Até o verão terminar

Colleen Hoover · Capítulo 20 de 37

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Até o verão terminar

Dezoito

Óbvio que estou preocupada com Samson. Mas, quanto mais tempo passo sentada à espera dele, mais penso se além de preocupação eu deveria sentir raiva.

Não foi justo ele me pedir para ir embora, mas aquele olhar me deu a impressão de que jogar os restos mortais de Rake no oceano era muito mais importante para ele do que avisar à polícia era para mim.

Já vi umas coisas bem perturbadoras na vida. Por mais surpreendente que pareça, escavar uns ossos numa duna e jogá-los no oceano nem é tão chocante assim. Não sei o que isso diz a meu respeito. Ou a respeito de Samson, falando nisso.

Por mais que eu não esteja com raiva, estou agoniada. Com um bolo no estômago. Já faz quase quatro horas desde que cheguei em casa. Para ajudar o tempo a passar, tomei banho, jantei e joguei conversa fora com meu pai e Alana. Mas minha mente ainda está em Samson, do outro lado daquela duna.

Agora estou sentada junto à fogueira, encarando a casa escura de Samson. À espera.

— Cadê o Samson? — pergunta Sara.

Ótima pergunta.

— Ajudando uma pessoa. Daqui a pouco ele volta.

Bebo um pouco de água, para lavar a boca da mentira. Uma parte de mim quer contar a verdade a Sara, mas sei que não devo. O que é que eu ia dizer? Então, Sara, a gente achou os restos mortais de um cara na praia, e agora o Samson está escavando tudo e jogando os ossos no oceano.

Pois é, ela não aguentaria algo dessa magnitude.

— E aí, como foi o beijo? — pergunta Sara.

Olho para ela, que me encara, toda esperançosa.

Tenho a sensação de que ela provavelmente preferiria uma irmã-postiça com quem varasse a noite fofocando enquanto uma penteava o cabelo da outra. Fico triste por essa não ser a realidade.

Em vez disso, ganhou Beyah. A chata de galocha.

— Sendo bem sincera, o beijo foi meio deprimente.

— Oi? Por quê?

— Não estou dizendo que foi ruim. Ele beija superbem. É só que...

ele é sempre tão sério. E eu também. É difícil rolar um beijo divertido, sexy, quando nenhum dos dois tem nada de divertido. — Solto um suspiro e recosto a cabeça na cadeira. — Às vezes eu queria ser mais parecida com você.

Sara ri.

— Se você fosse mais parecida comigo, o Samson não ia te olhar do jeito que olha.

Abro um sorriso. Talvez ela tenha razão. Algumas pessoas combinam, simples assim. Eu não combino com Marcos, ela não combina com Samson.

Só desejo que nosso outono e inverno se encaixem tão bem quanto o verão.

Sara ergue as mãos quando o som começa a tocar uma música nova, que nunca ouvi antes.

— Eu amo essa música!

Ela dá um pulo e começa a dançar. Marcos se levanta e dança junto. Não é uma música lenta, então os dois saltitam e rodopiam, como se não tivessem nenhuma preocupação na vida.

Observo a dança, até que a música acaba e Sara desaba outra vez na cadeira, resfolegante. Espicha a mão e apanha uma garrafa

de bebida enfiada na areia.

— Aqui — diz, estendendo a mim. — O álcool deixa tudo mais divertido.

Levo a garrafa à boca e finjo dar uma golada. Prefiro ser uma chata a me transformar na minha mãe, por isso não tenho a menor vontade de beber. Mas finjo, pelo bem de Sara. Já estou muito para baixo hoje à noite, e não quero negar sua oferta e fazê-la se sentir culpada por beber. Quando devolvo a garrafa a Sara, algo atrás dela me chama a atenção.

Até que enfim. Já se passaram quatro horas.

Samson vai ter que passar por nós para chegar em casa. Está coberto de areia. Parece cansado. Ao fazer contato visual, parece até meio culpado. Ele desvia o olhar rapidamente, mas vira o corpo ao passar por nós. Ergue os olhos outra vez e vai andando para trás.

Inclina a cabeça em direção a sua casa, dá meia-volta e desaparece na escuridão.

— Você está sendo intimada — diz Sara.

Permaneço sentada, sem querer parecer muito ansiosa para ir atrás dele.

— Não sou cachorro.

— Vocês dois estão brigados?

— Não.

— Então vai lá. Eu gosto quando o Marcos me intima. Geralmente é coisa boa. — Ela olha para Marcos. — Ei, Marcos, me intima aí.

Marcos inclina a cabeça. Sara dá um pinote da cadeira, caminha até ele e se joga dramaticamente em seu colo. A cadeira desaba, e os dois caem na areia. Marcos ainda segura a cerveja no ar. Não deixou cair nenhuma gota.

Deixo os dois sozinhos e rumo à casa de Samson. Ao me aproximar, ouço o chuveiro de fora. Vou avançando pelo piso de concreto do térreo. Nunca ficamos aqui embaixo, mas é bacana.

Além do chuveiro, tem um bar e duas mesas. Não sei por que ele nunca passa as noites aqui, em vez de ir à praia. Samson tem o tipo de casa bacana para festas, mas não parece o tipo de cara que gosta de dar festas.

Não vejo o short de Samson perto do chuveiro e concluo que ele ainda esteja vestido. O box não tem porta. As paredes são de

madeira e o espaço é em forma de L, de modo que preciso virar à esquerda para vê-lo.

Ele está de costas, com as mãos espalmadas na parede e a água batendo na nuca. A cabeça está inclinada para baixo, entre os ombros.

— Desculpa — diz, baixinho. Ele se vira para mim e afasta o cabelo molhado da testa.

