Assunto Encerrado
A antítese operária
Il Menabò 7 — Una Rivista Internazionale, Turim: Einaudi, 1964. Este ensaio, escrito para a planejada revista internacional — que solicitava ao discurso literário encarregar-se de todos os problemas da vida atual —, foi uma tentativa de inserir no desenvolvimento de meu discurso (aquele dos meus ensaios precedentes publicados no Menabò) uma exploração das diversas avaliações do papel histórico da classe operária e, na essência, de toda problemática da esquerda daqueles anos. O propósito era evidentemente ambicioso e o arranjo que eu procurava realizar, complicado. Em âmbito literário, à diferença dos dois ensaios anteriores (“O mar da objetividade” e “O desafio ao labirinto”), que haviam suscitado muitas discussões, os ecos foram raros (“Desta vez o tema é excessivamente superior a suas forças”, escreveu Aldo Rossi, º Paragone , n 174, junho de 1964). Em âmbito político, minhas reservas com as posições daquela que se tornaria em breve a “nova esquerda” levaram os amigos então empenhados na formulação das novas teorizações obreiristas (eram os anos dos Quaderni Rossi de Raniero Panzieri) a me olhar com superioridade e sarcasmo. (Apenas Rossana Rossanda dedicou à “Antítese operária” um comentário crítico muito atento, º Il Contemporaneo , n 73, junho de 1964.) De toda maneira, acreditei ser correto incluir este texto na presente coletânea, por se tratar de uma etapa de meu percurso, estritamente ligada às anteriores, e representando talvez minha última tentativa de compor os elementos mais diversos num desenho unitário e harmônico. Torno a publicar, portanto, os trechos essenciais do ensaio — uma premissa literária, um exame das perspectivas teóricas abertas e as conclusões —, omitindo o capítulo 2, que já então eu sentia de algum modo estranho ao tom do resto: ele continha um apanhado de observações sobre a realidade italiana, de tom mais jornalístico, vinculado à época e, em alguns pontos, mais
superficial.
De um século ou mais para cá, o termo operário, de denominação de uma condição social ou profissional que era, tornou-se elemento explícito ou implícito de todo discurso cultural geral. Nesse longo período, a realidade social do operário sofreu transformações, distinções e oscilações; transformações, distinções e oscilações ainda maiores conheceu o termo operário na história da cultura. Hoje, um momento de vistosas mudanças exteriores e de necessária verificação de conceitos adquiridos, gostaria de fazer algumas anotações para uma reconsideração do que significa, para a cultura, a presença do operário na sociedade. Estas notas dirão mais respeito à história da cultura contemporânea do que à história social: mas nelas, ao lado das observações sobre correntes ideológicas e linhas de pensamento, procurarei utilizar o mais possível comparações, observações e dados sobre a realidade social, seus desenvolvimentos e suas tendências.
O operário entrou para a história das ideias como personificação da antítese; isto é, como objeto extremo da desumanização do sistema industrial e, ao mesmo tempo — potencialmente ou já em curso —, como sujeito extremo da libertação e da reumanização do sistema. Não há necessidade de nos determos nessa fórmula clássica; antes, seria necessário distinguir as posturas que essa presença fortaleceu na cultura de nosso século. Podemos indicar, sinteticamente, duas maneiras de considerar a antítese operária por parte da cultura contemporânea:
I) como força motora de uma revolução total, também ou sobretudo interna ao indivíduo, ou seja, que não se limita às instituições da propriedade e do Estado mas que substitui a escala tradicional (religiosa e proprietária) dos valores, transformando moral, família, costume e a própria maneira de ordenar os pensamentos e as imagens. Esse foi o sonho das vanguardas literárias e artísticas, sonho que até o momento sempre foi frustrado no dia seguinte aos momentos revolucionários de ponta, e sempre em busca de uma ordenação teórica e institucional de sua ligação com o movimento operário (ou pelo menos com uma ala extrema, como na aliança Trótski-Breton);
II) como aquela que engloba e realiza todos os valores positivos (cognitivos, morais, estéticos etc.) expressos e deixados para trás pelas classes dominantes anteriores, e particularmente pela burguesia, isto é, herdeira e depositária de tudo o que pode ser salvo do definhamento histórico. Essa visão de uma cultura a um só tempo revolucionária e conservadora foi aquela que inspirou também a política cultural oficial comunista, ainda que não se esgotando nela e em suas experiências mais infelizes, como não se esgota nas propostas de ordenação teórica tentadas até o momento (Lukács).
