Assunto Encerrado

Italo Calvino · Capítulo 29 de 44

Páginas do PDF

Assunto Encerrado

Definições de territórios: o fantástico

 

Le Monde, 15 de agosto de 1970. Escrito em francês. Inédito em italiano. Respostas a uma enquete sobre a literatura fantástica, por ocasião do lançamento do livro de Tzvetan Todorov Introduction à la littérature fantastique. As perguntas diziam respeito:

1. à definição de “fantástico”;

2. à existência de uma literatura fantástica hoje;

3. à situação da própria obra com relação ao fantástico;

4. a modelos de romances e contos fantásticos.

 

1. Na linguagem literária francesa atual, o termo fantástico é utilizado sobretudo para as histórias de espanto, que implicam uma relação com o leitor à moda oitocentista: o leitor (se quiser participar do jogo, pelo menos com uma parte de si) tem de acreditar naquilo que lê, aceitar ser apanhado por uma emoção quase fisiológica (costumeiramente, de terror, ou de angústia) e procurar uma explicação, como para uma experiência de vida. Em italiano (como originariamente também em francês, creio) os termos fantasia e fantástico não implicam absolutamente esse mergulho do leitor na corrente emocional do texto; implicam, ao contrário, uma tomada de distância, uma levitação, a aceitação de uma lógica outra que leva para objetos outros e nexos outros, diversos daqueles da experiência diária (ou das convenções literárias dominantes). Desse modo, podemos falar de fantástico no século XX ou então de fantástico no Renascimento. Para os leitores de Ariosto, nunca se impôs o problema de acreditar ou de explicar; para eles, como hoje para os leitores de O nariz de Gogol, de Alice no País das Maravilhas, da Metamorfose de Kafka, o prazer do fantástico está no desenvolvimento de uma lógica cujas regras, cujos pontos de partida ou cujas soluções reservam surpresas. O estudo de Todorov é muito específico a uma acepção importante do fantástico, e muito rico de sugestões quanto a outras acepções, com vistas a uma possível classificação geral. Se quisermos desenhar um atlas exaustivo da literatura de fantasia, será necessário começar por uma gramática daquilo que Todorov denomina maravilhoso, no âmbito das primeiras operações combinatórias de signos nos mitos primitivos e nas fábulas, e também no das necessidades simbólicas do inconsciente (antes de qualquer tipo de alegoria consciente), assim como no dos jogos intelectuais de toda época e de toda civilização.

 

2. O fantástico do século XIX, produto refinado do espírito romântico, logo passou para a literatura popular. (Poe escrevia para jornais.) No século XX, é um uso intelectual (e já não emocional) do fantástico que se impõe: como jogo, ironia, piscadelas, e também como meditação sobre os pesadelos ou os desejos ocultos do homem contemporâneo.

 

3. Deixo aos críticos a tarefa de situar meus romances e contos dentro (ou fora) de uma classificação do fantástico. Para mim, no centro da narração não está a explicação de um fato extraordinário, e sim a ordem que esse fato extraordinário desenvolve em si e ao redor de si, o desenho, a simetria, a rede de imagens que se depositam, em torno dele, como na formação de um cristal.

 

4. Procurarei entre minhas leituras recentes algum nome pouco conhecido que represente diversas possibilidades do fantástico. Em primeiro lugar, um romance do século XIX que pode ser definido como “fanta-geometria”: Flatland, do inglês Abbott. Na outra ponta, um romance polonês da época entre as duas guerras e que parte da memória familiar para uma transfiguração visionária de uma riqueza inesgotável: aquele de Bruno Schulz. Depois, os contos de Felisberto Hernández, uruguaio, nos quais o narrador — costumeiramente um pianista — é convidado a mansões solitárias onde ricos maníacos organizam complicadas encenações com trocas entre mulheres e bonecas. Há nele alguns elementos comuns com Hoffmann, mas na realidade não se parece com ninguém.