Assunto Encerrado

Italo Calvino · Capítulo 8 de 44

Páginas do PDF

Assunto Encerrado

Diálogo de dois escritores em crise

 

De uma conferência lida em março e abril de 1961 em diversas cidades da Suíça, Suécia, Noruega e Dinamarca. Inédita.

H á alguns dias encontrei um colega escritor. Ele me disse:

— Estou em crise.

Respondi:

— Não diga! Você também? Fico feliz.

Encontramo-nos raramente, eu e esse amigo, uma vez por ano se tanto, mas nos escrevemos de vez em quando. E sempre, via carta ou ao vivo, temos opiniões contrárias. Ele me diz que a literatura de nosso século errou tudo, que é uma literatura intelectualista, árida, falseada em suas raízes pelas premeditações polêmicas; diz que é preciso voltar aos sentimentos, ao contato direto com a vida dos grandes escritores do século XIX. Eu replico que devemos expressar a vida moderna em sua dureza, em seu ritmo e também em sua mecanicidade e desumanidade, para encontrar os verdadeiros alicerces do homem de hoje.

Na discussão, ambos somos levados a radicalizar nossas posições: eu me obstino sobretudo para fazê-lo ficar bravo, e um pouco também porque acredito naquilo que digo; ele se obstina ainda mais, sobretudo porque acredita naquilo que diz, e um pouco também para fazer com que eu fique bravo.

Então, ao me encontrar há alguns dias, disse-me ele:

— Estou em crise.

E eu retorqui:

— Não diga! Você também!

Não porque eu seja cruel a ponto de me alegrar com o sofrimento alheio; mas porque, para um escritor, a situação de crise, quando uma determinada relação com o mundo sobre a qual ele construiu seu trabalho se revela inadequada e é necessário encontrar outra relação, outra maneira de considerar as pessoas, a realidade das coisas, a lógica das histórias humanas, essa é a única situação a dar frutos, a permitir tocar alguma coisa verdadeira, a permitir escrever precisamente aquilo que os homens necessitam ler, mesmo que não percebam ter essa necessidade.

— Quando escrevemos, forçamos a vida, por moralismo ou por intelectualismo, o que dá no mesmo — dizia meu amigo. — Todos, inclusive eu, obrigamos nossos personagens a comportamentos absurdos.

Era uma admissão estranha para meu interlocutor, famoso, antes, pela extrema simplicidade de sua escritura, pelos sentimentos modestos, cotidianos, nunca forçados, de seus personagens.

— Absurdos, você bem o disse. É assim que deve ser — respondi-lhe. — Representar a vida de nossa época significa levar às extremas consequências o que nela é implícito, desenvolver todos os nós dramáticos, quiçá até a tragédia.

O amigo dirigiu-me um olhar enviesado, e eu sabia o que ele estava pensando: que, para ver o lado trágico da vida, eu nunca demonstrei muita disposição, que minha vocação é, antes, a deformação grotesca, ou talvez cômica, da realidade.

Mas não disse. Seguia um raciocínio seu:

— À tragédia — disse — só se chega pela adesão total à vida, à realidade humana, uma adesão alegre, sem reservas, sem nenhuma de nossas polêmicas intelectuais. Não existe tragédia sem o sentido da felicidade. Conseguiremos ser realmente trágicos só se conseguirmos expressar a alegria de viver da humanidade.

Esse elogio do prazer de viver era pronunciado por meu interlocutor em tom grave, como era seu costume. É um homem tenebroso, melancólico, que nunca sorri.

— Mas a vida é terrível! — protestava eu, explodindo numa risada.

Olhamos à nossa volta. Havíamos marcado encontro num lugar que não é habitual nem para ele, nem para mim: um dos cafés da Via Veneto, em Roma, a rua que se tornou famosa para a “dolce vita” internacional e onde tudo tem um quê de imbecilidade e de tédio, lugar em que se entrelaçam os escândalos brilhantes e tudo, ao contrário, parece insosso e distante dos sentidos, como um limbo inocente e fúnebre, um país dos mortos, de cores ilusoriamente alegres. Falávamos da tragédia e da felicidade, e à nossa volta tínhamos esse cenário de falsa alegria de viver, de falsa excitação, de falsa riqueza; um rio de carros imobilizados pelo costumeiro congestionamento enlouquecia num concerto de buzinas, o pé afundado na embreagem, as mulheres mais belas do mundo iam ao encontro de amores insensatos, as vitrines expunham mercadorias inutilmente perfeitas.