Essas duas maneiras caracterizaram sobretudo a situação desde os anos anteriores à Primeira Guerra Mundial até os anos seguintes à Segunda, ainda que estendendo amplamente sua influência além disso, assim como o rastro de suas origens deve estar em heranças culturais que encontramos variadamente contrapostas em épocas passadas.
No entanto, é preciso dizer que, se examinarmos as posturas que tendem a ser dominantes na cultura de hoje, essa bipartição nos parece menos central e caracterizadora. Querendo representar numa contraposição sintética a situação de hoje, poderíamos indicar, de um lado, a cultura que tem seu eixo nas metodologias científicas e técnicas e que objetiva construir modelos da estrutura da realidade (sem um interesse imediato numa “transformação do mundo” e ainda sem uma particular preocupação de salvar valores obliterados); de outro lado, a cultura que tem seu polo naquela região que psicologia, história das religiões e antropologia investigam às cegas, ou seja, o impulso da humanidade em encontrar sua plenitude mediante dilacerações violentas da relação com as coisas, por meio de configurações da vida individual e coletiva diferentes daquelas que uma ideia racional de “progresso” pareceria implicar (aqui, dirige-se a carga eversiva explícita ou implícita no programa de pesquisa para a recuperação de valores não só pré-burgueses, como também, e até, pré-históricos).
Em literatura, essas duas posturas podem ser encontradas nas poéticas cognoscitivo-objetivas, ou de problemática da linguagem e da estrutura da obra (a primeira); e nas poéticas da expressão existencial imediata, da explosão de rebeldia da natureza humana como condição estável (a segunda). E é precisamente nessas exemplificações literárias extremas — digamos, de um lado, o nouveau roman e, no extremo oposto, a beat generation — que as duas tendências culturais manifestam sua contradição fundamental: ambas necessitam, para existirem, de um ambiente histórico-social dominado pelo princípio contrário.
A beat generation, rebelião dos jovens contra a civilização da produção e do consumo, tem por subentendido uma tranquila segurança no mundo contra o qual se revolta, no sentir-se protegida das necessidades, dentro de um mecanismo que podemos não aceitar, sem que por isso ele cesse ou deixe de funcionar. Apenas um grau elevado de racionalização da economia, uma sociedade com margens para a despesa improdutiva e a inutilização das energias pode dar à beat generation a base prática para expressar a prioridade do humano sobre a produção. É sintomático que a postura de rebelião beat compareça não só nos Estados Unidos, mas onde quer que uma sociedade acredite em alguma medida ter chegado a hora de propor-se como modelo da americanização (inclusive, parece, as grandes cidades soviéticas, mas excluída a Itália, onde a americanização é só de superfície, e não de essência econômica).
Para o nouveau roman o discurso é paralelo no sentido oposto, embora mais complexo. Basta mencionar que a impassibilidade linguística do nouveau roman, sua suspensão de qualquer juízo do mundo, só tem sentido num mundo já abertamente problemático, que jorra significados, que chegou quase a ser a alegoria de si próprio. Não por acaso, o nouveau roman desenvolve-se não numa situação de estase histórica, mas contemporaneamente e, direi, quase lado a lado com uma situação histórica de lutas patentes, desenfreadas, ferozes, na qual parece estarem claramente demarcados e separados os campos operacionais diversos das diferentes linguagens e das diferentes metodologias.
Num quadro de tendências definido entre esses termos, a função histórica da antítese operária perde seu relevo cultural, e a essa eclipse de um elemento que encarna uma direção e uma finalidade históricas corresponde uma eclipse geral do sentido da história. Carência de sentido da história equivale, hoje, a carência de sentido dos valores. A postura neopositivista-estruturalista tende programaticamente a abrir mão dos valores, a suspender o real num limbo solto de trilhos históricos, fora do alcance de qualquer juízo; ao passo que a postura existencial, em sua fome de recuperações absolutas ou primariamente humanas, tende a excluir da escala dos valores o que está encharcado da borra de azeite ou de carvão da prática, o que traz a marca sempre diferente do fazer.
