A Raposa Já Era o Caçador
A raposa sobre a mesa
O despertador faz tique-taque, tique-taque, são três horas.
Talvez à noite as patas da raposa tenham se grudado novamente na raposa, pensa Adina. Ela estica o pé na cama, empurra a pata traseira para longe do pelo. O rabo, embora tenha sido cortado, continua tão fofo e macio: isso atemoriza os dedos de seu pé. Ele não encolhe, também.
Ela leva ambas as patas e o rabo até a mesa, arruma-as lado a lado. Surge uma raposa inteira, apenas metade escondida na mesa. Ela remexe debaixo do tampo da mesa com a cabeça e as patas da frente, as patas de trás e o rabo ficam sobre o tampo da mesa a fim de se segurar.
A lua está na janela da cozinha, tão inchada que não consegue ficar lá. A madrugada mordiscou-a. São seis da manhã e a noite está caindo de sono, ainda tem três dedos amarelos e um deles é cinza e lhe segura a testa. Os primeiros ônibus fazem barulho ou lá em cima é a fronteira da noite, na qual a lua se pendura quando ela não é redonda ao deixar a cidade. Cachorros uivam, como se a escuridão fosse uma grande pele e o vazio das ruas nas cabeças fosse um cérebro tranquilo. Como se os cachorros da noite tivessem medo do dia no qual a fome que procura encontraria a fome que grassa no instante em que as pessoas passassem por eles. Quando o bocejo se encontrar com o bocejo e, com o mesmo hálito na boca, a fala se encontrar com o latido.
A meia-calça cheira a suor de inverno. Adina a veste nas pernas nuas com o balanço do trem, veste o sobretudo sobre a camisola. No sobretudo ainda estão presos os pequenos sobretudos pretos do viaduto e os grandes sobretudos verdes do ônibus. Nos botões do sobretudo ainda estão a pequena estação e a pupila. No bolso do sobretudo ainda há dinheiro da viagem e a lanterna. A chave está sobre a mesa da cozinha. Os pés ainda carregam a sujeira do pátio do quartel. Ela calça os sapatos.
O círculo da lanterna tropeça, o canto de pedra é anguloso. Um gato salta diante da lata de lixo, suas patas são brancas, vidro se quebra atrás dele.
O estacionamento está vazio, o estádio ecoa sua trincheira no escuro, o céu em cima se torna cinza. Ferro é batido atrás do estádio, lá fica a fábrica. Não dá para ver a chaminé, apenas fumaça amarela. O bonde estridula na esquina. Janelas se iluminam, estão acordadas, e janelas ao lado estão escuras, encostadas na parede enquanto dormem.
Nas ruas silenciosas do poder, a manhã tem horários tardios. As janelas são escuras, há arabescos nos postes das luminárias. As lâmpadas estão penduradas nos jardins sobre as escadas, iluminam os anjos e os leões de pedra. Os círculos de luz são propriedade privada, não são para os que passam, que não moram aqui, que não são daqui.
Os álamos são facas, escondem a lâmina e dormem em pé. Lá do outro lado fica o café. As cadeiras brancas de ferro estão guardadas, o inverno não precisa de cadeiras, ele não se senta, ele caminha ao redor do rio, fica parado debaixo das pontes. A água não brilha e não enxerga, ela deixa os álamos sozinhos.
Os pescadores deitam-se cedo à noite e cedo pela manhã estão diante dos comércios. Eles se encontram à tarde no café enfumaçado, bebem e conversam até a água voltar a brilhar. O relógio da torre da catedral bate a hora sete vezes na neblina, mas as acácias já acordaram. Agora os cadeados são destrancados, os ferrolhos são abertos, as portas das lojas, erguidas. As acácias descascam no cinza a madeira nas pontas. No fim do parque, surgem espinhos de todos os galhos, os troncos embaixo não percebem.
