Assunto Encerrado

Italo Calvino · Capítulo 7 de 44

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Pavese: ser e fazer

 

Homenagem a Pavese na Casa de Cultura de Milão no dia 26 de novembro de 1960. Publicada em L’Europa Letteraria º , I, n 5-6, dezembro de 1960, juntamente com um escrito de Giansiro Ferrata, por ocasião do décimo aniversário da morte do escritor.

A dez anos de 1950, podemos tentar uma definição. O sentido da atuação poética e moral de Pavese está na cansativa passagem entre dois modos de estar no mundo: partindo de um dado de passividade e anonimato existencial, chegar a fazer com que tudo o que vivemos seja autoconstrução, consciência, necessidade. Atuação poética e moral, digamos. Como poética, isso significará sair de um conceito de criação como entrega à confissão lírica, ao prazer do gosto compositivo ou do reconhecimento naturalista do mundo exterior, para alcançar, mediante um caminho árduo de exclusões e reduções, imagens que sejam cernes de experiência insubstituíveis, comunicações absolutas em todos os níveis. Como escolha criativa, isso implica cavar na cotidianidade de imagens cinzentas, de presenças sem rosto, do falar bruto e desleixado, como ele se apresenta na nada poética cidade industrial, no nada poético Piemonte agrícola e interiorano, até conseguir extrair daí um espaço e uma cor interna à página, um sistema de relações que adquire espessura, uma linguagem calibrada. Em suma: um estilo. Estilo — e já falar de estilo parece um discurso envelhecido, porque, entre as coisas que parecem ter morrido nesses dez anos, está o conceito de estilo, na prática e na problemática literária e artística —, estilo não é sobreposição de uma cifra e de um gosto, mas escolha de um sistema de coordenadas essenciais para expressar nossa relação com o mundo. Construir um estilo, tanto na expressão poética como na consciência moral, foi a tarefa que Pavese se propôs, pois comum a ambos os planos é a operação que ele levou adiante, de redução e de escolha e aprofundamento dentro de um dado inicial bruto e surdo e negativo.

Pavese não era poeta por natureza nem por graça; a primeira imagem dele que seus escritos juvenis nos entregam, ou que tem a função de pressuposto autobiográfico para os textos maduros, é a de um jovem cujo tormento não se distingue do tormento comum à sua idade, à sua condição social e à época, a não ser por uma obstinação em se autodefinir. Quando ele conseguiu expressar — isto é, olhar de fora, sem lirismo — essa imagem de si mesmo, transformou-a numa de suas imagens em que hoje reconhecemos melhor um sabor típico daquela época: uma juventude que mais sofre do que desfruta o fato de ser jovem, as brigadas de jovens da cidade que andam a pé, solitários, noctâmbulos à toa, a quem a inexperiência, a falta de grana, e o fato de não pertencer a uma sociedade bem definida, a falta de perspectivas parece fazer andarem às cegas, perdidos num vazio sem cor ou sabor. Ao lado desse aspecto, sempre há outro em Pavese, o anseio de como se deveria ser — sempre. Porém, com certa imprecisão voluntarista: o homem prático, que sabe das coisas, que conhece o mal e o bem da vida, desde o primo dos Mares do Sul a Amelio, o motociclista, ou as mulheres decididas e um tanto masculinas, ou o mundo da política operária clandestina: mas sempre se trata de um dado exterior, de uma meta a ser alcançada, e também de uma homenagem à literatura da épica ativa, de Defoe e Melville e Whitman, e assim por diante, até os interioranos durões daquele Meio-Oeste que podia até ser o Piemonte. O que Pavese quer representar de fato é o caminho de quem ainda tem de conquistar essa dureza — esse estilo —, e talvez não seja na aplicação prática que ele vá conquistá-la, mas apenas na maneira de ser. Talvez o verdadeiro ideal pavesiano seja todo aquele que possui a triste sabedoria dos que sabem e a segura autossuficiência no fazer: como Clélia, a modista de Entre mulheres sós . Mas, em geral, nas narrações de Pavese, aprender significa também e sobretudo aprender a sofrer, a nos comportar diante dos golpes que sofremos; e quem não aprendeu, sucumbe.

