Assunto Encerrado
Italiano, uma língua entre as outras línguas
Rinascita (no suplemento mensal Il Contemporaneo), 30 de janeiro de 1965. Este artigo, bem como o seguinte, fazia parte de um debate sobre a língua italiana, ou melhor, sobre o novo italiano “tecnológico”, como o tinha definido Pier Paolo Pasolini numa conferência proferida em diversas cidades e depois publicada em Rinascita (26 de dezembro de 1964). Pasolini, que no passado negara a existência do italiano como língua falada de uso geral, anunciava que agora havia mudado suas convicções: a língua italiana tinha começado a existir e era “a língua da produção e do consumo” surgida nas grandes empresas, que “homologa todo tipo de linguagem da koiné italiana”, no sentido da comunicação em detrimento da expressividade. A tese de Pasolini teve muita repercussão na imprensa diária e periódica. Rinascita dedicou um número de seu suplemento Il Contemporaneo (na época dirigido por Michele Rago) à discussão sobre a língua, com a participação de, entre outros, Vittorio Sereni, Elio Vittorini, Franco Fortini. A essa minha participação, assim como à seguinte (“A antilíngua”, p. 1481), Pasolini replicou animada e repetidamente, sempre em Rinascita (6 de março de 1965), no artigo “Diario linguistico”. Todos esses escritos linguísticos de Pasolini, de 1964-65, estão agora reunidos em seu volume Empirismo eretico , Milão: Garzanti, 1972. Todas as intervenções dos que participaram da discussão nos diversos jornais foram reunidas no volume La nuova questione della lingua, org. O. Parlangeli, Brescia: Paideia, 1971.
H oje, a situação da língua italiana não pode ser estudada isoladamente, nem mesmo em contraposição genérica às grandes línguas europeias tomadas em bloco, mas deve ser vista no quadro linguístico mundial atual. Quadro que é inteiramente problemático: não há língua que possa se dizer perfeitamente funcional em relação às exigências da civilização moderna: nem o francês, nem o alemão, nem o russo, nem o espanhol, e nem sequer (embora por razões opostas) o inglês. Para não falar das áreas linguísticas que têm problemas bem mais graves: na África, na Ásia e na própria Europa.
Sei muito bem que essas afirmações deveriam ser fundamentadas em análises que poderia esboçar só de maneira aproximativa e que solicitariam de todo modo a confirmação dos especialistas. Por enquanto, limito-me a antecipar, a título de hipótese, algumas observações empíricas, partindo do ponto de vista de minha base de observação: a editoria de livros italianos e estrangeiros.
Se afirmei que não há língua que hoje não tenha graves problemas, não foi para extrair daí a conclusão de que não temos muito do que nos queixar do italiano; embora alguma vantagem temos de admitir que temos. Por exemplo, a grande ductilidade do italiano (essa língua que é como de borracha, com a qual temos a sensação de poder fazer tudo o que quisermos) permite-nos traduzir das outras línguas um pouco melhor do que seria possível fazê-lo em qualquer outra língua. Naturalmente, é uma vantagem que tem por contrapartida uma desvantagem quase igualmente grave: o italiano é uma língua isolada, intraduzível. Uma boa tradução italiana de um livro estrangeiro (vamos nos referir ao campo em que tudo é mais difícil: a literatura) pode conservar algum saborzinho do original; um livro de escritor italiano traduzido o melhor possível para qualquer outra língua conserva, do seu sabor original, parte muito menor, ou absolutamente nada. (Deriva daí a fortuna no exterior de vários escritores italianos que, “quando traduzidos, lucram”.)
Mas atenção! Mesmo a vantagem de traduzir para o italiano é relativa e parcial: por exemplo, quanto mais adentramos a língua falada, popular, sobretudo no caso das línguas que têm uma dimensão de gíria, mais o italiano falha, porque no âmbito popular ele logo se excede no localismo e no dialeto, ao passo que no âmbito da conversação familiar, brincalhona, “burguesa”, sempre é maçante e — como o costume muda o tempo todo — imediatamente “datado”. (O “italiano médio”, como bem afirma Pasolini, é uma língua “impossível, infrequentável”.)
Os da literatura ainda seriam danos menores ou, de todo modo, previsíveis. Quem lê literatura traduzida já sabe que está fazendo alguma coisa aproximativa. A escritura literária consiste cada vez mais num aprofundamento no espírito mais específico da língua (em suas pontas extremas de uma máxima expressividade ou neurose linguística e de um máximo de anonimidade, de neutralidade “objetal”), o que a torna cada vez mais intraduzível.
