Até o verão terminar
Treze
E adoro ver que Sara nem estremeceu quando mencionei o sorvete. Talvez eu não seja tão ruim para ela quanto pensei que fosse. Posso não ser tão alegre e animada como ela, mas saber que
ela está gostando de comer e não parece tão preocupada com o peso quanto estava quando cheguei me faz pensar que eu talvez tenha algo a oferecer a essa amizade.
É uma sensação nova: a ideia de que talvez minha presença valha a pena.
Treze
O alarme do meu celular dispara antes mesmo de o sol aparecer.
Eu devia cancelar essa porcaria, mas há algo de empolgante em assistir ao nascer do sol e de quebra conseguir ter um vislumbre de Samson.
Saio da cama me arrastando. Deixo no corpo a camiseta com que dormi e visto um short, só para o caso de Samson estar do lado de fora da sacada.
Faz dez segundos que acordei e já pensei nele duas vezes. Minha recusa de ontem à noite não parece estar ajudando em nada.
Abro a porta de minha sacada.
Então, solto um grito.
— Shh — diz Samson, rindo. — Sou eu.
Ele está sentado no sofá de palha, com as pernas apoiadas no parapeito à frente. Levo a mão ao peito e solto um suspiro, para me acalmar.
— O que você está fazendo aqui?
— Esperando você — responde ele, num tom casual.
— Como é que você conseguiu subir?
— Eu pulei. — Ele ergue o braço e me mostra o cotovelo. Está sujo de sangue. — Era mais longe do que parecia da minha janela, mas consegui.
— Você é louco?
Ele dá de ombros.
— Se não tivesse conseguido, a queda não seria tão alta. Eu teria ido parar na sacada do andar inferior.
É verdade. Ele não teria caído no chão, por conta da planta da casa, mas mesmo assim. Entre as duas casas há quase um metro de distância sem nada embaixo.
Eu me sento ao lado dele. O sofá é de dois lugares, mas ainda assim é pequeno, então nossos corpos se tocam. Acho que era esse o objetivo, ou ele teria escolhido uma das poltronas.
Inclino a cabeça para trás e me recosto. De alguma forma, acabo me aproximando mais dele do que pretendia. Minha cabeça agora repousa em seu antebraço, mas não parece estranho.
Ambos encaramos a diminuta faixa de sol que começa a despontar por sobre a água.
Passamos vários minutos juntos, em silêncio, observando o sol nascer. Devo dizer que é mais gostoso ver o dia nascer com Samson em minha sacada do que quando estamos cada um em uma casa.
Samson apoia o queixo em meu cocuruto. É um movimento sutil, mas mesmo essa pequenina e silenciosa demonstração de afeto me atinge feito uma explosão. Não sei como tudo dentro de mim pode estar gritando tão alto, enquanto uma parte do mundo ainda está dormindo.
Agora já dá para ver uns três quartos de sol. A parte de baixo ainda parece imersa no mar.
— Preciso ir; estou ajudando um cara a consertar uma passagem entre dunas na ilha. Quero terminar o trabalho antes que o calor aumente. Quais são os seus planos?
— Voltar para a cama e dormir até o meio-dia. Acho que a Sara quer ir para a praia de tarde.
Ele passa o braço por trás do encosto da cadeira e se levanta.
Meus olhos o acompanham. Antes de sair, ele me olha.
— Você contou à Sara que a gente se beijou?
— Não. A gente está tentando esconder deles?
— Não. Eu só estava curioso para saber se você tinha dito a ela.
Não sabia se o Marcos ia tocar no assunto hoje. E quero alinhar nossas respostas.
— Não contei para ela.
Ele assente, vai até o parapeito e se vira outra vez.
— Eu não ligo. Não foi por isso que eu perguntei.
— Para de se preocupar com os meus sentimentos, Samson.
Ele afasta o cabelo da testa.
— É mais forte do que eu.
Ele caminha para trás, lentamente.
— O que é que você está fazendo? Vai pular de novo?
— Não é tão longe assim. Eu consigo.
Reviro os olhos.
— Todo mundo ainda está dormindo. Desce a escada e sai pela porta da frente, antes que você quebre o braço.
Ele olha o cotovelo coberto de sangue.
— É, talvez seja melhor.
Eu me levanto e entro no quarto com ele. Já quase na porta, ele para e olha a imagem da Madre Teresa em minha cômoda.
— Você é católica? — pergunta.
— Não. Só estranhamente sentimental.
— Jamais imaginei que você fosse sentimental.
— Por isso o “estranhamente”.
Ele ri e vem atrás de mim. Na base da escada, paramos.
Meu pai está de pé na cozinha, em frente a um bule de café.
Arrasta os olhos até a escada e me vê ali parada, ao lado de Samson. De súbito eu me sinto como uma criança pega na mentira.
Nunca precisei lidar com esse tipo de punição. Minha mãe não dava a mínima para mim, nem prestava atenção, então não sei o que vai me acontecer. Estou meio nervosa, considerando que meu pai não parece satisfeito. Ele olha direto para Samson.
— Pois é, isso não está certo — diz meu pai.
