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Italo Calvino · Capítulo 33 de 44

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Para Fourier 3. Despedida. A utopia pulviscular

PARA FOURIER

3. DE SPEDIDA. A UTOPIA PULVISCULAR

 

Almanacco Bompiani 1974, Milão, dezembro de 1973. O volume dedicado ao tema “Utopia revisitata” abria-se com este meu texto, intitulado “Quale utopia?”.

Quando num país a tentativa de pôr em prática uma ideia de sociedade menos monstruosa que as outras é esmagada manu militari, sempre acontece lermos a frase: “fim de uma utopia”. Ao contrário, esse caráter de risco, de aposta, de pendurado por um fio, de se encontrar todo dia lidando com o problema inesperado, tudo isso que compõe o páthos das revoluções vividas dia após dia, é estranho às utopias — aquelas escritas —, as quais se dão como mecanismo funcionante em cada rodinha, autossuficiente, autorregulado, autorreprodutivo, que ignora as crises de todo início e de um final sempre possível.

A utopia desafia o tempo assentando-se num não lugar, negando a relação com o mundo outro e necessariamente inimigo. (Certo Fourier, por exemplo, estabelecia uma gradualidade, uma história evolutiva no interior da Harmonia, e nos primeiros tempos admitia relações com a vizinhança dos “civilizados” filisteus que se diriam de intercâmbios culturais ou de turismo informativo: a seguir, porém, recomendava o isolamento, ele também previa suas “cortinas”.) A utopia sente a necessidade de opor sua compacidade e permanência ao mundo que ela recusa e que se mostra igualmente compacto e pervicaz.

Isso já qualifica a utopia como produção favorecida de épocas em que a ação prática é derrotada. Não por acaso as grandes estações da utopia são duas: aquela em que acabam faltando as esperanças de palingênese da Reforma (embora o texto epônimo de Thomas More tivesse precedido em um ano a afixação das teses de Lutero) e aquela em que a cheia da Revolução Francesa retorna ao álveo.

Surge naturalmente a pergunta se isso valeria também para nossa época, com todos os golpes que ela levou: o interesse atual pela utopia confirmaria o paralelo, mas, ainda assim, trata-se sempre de um interesse reflexo, histórico-crítico, e nos resta perguntar o que seria o equivalente criativo da utopia em nosso século. Mais que de utopia em sentido clássico, estruturada como gênero literário, encontramos campos de energia utópica, disseminados sobretudo pela literatura e pela arte, em suas propostas mais irredutíveis a serem absorvidas pelo hábito (pensamos aquilo que o surrealismo mais exigente desejou ser), e das quais podemos acompanhar uma derivação direta ou indireta nas correntes juvenis inspiradas numa maneira artística ou lúdica ou, de todo modo, antivirtuosística de entender a liberação e a vida.

Mas, como gênero literário, a utopia revive apenas como antiutopia (Huxley, Orwell), visão de um futuro infernal, em que a previsibilidade é condenação.

Por outro lado, não podemos deixar de considerar a oposta tentação utopístico-tecnológica, ainda mais propensa a se condensar em modelos totalizadores, embora o futurólogo que aspira à cientificidade imponha a si próprio limitar-se a evidências de tendência e de setor.

De todo modo, ninguém mais pensa em descrever uma cidade perfeita, tampouco o dia de seus habitantes de hora em hora. A espessura — e a complexidade — do mundo soldou-se à nossa volta sem deixar frestas. A imaginação política sempre necessita de um algures, mas geograficamente determinado: claro, se há de ser imaginação (ainda que distante daquele “poder” que lhe atribuía um generoso slogan de um maio já distante), tem de privilegiar territórios fluidos, abertos a interpretações que dão margem à criatividade do intérprete, como a China dos anos da Revolução Cultural. Mas mesmo ali (estou falando da China dos discursos da esquerda ocidental, não da China que está na China e que decerto responde a outra lógica ou a cem lógicas que desconhecemos) não se trata de utopia, e sim de uma carga utópica que tem de levar continuamente em conta os novos dados que vão se acrescentando, mastigar informações que algumas vezes a fazem engasgar.

