Até o verão terminar

Colleen Hoover · Capítulo 18 de 37

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Até o verão terminar

Dezesseis

Mal conheço esse cara, mas de alguma forma consigo me comunicar mais com ele em silêncio do que jamais consegui verbalmente com qualquer outra pessoa.

Ele me dá uma olhada, e é o bastante para provar que não preciso saber mais nada. Pelo menos não agora.

No tempo certo, vou removendo as camadas.

Dezesseis

Mais tarde, quando chegamos à fogueira, não há dois lugares lado a lado, então Samson se senta à minha frente.

Infelizmente, quem está ao meu lado é Beau.

Percebo que Samson olha para Beau toda vez que ele fala comigo. Estou tentando deixar bem nítido meu desinteresse, mas Beau não pega a deixa. Caras feito ele nunca pegam. Estão acostumados a conseguir o que querem, então não sabem reconhecer quando não são desejados. Esse é um fato incompreensível a Beau, tenho certeza.

— Ai, meu Deus — murmura Sara.

Olho para ela, que aponta para um cruzamento de dunas a cerca de quinze metros do ponto onde estamos.

Cadence vem caminhando pela areia.

— Achei que ela tinha ido embora — digo.

— Eu também — responde Sara.

Com um bolo no estômago, vejo Cadence se aproximar de nós. Samson está de costas para ela, então não percebe sua aproximação.

Quando ela chega, estende as mãos por trás e cobre os olhos de Samson. Ele puxa as mãos dela e vira o pescoço.

— Surpresa! — exclama ela, antes que ele possa reagir. Então se inclina e o beija na boca. — A gente voltou para ficar mais uma semana.

Meu sangue parece se transformar em lava.

No instante em que ela se afasta, Samson crava os olhos nos meus. O ciúme não está estampado em meu rosto, mas certamente corre por minhas veias.

Samson se levanta e se vira para Cadence. Não consigo ouvir o que diz, mas ele me olha por uma fração de segundo, então leva a mão às costas de Cadence, na altura da cintura, e aponta para a água. Os dois começam a caminhar, e só o que consigo fazer é olhar para baixo.

Espero que ele esteja se afastando para dispensá-la com carinho.

Ou sem carinho, não dou a mínima.

Não que ele me deva qualquer coisa. Fui eu quem interrompeu o beijo ontem à noite.

— Você está bem? — pergunta Sara, percebendo minha mudança de comportamento.

Solto um suspiro firme.

— O que eles estão fazendo?

— Quem? A Cadence e o Samson?

Faço que sim — Estão caminhando. — Ela estreita os olhos para mim, desconfiada. — O que está rolando entre vocês?

Balanço a cabeça.

— Não tem nada rolando.

Sara se recosta de volta na cadeira.

— Sei que você é reservada em relação a um monte de coisas, Beyah. Fico de boa com isso, mas se o Samson te beijar, você pode, por favor, me sinalizar? Não precisa nem falar em voz alta. Faz um joinha, qualquer coisa.

Meneio a cabeça e olho outra vez para Samson e Cadence. Os dois estão de pé, a uns sessenta centímetros um do outro. Ela tem os braços cruzados com firmeza na altura do peito. Parece nervosa.

Retorno o olhar à fogueira, mas alguns segundos depois ouvimos um arquejo coletivo.

— Puta merda — diz Marcos, com uma risada. Olho para ele, mas ele está encarando Samson, que agora caminha de volta para a fogueira. Está sozinho, esfregando o rosto.

— Ela deu um tapa nele — sussurra Sara. Quando Samson se acomoda na cadeira, ela pergunta: — O que foi que você falou para ela?

— Nada que ela quisesse ouvir.

— Você dispensou a garota? — pergunta Beau. — Para que fazer uma merda dessas? Ela é gostosa.

Samson olha Beau, impassível. Abana a mão na direção de Cadence, que se afasta a passos firmes.

— Ela está livre, Beau. Pode cair em cima.

Beau balança a cabeça.

— Não, só quero cair em cima dessa aqui — responde ele, apontando para mim.

— Não vai rolar, Beau — digo.

