Até o verão terminar

Colleen Hoover · Capítulo 10 de 37

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Até o verão terminar

Oito

Nunca fui tão babaca na frente de uma única pessoa, e o pior é que só conheço esse cara há menos de dois dias.

Oito

Quando chegamos em casa, já está tarde. Guardo todas as minhas coisas novas. Essas últimas vinte e quatro horas foram torturantes, para dizer o mínimo. Estou exaurida. Acho até que o luto está começando a chegar. E por mais que eu e Sara tenhamos dividido um saco inteiro de donuts de chocolate, ainda estou com fome.

Vou até a cozinha e encontro meu pai sentado à mesa, com um laptop à sua frente e vários livros espalhados sobre a mesa. Ao me ouvir, ele ergue os olhos.

— Oi — diz ele, empertigando-se na cadeira.

— Oi. — Aponto para a despensa. — Só vim pegar um lanchinho.

— Abro a porta da despensa e pego um saco de batatinhas. Fecho a porta, na total intenção de retornar sorrateira para o quarto, mas meu pai tem outros planos.

— Beyah — diz ele, assim que alcanço o primeiro degrau. — Você tem um segundo?

Meneio a cabeça com relutância. Retorno à mesa e me sento à frente dele. Puxo um joelho para cima, tentando agir com displicência. Ele se recosta na cadeira e esfrega a mandíbula, como se o que tivesse a dizer fosse ser meio desagradável.

Será que ele sabe da minha mãe? Não sei se há pessoas além de mim que sejam um ponto de conexão entre os dois, então não sei o que ele pode ter descoberto.

— Me desculpe por não ter ido à sua formatura.

Ah. O assunto é sobre ele. Eu o encaro por um instante, então abro o saco de batatinhas. Dou de ombros.

— Tudo bem. Viagem longa para alguém com a perna quebrada.

Ele aperta os lábios, inclina o corpo para a frente e apoia os cotovelos sobre a mesa.

— Em relação a isso...

— Não ligo, pai. De verdade. Todo mundo mente para escapar de coisas que não quer fazer.

— Não é que eu não quisesse estar lá. É só que... eu achava que você não queria que eu fosse.

— Por que é que eu não ia querer que você fosse?

— É só que tenho a impressão de que você passou os dois últimos anos me evitando. E não te culpo. Sinto que não venho sendo um pai muito bom para você.

Olho o saco de batatas e dou uma sacudida no salgadinho.

— Não vem sendo, mesmo. — Como outra batatinha, como se não tivesse acabado de proferir o pior insulto que um filho poderia dizer a um pai.

Ele franze o cenho e abre a boca para responder, mas Sara desponta na escada e entra na cozinha, com muita energia para essa hora da noite.

— Beyah, vai botar o biquíni, a gente vai à praia.

Meu pai parece aliviado com a interrupção. Volta a atenção ao computador. Eu me levanto e levo outra batatinha à boca.

— O que tem na praia?

Sara ri.

— Tem a praia. É só disso que a gente precisa.

Ela tornou a vestir o short jeans e a parte de cima do biquíni.

— Estou muito cansada — respondo.

Ela revira os olhos.

— Só uma horinha, depois você dorme.

•

Quando chegamos às dunas, eu murcho. Esperava que houvesse mais gente, de modo que eu passasse despercebida, mas parece que o povo que estava na praia mais cedo dispersou e os únicos que sobraram foram Samson e Marcos. Além de umas pessoas nadando.

Marcos está sentado junto à fogueira, mas Samson está sozinho a vários metros de distância, encarando o oceano escuro. Sei que ele ouve nossa aproximação, mas não se vira para olhar. Ou está perdido nos próprios pensamentos, ou se esforçando para me ignorar.

Se o verão todo for desse jeito — com ele sempre por perto —, vou ter que dar um jeito de ficar à vontade na presença dele.

Há seis cadeiras abertas em torno da fogueira, mas em duas delas há toalhas jogadas e cervejas no apoio do braço; devem estar ocupadas. Sara está sentada ao lado de Marcos, então escolho uma das duas cadeiras restantes.

Sara olha para as duas pessoas nadando.

— Aqueles dois não são a Cadence e o Beau?

— Sim — responde Marcos. — Acho que ela vai embora amanhã.

Sara revira os olhos.

— Mal posso esperar. Queria que ela levasse o Beau também.

Não sei quem são Beau e Cadence, mas parece que Sara e Marcos não são muito fãs.

Tento não olhar Samson, mas é difícil. Ele está a cerca de três metros de distância, sentado, abraçado aos joelhos, olhando as ondas arrebentarem na areia. Odeio perceber que desejo saber o que ele está pensando, mas ele tem que estar pensando em alguma coisa. É isso o que acontece quando alguém encara o oceano.

Pensamentos. Vários.

— Vamos dar um mergulho — diz Sara, levantando-se e tirando o short. Ela olha para mim. — Quer vir?

Eu balanço a cabeça.

— Já tomei banho agora à noite.

Sara agarra a mão de Marcos e o força a se levantar da cadeira.

