatos. O dia inteiro fica pendurado nessa folha de grama, todas as manhãs.
Ilije está estacionado na planície do sul, assim como Liviu. Igualmente perto, igualmente longe do Danúbio, ambos em lugares diferentes. Num lugar, o Danúbio corre reto e corta o país, no outro lugar o Danúbio corre torto e corta o país. Apenas os tiros são disparados igualmente em ambos os lugares, como se um galho se quebrasse, só que diferente. Bem diferente.
Há dias nessa cidade, em agosto, em que o sol é uma abóbora descascada. Aí ela aquece o asfalto de baixo e de cima, o concreto dos blocos habitacionais. Aí a cabeça passa pelo dia com a tampa craniana solta da cabeça pelo calor. Daí o menor dos pensamentos se entorta na hora do almoço e não sabe o que aprontar. Daí a respiração se torna pesada na boca. Daí as pessoas têm apenas essas mãos perdidas. Daí essas mãos colam lençóis molhados nos vidros das janelas, para se refrescar. Daí os lençóis já estão secos antes de as mãos se retirarem dos vidros.
Num desses dias em agosto, Ilije se postou junto ao fogão e esmagou baratas. Talvez não tenha sido ele, talvez tenha sido a brutalidade do calor em sua cabeça. Nas grandes, a morte estalava, nas pequenas ela ficava muda. Ilije contava apenas as baratas marrom-avermelhadas, as que estalavam.
Ao terminar de crescer, elas ficam vermelhas, disse Ilije. Elas sobreviverão a tudo, cidades e vilarejos. Também ao campo infinito arado sem caminho nem árvore, também ao mísero milho, aos Cárpatos e ao vento nas pedras, também às ovelhas e aos cães e aos seres humanos. Elas vão devorar esse socialismo, carregá-lo com barrigas gordas para baixo até o Danúbio. E do outro lado, na outra margem, haverá gente assustada piscando para o céu. E gritando sobre a água, são os romenos, eles fizeram por merecer.
Adina puxou Ilije para fora da cozinha quando ele chorou e tocou seu rosto com essas mãos que cheiravam a insetos. Ela lhe deu um copo de água, ele segurou-o nas mãos e não bebeu. Ele estava com nojo de seu suor frio quando empurrou Adina para longe e ficou tremendo no calor. Ele estava tão distante de si mesmo que engoliu a língua ao dizer, sorte do mundo o Danúbio existir.
Adina olha pela janela, mastiga a noz. O céu está vazio, a noz é amarga sobre a língua e depois, doce. O céu olha para cima, não para baixo. Ele prende seu grande vazio em pequenas manchas brancas, em cartas, todas já lidas, quando se esvai da cidade, quando foge — um fugitivo para o Danúbio acima da cidade.
Uma criança grita na rua, embaixo. A língua de Adina procura por pedaços mastigados de nozes entre os dentes. As cascas espirradas para longe estão debaixo da mesa.