Assunto Encerrado
A literatura como projeção do desejo ⠀倀愀爀愀 愀 䄀渀愀琀漀洀椀愀 搀愀 挀爀琀椀挀愀 Ⰰ 搀攀 一漀爀琀栀爀漀瀀 䘀爀礀攀)
A LITERATURA COMO PROJEÇÃO DO DE SEJO (PARAA
ANATOMIA DA CRÍTICA, DE NORTHROP FRYE)
Libri Nuovi º , n 5, agosto de 1969.
Como leitor recente de Anatomy of criticism, de Northrop Frye (agora traduzido na PBE
[Piccola Biblioteca Einaudi]13), comunicarei aos outros leitores recentes ou próximos algumas impressões e alguns conselhos. A premissa é que meu discurso será totalmente subjetivo: cada pessoa tira de um livro o que precisa, sobretudo em se tratando de obra rica e complexa como essa.
A página em que eu percebi que esse era um livro importante para mim é a de número 139 da tradução italiana:
A civilização não é simplesmente imitação da natureza, mas um processo de construção de uma forma humana total mediante elementos da natureza, e é impelida por aquela força a que chamamos desejo. O desejo de comida e de casa não é satisfeito pelas raízes e pelas cavernas; produz aquelas formas humanas de natureza que definimos como cultivo e arquitetura. O desejo, portanto, não é uma simples resposta à necessidade, pois um animal pode ter necessidade de comida e obtê-la sem cultivar os campos; nem é simplesmente a resposta à falta ou desejo de alguma coisa específica. Não é nem limitado nem satisfeito pelos objetos, mas é uma força que leva a sociedade humana a desenvolver sua forma peculiar. Nesse sentido, o desejo é o equivalente social do que a emoção é em âmbito literal, vale dizer, um impulso rumo à expressão que teria ficado amorfo se a poesia não o tivesse libertado, dotando-o da forma para se expressar. Do mesmo modo, a forma do desejo é liberada e tornada aparente pela civilização. A causa eficiente da civilização é o trabalho, e a poesia, do ponto de vista social, tem o objetivo de expressar, como hipótese verbal, a visão da meta do trabalho e das formas do
desejo.14
Esse discurso especifica uma das afirmações centrais de Frye: “O crítico arquetípico estuda uma poesia como parte da poesia em geral, mas também a estuda como parte da total imitação humana da natureza a que chamamos civilização”.
Por que essa passagem me interessa? Porque nela, com uma linguagem que desperta ecos ilustres, torno a encontrar temas que sempre me importaram muito mas que cada vez menos consigo manter unidos num discurso coerente. Dos hábitos de uma leitura “historicista”, que me garantia a inserção da literatura no contexto da atividade humana — mas, para me garantir isso, mistificava tanto a literatura como a história —, passei a buscar maneiras de ler a literatura mais internas a seu objeto e que, por isso mesmo, sinto como não mistificadoras; mas elas não cobrem o vazio que ficou no lugar daquela inserção. Sei que nem por isso tenho de me apressar em negar que esse lugar existe; talvez acabe aparecendo no fim de um longo caminho; mas também sei que preciso me conter o mais possível para não colocar a questão, se não quiser romper o encanto racional do rigor metodológico.
A leitura do crítico canadense chega hoje em boa hora para ligar essa ordem de preocupações com aquela explicitada pela problemática filosófico-sociológico-psicológica mais discutida neste momento. A remissão ao elemento do desejo, que encontra na literatura as formas para se projetar além dos obstáculos que depara em seu caminho, parece uma proposta totalmente atual, baseada que é na rejeição da impossibilidade de viver o presente e na tensão em relação ao projeto de uma sociedade desejável.
Claro, uma interpretação tão otimisticamente sistematizante me pareceria suspeita em qualquer outro contexto; mas aqui estamos no centro de um vasto retículo de classificações e de hipóteses; talvez seja apenas porque essa é a página 139, e não uma das primeiras ou das últimas (isto é, nem uma declaração de princípios, nem uma conclusão), que o discurso mereça ser acompanhado em todas as suas ramificações, ou alargado em círculos concêntricos mediante os vários capítulos. Além disso, o trecho também pode valer como especificação e eventual correção da imagem que mais facilmente criamos a respeito de Frye: o crítico que interpreta as funções literárias com base na antropologia, o teorizador do “ciclo sazonal”, das correspondências entre gêneros literários e ritos agrícolas, alguém, portanto, de quem podemos esperar, na melhor das hipóteses, uma operação nobremente arcaizante, que utiliza a literatura, seja para confirmar a imutabilidade da natureza humana, seja para demonstrar a ciclicidade do movimento histórico ou de seu finalismo.