Estas minhas notas, que partem de uma sensação de insatisfação diante de tais carências da cultura atual, propõem-se, justamente, a verificar se e como a presença da antítese operária se configura hoje, e quais implicações derivam daí no discurso cultural geral.
1. Paralelamente à história das maneiras como a definição inicial de antítese operária foi aceita e compreendida, desdobra-se a história das maneiras como ela foi recusada ou criticada. Para traçar a situação atual, comecemos por buscar elencar as principais objeções e variantes propostas recentemente para a definição inicial de antítese operária, e as questões deixadas em aberto.
(Trata-se de um simples elenco indicativo, em que vou me abster de expressar julgamentos pessoais, apenas radicalizando ligeiramente, talvez, os termos de cada proposição, quando isso me for útil para dar mais evidência ao esquema que estou desenhando.)
a) A subordinação do homem à máquina tornou-se cada vez mais grave, a classe operária está cada vez mais reduzida a simples engrenagem do sistema, e sua possibilidade de constituir uma antítese torna-se, portanto, cada vez mais remota. Acrescente-se a isso que, mesmo subvertida a essência de classe do sistema, a vida do operário como operário não pode mudar muito. A imagem de uma “condição operária” como condenação impossível de ser resgatada (da qual Simone Weil deu famosa exemplificação) é uma das últimas encarnações da polêmica anti-industrial tradicional. Podemos colocar a seu lado, como correlativo otimista, a utopia tecnológica da automação total, segundo a qual a classe operária é uma espécie destinada à extinção, ou ao menos a se tornar uma entidade negligenciável em termos de peso numérico e de incidência histórica.
b) A coerção do sistema não se dá apenas sobre o operário como tal, nas horas do trabalho, mas continua fora da fábrica, sobre o operário como consumidor, obrigado a satisfazer necessidades artificiais que o afastam cada vez mais da realização de si próprio. Desejar ou pensar ou imaginar outra coisa além do que o sistema impõe se torna empreitada desesperada. A “cultura de massa” é uma geleia uniforme e gelatinosa que o sistema emite para englobar as classes antagonistas sem mais distinguir entre dominadores e dominados. Uma consciência de classe autônoma não consegue se despregar do emaranhado dessa pasta grudenta. Quase corolário da tese a, essa fórmula é amplamente exemplificada pela crítica sociológica e econômica da sociedade americana e, no plano da cultura, por T. W. Adorno e outros críticos da “indústria cultural”.
c) Na affluent society, o futuro da classe operária parece caracterizar-se — como nos Estados Unidos — por uma força sindical muito eficaz em termos de poder reivindicativo econômico, mas alheia à proposição de mudanças estruturais, por mínimas que sejam. Dado que a pauperização crescente não aconteceu, dado que o movimento sindical impôs à burguesia uma orientação econômica e de distribuição fundamentada na ampliação do consumo de massa, a classe operária encontra-se participando plenamente do sistema, sua antítese torna-se uma antítese interna, sua pressão reivindicativa, um elemento necessário da dinâmica produtiva. Concordam com essa previsão opiniões reformistas (quer operárias, quer patronais) e opiniões extremistas: umas considerando-a uma perspectiva positiva, outras considerando-a uma perda, mas ambas concordam em afirmar, com base nela, o envelhecimento das formas tradicionais de organização política e sindical dos trabalhadores. As primeiras se fortalecem com a coincidência de interesses do sistema industrial mais avançado e da classe operária na liquidação das situações econômicas e políticas mais atrasadas. As segundas, ao contrário, põem em primeiro plano uma regeneração até moral da sociedade, incindível da imagem de um rompimento revolucionário, e deriva daí uma avaliação sistematicamente negativa dos fenômenos de “progresso” econômico e de tudo o que se move em sentido diferente de um recrudescimento da luta frontal: evolução do capitalismo tradicional a “neocapitalismo”, substituições do capitalismo privado pelo capitalismo de Estado em alguns setores, intervenções estatais na direção de um planejamento ou racionalização econômica.