Ainda não há ninguém na loja. A caixa veste uma blusa corta-vento sobre o avental azul-claro. O gorro de pele engole suas sobrancelhas. Adina pega um cesto. Os vidros de geleia estão dispostos em fileiras. Eles são igualmente grandes, igualmente empoeirados, têm as mesmas barrigas com as mesmas tampas de metal e etiquetas. Se um oficial passar por aqui, Adina pensa, eles sairão marchando. Apenas a ferrugem nas tampas e as gotas que rolaram para fora, sobre as barrigas, os diferenciam.
Adina põe uma garrafa de aguardente no cesto. O café solta vapor no rosto da caixa. Bebidas só são vendidas a partir das dez, ela diz, dá um gole pequeno e um grande e limpa a gota de café do queixo. Ela ergue pela metade os olhos debaixo do gorro e abaixa a xícara de café. Ela enfia a mão dentro do cesto; há esmalte descascado vermelho nas unhas, como se pontas de dedos crescessem a partir dos dedos. Ela guarda a garrafa de aguardente debaixo do caixa.
Adina deposita a cédula de dinheiro ao lado da xícara de café. Nunca fiquei embriagada, ela diz baixinho, são sete horas e eu nunca fiquei embriagada, o dia está diante da porta, ela diz em voz alta, são sete horas, todos os dias tiveram sua sete horas e todos os dias tiveram o dia diante da porta e eu nunca fiquei embriagada, e sua voz desmonta, seu rosto está quente e úmido, são sete horas, aqui está minha aguardente e aqui está meu dinheiro e um dia diante da porta, e eu nunca fiquei embriagada, e não quero esperar mais, quero me embriagar agora, não apenas às dez. A caixa devolve a nota na sua mão, é o que muitos querem, ela diz.
Um homem de avental azul-claro empurra Adina pelos ombros até a porta, diz por trás de sua cabeça, lei e álcool e polícia. Os sapatos dela se arrastam, a sujeira seca do quartel se solta das solas em pedaços pequenos e a sujeira úmida do parque se solta em pedaços grandes. Sua camisola está pendurada sobre sua meia-calça, um palmo para fora do sobretudo. A caixa segura a porta aberta. Quem são vocês?, Adina berra, não encoste a mão em mim, ei, não encoste a mão em mim.
Adina toca a campainha três vezes. A porta do apartamento se abre, um quadrado luminoso ofusca seu rosto. Ela atravessa o corredor, está segurando um galho nu nas mãos. Vá até a cozinha, diz Paul, Anna ainda está dormindo no quarto. Adina assente uma vez e duas vezes e três vezes, ele a acompanha com o olhar, sua camisola está pendurada para fora do sobretudo. Ela lhe dá o galho pelado e ri, uma risada solta, vai virar sabugueiro, ela diz. Ela se senta junto à mesa da cozinha, diante dela há uma xícara de café manchada, ao lado, uma chave. Adina olha para o relógio na parede, deposita uma nota de dinheiro sobre a mesa e toca o rosto. Aqui estão meus olhos, ela diz, aqui está minha testa, aqui está minha boca. Ela desabotoa o sobretudo, e aqui está minha camisola, ela diz. E aqui um relógio está pendurado na parede e aqui uma chave descansa sobre a mesa e lá fora há um dia diante da porta, eu não estou louca, são oito horas, e todos os dias são oito horas e eu nunca me embriaguei, quero me embriagar agora, não apenas às dez. Ela empurra a xícara de café até o limite da mesa.
Paul guarda o dinheiro no bolso do sobretudo dela, põe um copo diante do queixo dela, depois uma garrafa. Ele serve aguardente no copo, ele mete o copo na mão dela. Ela não bebe, ela não chora, seus olhos escorrem e sua boca está muda. Ele segura a cabeça dela. Anna está junto à porta. Ela não está de banho tomado, não está penteada, apenas se vestiu. Ela pega a chave da mesa, calça seus sapatos. Ela atravessa o corredor na ponta dos pés. A porta bate ao fechar.
Você pode ficar, diz Paul, tenho de ir trabalhar agora. A porta bate ao fechar.
Os sapatos de Adina estão no corredor. Seu sobretudo está no quarto sobre a cadeira, sua meia-calça, no chão. O galho pelado, que vai virar sabugueiro, está no vaso ao lado da cama. A cama ainda está quente de Anna.