Até o verão terminar
Vinte e nove
Leio o bilhete várias vezes, e minhas lágrimas vão pingando na folha. Este é Samson. Não dou a mínima para o que os outros acreditam. É a essa pessoa a que vou me agarrar até o dia em que ele for solto.
Também é essa a razão por que me recuso a ir embora. Ele precisa da minha ajuda. Sou tudo o que ele tem. Não há meio de eu simplesmente me afastar dele agora. A ideia de sair desta cidade antes de saber qual será o destino dele é uma jogada egoísta. Ele
acha que está me fazendo um favor, mas não faz ideia do que sua decisão está fazendo comigo. Se soubesse, imploraria para que eu ficasse.
Ouço uma leve batida à minha porta.
— Beyah, posso entrar?
Sara põe a cabeça para dentro, mas não estou a fim de discutir.
Não sei nem se tenho força para dizer isso em voz alta. Apenas aperto junto ao peito o caderno com as palavras dele e viro o corpo para a parede.
Sara se deita na cama comigo e me abraça por trás.
Não diz nada. Apenas assume o papel de irmã mais velha, em silêncio, e fica comigo até que eu adormeça.
Vinte e nove
A essa altura, o nascer do sol é a única coisa pacífica que tenho na vida.
Estou esperando aqui fora desde as cinco da manhã. Não consegui dormir. Como vou dormir depois da semana que passei?
Toda vez que fecho os olhos, vejo Samson se afastando de mim sem olhar para trás. Quero recordar todas as vezes que ele me olhou com esperança, entusiasmo, intensidade. Mas tudo que vejo é o último momento, em que ele me deixou sozinha e aos prantos.
Temo que seja essa minha lembrança dele, e não quero que o nosso último adeus seja assim. Estou confiante de que posso fazê-lo mudar de ideia. Estou confiante de que posso ajudá-lo.
Hoje tenho uma entrevista de emprego na única loja de donuts da península. Vou juntar cada centavo que puder para ajudá-lo. Sei que ele não quer, mas é o mínimo que posso fazer por tudo o que ele trouxe à minha vida neste verão.
Esse sem dúvida será um ponto de disputa entre mim e meu pai enquanto eu estiver nesta casa com ele. Ele acha que estou sendo ridícula por não ir para a Pensilvânia. Eu acho que ele está sendo ridículo por esperar que eu abandone alguém que não tem
simplesmente ninguém. Quase ninguém conhece a solidão como eu e Samson.
Também não sei como meu pai espera que eu recomece a vida em um novo estado pela segunda vez no mesmo verão. Não tenho energia para recomeçar. Estou totalmente drenada.
Não tenho energia para cruzar o país, e, sobretudo não tenho energia para jogar voleibol de modo a sustentar minha bolsa.
Não sei nem se tenho energia para levantar da cama e fazer donuts todo dia, caso consiga o emprego, mas saber que cada centavo será usado para ajudar Samson vai fazer com que valha a pena.
Tão logo o sol começa a despontar no horizonte, minha atenção é desviada para a porta do quarto. Meu pai enfia a cabeça pela porta, e meu corpo todo desaba num suspiro diante da presença dele.
Era muito tarde para discutir ontem à noite, e é muito cedo para discutir hoje de manhã.
Ele parece aliviado em me ver sentada aqui. Quando não me viu na cama, deve ter achado que eu tinha fugido de casa durante a madrugada.
Tive vontade de fugir muitas vezes, mas aonde iria? Parece que já não pertenço a lugar algum. Samson foi o primeiro lugar ao qual senti que pertencia, e isso foi arrancado de mim.
Meu pai se senta ao meu lado. Não relaxo perto dele como relaxava com Samson. Permaneço rígida, renitente.
Ele assiste comigo ao nascer do sol, mas sua presença estraga tudo. É difícil encontrar a beleza nessa cena com tanta raiva dirigida ao homem sentado ao meu lado.
— Lembra a primeira vez que a gente foi à praia? — pergunta ele.
Balanço a cabeça.
— Eu nunca tinha ido à praia antes deste verão.
— Tinha, sim. Mas você era muito novinha. Talvez não se lembre, mas eu te levei a Santa Monica quando você tinha uns quatro, cinco anos.
Eu enfim faço contato visual com ele.
— Eu já fui à Califórnia?
— Sim. Você não lembra?
— Não.
Por um instante ele exibe uma expressão de pesar, então tira o braço do encosto da cadeira e se levanta.
— Já volto. Tenho umas fotos em algum lugar. Peguei o álbum lá da casa de Houston quando soube que você estava vindo.
Ele tem fotos da minha infância? Numa praia, supostamente?
Só acredito vendo.
Minutos depois, meu pai retorna com um álbum de fotos. Senta-se outra vez na cadeira, abre o álbum e entrega a mim.
Ao olhar as fotos, sinto que estou olhando a vida de outra pessoa.
Há tantas fotografias que nem sequer me lembro de terem sido tiradas. Dias dos quais não tenho qualquer recordação.
Vejo uma sequência de fotos minhas correndo na areia e não consigo atrelá-las a nenhuma memória. Nessa idade eu nem devia saber o significado de fazer uma viagem de carro.
— Quando foi isso? — pergunto, apontando para uma imagem de mim sentada a uma mesa, diante de um bolo de aniversário, mas vejo no fundo uma pequena árvore de Natal. Faço aniversário meses depois do Natal, e só costumava visitar meu pai no verão. — Não me lembro de ter passado nenhum Natal com você.
