Até o verão terminar

Colleen Hoover · Capítulo 33 de 37

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Até o verão terminar

Trinta e um

Cierra olha meu reflexo no espelho e abre um sorriso, tão empolgada quanto Sara com a ideia de me emperiquitar.

Sorrio de volta e finjo estar empolgada também.

Se eu tiver que passar o ano inteiro fingindo, é isso que vou fazer.

Vou sorrir tanto, que meu sorriso falso vai acabar se tornando verdadeiro.

Trinta e um

OUTONO DE 2019

Hoje está com toda a pinta de ser um dia perfeito. É um dia ensolarado de outubro, mas está bem fresquinho, de modo que já estou há duas horas sentada no capô do meu carro e ainda não suei nenhuma gota.

Apesar da bela promessa, porém, o dia ainda pode acabar numa grande decepção. Eu não faço ideia.

Como é que Samson vai reagir quando cruzar aquelas portas?

Quem será ele?

Quem terá se tornado?

Há uma citação de Maya Angelou que me faz pensar em nossa situação. Quando alguém lhe mostrar quem é, acredite da primeira vez.

Eu me agarrei com tamanha força a essa frase, que ela parece gravada em meus ossos. Sempre retorno a ela quando me bate a dúvida, pois quero crer que o verão que passei com Samson me apresentou ao verdadeiro Samson. Quero crer que ele deseja me ver aqui, à sua espera, tanto quanto eu desejo que ele aprecie a minha presença.

Mesmo que não aprecie, acho que já se passou bastante tempo, e os ossos de meu coração já estão cicatrizados. Ainda sobrou uma fissura. Às vezes sinto uma dor. Quase sempre tarde da noite, quando não consigo dormir.

Já faz mais de quatro anos desde a última vez que nos vimos, e eu penso em Samson com cada vez menos frequência, em meio a diversos outros pensamentos. Mas não sei se é porque venho tentando me proteger do que pode acontecer hoje, ou porque Samson de fato foi um romance de verão, em uma vida repleta de outras estações.

Esse é o pior resultado possível — que todos os momentos que compartilhamos e deixaram um impacto tão duradouro em mim na verdade não tenham sido profundos para ele.

Pensei em me poupar desse possível constrangimento. Pode ser que ele me veja aqui esperando e mal se lembre de mim. Ou pior...

ele pode sentir pena da garota que insistiu nessa história depois de tanto tempo.

Nos dois casos, vale a pena o risco, pois imaginá-lo saindo por aquela porta sem ninguém para recebê-lo me parece o fim mais triste de todos. Prefiro estar aqui, mesmo que ele não queira, do que não estar e deixá-lo a me esperar.

Kevin me ligou na semana passada e contou que Samson tinha recebido aprovação para ser solto antes do tempo. Antes mesmo de atender ao telefone eu já sabia que era isso, já que Kevin nunca me liga. Sou eu quem sempre liga, para saber as novidades. Ligo tanto para ele, que devo irritar mais do que um operador de telemarketing.

Estou sentada sobre o capô, de pernas cruzadas, comendo uma maçã que acabei de tirar da bolsa. Já faz quatro horas que estou esperando.

Ao meu lado há um homem num carro, também aguardando a soltura de alguém. Ele sai para esticar as pernas e se debruça no carro.

— Quem você está esperando? — pergunta.

Não sei como responder, então dou de ombros.

— Um velho amigo que talvez nem me queira aqui.

Ele chuta uma pedra.

— Eu vim buscar o meu irmão. Já é a terceira vez. Espero que seja a última.

— Tomara — respondo.

Mas duvido. Durante minha estada na faculdade, aprendi o suficiente sobre o sistema prisional para perder quase por completo a fé na capacidade do sistema em prover uma ressocialização adequada aos criminosos.

