Assunto Encerrado
A “belle époque” inesperada
Tempi Moderni º , n6, julho-setembro de 1961. Resposta a uma enquete (que teve início no n º 4) sobre “Valores e mitos na sociedade italiana dos últimos vinte anos (1940-1960)”.
H á quinze anos prevíamos tudo, menos uma coisa: que o mundo entraria numa fase de “belle époque”. Agora estamos bem no meio dela. Há o boom econômico, um ar de abundância, cada qual cuida dos próprios interesses. Aquela intransigente tensão ideal que ontem animava propósitos e ações (boas ou más que fossem) de homens do governo e intelectuais, agora cedeu lugar a uma maneira de falar e de agir mais oportunista e utilitária. Todos, aberta ou intimamente, estão convencidos de que essa vida mansa durará sabe-se lá até quando, aliás (e isso é típico de toda “belle époque”), nunca terá fim. Sim, há a guerra fria que não terminou, e também continuam alguns derramamentos de sangue locais, mas as pessoas que estão a salvo veem isso como uma saraivada de granizo num dia ensolarado de verão. Há, sim, uma desigualdade cada vez maior entre os países privilegiados e os atrasados; mas a imagem da multidão, rasgada e esfomeada, do lado de fora da porta do festim bem que é parte da iconografia clássica da “belle époque”.
Isso é o que realmente mudou em nós: não as ideias ou os “valores”, que não têm razão para mudar (a vida já é tão breve; se começarmos a mudar as próprias ideias, vamos estilhaçar aquele pouco de continuidade e de significado que nossa existência pode ter; melhor pensar sempre numa mesma direção, e, se ela for errada, decerto haverá outros que cedo ou tarde pensarão de forma mais justa e tornarão “útil” o nosso erro); é que, antes, víamos a vida como uma coisa tensa, combatida e espinhosa, em que tínhamos de exercer nossa escolha do bem ou do mal, nossa firmeza de nervos, nosso comedimento e nossa ironia desmistificadora; agora, ao contrário, nós a vemos como um espetáculo em linhas gerais previsível e tranquilizador, do qual gostaríamos de gozar todos os detalhes, alguma coisa confortável e bem guarnecida e estável em que desafogar nossa pressa e ansiedade e raiva. O tempo, antes, parecia prosseguir com grande urgência, e nós, no meio dele, sentíamo-nos calmos, nunca pensávamos em nossa morte individual, ansiosos que estávamos apenas por aquela parte da história do mundo que preencheria densamente o espaço de nossas existências. Agora que o tempo fora de nós parece pulsar com mais raridade e lentidão, pressa e descontentamento individual tomam conta de nós, e o pensamento dos anos da juventude que passaram de repente, e de tudo aquilo que podíamos fazer e não fizemos e não faremos.
Falo do mundo capitalista, mas acredito que o mesmo discurso possa valer também para o mundo socialista, ao menos para aquela parte dele que aceitou (e talvez tenha decidido e sancionado por nós também) a “mudança de marcha” da história (ou seja, a linha “krutcheviana”, em contraposição à “chinesa”, se quisermos acreditar que as fórmulas dos jornais estão corretas). À euforia do consumo efetivo que reina entre nós, corresponde, do outro lado, a euforia de um consumo possível, colocado como objetivo alcançável e quase principal, a euforia de poder finalmente sonhar o consumo sem sentir-se culpado. (Situação de maior privilégio do que qualquer outra, porque tem ao mesmo tempo a saúde moral do hedonismo e a da ascese; ali, enquanto nós temos a náusea do hedonismo obrigatório, a ascese só é concebível como paixão masoquista.)
Em toda “belle époque” acentua-se — dizia eu — o contraste entre países industriais e países atrasados, isto é, ocupamo-nos muito de colônias. Assim como a primeira “belle époque” foi o momento culminante da expansão colonial europeia, hoje a segunda “belle époque” marca o movimento oposto: as nações europeias retiram-se das colônias por bem ou por mal; formam-se novas nações que deixaram de ser coloniais; a política mundial parece repentinamente ter seu volume decuplicado; a multiplicidade de posturas das políticas nacionais, que já parecia definitivamente sufocada pela polarização do mundo em dois campos opostos, agora é recuperada no âmbito do “terceiro mundo”, que herdou a fragmentação de fronteiras do colonialismo; recomeça o jogo das diplomacias, e quem tiver mais fio, mais redes, vai tecer.
Os países atrasados mais próximos do conjunto industrial europeu subtraem-se à necrose com migrações em massa, impelidas como por uma força biológica. As margens do Mediterrâneo não conheciam desde a Idade Média deslocamentos de povos tão vastos e incontrolados: os espanhóis miram a Suíça francesa; os árabes do Norte da África, a Provença e Paris; os calabreses, a Ligúria; os sicilianos, um triângulo formado por Turim, Milão e o lago de Lucerna; os gregos miram Zurique; os turcos, Frankfurt e Mônaco. Enquanto o conceito burguês oitocentista de nação continua alimentando a retórica dos generais franceses e dos italianos organizadores de centenários, o mapa etnográfico da Europa mudou profundamente nos últimos dez anos. Aclasse trabalhadora de quase todas as grandes cidades é — física e historicamente — diferente da que era antes: línguas, tradições, maneiras de reagir, de um ano para outro tudo se transforma. O movimento operário europeu, que surgiu supondo no proletariado industrial uma continuidade e um crescimento uniforme, bem no meio de seu discurso se encontra diante de uma multidão de interlocutores diferentes e incompreensíveis.