— Pelo quê?

— Por te colocar nessa posição. Por querer que você guarde meus segredos, sendo que eu não te conto nada.

— Você não me pediu para guardar segredo. Só pediu para não chamar a polícia.

Ele corre a mão pelo rosto e volta para debaixo da água.

— Você contou a alguém?

— Não.

— Vai contar?

— Se você não quiser, não.

— Prefiro que fique entre nós.

Em silêncio, eu aquiesço. Não acho tão difícil guardar segredos.

Sou graduada nisso.

De certa forma, gosto do fato de Samson ser um livro fechado.

Não dá para desgostar de um livro que ainda não foi lido. Mas acho que só tenho paciência por ele ter afirmado que uma hora me contaria todas as verdades. Do contrário, talvez eu não achasse que valeria a pena.

— Acho que tem mais coisa nessa história com o Rake — digo. —

Você vai me explicar no dia dois de agosto, junto com as outras respostas que está me devendo?

Ela assente.

— A-hã. Vou contar, sim.

— Vou começar a fazer uma lista de todas as perguntas para as quais quero respostas.

Ele contorce os lábios, como se achasse graça.

— E eu vou responder tudo no dia dois.

Eu me aproximo dele.

— Jura?

— Juro.

Ele ergue uma das mãos. Vejo sujeira sob as unhas.

— Você escavou tudo?

— Tudo.

— E tem certeza de que era o Rake?

— Absoluta.

Ele parece e soa exausto. Talvez triste, até. Estou mesmo achando que Rake tinha mais importância na vida de Samson do que ele deixa transparecer. Olho seu colar, então o encaro outra vez. Ele crava os olhos em mim e deixa a água escorrer.

Minha roupa começa a molhar com os respingos do chuveiro, então tiro a camiseta e largo junto à parede do box. Apenas de short e com a parte de cima do biquíni, entro e ajudo Samson a limpar as unhas. Ele fica paradinho, na maior paciência, enquanto removo a sujeira de cada unha e lavo com sabonete.

Quando termino, Samson pega minha mão e me puxa para debaixo do chuveiro. Nós nos beijamos. Ele recosta o corpo na parede, e eu o acompanho, saindo de baixo da corrente da água.

É um beijo preguiçoso. Suas mãos repousam em minha cintura, e ele me deixa conduzir o momento.

Contra a parede, pressiono os seios em seu peito e aperto sua nuca. Não devia ter dito a Sara que o beijo foi deprimente. É uma descrição horrível.

Estável é uma palavra melhor.

Todos os nossos beijos parecem importantes, como se fossem perdurar para sempre. Não são demonstrações de afeto breves e fugazes. Guardam algo maior do que atração. Neste exato momento esse algo maior é uma tristeza, da qual quero livrá-lo, mesmo que por uns poucos minutos.

Deslizo a mão direita por seu peito, até encontrar o elástico do short. Mergulho os dedos lá dentro, e Samson respira fundo. Quando o toco pela primeira vez, interrompemos o beijo. Ele crava os olhos nos meus com intensidade, como se dissesse que não preciso fazer isso, mas ao mesmo tempo implorasse para que eu siga em frente.

Eu o pego com firmeza, e ele joga a cabeça para trás, com um suspiro.

— Beyah — sussurra ele.

Beijo seu pescoço e vou deslizando a mão bem devagar, para cima e para baixo. Ele é mais complexo que Dakota. Isso não me surpreende. Em quase todos os sentidos, Samson é mais complexo que qualquer pessoa que já conheci.

Abaixo seu short com a mão esquerda apenas o suficiente para deixá-lo mais livre. Passamos uns dois minutos assim. Samson sentindo meu toque, respirando com mais força e intensidade, segurando minha cintura com mais firmeza a cada movimento. Olho para ele o tempo todo, incapaz de me desviar. Às vezes ele me olha, e às vezes estreita os olhos, como se não fosse aguentar. Quando começa a contrair os músculos, ele segura meus cabelos e puxa com delicadeza, inclinando minha cabeça para trás e encaixando sua boca na minha. Dá dois passos ligeiros e empurra meu corpo na parede oposta, me beijando com uma força que eu ainda não tinha sentido em nenhum dos beijos anteriores.

Eu ainda o seguro, e parece que ele não consegue respirar e me beijar ao mesmo tempo, pois seu corpo desaba, a cabeça apoiada na minha. Ele leva a boca ao meu ouvido.

— Porra — solta, num gemido gutural.

Um arrepio me percorre o corpo, enquanto ele estremece junto a mim. Continuo a acariciá-lo até sentir seu visco quente em minha mão, e por fim ele suspira e enterra o rosto em meu pescoço.

Depois de um instante, ele recupera o fôlego e alcança o chuveirinho. Lava o próprio corpo e minha mão, então larga o chuveirinho no chão e recomeça a me beijar.

Ele respira como se tivesse acabado de correr uma maratona. A essa altura, acho que também estou respirando assim.

Quando ele enfim se afasta e olha para mim, vejo que livrei um pouco do peso de seu olhar. Era tudo o que eu queria. Ajudá-lo a aliviar a sensação dos acontecimentos desta noite, seja lá o que tenha acontecido.

Beijo com carinho o cantinho de sua boca, pronta para me despedir, mas ele corre os dedos por meu cabelo molhado.

— Quando é que você vai me deixar te abraçar? — sussurra, com olhos suplicantes, como se precisasse mais de um abraço do que de tudo que acabei de entregar.

Eu me deixaria abraçar agora, sem dúvida, se não estivesse com tanto medo de chorar. Percebendo o conflito em meus olhos, ele apenas assente e beija minha cabeça.