A visão de um futuro global é marginalizada pelo pensamento político, isolada num gênero literário menor, a ficção científica (e frequentemente, mesmo naquele caso, é a utopia negativa, a viagem ao inferno do futuro, que domina), e isso significa que esse sistema escrito, que pretendia estender a própria organização de signos à organização das coisas, ficou prisioneiro de outra estratégia literária mais eficaz quanto à sua carga emocional imediata, a narrativa de efeito desnorteador e aventureiro, que pode até estabelecer uma rápida reflexão sobre o amanhã mas que não tem o poder de pôr em crise nossa maneira de estarmos aqui.

Já teve alguma vez esse poder, a utopia? Decerto tinha, sim, para Campanella, e talvez até para os extravagantes saint-simonistas de Enfantin. Ver um possível mundo diferente como já acabado e atuante é um belo fortalecimento contra um mundo injusto, é negar sua necessidade exclusiva.

A crítica ao presente, ao longo dos séculos, expressou-se com maior frequência no tópos literário do retorno à idade do ouro, do passado legendário (ou, na acepção mais tênue, da Arcádia) e depois do bom selvagem, e mais esporadicamente no homólogo e simétrico mito da cidade futura, justa e feliz conforme a razão. E isso demonstra que, diante da inaceitabilidade do presente, registra-se mais facilmente o impulso regressivo do que aquele em direção a um escaton que sempre solicita um forte investimento ideológico e encontra fortes resistências (e aqui me refiro apenas às internas). Mas é preciso dizer que em todo retorno à idade do ouro há um componente utópico (assim como nas utopias não faltam aspectos de retorno ao passado).

Evasão? Sobre a acepção negativa que a palavra evasão tem na linguagem da crítica histórico-literária, sempre tive minhas reservas. Para quem é prisioneiro, evadir sempre foi uma coisa boa, e mesmo uma evasão individual pode ser o primeiro passo necessário para pôr em prática uma evasão coletiva. Isso deve valer também no âmbito das palavras e das imagens fantasmáticas: da prisão das representações do mundo que sublinham ou repetem a cada frase a tua escravidão, evadir significa propor outro código, outra sintaxe, outro léxico por meio do qual dar uma forma ao mundo de teus desejos. Claro, se alguém acredita ter encontrado assim a liberdade e fica feliz por isso, é vítima de um cruel equívoco, mas não mais do que aqueles que se satisfazem com uma libertação verbal e simbólica, ainda que a linguagem que empregam abra menos o flanco para ser tachada de “evasão”. Em suma, se ninguém pode confiavelmente pôr em dúvida a superioridade do pensamento político “científico” sobre aquele “utópico”, há também de chegar a hora em que podemos nos perguntar se aquele passo adiante rumo à cientificidade não teria tido sua contraparte passiva, isto é, se com os cenários de papel da utopia não se teria perdido alguma coisa insubstituível. Afinalidade, o mundo regenerado era pensado — aliás: visto — pela utopia em seus resultados exteriores: uma cidade, uma convivência, um conjunto de comportamentos, ao passo que a teorização científica o pensará — aliás: dirá — pelos termos do discurso filosófico, abstratos e mais dificilmente verificáveis. Enfim, o materialismo dos visionários é sempre mais substancioso que o dos filósofos.

A recusa de Marx em prefigurar a sociedade socialista, eu continuei a senti-la durante anos, como uma grave lacuna, e levei muito tempo para compreender que era um princípio de seu método. Não são dadas as receitas para as cozinhas do porvir: e por quê? Uma receita sempre pressupõe cozinhas futuras: caso contrário, não há necessidade de escrever receitas, cozinha-se e pronto. Quando Marx escrevia, e por um bom tempo depois, aquela placa de direção proibida no caminho da projeção utópica significava dizer concentrar o pensamento e a práxis na crítica e na estratégia de agressão contra a única sociedade existente, e isso tinha o sentido de uma disciplina, austera e viável. Mas, a partir do momento em que uma sociedade alternativa apareceu, e à fluidez e efervescência experimental de seu começo (um período que pode, também, ser denominado utópico) seguiu-se uma apologética oficial do férreo presente, como se este já fosse o mais desejável dos futuros, o veto à prefiguração assumiu o significado — subentendido ou explícito — de não ter outro modelo exceto aquele.