Passemos, portanto, à língua da comunicação e vejamos como vão as coisas no campo da comunicação cultural. Nele, o problema é dispor do equivalente italiano de um determinado “código” linguístico, específico de um determinado campo de estudos ou de uma determinada escola ou tendência. Problema que apareceu muitas vezes e que muitas vezes foi resolvido; importante é que o “código” a ser introduzido em nossa língua seja um sistema rigoroso, e que seja usado com rigor. Disso depende o êxito mais ou menos feliz dos resultados.
Mas vejamos os problemas do tradutor estrangeiro de um escrito italiano: de teoria, de crítica, ou apenas de informação. Aqui, a ductilidade do italiano já não é um socorro, mas um obstáculo, e logo se mede a distância que separa as línguas e as culturas. Para fazer um anglo-saxônico (mas também um francês!) entender o que queremos dizer com a palavra história, que repetimos em todos os contextos, é necessário um esforço enorme: e, frequentemente, apenas para concluir que é intraduzível. Claro, fora da Itália, algumas “chaves” fundamentais da cultura italiana (Croce, por exemplo) não foram conhecidas em sua época, e por conseguinte não são conhecidos os vários destinos que os termos de um dado “código” tiveram. (Também a dificuldade de fazer conhecer Gramsci é desse tipo.) Esses são os prejuízos do isolamento cultural em que vivemos por tanto tempo, mas não adianta seguir chorando sobre o leite derramado. Vejamos a situação a partir de hoje, supondo um tradutor capaz de reconstituir com clareza qualquer “código”. O problema é que os italianos, em sua enorme maioria, escrevem sem “código”, ou seja, com diversos “códigos” ao mesmo tempo. Acumulam termos e termos das mais diversas proveniências; muitos desses termos deitam raízes, desenvolvem uma história italiana própria; e quem os emprega se refere a essa sua história interna, alude, é um jogo de requinte e ao mesmo tempo de ambiguidades. Fazer o quê? Entre nós, sempre nos entendemos. E, quando somos traduzidos, qual pode ser o resultado disso? Nenhum.
Por exemplo: digamos que eu quisesse mandar traduzir em francês ou inglês este meu escrito. Deveria reescrevê-lo inteirinho, talvez reconsiderá-lo, consultando uma pessoa daquela língua. E eu ainda sou alguém que usa as palavras com prudência (isso também é um problema, porque tenho muitas maneiras de esfumar uma afirmação, quando não estou tão certo do que quero, e todas essas precauções se perdem em tradução: aparece uma expressão ou genérica ou incisiva demais). Mas, se alguém pisa mais fundo ao utilizar termos provenientes de “códigos” diferentes (como Pasolini, que os transforma num minucioso “collage” nacional e internacional), precisaria, quando traduzido, de uma nota para cada palavra.
É um inconveniente irrelevante? Eu acredito, ao contrário, que seja muito grave. Hoje, cada questão cultural é imediatamente internacional e precisa ser imediatamente verificada em escala mundial, ou pelo menos numa série mundial de pontos de referência. Sobretudo em política, naturalmente. Por exemplo, em Rinascita, com frequência são publicados artigos que dizem coisas novas não só no âmbito italiano, mas também interessantes para a esquerda internacional. Todavia, são linguisticamente intraduzíveis.
Aonde quero chegar com esta minha conversa? Estou querendo dizer que, antes de escrever na própria língua, é preciso pensar em outra língua, ou numa espécie de esperanto que seja bom para todos? Uma pretensão dessa espécie, para a nossa como para qualquer outra língua, equivaleria a castrar o pensamento, achatá-lo, privá-lo da capacidade de destacar nuances, desenvolver intuições sutis. As línguas nacionais, embora todas elas estejam hoje — tenham consciência disso ou não — em crise, sobreviverão ainda por alguns séculos, precisamente por sua característica como instrumento de liberdade e de criatividade por enquanto insubstituível; e também, precisamente, porque cada língua tem limites, mas também possibilidades que são exclusivamente suas.
O que eu quero dizer é que quem escreve para fins de comunicação deveria (estou falando também para mim) o tempo todo perceber o grau de traduzibilidade, isto é, de comunicabilidade das expressões que utiliza. E não estou fazendo um dos habituais apelos para que se “escreva com clareza”, que sabemos ser com frequência uma pretensão filisteia: escreve-se com clareza quando é possível fazê-lo, mas há coisas complexas (ou ainda não esclarecidas) que procuramos dizer da única maneira que temos à disposição. Porém, sempre é preciso ter consciência dos limites da linguagem que utilizamos: calcular a parte que é traduzível em nosso discurso, e a parte que não é, e por que não é. Se conseguimos nos ler enquanto escrevemos (há muitos, mesmo entre escritores, que não são capazes de ler a si próprios nem enquanto escrevem, nem depois; veem na folha uma nuvenzinha com seus pensamentos dentro, e não as palavras escritas), se conseguimos nos desdobrar e nos multiplicar em leitores diferentes e acostumados a utilizar outros “códigos”, poderemos também fazer discursos dificilmente traduzíveis, mas sabendo que estamos fazendo isso. Então, talvez a complexidade linguística como limitação poderá ser transformada em complexidade linguística como riqueza, como capital tesaurizável da língua.
