Assunto Encerrado

Italo Calvino · Capítulo 18 de 44

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Filosofia e literatura

 

The Times Literary Supplement , 28 de setembro de 1967 (em tradução inglesa). Para um número especial intitulado Crosscurrents, dedicado aos vínculos da literatura com outras disciplinas, o Times Literary Supplement solicitou um breve texto a diversos autores europeus: H. M. Enzensberger tratava ali das relações com a política, Raymond Queneau daquelas com a ciência, Umberto Eco com a sociologia, Lucien Goldmann com a ideologia. Participavam também: Václav Havel (“Teatro e política”), Heinrich Böll (“Romancista católico”), Roland Barthes (“Ciência contra literatura”). (Num número anterior do Times Literary Supplement — 27 de julho —, os mesmos temas tinham sido examinados por autores ingleses, no que dizia respeito à Grã-Bretanha.) Publiquei o original italiano do meu texto em º Fiera Letteraria (n

43, 26 de outubro de 1967), com o título “Tra idee e fantasmi”, precedido de algumas linhas de apresentação em que constava a seguinte advertência: “Havia sido solicitado a Calvino que escrevesse sobre literatura e filosofia, mas o escritor esquivou-se do tema, fazendo de seu artigo uma espécie de poética e de mapa de suas predileções fantásticas”.

A relação entre filosofia e literatura é uma luta. O olhar dos filósofos atravessa a opacidade do mundo, apaga sua espessura carnosa, reduz a variedade do que existe a uma teia de relações entre conceitos gerais, estabelece as regras pelas quais um número finito de peões movimentando-se sobre um tabuleiro esgota um número talvez infinito de combinações. Chegam os escritores, e as abstratas peças de xadrez — reis, rainhas, cavalos e torres — são substituídas por um nome, uma forma determinada, um conjunto de atributos reais ou equinos; no lugar do tabuleiro, estendem campos de batalha poeirentos ou mares borrascosos; eis que as regras do jogo saltam pelos ares, eis que uma ordem diferente daquela dos filósofos se deixa descobrir aos poucos. Isto é: quem descobre essas novas regras do jogo são, novamente, os filósofos, que voltaram para a desforra, para demonstrar que a operação que os escritores cumprem pode ser reduzida à deles, filósofos, e que as torres e os bispos determinados não passavam de conceitos gerais disfarçados.

Assim continua a disputa, cada uma das duas partes certa de ter dado um passo adiante na conquista da verdade ou, ao menos, de uma verdade, e ao mesmo tempo consciente de que a matéria-prima de ambas as construções é a mesma: palavras. Mas as palavras, como os cristais, têm faces e eixos de rotação com propriedades diferentes, e a luz refrange-se diferentemente, conforme a maneira como esses cristais-palavras estão orientados, conforme as lâminas polarizantes são cortadas e sobrepostas. A oposição literatura/filosofia não exige uma solução; ao contrário, só se considerada permanente e sempre nova ela nos dá a garantia de que a esclerose das palavras não se fechará sobre nós como uma calota de gelo.

É uma guerra em que os dois antagonistas nunca devem se perder de vista, mas tampouco entreter relações demasiado próximas. O escritor que quer fazer concorrência ao filósofo, lançando seus personagens em profundas dissertações, acaba, no melhor dos casos, tornando habitáveis, persuasivas, diárias, as vertigens de pensamento, sem nos fazer respirar o ar das grandes alturas. De todo modo, esse tipo de escritor pertence às primeiras décadas de nosso século, à época do teatro raciocinativo de Pirandello e das conversas intelectuais dos romances de Huxley; hoje nos parece extremamente distante. Também o romance intelectual, o romance-discussão, desapareceu; quem hoje tivesse de escrever uma nova Montanha mágica ou um novo Homem sem qualidades não escreveria um romance, mas um ensaio de história das ideias ou de sociologia da cultura.