— Teoricamente, não passou. Como você só ia me ver no verão, eu transformava todos os feriados numa única celebração grandona.
Agora que ele mencionou, eu me recordo vagamente. Tenho a lembrança distante de estar abrindo presentes, com a pança dolorida de tão cheia. Mas isso já faz muito tempo, e essas recordações não me acompanharam ao longo dos anos. Ao que parece, as tradições também não.
— Por que você parou? — pergunto.
— Não sei, na verdade. Você começou a crescer, e a cada visita parecia menos interessada nessas coisinhas bobas. Ou talvez eu tenha deduzido isso. Você era uma criança tão calada... era difícil arrancar qualquer coisa de você.
A culpada disso é minha mãe.
Folheio o álbum e paro numa foto em que estou sentada no colo de meu pai. Nós dois sorrimos para a câmera. Ele está me abraçando, e eu estou encolhidinha perto dele.
Todos esses anos, achei que ele nunca tivesse sido carinhoso comigo. Passei tantos anos sem receber carinho, que é disso que
mais me recordo.
Corro o dedo pela foto, triste com o que possa ter acontecido a nós para mudar esse relacionamento.
— Quando foi que você parou de me tratar como sua filha?
Meu pai suspira, um suspiro repleto de coisas.
— Quando você nasceu eu tinha vinte e um anos. Eu nunca soube o que estava fazendo. Quando você era pequenina era mais fácil fingir, mas depois que você cresceu, eu só... eu me sentia culpado. E
essa culpa começou a afetar o nosso tempo juntos. Eu sentia que as suas visitas eram inconvenientes para você.
Balanço a cabeça.
— As visitas eram a única coisa pela qual eu esperava.
— Eu queria ter sabido disso — responde ele, baixinho.
Começo a desejar ter dito a ele.
Se existe algo que aprendi com Samson neste verão é que guardar tudo não leva a nada. Só faz com que a verdade machuque ainda mais, no fim das contas.
— Eu não fazia ideia do tipo de mãe que ela era, Beyah. Ontem à noite a Sara me contou umas coisas que você disse a ela, e... — A voz dele sai trêmula, como se ele lutasse para conter as lágrimas. —
Eu fiz tanta coisa errada. Não tem desculpa. Você tem todo o direito de se ressentir, porque você tem razão. Eu devia ter me esforçado mais para te conhecer. Eu devia ter me esforçado mais para passar mais tempo com você.
Meu pai pega o álbum de fotos e apoia na cadeira a seu lado.
Então me encara, com o semblante cheio de desconforto.
— Sinto que isso que você está fazendo... deixando o destino desse cara ditar o seu próprio futuro... é culpa minha, pois eu nunca servi de exemplo para você. Mas, apesar disso, você se tornou essa pessoa maravilhosa, o que não é mérito meu. É mérito seu. Você é uma lutadora, então naturalmente ia querer ficar e lutar pelo Samson.
Talvez seja por ver muito de si mesma nele. Mas... E se ele não for quem você está pensando e você acabar tomando a decisão errada?
— E se ele for exatamente quem eu estou pensando?
Meu pai segura minha mão direita entre as dele. Parece muito sincero, encarando-me com crueza e honestidade.
— Se o Samson for a pessoa que você acredita, o que você acha que ele ia querer para você? Acha que ele ia querer que você desistisse de tudo pelo que se esforçou?
Desvio os olhos de meu pai e encaro o sol que vem nascendo.
Estou prendendo todos os sentimentos na garganta.
— Eu te amo, Beyah. O bastante para admitir que você foi decepcionada por muitas pessoas na vida. E eu sou uma delas. A única pessoa que sempre manteve total lealdade a você foi você mesma. Você fará a si mesma um desserviço se não puser a si mesma em primeiro lugar neste momento.
Inclino o corpo para a frente e apoio a cabeça nas mãos. Fecho os olhos com força. Sei o que Samson quer: que eu ponha a mim mesma em primeiro lugar. Só que não quero que ele queira isso por mim.
Meu pai esfrega minhas costas, e a sensação é tão reconfortante que eu me aproximo e o abraço. Ele retribui, com um carinho delicado em minha cabeça.
— Eu sei que dói — sussurra ele. — Queria poder te livrar dessa dor.Dói, mesmo. É brutal. Não é justo. Enfim tenho algo bom na vida, e agora estou sendo forçada a deixar para trás.
Mas ele têm razão. Todo mundo tem razão, menos eu. Preciso me colocar em primeiro lugar. É o que sempre fiz, e até agora vem funcionando.
Penso na carta que Samson me escreveu e naquela última linha que comoveu meu coração. Vá inundar a porra do mundo todo, Beyah.
Sorvo o ar salgado da manhã, sabendo que tenho pouco a aproveitar antes de partir para a Pensilvânia.
— Você cuida do Queijo Pepper Jack enquanto eu estiver fora?
Meu pai solta um suspiro de alívio.
— Lógico que cuido. — Ele dá um beijinho em meu cabelo. — Eu te amo, Beyah.
Há muita verdade em suas palavras, e pela primeira vez eu me permito acreditar.
Neste momento, solto tudo. Absolutamente tudo o que carreguei desde a infância e que tanto me pesou o coração.