Assunto Encerrado

Italo Calvino · Capítulo 28 de 44

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Definições de territórios: o erótico ⠀伀 猀攀砀漀 攀 漀 爀椀猀漀)

DEFINIÇÕES DE TERRITÓRIOS: O ERÓTICO (O SEXO E O

RISO)

 

20th Century Studies º , n 2, Canterbury, 1969, com o título “Considerations on sex and laughter”, tradução para o inglês de Guido Almansi. O número da revista era dedicado a “The treatment of sexual themes in the modern novel”. O original italiano foi publicado em seguida pelo º Caffè , n 2, julho-setembro de 1970.

Em literatura, a sexualidade é uma linguagem em que aquilo que não é dito é mais importante do que aquilo que é dito. Esse princípio vale não apenas para os escritores que — por bons ou maus motivos — abordam os temas sexuais mais ou menos indiretamente, mas também para os que investem neles toda a força de seu discurso. Até aqueles escritores cuja imaginação erótica quer ultrapassar toda barreira, acontece de usarem uma linguagem que, partindo da máxima clareza, passa a uma misteriosa escuridão justamente nos momentos de maior tensão, como se seu ponto de chegada só pudesse ser o indizível. Esse movimento em espiral, que visa esquivar-se do indizível, roçá-lo, aproxima escritores do erotismo mais extremo, de Sade a Bataille, de escritores em cujas páginas o sexo parece ter sido rigorosamente banido, como Henry James.

A espessa e simbólica couraça sob a qual o eros se oculta nada mais é que um sistema de anteparos, conscientes ou inconscientes, que separam o desejo de sua representação. Desse ponto de vista, toda literatura é erótica, assim como todo sonho é erótico; no escritor explicitamente erótico poderemos reconhecer, então, aquele que mediante os símbolos do sexo procura fazer falar alguma outra coisa, e essa outra coisa, ultrapassada uma série de definições que tende a configurar-se em termos filosóficos e religiosos, pode ser redefinida, em última instância, como outro eros, um eros último, fundamental, mítico, inalcançável.

A maioria dos escritores situa-se em regiões intermediárias entre esses dois extremos. Para muitos, a abordagem de signos do sexo desenvolveu-se tradicionalmente por meio do código do jogo, do cômico ou, pelo menos, do irônico. Hoje, o rigor intelectual tende a condenar como superficial e conformista (particularmente na França, por reação ao tradicional espírito gaulois) o hábito de tornar objeto de brincadeiras ou de um piscar de olhos as coisas sexuais. Polêmica muito justa, sobretudo quando atinge precisamente o hábito (masculino) de rebaixar o sexo, de aviltá-lo; mas essa polêmica corre o risco de obliterar a ligação profunda, em nível antropológico, entre sexo e riso. Porque o riso também é defesa da palpitação humana diante da revelação do sexo, é exorcismo mimético — por meio da agitação menor da hilaridade — que almeja dominar a agitação absoluta que a relação sexual pode desencadear. A atitude risonha que acompanha a fala sobre sexo, portanto, pode ser compreendida não só como adiantamento impaciente da felicidade esperada, mas também como reconhecimento do limite que se está para ultrapassar, da entrada num espaço diferente, paradoxal, “sagrado”. Ou então, simplesmente, como modéstia da palavra diante daquilo que está muito além dela, contra a rude pretensão que uma linguagem sublime ou sisuda poderia ter de transmitir “o equivalente”.