d) Como corolário de c, já dada como elemento interno ao sistema a classe operária dos países mais industrializados, a verdadeira vítima e a única antítese possível permanece o mundo pré-industrial dos camponeses pobres e dos povos atrasados. Essa é uma linha ideológica para a qual a revolução dos povos que deixaram de ser coloniais tornou a dar atualidade e encontrou eco sobretudo na França na época da guerra argelina, até por influência de novas e geniais teorizações (Fanon). Mas é uma tendência que tem uma longa história atrás de si, desde a polêmica anti-industrial dos populistas russos àquela de alguns teóricos italianos da “questão meridional” contra a indústria e o movimento operário do Norte. As novas tendências desse tipo se fortalecem com o fato de que as únicas revoluções socialistas foram até o momento realizadas por países em boa parte pré-industriais e de agricultura pobre; e interpretam o dissídio China-URSS como contraposição entre o proletariado dos países coloniais, semicoloniais e das ex-colônias e o proletariado do mundo capitalista industrializado e da própria União Soviética. Em território ocidental, a ciência econômica (Myrdal) das últimas décadas esclareceu como o desequilíbrio mundial, em lugar de diminuir, tende a se acentuar, o nível de vida dos países subdesenvolvidos a se rebaixar na mesma medida em que o dos países industrializados se eleva. Esse desequilíbrio, portanto, presente em todas as divergências políticas e econômicas, tanto no Ocidente como no Oriente, está se tornando o problema mundial por excelência.
e) A contradizer as perspectivas — todas a longo prazo — enunciadas nos parágrafos anteriores, está a sempre ameaçadora potencialidade catastrófica de uma terceira guerra mundial. A antítese operária à guerra que o sistema industrial capitalista, segundo uma imagem famosa, sempre carregou em si “como a nuvem carrega a tempestade” já havia entrado numa nova fase desde que, entre as tensões internacionais, inseriu-se o novo elemento do contraste entre nações capitalistas e (uma ou mais) nações socialistas; em essência, porém, a natureza da antítese permaneceu idêntica. O advento da era atômica, com o consequente risco de destruição geral (fim da vida humana na Terra, segundo as hipóteses mais pessimistas; fim da civilização e sobrevivência parcial do gênero humano, segundo as mais otimistas), marca, ao contrário, uma mudança essencial. Se a desumanização do sistema culmina com a perspectiva atômica, as razões de antítese do operário empalidecem e se confundem com aquelas gerais do ser humano. O apelo do filósofo a uma consciência da “era final” em que o homem entrou e da tarefa primária de fazer com que essa “não tenha fim” (Anders) coloca os próprios conceitos de “trabalho” e de “produto” numa nova perspectiva de significados. Contra um inimigo tão total como a destruição da espécie, seria simplista a solicitação direta de uma solução política (mesmo que sob forma de revolução social): apenas uma revolução moral geral, uma palingênese humana (sem a qual não poderia ocorrer uma transformação real da sociedade), pode estar à altura de semelhante solicitação. De resto, diante da bomba, quais são os caminhos que a política propõe? Se aceitarmos como um fato a enormidade do perigo, a estratégia das lutas de classe deve necessariamente ficar subordinada às tratativas de cúpula entre os “grandes”; se, ao contrário, ousarmos desafiar a catástrofe (como o fazem, ao que se diz, algumas afirmações oficiais temerárias), pressupõe-se um gênero humano desde agora pronto a recomeçar sua história com um utensílio de pedra lascada, num mundo deserto ou entre vestígios de bens que nunca antes sentira como sua propriedade.
