Assunto Encerrado
Uma serenidade amarga
Il Menabò 7 — Una Rivista Internazionale, Turim: Einaudi, 1964. Esse caderno do Menabò continha os materiais de uma revista internacional planejada em 1963, com um grupo de escritores italianos, franceses e alemães, mas que acabou não se realizando. Este texto, publicado com o título “I giusti”, devia fazer parte de uma coluna de textos breves de reflexão sobre aspectos da vida atual.
Bem-aventurados aqueles cuja postura ante a realidade é ditada por imutáveis razões interiores! A eles, dirijo a inveja daqueles que, como nós, acostumados a reagir aos estímulos mutáveis do mundo, vivemos expostos a contragolpes constantes e, por nunca terminarmos de decifrar o curso da realidade multiforme, em nossas posturas estabelecidas a cada vez, carregamos a consciência do risco de errar. E como é difícil viver, para os que são como nós, a Itália! Em outros lugares da Europa, os tempos ostentam com petulância seu aspecto negativo, diante do qual fechar-se em oposição total é postura clara e confiável; e dar margem a uma apologia da realidade assume significados específicos: de inversão pragmática de valores ou de otimismo dialético paradoxal. Mas a Itália, precisamente por sua aparência satisfeita e normal, acima de qualquer outro país, precisamente por parecer hoje o país mais isento de grandes dramas, aquele onde um acréscimo quase biológico do bem-estar industrial e o desenvolvimento de estruturas até sociais e políticas mais modernas e civilizadas parecem percorrer caminhos não muito divergentes, é também o mais difícil para o comentário da razão crítica, aquele em que as previsões, se róseas, são imediatamente taxadas de banais — ou de atrasadas, se sombrias.
O homem que deseja enxergar além do hoje desconfia da euforia daqueles que, inúmeros, satisfeitos por chafurdar no rio da produção e do consumo e, como se não bastasse, com a consciência em paz porque, mesmo do ponto de vista democrático e antifascista, as coisas parecem encaminhar-se para o melhor (“claro, ainda há muito a fazer, mas aos poucos…”), correm no ritmo facilmente febril dos negócios e dos veraneios e arriscam a própria alma (“algum compromisso é inevitável…”), excessivamente seguros de que não vão perdê-la. Mas esse homem desconfia igualmente daqueles que, acostumados a prender a respiração para não inspirar os micróbios do ar e a entortar a boca numa postura de desgosto para não se deleitar inadvertidamente com as coisas impuras, marcam tudo o que veem a mais na coluna das perdas e nunca na dos ganhos e consideram todo passo adiante um passo para trás (talvez na medida em que, querendo dar um salto, outrora se conseguia ter maior arrancada), sem aprender que é quase sempre na desordem e na mistura que a história em curso concretiza o seu logos.
Uma postura nem consegue ter tempo de se consolidar e já está desgastada: ser a favor da motorização universal, dos arranha-céus na praia, dos programas culturais transmitidos pela televisão, ou ser contra isso, a favor ou contra porque conservadores ou porque progressistas, uns e outros com a mesma razão; ser a favor, mas tendo se apropriado de todas as razões de quem é contra, ser contra, mas no interesse de quem é a favor, e enquanto isso as coisas continuam seu curso de focinho no chão feito um búfalo.
É assim que vivemos, na Itália, agora. Vamos por aí, encontramos as pessoas, e a cada encontro as opiniões dão um salto, a maioria das vezes por necessidade de contradição; mais raramente por consenso (e, mesmo nesses casos, oscilando: otimismo, pessimismo), quando conseguimos falar com um justo: alguém que, trabalhando no centro de seu setor, tem a sensação de fazer alguma coisa progredir e, embora não esconda de si próprio os obstáculos e as dificuldades de avançar num único ponto, numa situação geral contraditória, tem do futuro uma imagem clara e imanente às coisas; ou então alguém que trabalha num ambiente marginal e vê tudo o que é negativo, o avesso da moeda, a corrupção aumentando, o vezo fácil, a renúncia dos ideais, e em seu pessimismo encontra a força para insistir, para perseverar na própria linha de conduta, e alcança nisso quase uma serenidade amarga. Os raros homens justos: limitados e justos, justos na medida em que são limitados: como dizemos nós, que não ousamos ter a pretensão de ser justos mas nos esforçamos apenas para não ser limitados, nós já tão arraigados a nosso estado incerto que não queremos trocá-lo por nenhum outro.