Por outro lado, o que a literatura pode nos ensinar não são os métodos práticos, os resultados a serem alcançados, mas apenas as atitudes. O resto não é lição a ser tirada da literatura: é a vida que deve ensiná-lo. Mas tampouco podemos dizer que, mesmo no plano do exemplo prático, da lição de vida, a imagem de Pavese não nos socorra. Fala-se demasiado de um Pavese à luz de seu gesto extremo, e excessivamente pouco à luz da batalha ganha no dia a dia contra o próprio impulso autodestrutivo. A moral de seus clássicos, a moral do fazer, Pavese conseguiu torná-la operativa também em sua própria vida, no próprio trabalho, na participação no trabalho alheio. Para nós, que o conhecemos durante seus últimos cinco anos de vida, Pavese continua sendo o homem da exata operosidade no estudo, no trabalho criativo, no trabalho da editoria, o homem para quem cada gesto, cada hora tinha uma função própria e um fruto próprio, cujos laconismo e insociabilidade eram defesas de seu fazer e de seu ser, cujo nervosismo era aquele de quem está totalmente tomado por uma febre ativa, cujos ócios e divertimentos parcimoniosos, mas saboreados com sabedoria, eram aqueles de quem sabe trabalhar duro. Esse Pavese não é menos verdadeiro que o outro, o Pavese negativo, desesperado, e não está entregue apenas às recordações dos amigos e a uma atividade fora das páginas escritas; era o Pavese que “fazia”, o homem que escrevia os livros; os livros da maturidade carregam esse sinal de vitória e até de felicidade, embora sempre amarga. Há também uma história da felicidade, de uma felicidade difícil no coração da tristeza, de uma felicidade que nasce com o mesmo impulso de aprofundar-se na dor, até que a distância se torna tamanha que o difícil equilíbrio se quebra.

A aula da autoconstrução pavesiana — como nos colocam os livros e sua vicissitude humana —, embora aspirasse a uma conquista prática, uma transformação dos termos da própria batalha, uma vitória sobre a negatividade, tem sua verdadeira atuação no plano da consciência interna daquilo que se vive, em conseguir viver alguma coisa em lugar de ser vivido por ela, ainda que essa alguma coisa não mude. A aquisição pavesiana que conta é a da consciência, ainda que tenhamos de considerá-la a única, ainda que, a partir das notícias externas de sua vida e de sua morte, sejamos obrigados a inferir que, para ele, nada mudou nos termos de seu drama. Sua moral, seu “estilo”, não era uma couraça externa contra a dor, e sim uma férrea carapaça interior, capaz de conter a dor como o fogo de uma fornalha.

Já todo o programa de uma obra e de uma vida é decidido numa das primeiras páginas do diário (20 de abril de 1936). “A lição é esta: construir na arte e construir na vida, banir o

voluptuoso da arte assim como da vida, ser tragicamente.” 6 Aqui está o tema da obra criativa de Pavese, assim como de sua pesquisa teórica; aqui está também o tema do próprio diário: contraposição entre o viver trágico e o viver voluptuoso. O que é o “viver voluptuoso”? Procuremos defini-lo com suas palavras: “É considerar os estados de ânimo como o objetivo em si…, é abandonar-se à sinceridade, anular-se em alguma coisa absoluta…, é viver aos impulsos, sem desenvolvimento e sem princípios…”. E o que é “ser tragicamente”? A definição de Pavese naquela página parece dizer respeito apenas à frieza utilitária do poeta, que dá sentido ao estado de ânimo com vistas a sua universalização poética (como tinha de parecer ao jovem para quem ter êxito numa obra de poesia ainda se afigura um heroísmo sobre-humano, um milagre de concentração moral), mas é claro que podemos ampliar o conceito: ser tragicamente significa conduzir o drama individual — em lugar de gastá-lo à maneira dos trocados — a uma força concentrada que deixe sua marca em cada tipo de ação, de obra; todo fazer humano significa transformar o fogo de uma tensão existencial em atuação histórica, fazer do sofrimento ou da felicidade privada, essas imagens de nossa morte (toda felicidade individual, na medida em que carrega em si seu fim, tem uma contraparte de dor), elementos de comunicação e de metamorfose, ou seja, forças de vida.

Se compararmos o diário de Pavese a outro importante documento contemporâneo de um itinerário interior, o diário de André Gide, veremos que a operação de Gide se move no sentido diametralmente oposto. Gide parte, de um lado, da singularidade individual perfeitamente construída em sua concha de cultura e de razão, do caráter clássico enfim, para alcançar uma identificação com o fluxo espontâneo da vida, para tocar um estado de indeterminação no qual seja possível captar, a cada vez, toda a variedade do mundo, onde a sinceridade não seja mais dolorosa, em que nem sequer a dor provoque atrito.

O de Gide e o de Pavese são os dois caminhos que a literatura moderna propõe para nossa atitude cognitiva e prática. Um, de identificação com o todo, de abandono ao fluxo vital e cósmico; outro, de escolha e atrito, de redução ao essencial, de transferência dos valores do ser para o fazer, de transformação da vida em obra, da existência em história.