Ele a pega no colo e corre em direção à água. O grito agudo de Sara tira Samson do transe. Ele se levanta e bate a areia do short. Dá meia volta para retornar à fogueira, mas percebo que ele para ao ver que estou sozinha.

Cravo o olhar em Sara e Marcos, simplesmente porque não sei para o que mais olhar. Com certeza não quero olhar para Samson enquanto ele caminha até mim. Ainda estou com vergonha por ele ter ouvido uma parte da minha conversa mais cedo. Não quero que ele pense que odeio Sara, pois não odeio. Só não a conheço muito bem. Mas o que ele ouviu deve ter parecido pior do que era de verdade.

Em silêncio, ele se senta e encara a fogueira, sem fazer o menor esforço para falar comigo. Olho em volta, vendo o enorme espaço que há nesta praia, e fico pensando como posso estar me sentindo tão sufocada.

Antes de abrir a boca, inspiro o ar lentamente e solto com cuidado.

— Não falei a sério mais cedo. Sobre a Sara.

Samson me encara, com o semblante estoico.

— Que bom — diz ele, apenas.

Balanço a cabeça e desvio o olhar, mas não antes que ele me veja revirar os olhos com a resposta. Não sei por que, mas mesmo quando está defendendo os amigos ele parece um babaca.

— O que foi? — pergunta ele.

— Nada. — Reclino o corpo na cadeira e olho o céu. — Tudo —

sussurro para mim mesma.

Samson pega um graveto na areia, perto de sua cadeira. Começa a cutucar o fogo, mas não diz nada. Viro o rosto para a direita e olho a fileira de casas ao longo da praia. A de Samson é de longe a mais bacana de todas. A mais moderna. Toda branca, com detalhes pretos, quadrada, com muitas vidraças. Mas parece fria em comparação à casa de Alana e meu pai.

Também parece solitária, como se ele fosse o único morador dali.

— Você mora sozinho na sua casa?

— Não considero minha casa, na verdade, mas sim, sou a única pessoa que mora lá.

— E cadê os seus pais?

— Não estão aqui — responde ele.

As respostas curtas não se devem à timidez. Ele é tudo, menos tímido. Será que as conversas dele são assim com todo mundo ou só comigo?

— Você está na faculdade? — pergunto.

Ele balança a cabeça.

— Tirei um ano sabático.

Solto uma risada entre os dentes. Não é minha intenção, mas essa resposta é tão descolada de minha realidade.

Ele ergue a sobrancelha, perguntando em silêncio por que estou rindo da resposta.

— Para quem é pobre, ficar um ano sem estudar depois de terminar a escola é desperdiçar o próprio futuro — respondo. — Mas, se a pessoa é rica e passa um ano sem estudar, é sofisticado. Dão até um nome chique.

Ele me encara um instante, mas não fala nada. Eu queria abrir a cabeça dele e desvendar seus pensamentos. Por outro lado, talvez seus pensamentos não me agradem.

— Qual é o objetivo de um ano sabático, para começo de conversa? — pergunto.

— Supostamente, é para a pessoa se encontrar — responde ele, com uma ponta de sarcasmo.

— E você está conseguindo? Se encontrar?

— Nunca estive perdido — responde ele, sem rodeios. — Não passei o ano sabático fazendo mochilão pela Europa. Passei o ano cuidando das casas de aluguel do meu pai. Não foi muito sofisticado.

Parece que ele está meio magoado com isso, mas eu daria qualquer coisa para poder viver numa bela casa de praia e ainda ser paga.

— Quantas casas a sua família tem aqui?

— Cinco.

— Você mora em cinco casas de praia?

— Não em todas ao mesmo tempo.

Acho que ele sorriu um pouquinho, talvez. Não tenho certeza.

Talvez tenha sido a sombra da fogueira.

Nossas vidas são tão incrivelmente diferentes e, mesmo assim, cá estamos nós, sentados na mesma praia, diante do mesmo fogo.

Tentando levar uma conversa que não comprove o tamanho do abismo que nos separa. Mas esse abismo é tão grande, que não estamos nem no mesmo universo.

Eu queria poder passar um dia na mente dele. Na mente de qualquer pessoa rica. Como é que eles veem o mundo? Como é que

Samson me enxerga? Qual é a preocupação dos ricos, já que eles não têm que se preocupar com dinheiro?

— Como é ser rico? — pergunto a ele.

— Não deve ser muito diferente de ser pobre. Só que com mais dinheiro.

A resposta é tão ridícula, que nem me dou ao trabalho de rir.

— Só um rico diria isso.

Ele torna a largar o graveto na areia e recosta outra vez na cadeira. Vira a cabeça e faz contato visual comigo.

— E ser pobre, como é?

Sinto um bolo no estômago quando ele devolve minha própria pergunta. Dou um suspiro, refletindo se devo ser honesta.

Devo, sim. Já menti demais nas últimas vinte e quatro horas, e daqui a pouco o carma vai cobrar seu preço. Volto a atenção à fogueira à nossa frente enquanto respondo:

— A gente não recebia o auxílio-alimentação do governo porque minha mãe nunca estava sóbria o suficiente para ir buscar. A gente também não tinha carro. Certas crianças crescem sem ter que se preocupar com comida, há famílias que, por diversos motivos, dependem da assistência do governo e há as crianças como eu.

