Assunto Encerrado

Italo Calvino · Capítulo 22 de 44

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A relação com a Lua

 

Corriere della Sera, 24 de dezembro de 1967, com o título “Occhi al cielo” [Olhos para o céu]. Na coluna “Filo Diretto” (que consiste em trocas de cartas entre escritores), Anna Maria Ortese escrevia para mim e eu respondia. Reproduzo os trechos principais da carta de Ortese: “Caro Calvino, não há ocasião em que, ouvindo falar em lançamentos espaciais, conquistas do espaço etc., eu não sinta tristeza e incômodo, e na tristeza há certo receio, no incômodo, certa irritação, talvez perturbação e ansiedade. Pergunto-me por quê.

“Eu também, como outros seres humanos, muitas vezes sou levada a

considerar a imensidão do espaço que se abre além de qualquer horizonte, e a me perguntar o que é realmente, o que manifesta, onde teve início e se alguma vez terá fim. Observações, receios, incertezas do gênero acompanharam minha vida, e tenho de reconhecer que, por mais que nenhuma resposta jamais tenha se apresentado à minha exígua sabedoria, os próprios silêncios que desciam de lá eram consolatórios e capazes de me devolver um equilíbrio interior.

“[… ] Ora, desse espaço, não importa por quem, talvez por todos os

países que progrediram, é tirado o desejo de repouso, de ordem, de beleza, para o desejo perturbador de repouso de pessoas que se parecem comigo. Em breve se tornará provavelmente um espaço edificado. Um novo território de caça, de progresso mecânico, de corrida para a supremacia, para o terror. Não posso fazer nada a propósito disso, naturalmente, mas essa nova investida da liberdade de alguns não me agrada. É um luxo pago por multidões que, a cada dia, veem diminuir mais o próprio passo, a própria autonomia, a própria inteligência, a respiração, a esperança.”

Cara Anna Maria Ortese,

Olhar o céu estrelado para nos consolar das feiuras terrestres? Mas não lhe parece uma solução excessivamente cômoda? Se quiséssemos levar seu discurso às últimas consequências, acabaríamos dizendo: que a Terra continue de mal a pior, eu olho para o céu e reencontro meu equilíbrio e minha paz interior. Não lhe parece estar “instrumentalizando” ilicitamente esse céu?

Mas não desejo exortá-la ao entusiasmo com as magníficas sortes cosmonáuticas da humanidade: longe disso. As notícias de novos lançamentos espaciais são episódios de uma luta pela supremacia terrestre e, como tais, interessam apenas à história das maneiras erradas como ainda os governos e os estados-maiores pretendem decidir os destinos do mundo passando por cima da cabeça dos povos.

O que me interessa, ao contrário, é tudo o que é apropriação verdadeira do espaço e dos objetos celestes, ou seja, conhecimento: saída de nosso quadro limitado e certamente enganoso, definição de uma relação entre nós e o universo extra-humano. A Lua, desde a Antiguidade, significou para os homens esse desejo, e a devoção lunar dos poetas se explica dessa forma. Mas a Lua dos poetas tem alguma coisa a ver com as imagens leitosas e esburacadas que os foguetes transmitem? Talvez não, ainda; mas o fato de sermos obrigados a reconsiderar a Lua de maneira nova nos levará a reconsiderar de maneira nova inúmeras coisas.

As façanhas espaciais são dirigidas por pessoas a quem, com certeza, esse aspecto não interessa, mas elas são obrigadas a se valer do trabalho de outras pessoas, que, ao contrário, interessam-se pelo espaço e pela Lua porque realmente querem saber alguma coisa a mais sobre o espaço e sobre a Lua. Esse algo mais que o homem adquire concerne não apenas aos conhecimentos especializados dos cientistas, mas também ao lugar que essas coisas têm na imaginação e na linguagem de todos: e aqui entramos nos territórios que a literatura explora e cultiva.

Quem ama a Lua realmente não se contenta em contemplá-la como uma imagem convencional, quer entrar numa relação mais estreita com ela, quer ver mais na Lua, quer que

a Lua lhe 11 diga mais . O maior escritor da literatura italiana de todos os séculos, Galileu,

assim que começa a falar da Lua, eleva sua prosa a um grau de precisão e evidência e, ao mesmo tempo, de rarefação lírica prodigiosas. E a língua de Galileu foi um dos modelos da língua de Leopardi, grande poeta lunar…