Pavese pertence a um período da cultura mundial que tende a integrar a experiência existencial à ética da história. Um período em que a morte do escritor piemontês parece assinalar um limite cronológico. De fato, temos de dizer que, nestes dez anos, se a fortuna de Pavese continuou se alastrando, as possibilidades de influência de sua lição sobre a literatura contemporânea parecem ter se reduzido com rapidez. O caminho da consciência literária e artística parece hoje pender totalmente para o lado de Gide. Dez anos, porém, são uma medida que pode até ser negligenciável: a história da literatura é composta de discursos que parecem interrompidos e, então, são inesperadamente retomados, os encontros procrastinados. Hoje, os termos do discurso de Pavese parecem distantes, mesmo em suas componentes de pesquisa formal, a obstinação ascética do estilo à frente de todas as demais. Mas isso significa apenas que sua presença tornará a se fazer sentir daqui a não muito tempo, pela lente do distanciamento e da perspectiva, e isso bastará para tornar a propô-lo em nova vizinhança, e ali poderemos enxergar mais coisas, como sempre acontece quando conseguimos nos reaproximar de um autor separando-o da contemporaneidade, iluminando-o com a luz de uma época que se foi, que já não é a nossa.

A atenção dos pavesistas nestes últimos anos centrou-se mais na reconstrução da figura de Pavese que em suas obras: o diário, os inéditos que ele não quis publicar, as páginas ensaísticas, os testemunhos biográficos. Também neste meu discurso podem se perceber os ecos dessa polarização de interesses. Foi uma fase necessária, mas insistir nessa linha seria desequilibrar a própria razão do interesse pela figura do poeta. Toda a carga de Pavese gravitava em torno da obra, em torno daquilo que, da experiência existencial e cognitiva, torna-se obra acabada, e é para as obras que temos de voltar o foco de nossa lente, sobretudo para aquelas que carregam o signo de um Pavese mais completo e maduro.

Falemos sobre os romances, portanto. E, se falo dos romances, não é para pôr em segundo plano dois livros únicos na história da literatura italiana, quase opostos entre si, diria, como poética, e ambos livros “totais” de Pavese: a coletânea de poesias Trabalhar cansa [Lavorare stanca] e os Diálogos com Leucó [Dialoghi con Leucò]. Falo, sim, dos romances porque é na narrativa, na criação de um determinado gênero de romance, que Pavese concentrou a maior parte de suas energias. Os nove romances breves que escreveu constituem o ciclo narrativo mais denso, dramático e homogêneo da Itália de hoje e, também — direi aos que julgam importante este fator —, o mais rico no plano da representação dos ambientes sociais, da Comédia Humana enfim, da crônica de uma sociedade. Mas eles são sobretudo textos de uma espessura extraordinária, em que nunca se deixa de encontrar novos planos, novos significados. Acredito que três deles devem ser colocados em posição de destaque, La casa in collina, Il diavolo sulle colline e Tra donne sole, que correspondem a uma temporada de plenitude no trabalho de Pavese, entre 1947 e 1949. La casa in collina é a meditação que surge da comparação entre história e moral humana meta-histórica; O diabo nas colinas apresenta todo o emaranhado de problemas morais e existenciais do autor transformado em romance; e Entre mulheres sós é uma exemplificação de posturas com relação à vida. São três exemplos de romances de conteúdo, de romance, direi, até ideológico, todos expressos numa perfeita equivalência entre tensão lírica e objetividade estrutural, em que triunfa a técnica pavesiana do laconismo reticente, da comunicação indireta, do envolvimento do leitor no esforço cognoscitivo e valorativo da realidade. Notaram que deixei de fora o último romance breve escrito por Pavese, A lua e as fogueiras [La luna e i falò], e isso porque hoje tenho algumas dúvidas de que nele a condensação de lirismo, verdade objetiva e emaranhado de significados culturais tenha se operado plenamente, assim como quis isolar dos anteriores aqueles três romances breves da maturidade porque, mesmo com todo o valor de seus êxitos, são degraus de aproximação de uma forma de expressão total.

Pavese convida-nos a um modo literário do qual infelizmente a literatura contemporânea nos dá exemplos muito raros. Isso significa que ele quer ser lido como se leem os grandes trágicos, que cada relação, cada movimento de seus versos condensa uma pregnância de motivações interiores e de razões universais compacta e peremptória em extremo. É uma maneira de nos inserir na realidade, de vivê-la e julgá-la que perdemos totalmente; e no fato de tê-la alcançado — por seus caminhos laboriosos e solitários — reside o valor único de Pavese hoje na literatura mundial.