Totalmente negligenciadas. Que aprendem a fazer de tudo para sobreviver. O tipo de criança que não pensa duas vezes antes de comer uma fatia de pão de forma largada no deque de uma balsa, porque isso é normal. É o jantar.

Samson me encara, com a mandíbula tensa. Um longo silêncio se faz entre nós. Ele quase parece culpado, mas desvia os olhos de mim e volta a atenção às chamas.

— Me desculpe por dizer que não era tão diferente assim. Foi um comentário muito raso.

— Você não é raso — devolvo, baixinho. — Gente rasa não olha o oceano de um jeito tão profundo quanto você.

Na mesma hora, Samson me encara outra vez. Seus olhos mudaram um pouco... estão mais estreitos. Mais sombrios.

— Porra — diz ele, correndo a mão pelo rosto.

Não sei por que ele diz isso, mas sinto um arrepio. Parece que ele percebeu algo a meu respeito.

Não consigo perguntar, pois vejo um cara e uma garota saindo da água e caminhando em nossa direção. Cadence e Beau.

Quando eles se aproximam, percebo que é a garota que Samson estava beijando mais cedo, na cozinha de casa. Ela vem caminhando, com os olhos cravados em mim. Quanto mais perto chega, mais bonita fica. Ela não se senta na cadeira; vai direto para o colo de Samson. Ela me encara, como se esperasse uma reação minha por ter feito de Samson sua cadeira particular, mas sei esconder meus sentimentos muito bem.

Por que estou com sentimentos, para começo de conversa?

— Quem é você? — pergunta Cadence a mim.

— Beyah. Irmã postiça da Sara.

Pelo jeito como ela me analisa, não tenho dúvida de que estou diante de uma mocinha de vestiário. Ela enrosca os braços em Samson, como se ele fosse sua propriedade. Samson parece apenas entediado, ou perdido em pensamentos. Beau, que estava na água com Cadence, pega uma cerveja e se senta ao meu lado.

Começa encarando meus pés, então vai subindo pelo corpo todo, até chegar aos meus olhos.

— Eu sou o Beau — diz ele, escancarando um sorriso ambíguo e estendendo a mão.

Eu o cumprimento, enquanto Sara vem retornando do mergulho com Marcos. Ela solta um grunhido ao ver Beau me dando atenção.

— A Beyah está noiva — diz ela. — Nem perca seu tempo.

Beau olha minha mão.

— Não estou vendo aliança.

— É que o diamante é tão enorme, que fica muito pesado para ela usar o dia todo.

Beau se inclina mais para perto e me encara, com um sorriso forçado.

— Ela está mentindo porque me odeia.

— Estou vendo — respondo.

— De onde você é?

— Kentucky.

— Quanto tempo vai ficar?

— O verão todo, provavelmente.

Ele escancara o sorriso.

— Ótimo. Eu também. Se ficar entediada, eu moro logo... — Ele ergue a mão para apontar para sua casa, seja lá onde fique, mas para de falar, pois Sara agora está parada à nossa frente.

— Vem, Beyah — diz ela, agarrando minha mão. — Vamos para casa.

Fico aliviada. Não queria nem estar ali, para começar.

Eu me levanto. Beau revira os olhos e ergue a mão, num gesto de derrota.

— Você sempre cortando minha onda, Sara.

Sara se inclina e dá um beijo de despedida em Marcos. Olho para Samson. Só consigo enxergar sua mão pressionando a coxa de Cadence. Começo a caminhar com Sara, mas um instante antes Samson faz contato visual comigo. Seu olhar é tão intenso, que sinto um aperto no peito. Desvio o olhar e acompanho Sara, sem olhar para trás.

— Qual é a do Beau? — pergunto, enquanto caminhamos de volta à casa.

— Ele é um sem noção, de todas as formas imagináveis. Não dê atenção a ele, por favor, é a última coisa que ele merece.

É difícil dar atenção a outra pessoa quando Samson está na minha frente.

Sara e eu cruzamos as dunas. Meu corpo inteiro quer dar uma última olhada para trás, para ele, mas não olho.

— E a garota? Cadence?

— Não esquenta — responde Sara. — Ela vai embora amanhã, e o Samson vai ficar livre.

Dou uma risada.

— Não estou na fila.

— Acho que assim é melhor — diz Sara, quando chegamos à casa dela. — O Samson vai para a Academia da Força Aérea no fim do verão. Por mais que eu tenha a esperança de juntar vocês dois, seria uma droga se você se apaixonasse por ele logo antes de ele ir embora.

Ao ouvir isso, paraliso no degrau da escada, mas Sara não percebe, pois está à minha frente. A informação me pega de surpresa. Ele não tinha mencionado o que faria ao fim do ano

sabático. Não sei por que, mas não esperava que fosse algo de cunho militar.

Quando chegamos à casa, todas as luzes estão apagadas.

— Quer ficar acordada e ver um filme?

— Estou exausta. Amanhã à noite, pode ser?