Assunto Encerrado

Italo Calvino · Capítulo 16 de 44

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Assunto Encerrado

A antilíngua

 

Il Giorno, 3 de fevereiro de 1965. Este artigo também estava inserido no debate sobre a nova língua italiana aberto por Pasolini (ver a apresentação do texto anterior, p. 1401, a cuja bibliografia remeto). O diário Il Giorno tinha aberto para esse debate sua página “Giornolibri”, publicando, além de uma entrevista com Pasolini (2 de dezembro de 1964), intervenções de Arbasino (30 de dezembro), Citati (20 de janeiro de 1965), Ottieri (27 de janeiro) e duas réplicas de Pasolini (6 de janeiro e 3 de fevereiro).

Oescrivão está diante da máquina de escrever. O interrogado, sentado em frente a ele, responde às perguntas gaguejando ligeiramente, mas preocupado em dizer, com a maior exatidão possível, tudo o que tem de dizer e nem uma palavra a mais:

De manhã cedo, estava indo ao porão para ligar o aquecedor quando encontrei todos aqueles frascos de vinho atrás da caixa de carvão. Peguei um para tomar no jantar. Não estava sabendo que a casa de bebidas lá em cima havia sido arrombada.

Impassível, o escrivão bate rápido nas teclas sua fiel transcrição:

O abaixo assinado, tendo se dirigido ao porão nas primeiras horas da manhã para dar início ao funcionamento da instalação térmica, declara ter casualmente deparado com boa quantidade de produtos vinícolas, localizados na parte posterior do recipiente destinado ao armazenamento do combustível, e ter efetuado a retirada de um dos referidos artigos com a intenção de consumi-lo durante a refeição vespertina, não estando a par do acontecido arrombamento do estabelecimento comercial sobranceiro.

A cada dia, sobretudo nos últimos cem anos, por um processo que já se tornou automático, centenas de milhares de nossos concidadãos vertem mentalmente, com a velocidade de máquinas eletrônicas, a língua italiana numa antilíngua inexistente. Advogados e funcionários, gabinetes ministeriais e conselhos administrativos, redações de jornais e telejornais escrevem, falam, pensam em antilíngua. Característica principal da antilíngua é o que eu definiria como “terror semântico”, ou seja, a fuga diante de cada vocábulo que tenha por si só um significado, como se frasco, aquecedor, carvão fossem palavras obscenas, como se ir, encontrar, saber indicassem ações torpes. Na antilíngua, os significados são constantemente recusados, relegados ao fundo de uma perspectiva de vocábulos que, por si sós, nada significam ou significam algo vago, fugidio. “Temos uma linha muito tênue, composta de nomes ligados por preposições, por um verbo de ligação ou por poucos verbos esvaziados de sua força”, como bem afirma Pietro Citati, que a esse fenômeno deu nestas colunas uma descrição eficaz.

Quem fala a antilíngua sempre tem medo de mostrar familiaridade com as coisas de que fala ou interesse por elas, acredita ter de subentender: “Eu falo dessas coisas por acaso, mas minha função está bem acima das coisas que digo e que faço, minha função está acima de tudo, até de mim mesmo”. A motivação psicológica da antilíngua é a falta de um verdadeiro relacionamento com a vida, isto é, no fundo, um ódio por si mesmo. A língua, ao contrário, vive apenas de uma relação com a vida que se torna comunicação, de uma plenitude existencial que se torna expressão. Por isso, ali onde a antilíngua triunfa — o italiano de quem não sabe dizer “eu fiz” mas tem de dizer “efetuei” —, a língua é assassinada.

Se a linguagem “tecnológica” sobre a qual Pasolini escreveu (isto é, plenamente comunicativa, instrumental, homologadora dos diferentes usos) se enxerta na língua, só poderá enriquecê-la, eliminar dela irracionalidades e pesos, dar-lhe novas possibilidades (de início apenas comunicativas, mas criarão, como sempre aconteceu, uma área própria de expressividade); se essa mesma linguagem se enxerta na antilíngua, sofrerá imediatamente um contágio mortal, e também os termos “tecnológicos” vão se tingir da cor do nada.

O italiano finalmente nasceu — disse em essência Pasolini —, mas eu não o amo, porque é “tecnológico”.

O italiano está morrendo há um bom tempo — digo eu — e só sobreviverá se conseguir se tornar uma língua instrumentalmente moderna; mas não é certo que, ao ponto em que chegou, ainda consiga se sair bem.

O problema não se coloca de maneira diferente para a linguagem da cultura e para a do trabalho prático. Na cultura, se língua “tecnológica” é aquela que adere a um sistema rigoroso — de uma disciplina científica ou de uma escola de pesquisa —, ou seja, se é conquista de novas categorias lexicais, ordens mais precisas do que as existentes, estruturação mais funcional do pensamento por meio da frase, que seja bem-vinda, e nos liberte de nossa fraseologia genérica. Mas, se for uma nova provisão de substantivos abstratos a serem jogados na goela da antilíngua, o fenômeno não é positivo nem novo, e a instrumentalidade tecnológica entra aí apenas por fingimento.