Abaixo de nós se escancarava um abismo vazio. E ali sentado, naquela tarde romana, com esse escritor, que se chama Carlo Cassola, o autor de Fausto e Anna e de La ragazza di Bube, o escritor que no meio dessa nossa Itália que explode de euforia e modernidade continua escrevendo histórias interioranas, magras e austeras, de sutil melancolia.

— Nosso tempo… Conseguirá expressar realmente o nosso tempo quem souber voltar-lhe as costas, quem buscar as coisas profundas; não as aparências, mas as coisas que ficam; não os aspectos passageiros… — dizia Cassola.

— Mas é necessário viver esse nosso tempo, jogar-se nele, sofrê-lo… — dizia eu.

— Não, é preciso opor-lhe resistência, não aceitar suas razões, não ler nem sequer o jornal — insistia Cassola.

E eu:

— A literatura de amanhã será aquela que poderá nascer de nós, o tempo todo distraídos, ansiosos, devoradores de papel impresso, irritados pelos congestionamentos…

E Cassola:

— Todos os escritores que nos mostram uma verdadeira imagem de sua época, ao contrário, foram considerados escritores fora do tempo por seus contemporâneos, só porque não acompanhavam as modas…

Assim continuamos a discutir, lenta mas obstinadamente; eu, para fazer Cassola ficar bravo, mas um pouco também acreditando naquilo que dizia; Cassola, porque acredita naquilo que diz, mas um pouco também para me fazer ficar bravo. Depois nos separamos. Ele volta à cidadezinha da Toscana onde leciona, à sua vida tranquila, solitária, absorta, lendo e relendo seus clássicos; eu volto à grande editora da Itália do Norte onde trabalho, devorando o mar de papel que se imprime no mundo, não raro inutilmente, volto à vida sempre em movimento e de nervos agitados da atividade industrial, sem nunca ter um minuto de pausa, de concentração. Ele, para alcançar eternas verdades humanas, volta a narrar as longas tardes caseiras das moças do campo; eu, para expressar o ritmo da vida moderna, não encontro nada melhor do que narrar batalhas e duelos dos paladinos de Carlos Magno.

Qual dos dois está fora da realidade? Ou os dois estamos? Ou nenhum dos dois está? A Itália, país de contradições, a Itália, país de diversos rostos, tem tudo para ser o lugar de onde pode surgir o romance de amanhã, mas o que podemos dizer hoje é apenas isto: o romance de amanhã será precisamente aquele que hoje menos conseguimos prever. A Itália é hoje, em parte, um país moderníssimo, industrializado, com um alto nível de bem-estar; em parte, porém, é um país antiquado, imóvel, paupérrimo. Que situação melhor para se ter uma ideia de conjunto do mundo? Temos ao alcance da mão, a um só tempo, Detroit e Calcutá, tudo já está misturado, Norte e Sul, técnica avançada e áreas deprimidas, e as ideologias mais diferentes convivem, contaminam-se, criam raízes umas nas outras. Nunca, talvez, tenha havido situação mais apropriada à síntese de um romancista desejoso de representar, em toda a sua complexidade, o tormento de nosso século. Todavia, precisamente agora, precisamente aqui, a pergunta é esta: ainda é necessário escrever romances?

Para atender à necessidade de narrar histórias que exemplifiquem os casos de nossa sociedade, que marquem as transformações de costumes e alinhavem problemas sociais, o cinema, o jornalismo, os ensaios de sociologia são mais que suficientes.