Da mesma maneira, a filosofia excessivamente vestida de carne humana, excessivamente sensível ao imediato e ao experienciado, constitui para a literatura um desafio menos empolgante que a abstração da metafísica ou da lógica pura. Fenomenologia e existencialismo fazem fronteira com a literatura mediante limites nem sempre claramente demarcados. O filósofo-escritor pode lançar sobre o mundo um novo olhar filosófico que seja, ao mesmo tempo, um novo olhar literário? Por um momento, quando o protagonista da Náusea observa seu rosto no espelho, isso pode ser possível; mas para boa parte de sua obra o filósofo-escritor parece, antes, um filósofo que tem a seu serviço um escritor versátil até as raias do ecletismo. A literatura do existencialismo não está mais em andamento porque não conseguiu se impor um rigor literário próprio. Apenas quando o escritor escreve antes do filósofo que o interpreta, o rigor literário servirá de modelo ao rigor filosófico: ainda que escritor e filósofo convivam na mesma pessoa. Isso vale não só para Dostoiévski e Kafka, mas também para Camus e Genet.

Os nomes de Dostoiévski e de Kafka remetem-nos aos dois exemplos máximos em que a autoridade do escritor — isto é, o poder de transmitir uma mensagem inconfundível por meio de uma especial entonação da linguagem e de uma especial deformação da figura humana e das situações — coincide com a autoridade do pensador no nível mais alto. O que também significa que o “homem de Dostoiévski” e “o homem de Kafka” mudaram a imagem do homem, mesmo para quem não tem um pendor particular pela filosofia que — mais ou menos explicitamente — está por trás daquela representação. Nesse nível de autoridade, o escritor do nosso tempo que pode ser posto ao lado daqueles dois é Samuel Beckett. A imagem que hoje nós temos do homem não pode deixar de considerar o caráter absoluto da negatividade do “homem de Beckett”.

É preciso dizer que o hábito de dar rótulos filosóficos aos escritores (o que é Hemingway? um behaviorista; o que é Robbe-Grillet? um filósofo analítico) é um jogo de sociedade cuja inconsistência só poderia ser perdoada se fosse muito engraçado, o que ele não é. Quantas vezes se gastou o nome de Wittgenstein com escritores que tinham em comum com o filósofo apenas o fato de não ter nada a ver com Wittgenstein! Estabelecer quem é o escritor do positivismo lógico poderia ser um belo tema para um congresso internacional do Pen Club. Quanto ao estruturalismo, é melhor esperar, após os brilhantes resultados alcançados em diversos campos, que se constitua tanto uma filosofia sua como uma literatura sua.

O território tradicional para o abraço entre filosofia e literatura é a ética. Ou melhor: a ética constituiu quase sempre um álibi para que filosofia e literatura não se olhassem direto nos olhos, certas e satisfeitas de poderem concordar facilmente na tarefa comum de ensinar a virtude aos homens. Essa foi a má sorte literária das filosofias práticas, sobretudo do marxismo: carregar consigo uma literatura ilustrativa e exortativa, que tende a tornar natural e conforme aos sentimentos espontâneos a visão filosófica do mundo. Perde-se, assim, o verdadeiro valor revolucionário de uma filosofia, que consiste em ser toda pontas e atritos, em perturbar o senso comum e os sentimentos, ao ser violenta com qualquer maneira “natural” de pensar.

A definição de escritor marxista talvez caiba apenas a Brecht, que, em contraste com a ética e a estética oficiais do comunismo, não olhava para a superfície do “realismo”, mas para a lógica do mecanismo interno das relações humanas, para a inversão dos valores, e ostentava uma pedagogia antivirtuosística. Hoje — na Alemanha, na Itália e também um pouco na França —, na literatura da “nova esquerda” que se remete ao marxismo, recusando nele a ilusão “realista” e pedagógica, existe uma corrente que continua tendo Brecht como mestre, porque ele era didascálico de forma paradoxal, provocatória; para outra corrente, ao contrário, o marxismo é, e deve ser apenas, consciência do inferno em que vivemos, e quem pretende apontar saídas tira força a essa consciência; literatura revolucionária é, para eles, apenas aquela da negação absoluta.

