Assunto Encerrado
Usos políticos certos e errados da literatura
“Right and wrong political uses of literature”, conferência (escrita diretamente em inglês) lida em Amherst (Massachusetts), em 25 de fevereiro de 1976, por ocasião de um colóquio sobre a política europeia promovido pelo European Studies Program do Amherst College. Inédita tanto em inglês como em italiano.
Quando recebi o convite para falar neste colóquio, minha primeira ideia foi aquela que habitualmente me ocorre em casos como esses: procurei lembrar se recentemente escrevera algo sobre literatura e política que pudesse ler para vocês, alguma intervenção num dos inúmeros debates sobre o tema. E percebi que não tinha nada pronto: há diversos anos não me acontecia escrever ou dizer alguma coisa sobre esse tema.
Pensando bem, isso é estranho. Os anos de minha juventude, a partir de 1945 e por toda a década de 50, e mais adiante, tiveram como problemas dominantes as relações entre o escritor e a política. Poderia dizer que toda discussão girava em torno desse ponto. Minha geração poderia ser definida como aquela que começou a se ocupar de literatura e de política ao mesmo tempo.
Nos últimos anos, ao contrário, ocorreu-me com frequência preocupar-me com o andamento das coisas políticas e com o andamento das coisas literárias, mas, quando penso na política, penso apenas na política, e, quando penso na literatura, penso apenas na literatura. Hoje, abordando essas duas problemáticas, experimento duas sensações separadas, e são ambas sensações de vazio: o vazio de um projeto político em que eu possa acreditar, e o vazio de um projeto literário em que eu possa acreditar.
Mas, num nível mais profundo, tenho consciência de que o nó das relações entre política e literatura, no qual tropeçamos em nossa juventude, ainda não se desmanchou; em seus restos desfibrados e desgastados, ainda são nossos passos.
O que se deu durante a década de 60 foi alguma coisa que mudou em profundidade muitos dos conceitos com que tínhamos lidado, embora se continue a chamá-los pelos mesmos nomes. Ainda não sabemos o que significará tudo isso em termos de efeitos últimos sobre o futuro de nossa sociedade, mas já sabemos que houve uma revolução da mente, uma virada intelectual. Se tivéssemos que dar uma definição sintética desse processo, poderíamos dizer que a ideia de homem como sujeito da história acabou, e que o antagonista que destronou o homem ainda tem que se chamar homem, mas um homem bem diferente do homem de antes: isso significa o gênero humano dos “grandes números” em aumento exponencial em todo o planeta, a explosão das metrópoles, a ingovernabilidade da sociedade e da economia, seja qual for o sistema a que elas pertençam, o fim do eurocentrismo econômico e ideológico, a reivindicação de todos os direitos por parte dos excluídos, dos reprimidos, dos esquecidos, dos não articulados. Todos os parâmetros, as categorias, as antíteses que usávamos para definir, classificar, projetar o mundo são questionados. Não só aqueles ligados a valores históricos, mas também os que pareciam ser categorias antropológicas estáveis: razão e mito, trabalho e existência, homem e mulher, e até mesmo as polaridades das topologias mais elementares: afirmação e negação, acima e abaixo, sujeito e objeto.
Nos últimos anos minhas preocupações sobre a política e sobre a literatura dizem respeito à sua insuficiência com relação às tarefas que essas mudanças de nossa mente impõem.
Talvez eu devesse primeiramente definir melhor a situação em nosso microcosmo doméstico da literatura italiana, para explicar aquilo que a década de 60 trouxe de novo.
Ao longo dos anos 50, a literatura italiana e sobretudo o romance tinham a ambição de representar a consciência ética e social da Itália contemporânea. Durante a década de 60, essa pretensão foi atacada em duas frentes. Na frente da forma literária, ou melhor, numa frente que não era apenas formal mas também epistemológica e escatológica, houve a nova vanguarda, que atacou e contestou a narrativa italiana, acusando-a de ser sentimental, antiquada e hipocritamente consoladora: só uma ruptura violenta na linguagem, no espaço e no tempo narrativos poderia representar a contemporaneidade e desmistificar-lhe as ilusões.
Ao mesmo tempo, na frente da crítica politicamente engajada, a ala mais radical dos críticos atacava e destruía a pretensa exemplaridade da literatura engajada, acusando-a de
populismo.73 Também nessa frente, portanto, preparava-se o terreno para a revanche da vanguarda, ou, de todo modo, da literatura da negação, isto é, daquela postura literária que não pretende dar um ensinamento positivo, mas apenas ser um sinal do ponto em que nos encontramos.