O cinema já sabe narrar bem, sabe apreender bem o que é essencial nas relações sociais, descreve os ambientes, coloca e resolve problemas de comportamento prático, de sentimentos, de moral. Claro, temos de reconhecer que a evidência de verdade que o cinema projeta tão facilmente em rostos e ambientes é ilusória; toda verdade que provém de seus projetores se transforma de imediato em maneira, em retórica, em mentira. Se o cinema restringe muito o campo do romance não é porque de algum modo um valha pelo outro, mas porque onde passa o cinema não pode crescer mais nem um único fio de grama. Muitos escritores ainda teimam em escrever romances concorrendo com os filmes: e só conseguem alcançar resultados poeticamente pífios. Ambientes, personagens, situações que o cinema tornou próprios não podem mais ser abordados pela literatura: como se tivessem sido corroídos por dentro pelas traças: assim que aproximamos nossa mão, deles resta apenas pó.

A imprensa diária e periódica acompanha e registra, dia após dia, os fenômenos do costume, aliviando a literatura daquela tarefa de representação minuciosa da própria época que foi seu ônus e sua alegria no século XIX. Mas a que nos leva nosso contínuo e nervoso folhear dos jornais ainda frescos de tinta? Informa-nos apenas sobre tudo o que não conta. Se romancistas ainda há que se põem a concorrer com essa interpretação da atualidade, esperando chegar a alguma coisa mais profunda; que procuram marcar em seus romances as mudanças do costume, as modas e a conversação, a vida das classes altas, vemos que eles não vão além da crônica jornalística de uma temporada, do registro quase de gravador dos modos de dizer, não vão além de um moralismo ambíguo, demasiado cúmplice daquele mesmo mundo que seu moralismo pretende castigar. Ilustres exemplos de romances mundanos e maledicentes que se transfiguraram em alta poesia não faltam na literatura internacional, e precisamente no nosso século. Mas, mesmo nesse território, parece já não haver condições de a grama fresca crescer.

Também o “romance de denúncia” dos problemas sociais está com seus dias contados. A política e a economia agora precisam de pesquisas documentadas e análises baseadas em dados e cifras, e não de reações sentimentais e emocionais. Cada vez mais parece pretensiosa fatuidade a do escritor que pretende abordar com suas aproximações literárias problemas que exigem urgentemente um tipo de conhecimento e de estudo totalmente diverso. Ainda assim, temos de dizer que também os caminhos do conhecimento científico da realidade social permanecem, se considerados isoladamente, bastante limitados e decepcionantes. A sociologia ou se limita a acumular montanhas de dados que não podem ser somados, ou seja, a reproduzir no papel o magma humano que em vão procura decifrar, ou então, quando propõe definições sintéticas, o faz oferecendo na realidade uma interpretação forçada, não menos arbitrária do que aquela que a literatura é capaz de proporcionar, uma interpretação que exclui tudo o que não seja útil para convalidar a própria tese. A urgência dos problemas sociais mundiais, no entanto, continua exigindo a intervenção e a direção da cultura, e é escrevendo um ensaio, um estudo ou um manifesto sobre um problema social que somos levados a imprimir às próprias páginas um selo de praticidade, de imediatidade de intervenção, ao passo que a construção de um romance parece um peso anacrônico, que não considera a urgência das tarefas históricas, da própria economia de energia. Onde a ação é possível, uma verdadeira paixão social expressa-se nela, ou na elaboração de escritos e estudos diretamente ligados a ela, à prática. Para que, então, nos demorarmos a escrever um romance?

Em suma, outros instrumentos do conhecimento hoje se apropriam de boa parte dos temas que pareciam fundamentais ao romance, nenhum desses instrumentos dá aquilo que a literatura dava. O romance, contudo, é uma planta que não cresce em território já explorado; precisa de terra virgem onde deitar suas raízes. O romance não pode mais ter a pretensão de nos informar sobre como é o mundo; deve e pode descobrir, porém, a maneira, as mil, as cem mil novas maneiras em que nossa inserção no mundo se configura, expressando pouco a pouco as novas situações existenciais.

Aqui, talvez só possamos reconhecer que a poesia nunca terá fim, e, da mesma forma, tampouco aquele caso peculiar da poesia a que chamamos romance: a poesia como primeiro ato natural de quem toma consciência de si próprio, de quem olha em volta com o espanto de estar no mundo.