Podemos concluir aqui essa primeira exploração de hipóteses ideológicas hoje em curso: o quadro resultante vai muito além da transformação da antítese operária em objeto de discussão. O que se questiona é a ideia de uma história que, por meio de todas as suas contradições, consiga traçar um claro desenho de progresso (não só aquele linear, de tipo iluminista ou positivista, mas aquele mais acidentado e espinhoso que o historicismo dialético sempre pretendeu saber localizar) no qual a antítese operária se insira como catalisadora das potencialidades positivas. Aqui, é a soma das negatividades históricas a triunfar: o progresso da racionalidade construtiva do sistema (industrial capitalista ou simplesmente industrial, a distinção se torna secundária) configura-se num “brave new world “ em que toda ação humana é englobada, predeterminada, heterodirigida pelos interesses da produção e do consumo ou da cultura de massa, ou pelos “persuasores ocultos”: uma perspectiva infernal, superada em obscurantismo apenas pela perspectiva de que o próprio triunfo do sistema se dê sob a forma de sua potencialidade irracional e destrutiva — ou seja, o suicídio atômico.
É claro que, nesse quadro, não se espera uma solução geral de um elemento já considerado como englobado pelo sistema. Quem considera certa a perspectiva do inferno racional-industrial, tendo horror dela ou aceitando-a como fato irreversível, considera possíveis apenas salvações individuais, para um número de espíritos eleitos, pensadores ou poetas (e não deixa de retroexaminar a história como história essencialmente de espíritos desse gênero). Uma concepção aristocrática encontra-se também naqueles que querem que se encare de frente a perspectiva atômica com uma grandeza de ânimo de herói trágico (essa sugestão de uma dimensão de grandeza moral no desafio atômico está presente, se não estou enganado, tanto em filósofos como Jaspers quanto nos homens políticos que evocaram esse desafio, de Churchill em diante).
Quem, ao contrário, mesmo dando como certo esse quadro de negatividade absoluta, quer na sobrevivência, quer na catástrofe, ainda postula a regeneração revolucionária, não solicita mais que o papel da reversão e da libertação seja assumido pelo operário que está dentro do sistema, mas o solicita a quem está fora, excluído da história e dos valores — ou ao menos é considerado como tal: raças rejeitadas, povos colonizados, favelas das metrópoles (tudo isso com o senso de precariedade imposto pela rapidez com que o sistema pode englobá-lo por meio de uma melhora econômica ilusória, mas também mediante a cultura ou apenas a linguagem, que, para o rejeitado, apresentam-se como cultura e linguagem do sistema). Ou então a uma humanidade de sobreviventes, expulsa da história e dos valores pela destruição atômica de todos os signos e instrumentos. Também nesse caso, dada como necessária a espontaneidade inarticulada das massas, o elemento da consciência e do planejamento (ou seja, aquele pouco ou aquele muitíssimo de herança cultural necessária para reencontrar um sentido positivo para o impulso de negação) deveria caber a um número restrito de iluminados, que passarão pelo fogo sem se queimar.
2. [Observações sobre a realidade italiana] [… ]
3. Retornando a nosso ponto de partida — a verificação da realidade atual do significado histórico universal da antítese de classe do operário —, podemos dizer que os dados de que dispomos já nos autorizam a desenhar:
A) uma figura para a qual tendemos, que, sob diversos aspectos, é nova: isto é, o operário como o único assertor coerente da exigência da racionalização absoluta do sistema industrial, com a finalidade de um domínio completo do desenvolvimento econômico e histórico por parte da sociedade-humanidade. Ou seja, para o operário, vitória total da ciência e vitória total da industrialização coincidem com vitória da classe. Uma linha, portanto, não eversiva com relação ao processo de racionalização que já o sistema é obrigado a pôr em andamento, mas voltada para forçar esse processo rumo à utilização com finalidades humanas de todas as forças humanas e naturais. As perspectivas do operário identificar-se-iam, no fim, com aquelas do técnico iluminado e do cientista, dando a elas a base social possível para sua concretização. E esta — embora traçada aqui de forma esquemática, como tendência — é a linha que mais tem probabilidade de se constituir numa perspectiva para o movimento operário da Europa Ocidental. Dos mesmos dados, porém, destaca-se ainda:
B) a posição de quem, em contraste com essa tendência, preocupa-se em salvar da antítese operária, em primeiro lugar, a acepção de negação pura e simples do sistema, e, do conceito de revolução, a acepção de guerra de classe frontal e absoluta. Essa postura, embora não consiga constituir uma perspectiva e uma linha de ação (ou seja, encontrar uma conformidade que não seja episódica na classe operária ocidental), exercita de todo modo uma forte sugestão intelectual por sua peremptoriedade ideológica e moral (somando-se e ligando-se à série de sugestões teóricas que elencamos no capítulo 1).