Digo isso não para continuar uma recriminação já envelhecida (de uns quinze anos para cá os modelos que pretendem representar a realização de uma sociedade são inúmeros, e as diversas fases internas a cada modelo se colocam elas próprias como modelo: e isso garante, na pior das hipóteses, um mostruário diversificado de defeitos e de erros a ser evitados, e convida ao exercício parautópico de um modelo com peças testadas, colagens dos fragmentos dos modelos já históricos), mas para encontrar as raízes de uma fome de prefiguração que carregamos conosco por um bom tempo e que também era estimulada pelo fato de que, nos mesmos anos, a vocação de planejar a felicidade humana em escala geral e particular havia tomado conta do capitalismo (ou, ao menos, visitava alguns de seus sonhos fora do horário).

No nosso ontem do pós-guerra, as premissas para revisitar as utopias surgiam do mesmo terreno em que a urbanística se colocava como a disciplina-piloto que daria a forma social técnica estética ao teatro de nossas vidas. Depois de todas as derrotas que a confiança no planejamento e a previsão nacional sofreu desde então, depois que inúmeras intenções se embotaram contra o muro de inércia dos interesses e dos comportamentos condicionados, depois que as redes de tantos planos reguladores viram suas malhas se rasgando com peixes excessivamente grandes, agora que o horizonte da cultura capitalista gira em torno de uma imagem de catástrofes, concentrando nela todas as fantasias (prevenção, administração da catástrofe), justamente agora se revisita a utopia. Mas por quê? Com que espírito?

Nem tanto como os desenhos de Leonardo da Vinci, máquinas fantásticas que iniciam a genealogia das máquinas inventáveis e construíveis, mas em seu oposto, pela raiz irredutível a qualquer compromisso com o hoje ou com o provável amanhã, máquinas lógico-fantásticas autônomas. Uma das inúmeras fugas para a frente mas que sabe que é só isso? Ou, pior, um álibi intelectual, um refúgio de belas almas? Os diagnósticos da má consciência não faltam entre nós, não deixarão de dar seu veredicto. Aqui, eu tento apenas reconstruir um diário de minhas relações (sobretudo privadas) com a utopia, em seus altos e baixos. A máquina lógico-fantástica autônoma é algo que me importa na medida em que sirva (caso sirva) para uma coisa insubstituível: ampliar a esfera daquilo que podemos representar, introduzir na limitação de nossas escolhas o “desvio absoluto” de um mundo pensado em todos os seus detalhes segundo outros valores e outras relações. Em suma, a utopia como cidade que não poderá ser fundada por nós mas fundar a si própria dentro de nós, construindo peça por peça em nossa capacidade de imaginá-la, de pensá-la até o fim, cidade que pretende habitar-nos, e não ser habitada, e, dessa forma, fazer de nós os possíveis habitantes de uma terceira cidade, diferente da utopia e diferente das cidades bem ou mal habitáveis hoje, que surgiu do choque entre novos condicionamentos internos e externos.

O lado da utopia que tem mais a nos dizer é, portanto, aquele que volta as costas à viabilidade. E isso vale também para aqueles reformadores oitocentistas que não acreditavam ser utopistas, mas inventores de projetos de realização imediata, e que implantavam novas possibilidades e corriam riscos, como Owen, como Cabet, e infalivelmente falhavam.