Ao lado dessas duas frentes de ataque tenho de considerar uma terceira e não menos importante: o background cultural da literatura italiana ia se renovando completamente: a linguística, a teoria da informação, a sociologia dos meios de comunicação de massa, a etnologia e a antropologia, o estudo estrutural dos mitos, a semiologia, um uso renovado da psicanálise, um uso renovado do marxismo tornaram-se os instrumentos habituais para desmontar o objeto literário e decompô-lo em seus elementos primários.
Eu acredito que naquele momento a literatura tenha se encontrado numa situação mais promissora do que em qualquer outro momento. O território estava sendo liberado dos grandes equívocos que haviam pesado nos debates do pós-guerra. A desestruturação da obra literária podia abrir o caminho para uma nova avaliação e uma nova estruturação. O que derivou daí? Nada, ou exatamente o contrário daquilo que podíamos esperar. E isso por motivos quer internos quer externos ao movimento literário.
O novo radicalismo político dos estudantes de 1968 caracterizou-se, na Itália, por uma recusa da literatura. Não era a literatura da negação a ser proposta, mas a negação da literatura. A literatura era acusada sobretudo de ser uma perda de tempo, contraposta à única coisa importante: a ação. Que o culto da ação fosse em primeiro lugar um velho mito literário foi compreendido — ou está para sê-lo — muito lentamente.
Gostaria de dizer que essa postura não estava totalmente errada: significava a recusa de uma literatura medíocre chamada de social, a recusa de uma imagem errada do escritor engajado; dessa forma nos aproximávamos de uma avaliação justa da função social da literatura, mais que por meio de qualquer fajuto culto literário tradicional.
Mas era — estou falando no passado porque acredito que alguma coisa já tenha mudado — também um sinal de autolimitação, de estreiteza de horizontes, de incapacidade de enxergar a complexidade das coisas.
Quando os políticos e os politizados se interessam demais pela literatura, é um mau sinal — mau sinal sobretudo para a literatura —, porque é nesse momento que a literatura mais corre perigo. Mas também é um mau sinal quando não querem ouvir falar dela — e isso acontece tanto aos homens políticos burgueses mais tradicionalmente obtusos como aos revolucionários mais ideologizantes —, um mau sinal sobretudo para eles, porque demonstram temer toda utilização da linguagem que questiona a certeza de sua linguagem.
Seja lá como for, o encontro marcado entre as duas novas vanguardas, literária e política, não se deu. A vanguarda literária ressentiu-se da perda das reservas potenciais de leitores que esperava. E os já derrotados escritores da década de 50 tornaram a ocupar as próprias posições. A literatura não pode deixar lugares vazios sem que eles venham a ser ocupados: no pior dos casos, pelos maus escritores, e, no melhor, por escritores de tipo tradicional.
Nos anos mais recentes, todas as posturas mais simplistas na política falharam, e alargou-se a consciência da complexidade da sociedade em que vivemos, embora ninguém possa pretender ter uma solução no bolso. A situação italiana de hoje é, por um lado, de crescente deterioramento e corrupção do nosso quadro institucional — e por outro lado de um amadurecimento coletivo e de uma busca por caminhos de autogoverno.
Qual é o lugar da literatura numa situação dessas? Tenho de dizer que a situação não é menos confusa nesse campo do que no campo político. Existe um vasto público nacional para o romance italiano, e isso acontece sobretudo quando ele trata de política e de história recente, não da maneira didática de trinta anos atrás, mas de maneira problemática. E por outro lado há a pressão dos meios de comunicação de massa, que impele o escritor a escrever em jornais, a participar das mesas-redondas televisivas, a dar sua opinião sobre qualquer coisa que ele possa saber ou não. Ao escritor é dada a possibilidade de ocupar o espaço vazio de um discurso político inteligível. Mas essa tarefa se mostra fácil demais (é fácil demais pronunciar afirmações genéricas, sem nenhuma responsabilidade prática), ao passo que deveria ser o mais difícil que um escritor poderia abordar. Quanto mais a linguagem política se torna abstrata e cansada, tanto mais se percebe uma demanda inexpressa por uma linguagem diferente, mais pessoal e direta. Até mais provocatória: provocação é a função pública mais requisitada na Itália de hoje. A vida e a morte e a vida póstuma de Pasolini consagraram o papel do escritor como provocador.
