Assunto Encerrado
O olhar do arqueólogo
De 1972. Inédito. Proposta de texto programático para uma revista que nunca chegou a ser feita, projetada com Gianni Celati, Guido Neri, Carlo Ginzburg e outros amigos. O texto integrava os materiais preparatórios a serem submetidos à discussão comum e refletia em parte argumentos em que havíamos descoberto estar de acordo, e em parte minhas orientações pessoais.
Percebemos há um bom tempo: o depósito dos materiais acumulados pela humanidade — mecanismos, maquinários, mercadorias, mercados, instituições, documentos, poemas, emblemas, fotogramas, opera picta, artes e ofícios, enciclopédias, cosmologias, gramáticas, topoi e figuras de discurso, relações parentais e tribais e empresariais, mitos e ritos, modelos operacionais —, já não conseguimos mantê-lo em ordem. Os métodos continuamente retificados e atualizados durante os últimos quatrocentos anos para estabelecer um lugar para cada coisa e cada coisa em seu lugar (e deixar de lado o que fica de fora) — aqueles métodos unificáveis numa metodologia geral, a História, isto é, a escolha de um sujeito denominado o Homem, a cada vez definido por seus predicados — sofreram muitas rachaduras e falhas para ter a pretensão de manter ainda tudo junto como se nada fosse. O choque que os quebra — o antagonista daquele suposto sujeito — se chama ainda Homem, mas tão transformado em relação àquele que acreditava ser: é o gênero humano dos grandes números em crescimento exponencial no planeta, é a explosão da metrópole, é o fim do eurocentrismo econômico-ideológico, é a recusa por parte dos excluídos, dos desarticulados, dos omissos, de aceitar uma história para eles fundamentada na expulsão, na anulação, no cancelamento dos papéis. Todos os parâmetros, as categorias, as antíteses que haviam sido úteis para imaginar e classificar e projetar o mundo estão em discussão: e não só aqueles mais ligados a atribuições de valores históricos: o racional e o mítico, o trabalhar e o existir, o masculino e o feminino, mas também os polos de topologias ainda mais elementares: afirmar e negar, alto e baixo, o ser vivo e a coisa.
Insatisfeitos como estamos de nosso mundo cada vez menos habitável e persuadidos de que os instrumentos para mudá-lo são possíveis apenas junto com aqueles para compreendê-lo, toda oportunidade para reconsiderar alguma coisa desde o início nos alegra. Não se vai para a frente a não ser recolocando em jogo alguma coisa que já acreditávamos ser ponto de chegada, aquisição consolidada, certeza. Mas com esta advertência: uma coisa é estarmos prontos para retroceder a fim de melhor saltar, outra coisa é idolatrar a regressão; mesmo no dia em que menos certezas temos (experimentalmente) do que venha a ser o progresso, a regressão permanece o nome de um perigo específico (experimentado).
Defender-se disso significa para nós, em primeiro lugar, proibir que inventariemos novos achados ainda no nome de um sujeito redefinido Homem, com a perspectiva redutiva que os antropocentrismos sempre carregam com eles. Por isso sempre procuraremos nos colocar do lado externo, dos objetos, dos mecanismos, das linguagens; gostaríamos de tornar nosso o olhar do arqueólogo e do paleoetnógrafo, no passado assim como neste corte estratigráfico que é o nosso presente, onde se disseminam produções humanas fragmentárias e mal classificáveis: indústrias metálicas, megálitos, Vênus esteatopígias, esqueletos de hecatombes, fetiches.
Em sua escavação, o arqueólogo torna a descobrir utensílios cujo destino ignora, cacos de cerâmica que não se encaixam, jazidas de eras distintas daquela que ele esperava encontrar ali: sua tarefa é descrever peça por peça também e sobretudo aquilo que não consegue sistematizar numa história ou numa utilização, reconstruir numa continuidade ou num todo. A isso chegaremos depois, talvez; ou então compreenderemos que não é uma motivação externa para aqueles objetos, mas apenas o fato de que objetos assim sejam encontrados naquele ponto já diz tudo o que havia para dizer.
De modo análogo gostaríamos que nossa tarefa fosse indicar e descrever mais que explicar: porque, se temos demasiada pressa em dar uma explicação, o nosso ponto de partida tornaria a ser aquele que não é sequer um ponto de chegada, isto é, nós mesmos: teleonomia a um só tempo vangloriosa e delusória. Por outro lado, é-nos igualmente estranho o contentamento do inexplicável: teleonômico também, embora o Sujeito a quem remete seja incógnito. Ao contrário: a recusa a usar nós hoje aqui como explicação das coisas obrigará por fim as coisas a explicar nós hoje aqui. (Com o passar de muito tempo; todo percurso de aproximação tem de incluir o ponto mais distante; sempre se buscará o levante pelo poente.)
Desta maneira se esclarece outro ponto necessário para nossa definição: diante da escola (ou conjunto de escolas) que levanta as relações internas aos sistemas linguísticos ou as relações internas aos sistemas de signos ou as relações internas aos sistemas de relações inter-humanas, enquanto muitos solicitam sua rápida reconversão para o eixo vertical da História, a nós, ao contrário, o que mais desperta nossa curiosidade e nos intriga nesse tipo de conhecimento é sua expansão horizontal, o impulso de tendência a dar conta de todos os modelos de representação e de comunicação, a generalizar e formalizar o código das primeiras operações do computador humano e mais além biológico, e mais além ainda o mecanismo das escolhas e oposições elementares mediante as quais a matéria se diversifica e comunica consigo própria.
O método denominado estrutural ou semiótico, portanto, tanto mais vale para nós quanto menos “filosófico” e menos “literário” se presumir, isto é, quanto mais se conservar algébrico e impassível. (É além de seu horizonte que as opções filosóficas ou poéticas, isto é, as motivações pré-científicas de cada um de nós podem esbaldar-se para antever a própria realização: as normas para obrigar o acaso a admitir um sentido, ou o mapa da prisão que permite ganhar uma liberdade, ou mais além ainda a gramática geral daquilo que existe, a matriz pitagórica do mundo.)
Justamente porque respeitamos o método em seus procedimentos formalizadores mais rigorosos (e alguns entre nós o aplicam no próprio trabalho específico), queremos aqui nos distanciar dele, instituindo um espaço de pesquisa diferente. Como primeira aproximação diremos que são os conteúdos aquilo que nos importa: extração de objetos, estranhamento do sentido. O verdadeiro lugar de nosso empreendimento precede ou então segue a aplicação de um método: fornecendo-lhe matérias-primas ou reabastecendo-se de semimanufaturados de suas oficinas.
É a literatura — chegou a hora de dizer isso — o campo de energias que apoia e motiva esse encontro e confronto de pesquisas e operações em disciplinas diferentes, ainda que aparentemente distantes ou estranhas. É a literatura como espaço de significados e de formas que valem não só para a literatura. Nós acreditamos que as poéticas literárias podem remeter a uma poética do fazer, aliás: do fazer-se.
Isso e uma geral impaciência com muito daquilo que hoje se diz e se escreve nos igualam: só conheceremos os caminhos que nossa colaboração poderá tomar ao percorrê-los.
Um novo projeto — ou um novo atlas — literário, se vier, não será nossa ata de fundação, mas apenas o resultado de um trabalho feito em conjunto; de uma ampliação de horizontes mútua. Hoje só poderemos retomar a lamúria sobre o que não foi, sobre o que foi pouco e mal: preferimos nos abster. O que nos importa é outra coisa: é o contexto em que a literatura toma sentido. É nesse contexto que queremos atuar.