Hoje, a linguagem política italiana complicou-se demais, tornou-se técnica, intelectualizada, e acredito que tenda a se unir num arco que compreende católicos e marxistas, dos departamentos de estudo à la Aldo Moro aos sindicatos de classe. É a linguagem “tecnológica” cujo nascimento Pasolini descreveu? A mim, parece, pelo contrário, que uma terminologia que deseja ser especializada mas não consegue ser unívoca e uma sintaxe ramificada e sinuosa fazem dessa linguagem um instrumento útil mais para não dizer do que para dizer. É uma linguagem que, aos verbos que indicam uma ação precisa, direta e concreta, prefere sistematicamente os que só fazem pôr em relação substantivos que indicam abstrações, cujo significado só pode ser definido pela construção da frase. É uma linguagem em que podemos colocar lado a lado frases longuíssimas sem um substantivo concreto ou um verbo de ação (coisa que outrora, acredito, acontecia apenas na língua alemã).
Isso, nos níveis mais altos. No nível mais banal, há a linguagem “objetiva” do telejornal, quando resume os discursos dos líderes políticos: todos reduzidos a mínimas variações da mesma combinação de termos anódinos, incolores e insossos. Enfim, o vocábulo semanticamente mais pobre sempre é preferido ao vocábulo semanticamente mais denso.
E a política exerce influência decisiva na maneira de falar de quem quer que fale para “dirigir”: tenho a impressão (mas, neste ponto, saio de minha experiência direta e posso ser alvo de desmentidos ou complementações) de que, mesmo nas mesas dos conselhos administrativos, dos comitês técnicos, das reuniões de representantes comerciais, não se fala de maneira diferente.
Em minha opinião, um desenvolvimento “tecnológico” do italiano pode ser notado sobretudo no âmbito da terminologia mecânica, por exemplo. (O nome de cada peça, até a mais mínima, de um carro é igual na Itália inteira e usado diariamente por todo operário mecânico, ao passo que a terminologia agrícola era totalmente diferente de uma região para outra; mas, para muitas profissões artesanais — por exemplo, para os tipógrafos —, um léxico unitário e preciso não pode ser tomado como um fato novo; nem seria um fato novo para a marinha etc.)
No campo da linguagem teórica, os vícios de cem anos de burocratização do italiano são mais virulentos do que nunca e, até este momento, levaram a melhor sobre qualquer impulso “tecnológico”. Se há um enriquecimento contínuo de termos tirados dos estudos especializados (processo em curso há um bom tempo no italiano), o que é adquirido pela língua não é um rigor lexical, mas apenas suas imagens sonoras, não é a satisfação de estreitar a realidade de modo a não deixá-la escapar, mas um novo sistema de alusões, não é o fundamental caráter democrático da relação técnica com as coisas, mas um novo sotaque da Autoridade.
Minhas conclusões, portanto, estão em desacordo com as conclusões de Pasolini. Mas antes tenho de dizer que, em seu escrito, encontrei muitas coisas estimulantes e verdadeiras, na abordagem geral, em algumas das rápidas análises estilísticas (nas quais ele não fala de mim, infelizmente) e em diversas observações marginais. Quanto à afirmação de Pasolini de que “nasceu o italiano como língua nacional”, saúdo-a como nova e bem-vinda página de sua poética, mas não compartilho dela como um fato. Talvez porque, antes, nem sequer compartilhava da afirmação de que o italiano não existia (o “italiano” existe como fenômeno linguístico único no seu gênero, diferente do fenômeno “francês”, do “inglês” etc., por sua vez diferentes entre si), nem nunca pensei que os dialetos (esses dialetos decaídos, desgastados, enfáticos, corrompidos) fossem, ao contrário, a saúde e a verdade. Mas também aquilo de que mais compartilho no discurso de Pasolini — a intolerância ao “italiano médio” — me faz recusar a ilusão de que tenha acontecido alguma coisa radicalmente nova.
Meu ideal linguístico é um italiano que seja o mais concreto e o mais preciso possível. O inimigo a ser vencido é a tendência que os italianos têm de usar expressões abstratas e genéricas. Para se desenvolver como língua concreta e precisa, o italiano teria possibilidades que muitas outras línguas não têm. Mas a necrose que tende a fazer dele um tecido verbal em que nada se vê ou se toca o está excluindo do número das línguas que podem esperar sobreviver aos grandes cataclismos linguísticos dos próximos séculos.