Por isso agora estou na faculdade de direito. Estou convencida de que Samson não estaria nessa posição se tivesse tido melhores recursos quando foi solto pela primeira vez. No fim das contas, mesmo que eu não fique com Samson, essa história me despertou uma nova paixão.

— A que horas eles costumam abrir as portas? — pergunto ao homem.

O sujeito olha o relógio.

— Imaginei que fosse antes do almoço. Estão atrasados hoje.

Meto a mão na bolsa a meu lado, no capô.

— Está com fome? Tenho batatinhas.

Ele estende as mãos, e jogo o saquinho para ele.

— Valeu — diz o homem, abrindo o saco e jogando uma batatinha na boca. — Boa sorte com o seu amigo.

Dou um sorriso.

— Boa sorte com o seu irmão.

Mordo a maçã mais uma vez e me recosto no para-brisa. Ergo o braço e toco minha tatuagem de cata-vento.

Odiei essa tatuagem depois que Samson foi preso. A intenção era trazer boa sorte, mas pareceu que as coisas ficaram ainda piores do que antes de minha mudança para o Texas. Levei pelo menos um ano até começar a apreciá-la de verdade.

À parte os acontecimentos ligados à prisão de Samson, todos os outros aspectos de minha vida melhoraram depois da tatuagem. Eu me aproximei do meu pai e de sua nova família. Sara agora não só é minha irmã, mas minha melhor amiga.

Fui aceita na faculdade de direito. Ao segurar uma bola de voleibol pela primeira vez na vida, jamais imaginei que isso fosse me

transformar numa advogada. Eu. A garota solitária que precisou fazer coisas inimagináveis para ter o que comer vai ser advogada.

Talvez esta tatuagem de fato tenha mudado minha sorte. Não do jeito que eu esperava, mas agora, em retrospecto, consigo enxergar tudo de bom que derivou daquele verão. A despeito de quem ele seja hoje, Samson faz parte disso. Cheguei a um ponto da vida em que meu futuro não será ditado pelas consequências de nenhum potencial relacionamento.

Quero que ele seja quem sempre achei que fosse? Óbvio que sim. Vou desmoronar se ele não for? De maneira alguma.

Ainda sou feita de aço. Pode vir, mundo. Não dá para estragar o impenetrável.

— A porta está abrindo — diz o homem no carro ao meu lado.

No mesmo instante, eu me sento e jogo a maçã na bolsa.

Aperto a mão contra o peito e solto o ar quando alguém começa a sair do prédio. Não é Samson.

Eu deslizaria do carro e me levantaria, mas estou com muito medo de minhas pernas bambearem. Estou a cerca de seis metros da entrada, mas há uma chance de que ele não me veja, caso pense que não há ninguém à sua espera.

O homem que saiu parece ter seus cinquenta anos. Perscruta o estacionamento e encontra o carro ao meu lado. Meneia a cabeça, e o irmão nem sequer sai do carro. O homem vem caminhando, se ajeita no banco do passageiro, e os dois vão embora, como se fosse a corriqueira chegada num aeroporto.

Ainda estou sentada no capô, de pernas cruzadas, quando enfim o vejo.

Samson sai do edifício, protege os olhos do sol e mira a calçada, procurando o ônibus.

Meu coração bate depressa. Muito mais do que imaginei. Parece que todos os sentimentos daquela garota de dezenove anos estão emergindo ao mesmo tempo.

Ele não mudou quase nada. Parece mais homem que garoto, o cabelo está um pouco mais escuro, mas tirando isso, ele está igualzinho à imagem que guardo em minha lembrança. Ele afasta o cabelo do rosto e vai rumando para o ponto de ônibus, sem olhar o estacionamento.

Não sei se grito o nome dele ou começo a correr. Ele está se afastando de mim. Pressiono as mãos do capô, preparada para deslizar, quando ele para de andar.

Fica parado um instante, de costas para mim, e eu prendo a respiração de tanta expectativa. Parece que ele quer olhar, mas está com medo de não encontrar ninguém.