O que é preciso estabelecer é se, nesse quadro, haveria lugar para a intenção desmistificante de uma representação direta, objetiva, desapaixonada, das relações sexuais

como fatos da vida em meio a outros fatos da vida.17 Se essa atitude fosse possível, ela ocuparia não apenas o lugar central, em oposição tanto às censuras internas da repressão e da hipocrisia como às especulações sacras ou demoníacas sobre o eros, mas seria sem dúvida a [escolha] vencedora, varreria do campo todas as outras. A experiência literária dos últimos cinquenta anos convence-nos, no entanto, de que essa posição continua sendo uma pretensão intelectual e iluminista. A linguagem da sexualidade, com efeito, só tem sentido se estiver colocada no alto de uma escala de valores semânticos: é quando a partitura necessita das notas mais agudas ou das mais graves, onde a tela solicita as cores mais vivas, que o signo do sexo entra em jogo. No universo da linguagem, essa é a função do signo do sexo: ele não pode sair de sua posição privilegiada, infravermelha ou ultravioleta, e é a conotação positiva ou negativa que acompanha os signos do sexo em toda produção literária a se tornar determinante de todo sistema de atribuição de valores interior ao texto.

Podemos dizer que o eixo dos valores na imaginação literária oscila entre a apologia e o vitupério da relação sexual: num dos extremos, a exaltação triunfalista; no outro, a descida aos infernos da “miséria da carne”. Asegunda postura é amplamente dominante na literatura de hoje. A representação das relações sexuais mais típica — penso sobretudo nos romances americanos dos últimos anos — está num registro de anticlímax, em que os elementos da repugnância e da desolação e aqueles grotesco-caricaturais são fortes a ponto de chamar à memória a tradição sexofóbica da pregação eclesiástica e as visões erótico-monstruosas das tentações dos santos. Mas é só por oposição à postura complementar que se pode hoje situar esse predomínio temático: estudando como a vertente apologética do sexo alcançou um grau de mistificação retórica tamanho a ponto de tê-lo tornado dificilmente praticável, a não ser em nível de comunicação de massa.

A essa altura, o discurso interno ao texto (a qualquer texto possível) já não basta; é o momento certo para situar o texto no quadro social do qual brota. Vivemos numa época de tendência à dessexualização; a luta pela existência nas metrópoles é tamanha que favorece a assexualidade; a mitologia sexual em nível dos meios de comunicação de massa tem uma função de compensação, de recuperação de alguma coisa que sentimos como já perdida ou fortemente em perigo.

É nesse quadro que podemos julgar as atribuições de valor internas aos textos literários. Todo aquele que representa o sexo de modo grotesco ou infernal pode ser visto como alguém que nos adverte dessa situação-limite ou nos põe em guarda quanto à ilusão de recuperar facilmente uma plenitude perdida; ao passo que o apologista do sexo pode ser alguém que mente, que perpetua uma ilusão, que oculta com artifícios verbais (e nós, italianos, pensamos de imediato em D’Annunzio) a impossibilidade de viver do mundo assexuado em que afundamos; ou então pode ser alguém que percebe até o fim a perda que nos ameaça e se torna o pregador de um resgate sexual (que talvez assuma aspectos regressivos, de mitificação intelectualista do primitivo, como em D. H. Lawrence); ou, ainda, alguém que procura estabelecer uma relação mais calorosamente humana com a realidade, dando ao encontro sexual um lugar central e estabelecendo uma escala de valores com base na comunicação vital de toda experiência e de toda presença humana (para Henry Miller, que parece reunir em si a linha grotesca e a apologética, a literatura é um método para restituir eros à existência).

Hoje, a situação é mais grave, e os remédios têm de ser mais extremos. As artes plásticas já se colocaram o problema de estabelecer uma comunicação erótica com os materiais e os objetos de nossa vida diária mais esquálida. A literatura pode seguir o mesmo caminho, inventando uma comunicação de signos sexuais no plano linguístico mais baixo (aquele do fim do mundo de Beckett ou o da regressão do homem de massa de Sanguineti) ou imaginando relações sexuais não antropomorfas (como eu tentei, narrando amores de moluscos e de organismos unicelulares).

Mencionei agora experiências literárias que se desenvolvem sob o signo do riso. Como queria demonstrar, apenas o riso — derrisão sistemática, falsete da autoderrisão, careta convulsa — garante que o discurso está à altura do caráter terrível da vida e marca uma mutação revolucionária.