Ao mesmo tempo, parece já claro que, se é verdade que os filósofos, depois de terem interpretado o mundo, têm de mudá-lo, é igualmente verdade que, se pararem por um momento de interpretá-lo, não conseguirão mudar mais nada. O dogmatismo já perdeu terreno; a expectativa de descobrir alguma verdade oculta nas ideologias estranhas aproxima hoje ex-sectários e neoextremistas.

Do ponto de maior resistência, essa situação se estende ao entorno. É apenas sinal de um ecletismo voraz que a literatura esteja voltando a se interessar pela filosofia; e vemos escritores de fundamentação tradicional tirarem inspiração de leituras filosóficas atualizadas, sem que a superfície monocromática e uniforme de seu mundo venha a ser comprometida. A literatura filosófica do mundo pode servir tanto para confirmar como para pôr em crise o que já sabemos, independentemente da filosofia que nos inspira. Tudo depende de como o escritor penetra por baixo da crosta das coisas: Joyce projetava numa praia esquálida as perguntas teológicas e ontológicas que aprendera na escola, distantes das preocupações atuais, mas tudo o que tocava, sapatos arrebentados, ovas de peixe, seixos rolados, aparecia perturbado até sua última essência.

Essa análise estratigráfica da realidade é continuada hoje por escritores dotados da instrumentação cultural e epistemológica mais moderna e rigorosa (limitarei minha citação a Michel Butor e Uwe Johnson). E ela leva a questionar não apenas o mundo (que seria pouca coisa), mas também a própria essência da obra literária. São riscos que temos de estar prontos a correr, se quisermos seguir esse caminho.

O clima hoje dominante entre os jovens escritores é mais filosófico que nunca, mas de uma filosofia interna ao próprio ato da escrita. Na França, o grupo Tel Quel, liderado por Philippe Sollers, concentra-se numa ontologia da linguagem, da escrita, do “livro”, que teve seu profeta em Mallarmé; na Itália, a função destruidora da escritura parece estar no centro da pesquisa; na Alemanha, a dificuldade de escrever a verdade é o tema principal; seja lá como for, as características comuns são dominantes na situação geral desses três países. A literatura tende a se apresentar como uma atividade especulativa, austera e impassível, distante dos gritos da tragédia assim como dos impulsos da felicidade: não evoca outras cores e outra imagem, a não ser o branco das páginas e o alinhamento das linhas pretas.

Então meu discurso anterior não se sustenta mais? Um choque frontal entre duas maneiras de ver o mundo parece ter se tornado impossível, desde que a literatura, tendo aparentemente circum-navegado as posições da filosofia, trancou-se numa fortaleza filosófica que pode se sustentar com perfeita autossuficiência.

Na realidade, se quiser que meu quadro possa valer não só para o hoje mas também para o amanhã, tenho de incluir nele um elemento que até agora negligenciei. O que eu estava descrevendo como um casamento com camas separadas deve ser visto como um ménage à trois: filosofia, literatura, ciência. Aciência está diante de problemas nada dessemelhantes daqueles da literatura; constrói modelos do mundo que são postos o tempo todo em crise, alterna método indutivo e dedutivo, e sempre tem de ficar atenta para não tomar por leis objetivas as próprias convenções linguísticas. Uma cultura à altura da situação existirá apenas quando a problemática da ciência, a da filosofia e a da literatura se puserem continuamente em crise revezadamente.

Enquanto aguardamos essa época, só nos resta nos deter nos exemplos disponíveis de uma literatura que respira filosofia e ciência mas mantém as distâncias e, com um leve sopro, dissolve tanto as abstrações teóricas como a aparente concretude da realidade. Falo daquela extraordinária e indefinível região da imaginação humana de onde surgiram as obras de Lewis Carroll, de Queneau, de Borges.

Antes, porém, tenho de observar um simples fato, para o qual não pretendo construir nenhuma explicação geral: enquanto a relação da literatura com a religião, de Ésquilo e Dostoiévski, se estabelece no signo da tragédia, a relação com a filosofia se torna explícita pela primeira vez na comédia de Aristófanes, e continuará a mover-se por trás do amparo da comicidade, da ironia, do humor. Não é por acaso que aqueles que, no século XVIII, foram chamados de contes philosophiques eram, na realidade, alegres vinganças contra a filosofia levadas a cabo por meio da imaginação literária.

