Assunto Encerrado

Italo Calvino · Capítulo 2 de 44

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Assunto Encerrado

Apresentação

 

Neste volume reuni escritos que contêm declarações de poética, planejamentos de rotas a seguir, balanços críticos, organizações de conjunto do passado e presente e futuro, assim como os fui elaborando e guardando nos últimos 25 anos. O pendor recorrente a formular programas gerais, o qual esses escritos testemunham, sempre teve o contrapeso da tendência a esquecer logo, a não voltar mais ao assunto. Portanto, podemos nos perguntar por que motivo eu formulava os tais planos operacionais: não para mim, já que em meu trabalho pessoal de escritor quase nunca punha em prática o que tinha pregado; não para os outros, já que nunca tive vocação para mestre, promotor ou agregador. Diria que meu objetivo talvez fosse estabelecer algumas linhas gerais que servissem de pressuposto a meu trabalho e ao dos outros; postular uma cultura como contexto em que situar as obras ainda a escrever.

A ambição juvenil de que parti foi a do projeto de construção de uma nova literatura que por sua vez servisse para a construção de uma nova sociedade. As correções e transformações que aquelas expectativas sofreram vão aparecer da sucessão dos textos aqui reunidos. Certamente o mundo que hoje está diante de meus olhos não poderia ser mais oposto à imagem que aquelas boas intenções construtivas projetavam para o futuro. A sociedade manifesta-se como colapso, como desmoronamento, como gangrena (ou, em seus aspectos menos catastróficos, como vida do dia a dia); e a literatura sobrevive dispersa nas fissuras e nas desconjunções, como consciência de que nenhuma ruína será tão definitiva a ponto de excluir outras.

O personagem que toma a palavra neste livro (e que, em parte, se identifica com aquele eu próprio representado em outras séries de escritos e de atos, em parte dele se descola) entra em cena nos anos 50, procurando apossar-se de uma caracterização pessoal no papel que naquela época dominava o cenário: “intelectual engajado”. Acompanhando seus movimentos no palco, observaremos como nele, visivelmente, embora sem viradas bruscas, a identificação com o papel começa a falhar aos poucos, com a dissolução da pretensão de interpretar e guiar um processo histórico. Nem por isso desanima sua aplicação em procurar compreender e indicar e compor, mas aos poucos vai tomando mais relevância um aspecto que, observando-se bem, estava ali desde o início: o senso do complicado e do múltiplo e do relativo e do facetado que determina uma postura de sistemática perplexidade.

É colocando-se como experiência finalizada que a sequência destas páginas começa a tomar forma, a tornar-se uma história que tem seu sentido no desenho de conjunto. Sendo assim, posso agora reunir estes ensaios em volume, ou seja, posso aceitar relê-los e levá-los a ser relidos. Para fixá-los em seu lugar no tempo e no espaço. Para dar-lhes aquele afastamento necessário para que possam ser observados na justa luz e perspectiva. Para reencontrar ali o andamento das transformações subjetivas e objetivas, e das continuidades. Para compreender o ponto em que estou. Para pôr um ponto-final. Para encerrar o assunto.

Março de 1980