Mais que me apressar em estabelecer quem seria o verdadeiro Frye, agora para mim é útil frisar uma das oposições em que a Anatomia da crítica se baseia: aquela entre rito e sonho. A uma correspondência das formas literárias com as práticas rituais, isto é, à utilização técnica e institucional do mito, Frye contrapõe (ou integra, emparelha: nele, esses movimentos nunca são nítidos e unívocos) a correspondência com o sonho, a produção do desejo e da repugnância em contraste com o quadro das instituições vigentes. É nessa chave que gosto de ler o livro, mais que naquela — também legítima, aliás — de um Frye “cíclico” (mais exato seria dizer um Frye descritor da concepção cíclica do mundo que a literatura expressou) ou de um Frye “teleológico” (não esqueçamos que esse historiador e geógrafo do desejo humano é um pastor protestante).
Por exemplo, permanece aberto o caminho para um estudo do símbolo cidade da Revolução Industrial em diante, como projeção dos territórios e dos desejos do homem contemporâneo. Frye diz que a cidade é a forma humana do mundo mineral, em suas imagens apocalíptico-paradisíacas (cidade de Deus, Jerusalém, arquitetura ascendente, sede do rei e da corte) ou demoníaco-infernais (cidade de Dite, cidade de Caim, labirinto, metrópole moderna). Mas resta dizer que, nas relações entre mundo humano, mundo animal-vegetal e mundo mineral, muitas mudanças aconteceram durante os últimos duzentos anos: mudanças sintáticas e na atribuição de valores, que deveriam ser verificadas no âmbito tanto do imaginário literário como do social. Desenvolvimentos e prolongamentos dessa espécie, a Anatomia da crítica permite e sugere muitos; é um livro de contínuos impulsos centrífugos, aos quais é preciso por vezes resistir, para não perder o fio de seu percurso global.
Aconselharia concentrar em primeiro lugar a leitura nos “modos de invenção” trágica e cômica, no símbolo como arquétipo, nas imagens apocalípticas e demoníacas, e nos mythoi das quatro estações. Com esses capítulos, o leitor assegura-se do controle do principal fio condutor do livro, que poderá, então, especificar e integrar ampliando a área da leitura e aprofundando-se nos temas.
Seguir esse fio significa repercorrer a história da literatura como representação da exclusão da sociedade e da incorporação na sociedade. Deuses excluídos da sociedade dos imortais e destinados a morrer; heróis aceitos na sociedade dos deuses; a natureza como sociedade ideal que chora o herói morto (na elegia) ou acolhe o herói fugitivo (na pastoral); a queda do rei ou do chefe na tragédia; a construção de uma nova sociedade na comédia aristofanesca, e — da comédia de Menandro e de Plauto em diante — o casal de noivos como núcleo de uma sociedade de jovens que triunfa sobre os obstáculos interpostos pelos velhos; a derrota de Julien Sorel ou de Emma Bovary na escalada de uma sociedade que não é a deles; o herói irônico e intelectual que exclui a si mesmo da sociedade; ou então o inimigo que, como bode expiatório ritual, é achado e excluído.
O exame da história da criação literária sob o ponto de vista dos dois “modos” principais, trágico e cômico, permite que Frye identifique o personagem do excluído da sociedade, quer quando a obra poética toma o seu partido (modo trágico, mesmo quando aparece na comédia ou na poesia romântica ou no romance naturalista), quer quando ele é visto como o inimigo a ser expulso, a vítima ridícula ou repugnante, o pharmakós (modo cômico, mesmo em contextos distantes da comédia). Isso vale tanto se o excluído ou autoexcluído for o herói como se for o próprio poeta, em primeira ou interposta pessoa; a literatura moderna abre aqui uma casuística desse movimento de “ironia” ou autoexclusão.
A identificação do inimigo a ser expulso é também o mecanismo do romance policial, mas aqui Frye (p. 64) alerta para a função “propagandística” (pela legalidade policial da sociedade constituída) que tem toda forma literária em que o inimigo é identificado em alguém fora da sociedade (convenção melodramática), ao passo que a função da ironia cômica autêntica é definir “o inimigo da sociedade como um espírito interior a ela”.
As partes mais vivas do livro, aquelas em que encontrei ideias para mim mais novas e estimulantes, são todas as que dizem respeito à comédia, as quais culminam num capítulo sobre o mito primaveril. As partes mais ricas de fascínio para o material em boa parte insólito que põem em jogo são aquelas sobre o romance. Os capítulos sobre a tragédia reservam menos surpresas, dado que sobre ela tudo parece já ter sido dito. A ironia e a sátira talvez sejam o campo mais pessoal da indagação fryiana, e a essa altura o discurso se torna mais complexo, permanecendo aberto mais como uma série de sugestões que como visão orgânica.