Beau escancara um sorriso, e não entendo como minha recusa fria e direta pode levá-lo a crer que haja qualquer intenção para além das palavras que acabei de dizer. Ele se levanta e segura minha mão.

Tenta me puxar, mas não me mexo.

— Vem dar um mergulho comigo.

Balanço a cabeça.

— Já falei duas vezes que não.

Ele tenta me levantar, mas respondo com um chute em seu joelho, e no mesmo instante Samson se levanta e se põe entre nós, encarando Beau.

— Ela falou que não.

Beau olha Samson, então se vira e olha para mim.

— Ah, já entendi — diz ele, balançando o dedo entre nós dois. —

Vocês estão de rolo.

— Isso não tem nada a ver comigo — diz Samson. — Já ouvi a garota pedir várias vezes que você deixasse ela em paz. Se liga, porra.

Samson está nervoso. Não sei se é por ciúme ou apenas porque Beau é um babaca.

Espero que o assunto se encerre, mas Beau parece não gostar que aumentem a voz para ele. Dá uma guinada e acerta Samson no rosto. Então ergue os punhos, preparado para briga, mas Samson leva a mão à mandíbula e encara Beau com firmeza.

— É sério isso?

— Sim, porra, é sério — responde Beau, ainda em postura de combate.

Marcos se levanta, pronto para defender Samson, mas ele não se dispõe a entrar no jogo de Beau.

— Vai para casa, Beau — diz Marcos, plantando-se entre ele e Samson.

Beau encara Marcos.

— Como é que se diz imbecil em mexicano?

A única coisa que odeio mais que um babaca é um babaca racista.

— É espanhol, não mexicano — devolvo. — E acho que Beau é a tradução correta para imbecil.

Ao ouvir isso, Samson solta uma risadinha. Beau fica irritado.

— Vai se foder, seu riquinho desgraçado. Vão para o inferno vocês todos. — Beau está com o rosto vermelho de raiva.

— Toda vez que você aparece já é um inferno — retruca Sara, num tom seco.

— Vai se foder. — Beau aponta para Sara, depois para mim. — E

você também, vai se foder.

Acho que neste ponto Samson chega ao limite. Não bate em Beau, mas parte para cima dele tão depressa, que Beau recua. Beau dá meia-volta, pega suas coisas e vai embora.

Que bela visão.

Samson desaba na cadeira, segurando a mandíbula.

— Já levei um tapa e dois socos desde que você chegou.

— Então para de tomar o meu lado.

Samson me olha com um sorrisinho, quase como se dissesse “não vai rolar”.

— Você está sangrando. — Pego uma toalha e limpo o rosto dele.

Vejo um pequeno corte em seu maxilar. Beau devia estar de anel. —

É bom botar um curativo nisso aí.

Samson me encara, e o olhar dele muda.

— Tenho curativo em casa.

Ele se levanta, contorna a fogueira e começa a rumar para casa.

Não me convida e nem espera por mim, mas por sua expressão percebo que ele quer que eu vá atrás. Levo a mão à nuca, sentindo o calor subir à pele. Então me levanto. Antes de me afastar, olho para Sara.

— Não esquece — sussurra ela. — Um sinal. Um joinha.

Dou uma risada, então sigo para a casa de Samson. Ele está vários metros à frente, mas deixa a porta aberta, então sabe que estou vindo.

Quando chego no alto da escada, solto um suspiro para me acalmar. Não sei por que estou nervosa. A gente se beijou ontem à noite. A parte mais difícil já passou.

Entro na casa e fecho a porta. Samson está diante à pia, molhando uma toalha de papel. Adentro a cozinha e percebo que ele não acendeu nenhuma lâmpada. A única luz da casa vem dos aparelhos eletrônicos e do luar que invade as janelas.

Eu me debruço na bancada para olhar o corte. Ele inclina a cabeça para que eu possa analisar.

— Ainda está sangrando? — pergunta.

— Um pouco.

Eu me afasto e o observo pressionar a toalha de papel contra a mandíbula.

— Não tenho curativo nenhum. Era mentira.

Faço que sim.

— Eu sei. Você não tem bosta nenhuma nessa casa.