Segundo a postura B, cada evento atual é desvalorizado em seus possíveis aspectos positivos e exaltado em sua potencialidade eversiva. A racionalização do sistema figura como o principal inimigo, isto é, como o planejamento de salvação do capitalismo. “Tudo está incluído no sistema” é a fórmula com que se condena toda tentativa da classe operária de atribuir a si própria um poder maior nas decisões do processo produtivo. O sistema capitalista enreda todas as atividades humanas sem conceder outra margem de liberdade a não ser aquela da recusa à obediência; pode até não se identificar mais com a vontade pessoal do capitalista (personagem que talvez esteja para desaparecer) e nem sequer com a da empresa, como entidade diferenciada; é o sistema que abarca igualmente trustes particulares, indústrias de Estado e todas as instituições da sociedade; é a vontade geral que determina e torna funcional toda escolha no quadro das necessidades da produção. Nível de bem-estar, casa, transportes, escola, segurança, são agora problemas que o próprio capital é obrigado a resolver para tornar o trabalho mais produtivo e a capacidade de consumo mais alta. Embora o movimento operário conserve suas tradições ideológicas e acredite salvar a própria independência de classe, ampliar o próprio poder, basta que mal e mal aceite a finalidade produtiva do sistema, e eis que é apanhado na armadilha, fortalece o sistema em lugar de enfraquecê-lo. Sabemos que as modernas teorias da produtividade empresarial (Melman) já contemplam dois elementos de decisão necessários: os dirigentes de empresa e a força de trabalho. Uma conduta empresarial baseada na participação da força de trabalho nas decisões é característica da época do oligopólio e do planejamento, assim como o taylorismo era característico da época da concorrência. Tudo o que parece conquista do operário já está predisposto e orçado há tempos pelo capital: toda perspectiva operária de interferir nos planos do sistema obriga a fazer o jogo da produção e do consumo, isto é, a reiterar as próprias cadeias.
Já indicamos, no final do capítulo 1, uma possível contraposição ao sistema de uma antítese externa, quase diríamos extra-histórica, catastrófica. Podemos agora afirmar que a postura B se identifica tendencialmente com essa imagem, embora procurando fazer com que caiba ali a figura tradicional e elementar da antítese operária. Entre as observações sobre a realidade italiana que examinamos no capítulo 2, a postura B encontra sua confirmação especialmente na nova tensão que se produz entre a cidade industrial e as massas de imigrantes (mesmo as jacqueries, as revoltas da irritação camponesa do Sul podem reviver no cenário transformado da metrópole: como vimos em Turim, nos “episódios da Piazza Statuto” de julho de 1962) e, em geral, em todas as situações (nada raras, quando uma consciência empírica e espontânea amadurece antes de uma consciência refletida e organizada) em que os sindicatos e os partidos são deixados para trás por inesperadas iniciativas de luta operária. Nessas situações, como nas renovadas provas de combatividade e solidariedade de classe a que assistimos a cada greve declarada por motivos até particulares, é reconhecida a manifestação de uma pura autoafirmação de classe, um potencial de negação do sistema para lá de toda proposta de solução, a recusa de submeter-se à chantagem da produção, a prova de que o aperfeiçoadíssimo mecanismo pode ser desmantelado.
Essa postura difere daquela tradicional do extremismo revolucionário, ligado a um cenário de crise, fome e catástrofe geral em que o operário “nada tem a perder a não ser os próprios grilhões”. Ao contrário, ela está ligada ao clima da affluent society, quando a abundância de bens é grande a ponto de constituir quase uma condição da natureza, e apresenta-se (ao menos para a imaginação) a possibilidade de uma revolução como vacância do sistema, pura autoafirmação existencial, uma revolução destrutiva que não tem nenhuma pressa de passar à fase de planejamento construtivo. (Não é inapropriado notar uma possível correlação com aquilo que eu disse acima, ao examinar as posturas literárias, ao falar da beat generation.)