As densas exemplificações de Frye provêm sobretudo da Bíblia, em primeiro lugar, dos poemas homéricos, das tragédias e especialmente das comédias gregas e latinas, da Idade Média cavalheiresca e sapiencial, de Dante, Spenser, muito Shakespeare, em particular das comédias, muito Milton, e de muitos romances dos séculos XVIII e XIX, sobretudo ingleses, com não raras incursões no Novecentos maior e menor (também o cinema tem sua parte). Diante dos olhos do leitor flui um discurso todo entretecido de referências distantes entre si no tempo e no espaço, mas entre as quais o autor não deixa de estabelecer correspondências e parentescos. Isso já garante que uma primeira leitura ou rápida incursão, na poltrona, sem nunca voltar ou parar para resumir, pode ser bastante prazerosa e episodicamente instrutiva. Frye denomina “ensaios” seus capítulos, e tem certa razão para fazê-lo; podemos seguir suas divagações como as de um ensaísta, colher nelas uma unidade essencial de clima intelectual e não pedir mais.
Se passamos à leitura sistemática, à mesa, procurando fixar em esquemas sinópticos as classificações e repartições de que cada capítulo se encontra repleto, vemo-nos diante de um livro muito mais difícil do que parecia, e em certos momentos frustrante. O crítico canadense é habitado por um demônio classificatório e enumerativo: quer construir sistemas dos quais nada escape. Por isso, a cada capítulo propõe novos esquemas com terminologia diferente, mas sempre um tanto oscilante, ou melhor: apenas ligeiramente diferente ou com diferentes acepções para os mesmos termos, e entre um esquema e outro traça redes de correspondência (por exemplo, aos cinco modos definidos no primeiro ensaio correspondem as cinco fases do segundo, mas na ordem inversa); além disso, nunca perde de vista os sistemas de classificação aristotélica e aqueles medievais, e os sobrepõe e compara aos seus. Enfim, acumula uma série de peneiras que deveriam peneirar tudo ao mesmo tempo, toda literatura em seu conjunto, e também peneirar-se entre si.
Diríamos que nele se desenrola uma luta entre a paixão pelas divisões rígidas e a sensibilidade do crítico que percebe continuamente dimensões que escapam a toda esquematização e o impelem a acrescentar novos esquemas. E esse demônio sistemático, ele um pouco o ostenta, um pouco o esconde entre as divagações, as abordagens por ângulos diferentes, além de certo veio loquaz que de vez em quando toma a dianteira. (Existe, ai de mim, também um Frye apenas falador, como fica provado por outro livro dele recém-traduzido para o italiano, Cultura e miti del nostro tempo, das edições Rizzoli, três conferências por ocasião do centenário da confederação canadense.) É sintomático que também um estudioso assíduo de Frye, de quem há um ano partira o convite mais persuasivo para entrar no mecanismo desse livro (Gianni Celati, “Il sogno senza fondo”, º Quindici , n 9), tenha nesse
meio-tempo se orientado — como demonstra um artigo mais recente 15 — em direção a uma leitura e utilização não sistemática da Anatomia (mas nem por isso menos complexa). Para mim, crer no Frye sistemático e começar a traçar esquemas sinópticos significou encontrar-me diante de emaranhados de linhas inextricáveis e tornar a me entregar à leitura “ensaística”.
Aqui, tocamos o ponto crucial das avaliações sobre a crítica de hoje: uma possível “cientificidade” da crítica. Sem dúvida, a crítica anglo-saxônica, mesmo a mais rigorosa, acaba por parecer agradavelmente ensaística desde que o estruturalismo francês nos acostumou, nos últimos anos, a uma formalização muito mais redutiva e austeramente esquálida dos procedimentos da leitura. Comparemos o Frye catalogador de elementos do romance medieval com um recente ensaio estruturalista sobre a “Quête du Graal” (Tzvetan Todorov, “La quête du récit”, º Critique , março de 1969, n 262). Ali onde Frye, lidando com uma vegetação fervilhante de símbolos, sempre parece correr ofegante atrás das lebres que fogem por todo lado, Todorov vê diante de si um mundo linear e simétrico, onde executa movimentos de exata elegância e economia: dos três níveis de significado que nesse romance francês do século XIII se remetem um ao outro, nenhum deles tem um sentido a não ser na relação com os outros dois; a busca do Graal nada mais é que a busca do conto. Enquanto Frye abre um jogo de espelhos pelo qual em toda obra se reflete a enciclopédia da civilização humana, Todorov fecha a obra sobre si mesma, sem janelas para olhar para fora, excluindo, aliás, metodicamente a existência de um “fora” que possa ser observado.