Nisso tudo há um erro de fundo. O que se pede ao escritor é que garanta a sobrevivência daquilo que se chama humano num mundo onde tudo se apresenta inumano: garantir a sobrevivência de um discurso humano para nos consolarmos da perda de humanidade de qualquer outro discurso ou relação. O que entendemos por humano? Habitualmente o que é o humoral, emocional, ingênuo, não rigoroso. É muito raro o caso de alguém que acredite no rigor da literatura, superior e contraposto ao falso rigor das linguagens que hoje guiam o mundo.
O Prêmio Nobel este ano foi para Eugenio Montale, mas poucos recordam que a força de sua poesia consistiu em seu falar em voz baixa, sem ênfase de nenhum tipo, com um tom despojado e duvidoso. Precisamente por esse caminho ele levou muitos a escutá-lo, e sua presença teve um forte impacto sobre três gerações de leitores. É assim que a literatura abre o próprio caminho: sua “eficácia”, seu “poder”, se existem, são desse tipo.
A sociedade de hoje, ao contrário, pede que o escritor levante a voz se quiser ser ouvido, que proponha ideias de efeito sobre o público, que torne extrema toda reação instintiva. Mas também as afirmações mais sensacionais e explosivas passam por cima da cabeça dos leitores: tudo é como nada, como o barulho do vento; os comentários são, no máximo, um sacudir a cabeça como diante da molecagem de um garoto; todos sabem que as palavras são apenas palavras e não produzem atrito algum com o mundo ao redor, não implicam nenhum perigo, nem para o escritor, nem para o leitor. No oceano das palavras, impressas ou transmitidas, as palavras do poeta ou do escritor se perdem.
Este é o paradoxo do poder da literatura: parece que apenas ali onde a literatura é perseguida ela mostra seus verdadeiros poderes, desafiando a autoridade, ao passo que em nossa sociedade permissiva ela sente que é usada apenas para criar algum contraste agradável, numa geral inflação verbal. (Contudo, deveríamos ser loucos a ponto de nos queixar disso? Quem dera que também as ditaduras compreendessem que, para se livrar dos perigos da palavra escrita, o melhor método é considerá-la algo que simplismente não conta!)
Em primeiro lugar temos de lembrar que, onde os escritores são perseguidos, não apenas a literatura é perseguida, mas são proibidos também diversos outros tipos de discurso e de pensamento (e de pensamento político, antes de mais nada). A narrativa, a poesia, a crítica literária adquirem naqueles países um peso específico político especial na medida em que dão voz àqueles que estão sem voz. Nós que vivemos numa condição de liberdade literária sabemos que essa liberdade implica uma sociedade que se move, em que muitas coisas estão mudando (para melhor ou para pior, esse é outro problema), e, também nesse caso, o que está em questão é a relação entre a mensagem literária e a sociedade, ou, mais precisamente, entre a mensagem e a possível criação de uma sociedade que a receba. Essa é a relação que conta, não aquela com a autoridade política, hoje que os governantes não podem afirmar que têm nas mãos a direção da sociedade, nem nas democracias, nem nos regimes autoritários de direita ou de esquerda. A literatura é um dos instrumentos de autoconsciência de uma sociedade, decerto não o único, mas um instrumento essencial porque suas origens estão vinculadas às origens de diversos tipos de conhecimento, de vários códigos, de várias formas do pensamento crítico.
Em suma, eu acredito é que haja duas maneiras erradas de considerar uma possível utilidade política da literatura.
A primeira é pretender que a literatura tenha de ilustrar uma verdade já em posse da política, isto é, acreditar que o conjunto dos valores da política seja algo que vem antes e ao qual a literatura simplesmente tem de se adaptar. Essa opinião implica uma ideia de literatura como algum enfeite supérfluo, mas também implica uma ideia de política como algo fixo, seguro de si, ideia que seria desastrosa. Acredito que uma função dessas de pedagogia política só pode ser concebida no âmbito de má literatura e de má política.