Mas em Voltaire e Diderot a imaginação é governada por uma intenção didascálica precisa e polêmica; o autor já sabe de saída tudo o que ele quer dizer. Sabe ou acredita saber? O riso de Swift e de Sterne é repleto de sombras. Concomitantemente ao conte philosophique, ou pouco depois, o conte fantastique e a gothic novel desencadeiam as visões obsessivas do inconsciente. Averdadeira contestação da filosofia está na ironia lúcida, nos sofrimentos da razão (nós, italianos, pensamos imediatamente nos diálogos de Leopardi), na transparência da inteligência (os franceses pensam imediatamente em Monsieur Teste ) ou então na evocação dos fantasmas que continuam a hanter nossas casas iluminadas?

Ambas as tradições continuam, de modo disperso, até os dias atuais. O escritor “philosophe” à maneira do século XVIII tem hoje suas reencarnações mais florescentes na Alemanha, como poeta (Enzensberger), autor teatral (Marat/Sade de Peter Weiss), romancista (Günter Grass). Por outro lado, a literatura “fantastique” foi relançada pelo surrealismo em sua batalha para derrubar as barreiras entre o racional e o irracional na literatura. Com a fórmula “hasard objectif “, Breton desmistifica a irracionalidade do acaso: as associações de palavras e imagens respondem a uma lógica oculta não menos digna de crédito do que aquilo que é comumente chamado “o pensamento”.

Para dizer a verdade, um novo horizonte havia se aberto quando um reverendo estudioso de lógica e matemática começou a inventar as histórias de Alice. Apartir daquele momento, sabemos que a razão filosófica (que “quando dorme gera monstros”) pode ter, de olhos abertos, sonhos belíssimos e absolutamente dignos dos seus mais altos momentos especulativos.

De Lewis Carroll em diante, instaura-se uma nova relação entre filosofia e literatura. Nascem os grandes degustadores de filosofia como estímulo para a imaginação. Queneau, Borges, Arno Schmidt entretêm relações diferentes com diversas filosofias e delas nutrem diversíssimos mundos visionários e linguísticos. Comum neles é o hábito de esconder as cartas: as frequentações filosóficas só transparecem mediante a alusão aos grandes textos, geometria metafísica, erudição. De momento em momento, esperamos que a secreta filigrana do universo esteja para aparecer em transparência: expectativa sempre frustrada, como é justo.

Característica dessa família de escritores é a atitude de cultivar as mais comprometedoras paixões especulativas e eruditas, sem nunca levá-las a sério até o fim. Às raias de seu reino, situam-se: Beckett, que constitui um caso único, tanto que seu esgar atroz é suspeito de tragicidade e religiosidade, não sei se com razão; Gadda, dividido entre a aspiração a escrever a cada vez uma História Natural do gênero humano e o furor que o congestiona a cada vez, a ponto de fazê-lo interromper seus livros pela metade; Gombrowicz, dividido entre uma leveza funambulesca (o esplêndido duelo entre um Sintetista e um Analista) e a concentração devoradora do Eros.

Erotizar a cultura é um jogo entre signos e significados, entre mitos e ideias que pode descerrar jardins de delícias visionárias, mas deve ser praticado com supremo distanciamento. Parece-me bom citar aqui um livro que saiu há poucos meses na França: Vendredi, de Michel Tournier, uma reescritura do Robinson Crusoé, muito intenso em referências às “ciências humanas”, no qual Robinson faz amor (literalmente) com a ilha.

Robinson Crusoé foi romance filosófico sem o saber, e antes ainda Dom Quixote e Hamlet, não sei até que ponto sabendo disto, anunciaram uma nova relação entre a leveza fantasmática das ideias e o peso do mundo. Quando falamos de relações entre literatura e filosofia, não podemos esquecer que o discurso começa daí.