Uma comparação entre as posições A e B só pode partir de um confronto de ambas com o sistema: em que medida compreendem sua realidade, em que medida podem incidir nela. A primeira objeção previsível contra A é certamente perguntar se ela não se aproxima demais da tradicional linha reformista, isto é, se não acaba reduzindo ao mínimo a força da antítese, e para identificar-se com o sistema. A primeira objeção contra B será, antes, se, ao contrário das aparências, não teria ela excessiva confiança na capacidade de renovação do sistema, não contribuiria para criar a mitologia do “neocapitalismo”, generalizando e dando já como vitoriosas tendências racionalizadoras e planejadoras nem um pouco afirmadas em seu interior, e atribuindo-lhes um puro significado negativo, na medida em que são identificáveis com a própria essência do sistema. Levando-se em conta essas objeções, procuremos traçar as linhas de uma avaliação geral.
A realidade da situação atual poderia sinteticamente ser assim representada:
existe um impulso racionalizador dentro do sistema industrial capitalista, que se esclarece toda vez que a ciência e a técnica, em lugar de serem usadas como instrumentos cegos, conseguem fazer seus projetos coincidirem com os interesses da sociedade humana, isto é, com uma perspectiva de cultura universal; esse impulso não tem muitas possibilidades de triunfar exclusivamente por suas próprias forças, porque sempre acabará se chocando contra os interesses particularistas entranhados no capitalismo;
existe um impulso racionalizador próprio da classe operária, que provém de seu sentir-se artífice e potencialmente árbitro de um sistema que poderia ser instrumento determinante na transformação do mundo mas que, ao mesmo tempo, é subjugado por esse sistema, instrumentalizado, impedido de se voltar para fins universais; um impulso que, quando se fortalecer com uma perspectiva clara e com uma capacidade de articular a própria ação organizada numa estratégia geral, pode somar-se ao impulso racionalizador interno ao sistema, sem o perigo (“reformista”, em sentido tradicional) de anular-se nele, mas, antes, com a possibilidade de talvez reverter a relação entre os dois termos;
existe um impulso catastrófico próprio do sistema, como tendência a um reino cego das coisas, quer no sentido de um inferno produtivista-tecnológico, quer no sentido do inferno da destruição atômica; esse impulso pode ser vencido (de início, temporariamente; depois, definitivamente) pela aliança do impulso racionalizador do próprio sistema com o impulso racionalizador da classe operária;
existe um impulso catastrófico (não na classe operária, mas) nas contradições que o sistema cria e não sabe resolver e, aliás, leva a se agravar até a explosão natural; impulso de forças humanas exploradas e excluídas, das quais a classe operária é a ponta avançada; e que pode ser chamado catastrófico no sentido de que, se as premissas de uma nova sociedade universal são fundadas com um máximo de desperdício — nos frutos do trabalho humano, no patrimônio das experiências e da cultura —, não há valor apocalíptico ou palingenético ou apenas moralista que valha como compensação; impulso que não pode esperar a vitória a não ser entrando no jogo do impulso catastrófico do sistema.
O impulso racionalizador é a vocação natural da classe operária; o impulso catastrófico é a vocação natural do sistema abandonado à cega “força das coisas”. O impulso racionalizador do sistema tem constante necessidade do impulso racionalizador da antítese operária; o impulso catastrófico da antítese é uma projeção da má consciência do sistema.
Dentro do sistema, o impulso racionalizador é antitético ao catastrófico; se o primeiro se serve do segundo, é apenas como indicação de alternativa a ser receada ou evitada. Na classe operária, o impulso racionalizador pode conglobar o impulso catastrófico, transformando-o numa pressão de antítese construtiva.
Entre os impulsos racionalizadores do sistema e da classe operária pode-se instaurar uma dialética que necessariamente produzirá história; entre os impulsos catastróficos, podemos estabelecer uma soma cujo resultado poderia ser tanto o zero da estase como o zero da destruição.
Desenhado esse paralelogramo das forças históricas, podemos tornar a examinar o quadro das tendências culturais com uma consciência crítica renovada. Meus apontamentos não pretendem ir além de uma disposição inicial de materiais: a relação entre o impulso histórico-social da antítese operária, como procuramos redefini-lo agora, e os impulsos culturais é uma figura ainda aberta.