Assunto Encerrado

Italo Calvino · Capítulo 24 de 44

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Por uma literatura que peça mais ⠀嘀椀琀琀漀爀椀渀椀 攀 㘀㠀)

POR UMA LITERATURA QUE PEÇA MAIS (VITTORINI E 68)

 

Il Ponte, 31 de agosto de 1968. Intervenção numa discussão sobre o livro póstumo de Elio Vittorini Le due tensioni. Dois anos após sua morte, procuro imaginar como teria reagido Vittorini diante das perturbações de maio de 1968.

A presença de Vittorini neste ano está vinculada sobretudo a uma página dele que, quando apareceu, ninguém notou. Partindo do episódio em que um representante dos estudantes era insultado por um notável acadêmico (e político) numa cerimônia, Vittorini desenvolveu uma crítica vigorosa à universidade — aliás, à escola — italiana e a seu paternalismo autoritário. O texto destinava-se a uma revista internacional de escritores, que acabou não se concretizando; deveria ser datado, portanto (se eu não estiver confundindo as datas), de 1963; mas saiu em 64, com o resto do material daquele projeto no Menabò 7. Era uma polêmica insolitamente violenta a respeito de um tema que parecia, então — a mim como, acredito, a tantos outros —, marginal; hoje, temos de reconhecer que, entre os homens da cultura militante, ele foi o único a ter a percepção da força de reivindicação radical que amadurecia na universidade.

Depois, inúmeras outras coisas fizeram desse ano de 67-68 uma época inesperadamente “vittoriniana”: no sentido de que foram tempos em que sua capacidade de se animar teria aumentado, seu discurso teria encontrado alimento contínuo e congenial. Podemos dizer que sua vida não foi rica de anos assim, pelo menos não nos últimos vinte anos; muito mais numerosos foram os anos inóspitos, as temporadas na contracorrente. E eis que, em tudo o que se move no mundo, torna-se decisivo o momento antirrepressivo, antiautoritário, isto é, o tema que acompanhou, do começo ao fim, aquela densa vegetação de metáforas que foi a história intelectual de Vittorini.

Estamos pensando, naturalmente, sobretudo no maio parisiense, na fresta que se abre de “imaginação no poder”, isto é, de uma linguagem nova com relação aos vocabulários políticos usados até esse momento. Ele teria se reconhecido nisso, teria corrido para lá como fizera nos dias quentes de dez anos antes. E a fresta de uma retomada revolucionária operária no coração do mundo industrializado teria confirmado o eixo da perspectiva que Vittorini não quisera abandonar. (E, ligada a ela, a necessidade já clamorosa de uma nova força operária organizada, não mais burocrática e esclerosante.)

Essa decerto teria sido uma nova “partida” para ele, morador da história como presente, que tirava suas forças, seu oxigênio, da combustão dos acontecimentos. Mas já antes de maio podemos fazer o inventário das ocasiões em que ele teria se reconhecido, em que teria investido com sua carga metafórica: basta pensar nas vitórias da verdadeira “tecnologia” inventiva dos vietcongues contra a falsa tecnologia dos distribuidores de napalm.

As notas reunidas no volume Le due tensioni solicitam esse prolongamento ideal até o hoje, oferecendo-nos material de uma pesquisa ainda em estágio de uma primeira proposta dos termos da discussão, uma primeira coletânea de fichas. Não podemos lê-las como discurso acabado, nem sequer como um mapa de um quadro cultural definido. Todos os seus “personagens” — os autores citados ou os amigos com quem fica aborrecido — estão ali na função momentânea de sua entrada em cena, isto é, seu papel poderia mudar em outro contexto. Como sempre em Vittorini, os nomes próprios denotam não pessoas, mas o papel que elas desempenham na situação a que o texto se refere; isso vale quer o nome figure em função negativa quer em função positiva; as leituras nunca são indicações absolutas, mas pretextos para um discurso independente. Por isso, é natural que quem lê atualize mentalmente a bibliografia e prolongue a curva do discurso, levando em conta tudo o que aconteceu nas abscissas e nas ordenadas dos ultimíssimos anos. Sei quanto poderá parecer arbitrária essa leitura atualizante, quando deveríamos declarar chegado o momento da historicização. Todavia, confrontar o texto com a situação de agora ainda é a maneira mais correta de ler obras como essa.

 

Vamos então traçar o panorama do hoje. Na cultura política, disputa-se uma luta pela primazia na interpretação e na direção do movimento em curso, entre as raízes voluntaristas e hegelianas e o impulso para fundamentar nas “ciências humanas” uma antropologia revolucionária capaz de atuar como a força libertadora de todos os determinismos rigorosos. Essa disputa (que já era representada por Vittorini, uma vez que acontecia dentro dele, em sua insatisfação com o quadro cultural em que só se davam escolhas parciais e erradas) carrega desde o princípio um peso de doutrinarismo de um lado e de outro, mas por sorte se desenvolve na presença dos fatos. E a escolha pelo não doutrinário (por aquele que seria o Vittorini hoje atuante) está do lado das coisas que se dão revolucionariamente e que ainda não têm um nome (e que correm o risco de ser sufocadas antes de vir a tê-lo, ou de ser sufocadas permitindo imediatamente que lhe atribuam nomes).

Na literatura, existe a sensação disseminada de um fracasso, de uma necessidade de recomeçar do início; não estou falando da microliteratura italiana dos últimos vinte anos, cuja queda é proporcional a seu voo baixo, mas das propostas mais ambiciosas do século XX europeu, que se tornam cada dia mais insatisfatórias. E isso se verifica no âmbito da juventude mais exigente, do ponto de vista intelectual: não porque ela não se interesse mais por literatura (como parece acontecer hoje na Itália), mas porque, se a literatura é vivida como razão revolucionária (como parece ser para a juventude francesa, em nível de massa, e não de líderes), ela o é em termos de solicitação ainda não resolvida, exigência em boa parte a ser atendida, página ainda a ser escrita. (E seus autores são aqueles que quiseram fazer nascer fome e sede, em vez de satisfazê-las.)

É nesse quadro geral que hoje podemos ler também as notas que Vittorini redigiu no começo da década de 60: como busca da fundação de uma cultura e de uma literatura antiautoritária; como sondagem para uma revolução ideológica que não remetesse a um além espaciotemporal, mas que explodisse desde dentro, do interior da cultura do Ocidente industrializado, como um questionamento de tudo o que foi adquirido pela literatura.

Assim vejo a literatura que caracterizará o início do século que estamos vivendo agora: como discurso que importa pela exigência com que se abre, e não pelo modo como pode satisfazê-la. Uma literatura que deve servir para aumentar continuamente a aposta, para colocar a demanda num nível cada vez mais inalcançável pela oferta, sem apressar respostas que, se chegarem cedo demais, vão se parecer demais com aquelas que estamos recusando.