Ele contorce a boca, como se quisesse sorrir, mas algo pesado estorva seu sorriso. Seja lá o que for, pesa em mim também.

Ele larga a toalha de papel na pia e agarra a borda da bancada, como se precisasse se conter.

Ele não vai tomar a iniciativa desta vez, por mais vontade que demonstre ter. Eu, nervosa como estou, quero experimentar um beijo inteiro dele, do início ao fim.

O olhar de Samson é feito um ímã que me atrai. Eu me aproximo, num movimento tímido. Por mais que eu pareça nervosa, ele não pressiona. Apenas espera. Meu coração bate forte no peito, e fica evidente para nós dois que estou indo beijá-lo.

É diferente de ontem à noite. Parece mais significativo, já que nós dois passamos o dia pensando nisso e obviamente chegamos à conclusão de que ambos queremos repetir a dose.

Sustentamos o contato visual, enquanto me ergo na ponta dos pés e uno nossos lábios. Ele sorve o ar, com minha boca colada à dele, como se invocasse uma paciência que já não tem.

Eu me afasto um tantinho, querendo ver sua reação. O olhar fixo e os lábios entreabertos são uma pista promissora do que vai acontecer. Não sinto que vou fugir da cozinha outra vez, depois de passar vinte e quatro horas lamentando esse movimento.

Samson baixa a cabeça junto à minha. Fecho bem os olhos ao sentir sua mão em minha nuca. Ele encosta a testa na minha, e imagino que também esteja com os olhos fechados. É como se ele quisesse estar perto de mim, mas soubesse que não pode me abraçar e não soubesse se deve me beijar.

Inclino a cabeça para trás, por instinto, querendo seus lábios junto aos meus. Ele aceita o convite silencioso e beija o canto de minha boca, depois o meio. Solta um suspiro trêmulo, saboreando o que está por vir.

A mão enroscada em meu cabelo inclina minha cabeça mais para trás, e ele me beija com confiança.

É um beijo lento e profundo, como se para sobreviver ele tivesse que tragar um tantinho de minha alma. Ele tem gosto de água salgada, e meu sangue mais parece o mar, revolto e agitado nas veias.

Quero viver neste momento. Dormir e acordar neste instante.

Ainda não quero que o beijo termine, mas gosto do jeito como ele começa a afrouxar o ritmo. Gradual, cuidadoso, árduo, como se reduzisse a marcha de um trem.

Quando encerramos, ele me solta, mas não me mexo. Ainda estou agarrada a ele, mas ele agora segura outra vez a bancada, com as mãos ao lado do corpo. Aprecio que ele não tenha me abraçado.

De um beijo eu dou conta, isso já está provado. Mas para um abraço ainda não estou tão preparada, e ele sabe como me sinto a esse respeito.

Apoio a testa em seu ombro e fecho os olhos.

Ele une a cabeça à minha, e ouço sua respiração forte e profunda.

Ficamos assim um instante, e não sei o que sentir ou pensar. Não sei se é normal sentir meia tonelada de peso a mais depois de um beijo.

Sinto que estou fazendo tudo errado, mas ao mesmo tempo parece que Samson e eu talvez sejamos as únicas pessoas no mundo que estão fazendo a coisa certa.

— Beyah — sussurra ele.

Sua boca está bem ao pé do meu ouvido. Ao ouvir meu nome, sinto um arrepio que desce do pescoço até os braços. Continuo de olhos fechados e com a testa junto ao peito dele.

— Oi.

Há uma pausa, que parece maior do que de fato é.

— Vou embora em agosto.

Não sei o que responder. São apenas quatro palavras, mas que riscam uma linha profunda na areia. Uma linha que eu sabia que uma hora chegaria.

— Eu também — digo.

Ergo a cabeça, e meu olhar é atraído para o colar dele. Toco o pingente de madeira. Ele me olha como se quisesse me beijar outra vez. Eu repetiria a dose umas mil vezes hoje à noite. Não senti nada de ruim desta vez. Foi arrepiante, mas bom. Como se ele tivesse me beijado às avessas, de dentro para fora... do mesmo jeito como me olha às vezes. Como se visse meu interior antes de ver o lado de fora.