Parece-me que a abordagem correta do problema tem de se dar no nível da utilização da língua falada, da vida prática diária. Quando levo o carro a uma oficina para um conserto e tento explicar ao mecânico que “aquele treco que leva para o outro treco parece estar pregando uma peça no treco”, o mecânico, que até aquele momento falara em dialeto, olha para dentro do capô e explica, com um léxico extremamente preciso e frases de uma funcional economia sintática, tudo aquilo que está acontecendo com meu motor. Na Itália, cada peça do carro tem um nome e um único nome (fato novo com relação à multiplicidade regional das linguagens agrícolas; menos novo com relação aos diversos léxicos artesãos), toda operação tem seu verbo, toda avaliação, seu adjetivo. Se essa é a língua tecnológica, então eu acredito nela, tenho confiança na língua tecnológica.

Mas poderia objetar-se que a linguagem — digamos assim — técnico-mecânica não passa de tecnologia; léxico, não língua. Respondo: quanto mais a língua se molda nas atividades práticas, tanto mais se torna homogênea sob todos os aspectos, adquire não só, mas também, “estilo”. Até quando o italiano permaneceu uma língua literária, não profissional, existia nos dialetos (os toscanos incluídos, claro) uma riqueza lexical, uma capacidade de nomear e descrever os campos e as casas, os utensílios e as operações da agricultura e dos ofícios, que a língua não possuía. A razão da prolongada vitalidade dos dialetos foi essa. Ora, essa fase foi superada há muito tempo: o mundo que temos diante de nós — casas e ruas e maquinários e empresas e estudos, e também muita agricultura moderna — foi crescendo com nomes não dialetais, nomes do italiano, ou construídos nos moldes do italiano, ou então de uma interlíngua científico-técnico-industrial, nomes que são utilizados e pensados em estruturas lógicas italianas ou interlinguísticas. Será cada vez mais essa língua operacional a decidir as sortes gerais da língua.

Mesmo em seu aspecto expressivo. Nem tanto pelo eventual destino transitório de novos termos que, do uso científico ou técnico, passam ao metafórico, afetivo, psicológico etc. (isso sempre aconteceu: palavras como alérgico, papel de tornassol, relativista já haviam entrado no “italiano médio” de nossos pais, mas devo dizer que pouco me agradam), mas porque nisso também as formas da utilização prática sempre são determinantes, fazem com que velhas formas de colorido expressivo que se tornaram incompatíveis com o que sobrou da maneira de falar caiam, obrigando a sua substituição por outras.

O dado fundamental é este: os desdobramentos do italiano nascem hoje de suas relações não com os dialetos, mas com as línguas estrangeiras. Os discursos sobre a relação língua-dialeto, sobre o papel que no italiano de hoje desempenham Florença ou Roma ou Milão, já não têm tanta importância. O italiano define-se em relação às outras línguas com que tem o tempo todo necessidade de se confrontar, que deve traduzir e nas quais deve ser traduzido.

Todas as grandes línguas europeias têm seus problemas, internamente e sobretudo no confronto recíproco, todas têm graves limitações diante das necessidades da civilização contemporânea, nenhuma consegue dizer tudo aquilo que teria a dizer. Por exemplo, o impulso inovador do francês, de que Citati falava nestas colunas, é fortemente refreado pela estrutura da frase fundamentalmente classicista, literária, conservadora: a Quinta República vive o contraste entre sua realidade econômica solidamente tecnocrática e sua linguagem de expressividade literária vaga e anacrônica.

Nossa época caracteriza-se por esta contradição: de um lado, necessitamos que tudo o que é dito seja imediatamente traduzível em outras línguas; de outro, temos consciência de que cada língua é um sistema de pensamento em si, intraduzível por definição.

Minhas previsões são estas: cada língua se concentrará em torno de dois polos — um polo de traduzibilidade imediata nas outras línguas com as quais será indispensável se comunicar, e que tende a se aproximar de uma espécie de interlíngua mundial de alto nível; e um polo em que se destilará a essência mais peculiar e secreta da língua, intraduzível por excelência, e de que serão investidos institutos diferentes, como o argot popular e a criatividade poética da literatura.

O italiano, em sua alma longamente sufocada, tem tudo o que é necessário para manter unidos um e outro polo: a possibilidade de ser uma língua ágil, rica, livremente construtiva, fortemente centrada nos verbos, dotada de uma variada gama de ritmos frasais. A antilíngua, ao contrário, exclui tanto a comunicação traduzível como a profundidade expressiva. A situação está nestes termos: para o italiano, transformar-se numa língua moderna equivale em boa parte a tornar-se realmente ele mesmo, a realizar a própria essência; se, ao contrário, o impulso em direção à antilíngua não parar, mas continuar a se disseminar, o italiano desaparecerá do mapa linguístico da Europa como um instrumento imprestável.