A outra maneira errada é aquela de ver a literatura como uma gama de eternos sentimentos humanos, como a verdade de uma linguagem humana que a política tende a esquecer e que, portanto, deve ser lembrada de vez em quando. Esse conceito aparentemente deixa mais espaço para a literatura, mas na prática designa-lhe uma tarefa de confirmação daquilo que já se sabe, ou talvez de ingênua provocação elementar, com o prazer juvenil do frescor e da espontaneidade. Por trás dessa concepção há a ideia de um conjunto de valores estabelecidos que a literatura tem a tarefa de conservar; há uma ideia clássica e imóvel de uma literatura depositária de uma determinada verdade. Se aceita assumir para si esse papel, a literatura limita-se a uma função de consolação, conservação, regressão, função que acredito ser mais prejudicial do que útil.
Isso significa que qualquer uso político da literatura está errado? Não, acredito que, assim como há duas maneiras erradas, também há duas maneiras corretas.
A literatura é necessária à política em primeiro lugar quando ela dá voz àquilo que não tem voz, quando dá um nome àquilo que ainda não tem um nome, e especialmente àquilo que a linguagem política exclui ou tenta excluir. Quero dizer, aspectos, situações, linguagens tanto do mundo exterior como do mundo interior; as tendências reprimidas no indivíduo e na sociedade. A literatura é como um ouvido que pode escutar além daquela linguagem que a política entende; é como um olho que pode ver além da escala cromática que a política percebe. Ao escritor, precisamente por causa do individualismo solitário de seu trabalho, pode acontecer explorar regiões que ninguém explorou antes, dentro de si ou fora; fazer descobertas que cedo ou tarde resultarão em campos essenciais para a consciência coletiva.
Essa ainda é uma utilidade muito indireta, não intencional, casual. O escritor segue o seu caminho, e o acaso ou as determinações sociais e psicológicas levam-no a descobrir alguma coisa que pode se tornar importante também para a ação política e social. É tarefa do observador político-social não deixar nada ao acaso, aplicar o próprio método ao feito literário de maneira a não deixar escapar nada.
Mas há também, acredito eu, outro tipo de influência, não sei se mais direta, mas decerto mais intencional, por parte da literatura, isto é, a capacidade de impor modelos de linguagem, de visão, de imaginação, de trabalho mental, de correlação dos fatos, em suma, a criação (e por criação entendo organização e escolha) daquele gênero de modelos-valores que são a um só tempo estéticos e éticos, essenciais em todo projeto de ação, especialmente na vida política.
Eis portanto que, depois de ter excluído a pedagogia política das funções literárias, dou por mim afirmando que acredito num tipo de educação por meio da literatura, um tipo de educação que pode dar os seus efeitos apenas se for difícil e indireta, se implicar o árduo alcance de um rigor literário.
Qualquer resultado que a literatura alcançar, se rigoroso, pode ser visto como um ponto firme para toda atividade prática, para quem objetiva a construção de uma ordem mental tão sólida e complexa a ponto de conter em si a desordem do mundo, para quem tende a estabelecer um método tão sutil e dúctil a ponto de ser o equivalente da ausência de qualquer método.
Eu falei de dois usos corretos, mas agora estou identificando um terceiro, que se liga ao modo crítico como a literatura vê a si própria. Se outrora a literatura era vista como espelho do mundo, ou como uma expressão direta de sentimentos, agora nós não conseguimos mais esquecer que os livros são feitos de palavras, de signos, de procedimentos de construção; nunca podemos esquecer que o que os livros comunicam por vezes permanece inconsciente para o próprio autor, que os livros dizem por vezes algo diferente daquilo que se propunham a dizer, que em todo livro há uma parte que é do autor e uma parte que é obra anônima e coletiva.
Esse tipo de consciência não influencia apenas a literatura: pode ser útil à política para fazer com que ela descubra quanto nela é apenas construção verbal, mito, tópos literário. A política, assim como a literatura, deve em primeiro lugar conhecer a si mesma e desconfiar de si mesma.
Como observação final, gostaria de dizer também que, se hoje é impossível para qualquer um se sentir inocente, se em qualquer coisa que alguém faz ou diz podemos descobrir uma motivação secreta, a do homem branco, ou do macho, ou daquele que frui de uma certa renda, ou daquele que pertence a um determinado sistema econômico, ou de quem sofre de um certo complexo neurótico, isso não nos deveria levar a um senso de culpa universal, nem a uma postura de acusação universal.
Quando percebemos nossa doença ou nossas motivações secretas, já começamos a pô-las em crise. O que conta é a maneira como aceitamos nossas motivações e vivemos sua crise. Essa é a única possibilidade que temos para nos tornarmos diferentes de como somos, isto é, a única maneira de inventar uma nova maneira de ser.