Talvez a análise crítica que eu busco seja aquela que não aposta diretamente no “fora”, mas, explorando o “dentro” do texto, consegue se aprofundar em sua marcha centrípeta, a abrir para o “fora” dos relances inesperados. Resultado que não depende tanto do método quanto da maneira como o empregamos: o ascetismo a que me submeto para entrar no “universo semântico” de Greimas, que reduz e racionaliza ao extremo as já esqueléticas fórmulas de Propp, é recompensado pela satisfação de ver que o “modèle actantiel” permite confrontar o comportamento de Ivan, o bobo da aldeia, com o do investidor econômico numa pesquisa sociológica, isto é, permite estabelecer relações entre tipos de experiências que de outro modo eu não conseguiria vincular (A. J. Greimas, Semantica strutturale, Milão: Rizzoli, 1969, cf. pp. 220-2).
Se continuo a ler livros de crítica, é porque espero sempre que eles me surpreendam dessa forma. A maior de todas as surpresas foi encontrar, escondido num capítulo do Dostoievsky de Bakhtin (pp. 159-72 da tradução italiana, Turim: Einaudi, 1968), um modelo de “revolução permanente” que — visto como próprio da Antiguidade e da Idade Média — poderia muito bem ser proposto como sociedade do futuro, o único modelo que responderia a todas as exigências que não conseguimos conformar juntas: uma sociedade fundamentada na alternância regular de períodos eversivos de Carnaval-consumo e períodos de austeridade produtiva.
Todo verdadeiro livro de crítica pode ser lido como um dos textos de que trata, como um tecido de metáforas poéticas; assim é também com Frye. Que estejamos tentados a estender também para fora da literatura criativa seus instrumentos de análise é natural, indo além de seu capítulo “La retorica della prosa non-letteraria”, isto é, procurando compreender que dimensão têm os modos, os símbolos, os arquétipos literários em todo discurso humano, em todo modelo teórico, em toda visão de mundo. Lembro-me de um livro americano que li alguns anos atrás (Stanley E. Hyman, The Tangled Bank: Darwin, Marx, Frazer and Freud as imaginative writers, Nova York: Athenaeum, 1962). O autor enfrentava a obra de quatro inovadores do pensamento do século XIX como se fossem obras de imaginação, cosmogonias míticas, poemas, tragédias, ciclos romanescos; e neles destacava os personagens, as situações, as imagens, os conflitos, o sentido da natureza sem jamais desatrelar-se dos métodos da crítica literária. Tratava-se apenas de um divertimento sofisticado? Devo dizer que, para mim, o livro de Hyman ficou como uma utilíssima aula de leitura.
E penso que também Frye tivesse algo a ver com aquilo — ele, que em boa parte de sua Anatomia ensina como também os livros sacros devem ser lidos pelo crítico literário exclusivamente como obras literárias. Isso, para um clergyman, não é pouco: aliás, se o tom de Frye assume as colorações vibrantes da controvérsia religiosa, é justamente quando condena a tendência de Coleridge a transformar a crítica numa teologia natural.
Ainda assim, existe um ponto em que o universo literário e o universo religioso de Frye se encontram: ambos, com efeito, são universos biblicocêntricos. No capítulo sobre “formas enciclopédicas”, Frye considera a Bíblia (Velho e Novo Testamento) uma estrutura arquetípica completa, além de um compêndio de todas as maneiras, símbolos e mitos da literatura mundial. Aobjeção que podemos fazer, do ponto de vista da crítica literária, é que a Bíblia não é um livro, mas uma biblioteca, ou seja, uma seleção de livros postos um ao lado do outro aos quais se dá um particular valor global e em torno dos quais se ordenam todos os outros livros possíveis.
A noção de “biblioteca” não é parte da terminologia fryiana, mas bem que poderia ser acrescentada a ela. A literatura não é feita apenas de obras isoladas, mas de bibliotecas, sistemas em que as diversas épocas e tradições organizam os textos “canônicos” e aqueles “apócrifos”. Dentro desses sistemas, cada obra é diferente de como seria se estivesse isolada ou inserida em outra biblioteca. Uma biblioteca pode ter um catálogo fechado, ou pode tender a se tornar a biblioteca universal, mas sempre se expandindo ao redor de um núcleo de livros “canônicos”. E é o lugar onde reside o centro de gravidade que diferencia uma biblioteca da outra, muito mais do que o catálogo. A biblioteca ideal para a qual eu tendo é aquela que gravita em direção ao exterior, em direção aos livros “apócrifos”, no sentido etimológico da palavra, isto é, os livros “escondidos”. A literatura é busca do livro escondido distante, que muda o valor dos livros conhecidos, é a tensão em direção ao novo texto apócrifo a ser reencontrado ou inventado.