É sempre o lugar a pôr em crise a utopia. Onde executá-la? À margem da sociedade existente, para convertê-la com a virtude do exemplo? Então do radicalismo da Reforma ao compromisso do reformismo o passo é curto. Num mundo novo, em terras virgens, numa ilha deserta? (Utopia nasce após a viagem de Colombo, não nos esqueçamos disso.) Mas sabemos que não existe um mundo de ninguém: a exportação de uma civilização chama-se colonialismo, ainda que estejamos convencidos de fundá-la nova e desde o começo, diferente daquela da metrópole. Quanto a Fourier — ele que dizia não esperar outra coisa a não ser um mecenas para dar início à Harmonia —, quando seus seguidores se aprestavam a pôr em prática seu modelo societário, ele se apressava a dissociar-se. Sabia, ou ao menos pressentia, que, se destacassem seu sistema do papel, do discurso de pregação, perdia a força da oposição absoluta em relação a tudo o que se tinha feito e dito.

Entre os leitores atuais de Fourier não faltou quem se perguntasse se por um acaso o seu sonho não teria encontrado realização parcial hoje, em nossa civilização dos loisirs, quem sabe em instituições do tipo Club Méditerranée, onde o tempo livre é minuciosamente programado; bastaria essa dúvida para destruir o seu edifício por inteiro; ao contrário, parece-me verdade que aguenta o tranco: a comparação com o hoje esclarece como a ideia fourieriana de uma organização radical da felicidade de todos é incompatível com o pobre horizonte da felicidade comercial.

É diferente — acredito eu — o discurso a ser feito sobre o outro projeto monumental do começo do Oitocentos, o de Saint-Simon. O modelo da “sociedade industrial”, do poder tecnocrático que Saint-Simon propôs, podemos dizer que foi aquele que venceu, aquele que guia no vértice as escolhas, quer americanas quer soviéticas. (Embora ele quisesse dessa forma tirar os militares do caminho, e nisso a realidade está muito atrasada quanto aos prazos da profecia.) A diminuição da distância do possível é a prova de fogo para a utopia: ou dela sobram as cinzas, como as de Saint-Simon, ou se sublima.

Melhor as utopias mais visionárias de um Cyrano, de um Restif de la Bretonne. Assim, por volta dos anos de 1968, eu quis ler Fourier: como se lê um poeta, um romancista, um moralista, isto é, para se apropriar de um sistema fantástico-moral. (E o que me interessava era o caso bastante raro de uma moral antirrepressiva fundada na exatidão, no rigor metódico, na classificação.)

Se recordo aqui essa proposta, é porque ela encontrou pouca continuidade, e falta-me verificar se também para outros ela dá o mesmo resultado que deu para mim. Isto é, de insatisfação. Alguma coisa na minha abordagem não estava correta; poetas, romancistas, moralistas (refiro-me aos verdadeiros), uma vez que se tornaram teus, continuam te seguindo; o utopista não. A utopia não tem espessor: você pode compartilhar o seu espírito, acreditar nela, mas, além da página, ela não continua no mundo, você não consegue lhe dar uma definição por conta própria. Uma vez fechado o livro, Fourier não me segue, tenho de voltar a folhear as páginas para tornar a encontrá-lo ali, teimoso e límpido, e admirá-lo. Mas me dei conta de que, assim que havia saldado essa dívida da admiração que tinha por ele, todo passo que eu dava era para me afastar dele.

Claro, ultimamente também minha necessidade da representação sensorial da sociedade futura diminuiu. Não por uma vitalista reivindicação do imprevisível, tampouco por uma resignação cínica ao pior, ou porque eu tenha reconhecido a superioridade da abstração filosófica para me apontar o desejável, mas talvez apenas porque o melhor que espero ainda é outra coisa, e deve ser buscado nos ângulos, nas vertentes em sombra, no grande número de efeitos involuntários que o sistema mais calculado carrega consigo, sem saber que talvez ali mais que em qualquer outro lugar está sua verdade. Hoje a utopia que busco não é mais sólida do que gasosa: é uma utopia pulverizada, corpuscular, suspensa.