No fim das contas, ele começa a dar meia-volta, como se sentisse a minha presença. Seu olhar se conecta ao meu, e ele passa um bom tempo me encarando. Continua tão indecifrável quanto antes, mas não preciso ler seus pensamentos para sentir as emoções trocadas entre nós.

Ele leva as mãos à nuca e dá meia-volta, como se não conseguisse me olhar nem mais um segundo. Eu o vejo girar os ombros e soltar o ar lentamente.

Ele me olha outra vez, agora com uma expressão muito comovente.

— Você foi para a faculdade, Beyah? — grita ele pelo estacionamento, como se fosse a pergunta mais importante do mundo. Mais do que qualquer outra que esteja passando em sua cabeça.

No mesmo instante, uma lágrima gorducha e solitária desde por meu rosto. Faço que sim.

Minha resposta, neste exato momento, parece liberar toda a tensão de sua alma. Ainda estou sentada no capô do carro, mas vejo quando ele franze o cenho. Quero ir até ele, desfazer a ruguinha e dizer que agora está tudo bem.

Ele encara o chão de concreto, como se não soubesse o que fazer. Mas logo descobre, pois começa a vir depressa em minha direção. Nos três últimos metros, dá uma corrida, e eu prendo ar quando ele chega ao carro, pois ele não para. Sobe no capô e por cima de mim, até que sou forçada a me deitar no para-brisa. No instante seguinte sua boca está colada à minha, e ele me pede perdão com uma força silenciosa, que me toca o âmago.

Enrosco os braços em seu pescoço, e parece que não se passou um único segundo. Nos beijamos por vários segundos sobre o capô do carro, até que Samson não aguenta. Ele se afasta, desce do carro, pega meu braço e vai me puxando, baixando meus pés até o

chão. Então me envolve, num abraço ainda mais forte que o primeiro abraço que ele me deu na vida.

Os minutos seguintes são uma combinação de lágrimas (quase todas minhas), beijos e olhares incrédulos. Eu tinha tantas perguntas guardadas para este momento, mas agora não consigo pensar em nenhuma.

Quando paramos de nos beijar um pouco, ele diz:

— Eu devia ter perguntado se você estava namorando antes de fazer isso.

Dou um sorriso e balanço a cabeça com veemência.

— Estou solteiríssima.

Ele me beija outra vez, bem devagar, então olha minha boca, como se fosse a coisa de que mais sentiu falta.

— Me perdoa.

— Perdoo.

Simples assim.

Ele relaxa o semblante, aliviado. Então me puxa e dá um suspiro profundo em meu cabelo.

— Não acredito que você está aqui de verdade. — Ele me ergue do chão, dá um rodopio e me abaixa de volta. Apoia a testa na minha e sorri. — E agora?

Eu rio.

— Não faço ideia. O resto do meu dia estava dependendo do desenrolar deste momento.

— O meu também. — Ele pega minhas mãos, beija os nós de meus dedos e pressiona junto ao peito. — Eu preciso ver Darya.

Suas palavras me lembram o verso de um dos poemas de seu pai.

Já li todos tantas vezes, que decorei, então digo, em voz alta:

— Pois quando um homem diz vou para casa, é para o mar que ele deveria rumar.

Eu me viro para abrir a porta do carro, mas Samson pega minha mão e me puxa de volta.

— Foi meu pai que escreveu isso. Você ficou com a minha mochila?

Só neste momento percebo que Samson provavelmente achava que havia perdido a mochila para sempre.

— Fiquei. Peguei na noite em que você foi preso.

— Você guardou os poemas do meu pai?

Assinto com a cabeça.

— Óbvio que guardei.

Seus olhos se enchem de dor, como se ele segurasse as lágrimas.

Ele se aproxima de mim, corre os dedos por meus cabelos e aninha minha cabeça entre as mãos.

— Obrigado por acreditar em mim, Beyah.