O que mudou, mesmo no movimento operário, mais que ideias ou valores, foi a relação entre quadros e massas, entre direção e espontaneidade (derivam daí as frequentes surpresas diante de casos de vitalidade e combatividade imprevistos), entre vontade e natureza, entre planejamento e espera. Aqui também, uma “mudança de marcha”, antes de mais nada nas perspectivas, e, portanto, um investimento de energias diferentes nas militâncias política e sindical. O funcionário político ou sindical ou o ativista é parte da produção; e, como a fábrica lhe fecha a porta na cara, ele tenta iniciativas econômicas por conta própria, geralmente com sucesso, porque é mais inteligente, ativo e tem mais bom senso que todos os outros, além de ser dotado daquela atitude humana particular, que se traduz em dar o melhor de si nas diversas circunstâncias: nos sacrifícios e nos tormentos, assim como no boom econômico. O afastamento da atividade política por parte dos quadros operários difere daquele dos intelectuais nisto: para o quadro operário, tornar-se pequeno empresário, por exemplo, é uma adaptação natural às circunstâncias que geralmente não implica crises ideais, ao passo que o intelectual acredita ter o dever de fazer corresponder uma crise de ideias a um simples deslocamento ou mudança sociológica e operacional.
Nasce aquela postura ideológica que tende a considerar o boom econômico da Europa industrial de hoje uma condição natural e estável, e a julgar tudo com o metro dessa condição privilegiada. (Quando, no pensamento revisionista, percebe-se estar essa postura subentendida, eis que em toda proposição, ainda que razoável, sensata e aceitável, dá-se pela falta de alguma coisa: falta o sentido daquele tormento que é o pensar em meio a um mundo atormentador: o único selo de verdade que sabemos reconhecer nos produtos do pensamento.)
Ao mesmo tempo, todo período de “belle époque” é, no entanto, tempo de extremismos revolucionários e niilismos ideológicos: a recusa da prosperidade presente, na medida em que é ilusória e injusta, leva à recusa de qualquer desfrute ou de qualquer bem que dela possa decorrer, mesmo que provisória e limitadamente. O ascetismo revolucionário já não é uma possível necessidade funcional, mas volúpia de renúncia e de pureza, portanto paixão interessada, condicionamento psicossomático, que predetermina toda escolha e que invalida a clareza dejuízo. (Dessa maneira, na Itália, quem raciocina de forma “chinesa” talvez não erre no plano da absoluta lógica histórica, porém a moral do homem sadio é aquela que não cuida de preservar a própria pureza a todo custo, mas arrisca a si própria e vence em meio às contaminações da prática, tendendo a alcançar o máximo possível de seus objetivos com um mínimo de renúncias e de sofrimentos, e prepara-se para prosseguir num amanhã ainda cheio de incógnitas desfrutando o melhor e enfrentando o pior a cada passo.)
A “belle époque”, a outra, durou (aproximadamente) de 1870 a 1914: quase cinquenta anos. E não sabiam que Sarajevo estava à sua espera; acreditavam no Baile Excelsior; e, no entanto, tudo já estava claro. Nós sabemos de Sarajevo. Façamos a conta: se a “belle époque” durar tanto para nós também, talvez um pouquinho mais, devido ao progresso; se conseguirmos deslocar Sarajevo para lá da nossa morte natural de longevos, e talvez até afastá-la a ponto de torná-la improvável também para nossos filhos e netos — aí, então, talvez possamos passar sem solução de continuidade do mundo dividido e alienado ao mundo integrado e universal, e — sem desferir um único golpe — socialista.
Mas que nada: o pior sempre é possível. Não temos como prever se esse estado de equilíbrio e prosperidade e otimismo incertos vai durar ainda poucas horas, alguns meses, alguns quinquênios ou cinquenta anos ou mais. Sarajevo pode acontecer a qualquer momento, até amanhã. Não sabemos que imagem terá: se a da guerra atômica (mas talvez as coisas excessivamente previsíveis e temidas nunca aconteçam) ou outra. Talvez tome a forma de alguns dos velhos monstros nunca extintos, talvez formas novas, que não saberemos reconhecer.
O que sabemos é que nossa condição de cidadãos da “belle époque”, essa nós temos de viver como se fosse temporária, ainda que nos movendo nela com perfeito conforto e naturalidade. O mundo do extermínio e da ameaça, onde crescemos até a idade viril, ainda é possível, pode recomeçar a qualquer instante, e a qualquer momento podemos retomar ali nosso papel de vítimas ou de algozes, para o qual estamos há tempos perfeitamente preparados. Nós somos sempre os mesmos, e nada, no fundo, mudou à nossa volta, entre as coisas que contam: nem as estruturas, nem as ideias, nem as consciências. Claro, hoje nos sentimos particularmente ligados aos sinais exteriores do prazer da vida individual; mas, já quando esses sinais à nossa volta eram exíguos, nós os considerávamos um “valor” e nos recusávamos a desprezá-los como vaidade. Também hoje, diante da euforia com a imerecida fartura, sabemos que não possuímos realmente nada, que tudo não passa de um castelo de cartas que pode ruir ao primeiro sopro. Uma única coisa não pode ser tirada de nós: a faculdade de marcar, a cada vez, uma clara distinção entre agir bem e agir mal, de nos maravilharmos com as novas imagens do mundo, de projetar sobre nós mesmos a piedade e a ironia do futuro.