Samson avança à minha frente e ergue as mãos, em defesa.
— Não passei a noite aqui. Por favor, não me soque de novo.
Meu pai me olha, pedindo uma explicação.
— Ele chegou faz quinze minutos. A gente viu o sol nascer.
Meu pai olha para Samson.
— Estou nesta cozinha há bem mais de quinze minutos. Se você chegou faz quinze minutos, como foi que entrou?
Samson dá uma coçadinha na nuca.
— Eu... hum... pulei. — Ele ergue o braço e mostra o cotovelo cheio de sangue. — Quase caí.
Meu pai o encara um instante, então balança a cabeça.
— Você é um imbecil — murmura ele, enchendo a caneca de café.
— Querem um café?
Eita. Essa foi fácil contornar.
— Não, obrigado — diz Samson, já se esgueirando rumo à porta.
Ele olha para mim. — Te vejo mais tarde?
Meneio a cabeça. Samson ergue a sobrancelha e me dá uma olhada. Depois que vai embora, passo vários segundos encarando a porta, sorrindo. Meu pai solta um pigarro e me traz de volta ao presente. Olho para ele, esperando que a conversa tenha chegado ao fim.
— Eu aceito um café — digo, tentando desviar sua atenção.
Meu pai pega uma caneca no armário e serve um pouco.
— Você toma puro?
— Não. Lotado de creme, lotado de açúcar.
Eu me sento numa das cadeiras da bancada, enquanto meu pai prepara o café.
— Não sei o que sentir em relação ao que acabou de acontecer —
diz ele, deslizando a caneca para mim.
Beberico o café, olhando a caneca para não ter que encarar meu pai. Apoio-a outra vez na bancada e envolvo-a com as mãos.
— Eu não menti. Ele não passou a noite.
— Ainda — devolve meu pai. — Eu também já fui adolescente.
Não tem nem dois metros de distância entre sua sacada e a dele.
Hoje pode ter sido o nascer do sol, mas você vai passar o verão inteiro aqui. Eu e a Alana não permitimos que a Sara traga nenhum rapaz para passar a noite. E é muito justo que as mesmas regras se apliquem a você.
— Tudo bem — respondo, meneando a cabeça.
Meu pai me olha, como se não soubesse ao certo se estou concordando de verdade ou só para acalmá-lo. Para ser honesta, nem eu sei.
Ele se debruça sobre a bancada e dá um gole no café.
— Você sempre acorda cedo assim? — pergunta.
— Não. O Samson queria que eu visse o sol nascer, então programou um alarme no meu celular.
Meu pai acena para a porta por onde Samson saiu.
— Então, ele... vocês estão namorando?
— Não. Eu vou para a Pensilvânia em agosto, não quero namorar ninguém.
Meu pai estreita os olhos para mim.
— Pensilvânia?
Merda.
Saiu sem querer.
No mesmo instante eu baixo os olhos. Minha garganta trava de tanto nervosismo. Solto um suspiro lento.
— A-hã — é tudo o que respondo. Talvez ele não se intrometa.
— Por que você vai para a Pensilvânia? Quando tomou essa decisão? O que tem na Pensilvânia?
Agarro a caneca com mais força ainda.
— Eu ia te contar. Eu só... estava esperando o momento certo. —
Que mentira. Eu não tinha qualquer intenção de contar a ele, mas agora estou contando. — Consegui uma bolsa na Estadual, para jogar vôlei.
Meu pai me encara, inexpressivo. Sem surpresa, raiva ou empolgação. Apenas o semblante inexpressivo e indecifrável.
— Está falando sério?
Assinto.
— Sério. Bolsa integral. Chego lá no dia três de agosto.
Sua expressão ainda é séria.
— Quando foi que você soube disso?
Engulo em seco e dou um gole no café, tentando decidir se digo a verdade. Talvez ele se irrite.
— No primeiro ano — respondo, baixinho.
Ele se engasga com o ar.
Parece muito surpreso. Ou ofendido. Não sei ao certo.
Em silêncio, ele se afasta da bancada e caminha até a janela.
Encara o oceano, de costas para mim. Depois de cerca de trinta segundos de silêncio, ele se vira e me olha outra vez.
— Por que você não me contou?
— Sei lá.
— Beyah, isso é muito importante. — Ele retorna, em minha direção. — Você devia ter me contado. — Antes de chegar perto, ele para. Vejo a confusão tomando conta. — Se você conseguiu uma bolsa integral faz todo esse tempo, por que a sua mãe falou que você precisava de dinheiro para a inscrição na faculdade comunitária?
Solto um suspiro firme, com a mão agarrada à nuca. Pressiono os cotovelos na bancada e tomo um instante para encontrar a melhor resposta.
— Beyah?
Balanço a cabeça, para que faça um segundo de silêncio. Franzo a testa.
— Ela mentiu para você — respondo. Eu me levanto e levo a caneca até a pia. — Eu nem sabia que ela andava te pedindo dinheiro para isso. Ela também não sabia da bolsa, mas eu te garanto que nenhum dinheiro que você deu a ela para pagar qualquer inscrição foi usado comigo, para começo de conversa.