Ele ergue meu queixo com o dedo e pressiona outra vez os lábios nos meus, agora com os olhos abertos, me absorvendo. Afasta-se, mas não muito. Todas as palavras parecem penetrar minha boca, quando ele fala.

— Se a gente embarcar nessa, vamos ter que ficar na parte rasa.

Assinto, mas então balanço a cabeça. Não sei se concordo ou discordo.

— Como assim, na parte rasa?

O olhar dele é tenso como o que sinto em meu peito. Ele corre a língua sobre o lábio superior, como se pensasse na melhor forma de elaborar seus pensamentos sem me machucar.

— É só que... se virar alguma coisa. Um namoro de verão. Quero que seja só isso. Não quero sair daqui em agosto no meio de um

relacionamento.

— Também não quero. A gente vai um para cada lado do país.

Ele corre o dorso da mão pelo meu braço. Ao retornar, não para no ombro. Sobe os dedos pela clavícula, então para na minha bochecha.

— Às vezes as pessoas se afogam na parte rasa — sussurra ele.

Que pensamento sombrio. Imagino que ele pretendesse guardar para si. Mas cá estou eu, removendo suas camadas, quer ele goste ou não.

Tantas camadas.

Não sei como esse beijo fez parecer que eu transpus todas as camadas e penetrei seu âmago, mas foi isso mesmo. É como se eu visse seu verdadeiro eu, apesar do tanto que ainda desconheço.

— Quem era aquele cara no jantar? — pergunto.

Ele engole em seco e desvia o olhar. Sinto vontade de tocar sua garganta, para aliviá-lo.

— Não quero mentir para você, Beyah. Mas também não posso ser honesto.

Não faço ideia do que isso quer dizer, mas a questão é que Samson não parece o tipo que fabrica dramas para chamar a atenção. Com essas palavras, ele me faz pensar que a coisa é ainda pior do que ele vem me apresentando.

— Qual foi a pior coisa que você já fez? — pergunto a ele.

Ele torna a me olhar, com outro previsível balanceio de cabeça.

— É tão ruim assim?

— É ruim.

— Pior do que o que fiz com o Dakota?

Samson contrai os lábios em uma linha fina, irritada, então baixa a cabeça e me encara com intensidade.

— Existem dois tipos de erro. O erro que deriva da fraqueza e o que deriva da força. Você fez uma escolha porque foi forte e tinha que sobreviver. Não fez essa escolha por fraqueza.

Eu me agarro a todas as palavras, pois quero fazer dessa a minha verdade.

— Você me responderia uma coisinha só? — indago. Ele não diz que sim, mas também não diz que não. Apenas aguarda. — Foi algum tipo de agressão?

— Não. Nada desse tipo.

Fico aliviada. E ele percebe. Com as duas mãos, alisa meu cabelo por sobre os ombros, dá um beijinho em minha testa e apoia a cabeça na minha.

— Te conto na véspera de você ir para a faculdade.

— Se vai me contar, por que não conta logo agora?

— Porque quero passar o resto do verão com você. Se te contar, acho que você não vai mais querer.

Não sei que revelação é essa capaz de me fazer desistir de falar com ele, mas sei que se ficar com a cabeça presa nisso vou acabar me estressando.

Vou esperar.

No ritmo em que nossas conversas têm corrido, arranco isso dele antes de agosto.

Por enquanto, só dou um aceno com a cabeça, pois ele não vai querer me contar nada hoje à noite. E se há algo que posso fazer agora é demonstrar a mesma paciência que ele teve comigo ontem à noite.

Ele me beija outra vez. É um beijo ligeiro. De boa noite.

Eu me afasto e vou até porta, sem dizer nada, pois todas as palavras parecem muito imensas para minha voz. Neste momento é difícil até cruzar a porta. Não consigo nem imaginar como vai ser o dia três de agosto.

P.J. está esperando do lado de fora. Muito leal, desce as escadas comigo e me acompanha até minha casa. Quando chego ao topo da escada, ele vai se deitar em sua caminha.