Até o verão terminar
Quinze
A meio caminho de casa, ela diz:
— Ele está a fim de você. Dá para ver. Ele não olha as garotas do jeito que te olha.
Não respondo, pois enquanto ela fala recebo uma mensagem de texto. Raramente recebo mensagens de texto. Quase ninguém tem o meu número.
Sara começa a subir as escadas, e olho o telefone. A mensagem é de Samson.
Olha só a gente saindo para um encontro.
Talvez a gente seja divertido, sim, no fim das contas.
— Você não vem? — pergunta Sara.
Fecho meu sorriso escancarado e sigo atrás dela.
Quinze
Todos me encaram, à espera da mordida. Até o garçom.
Quanta pressão.
— Põe o molho coquetel primeiro — sugere Marcos.
Samson afasta o molho.
— Está doido? Assim ela vai vomitar. — Ele empurra o molho tártaro para perto de mim. — Aqui, bota esse.
Sara revira os olhos e empilha três dos cardápios. Ela e Marcos acabaram de pedir, mas Samson e eu ainda não, pois ele quis confirmar se eu gostava de camarão. O garçom achou graça por eu nunca ter comido camarão, então trouxe um pouco para eu provar e agora está de olho para ver minha reação.
É camarão grelhado, sem casca nem rabo. Não sou muito fã de peixe, então não estou esperando grande coisa, mas a pressão é real quando mergulho um pedacinho no molho tártaro.
— Vocês estão agindo como se fosse questão de vida ou morte —
diz Sara. — A fome está me irritando.
— Só vai ser questão de vida ou morte se ela for alérgica a frutos do mar — devolve o garçom.
Antes de morder, eu paro.
— O que entra na definição de frutos do mar, exatamente?
— Lagosta — responde Samson. — Camarão. Coisas que vivem em conchas.
— Siri. Lagostim. Tartaruga — diz Marcos.
— Tartaruga não é peixe — retruca Sara, revirando os olhos.
— Foi brincadeira.
— Você já comeu lagosta ou siri? — pergunta Samson a mim.
— Já comi siri.
— Então não vai dar nada, não.
— Pelo amor de Deus, come logo, senão eu como — diz Sara. —
Estou morrendo de fome.
Mordo a metade do camarão. Todo mundo me olha comer, até Sara. Tem um sabor decente. Não é a melhor coisa que já comi, mas é gostoso.
— Nada mal. — Ponho a outra metade na boca.
Samson sorri e entrega o cardápio ao garçom.
— Vamos querer o prato de camarão.
O garçom anota e se retira.
— Ele acabou de fazer o pedido por você — diz Sara, franzindo o nariz. — Não sei se é fofo ou se é nojento.
— Uma vez eu tentei fazer isso e você me deu uma cotovelada na costela — diz Marcos.
Sara assente.
— É, tem razão. É nojento. — Ela dá um golinho na bebida. —
Estou com vontade de fazer um programa de turista este fim de semana.
— Tipo o quê? — pergunta Marcos.
— Parque aquático? Ou ônibus-anfíbio? — Ela olha para mim e para Samson. — Vocês querem vir?
— Estou livre todos os dias depois do almoço, menos na sexta.
Vou terminar o telhado da Marjorie.
Isso meio que derrete um pouco meu coração.
— Shawn?
Todos nós olhamos na direção da voz. Um sujeito se aproxima de nossa mesa, olhando para Samson. O cara é alto, magro e tem os braços cobertos de tatuagens. Estou olhando uma no antebraço, com o desenho de um farol, quando vejo Samson se empertigar.
— Puta merda, é você mesmo — diz o sujeito. — Como é que vai, cara?
— Oi — diz Samson. Não parece muito empolgado em vê-lo. Além do mais... por que o cara o chamou de Shawn?
Samson dá um tapinha em minha perna, pedindo espaço para sair do sofá. Eu me levanto, então ele sai e dá um abraço no cara.
Retorno ao meu lugar, e nós três não disfarçamos o fato de que estamos de ouvidos atentos à conversa dos dois.
— Cara — diz o sujeito a Samson. — Quando foi que você saiu?
Saiu?
Samson olha nossa mesa. Ele está visivelmente constrangido.
Leva a mão às costas do cara e o conduz para longe, de modo que não conseguimos mais escutar o diálogo.
Olho Sara e Marcos, para ver a reação deles. Marcos está tomando seu drinque, mas Sara encara Samson, curiosa, com a cabeça espichada.
— Que estranho — diz ela, virando-se de volta. — Por que o cara chamou ele de Shawn?
Marcos dá de ombros.
— De repente Samson é o nome do meio — respondo, mais para mim mesma do que para eles. Fico pensando por que não perguntei seu nome completo ontem à noite. É estranho perceber que não sei nem o primeiro nome do cara. Mas aposto que ele não sabe que meu sobrenome é Grim. Ou de repente sabe, já que é o mesmo do meu pai.
— Por que é que o cara perguntou quando ele saiu? — indaga Sara. — Saiu de onde? Da cadeia? Da prisão?
Marcos dá de ombros outra vez.
— De repente era da reabilitação.
— Ele foi para uma reabilitação? — pergunta Sara.
— Não faço ideia, conheço ele há tanto tempo quanto você.
Samson reaparece em nossa mesa instantes depois, sem o amigo.
Eu me levanto e o deixo entrar de volta no sofá. Ele não diz nada.
Não oferece qualquer explicação. Não importa, pois Sara não vai deixar passar. Dá para ver, pelo jeito como ela o encara.
— Por que aquele cara te chamou de Shawn?
Samson a encara um instante, então solta uma risadinha baixa.
— Oi? — pergunta ele.
Ela abana a mão na direção aonde o sujeito foi.
— Ele te chamou de Shawn! E perguntou quando foi que você saiu. Onde é que você estava? Na cadeia?
Por algum motivo, Samson olha para mim. Não digo nada, pois aguardo a mesma resposta que Sara.
Ele olha de volta para ela.
— Esse é o meu nome. Shawn Samson. — Ele aponta para Marcos. — O Marcos me chamou de Samson quando a gente se conheceu, aí vocês passaram a chamar também. Todas as outras pessoas me chamam de Shawn.
Marcos leva o canudinho à boca.
— Agora, pensando bem, parece vagamente familiar.
Shawn? O nome dele é Shawn?
Estou tão acostumada a chamá-lo de Samson, que não sei nem se consigo chamá-lo de Shawn.
— Entendi — diz Sara. — Mas de onde foi que você saiu? Da cadeia? Você estava preso?
Samson suspira, e dá para ver que ele não quer falar no assunto.
— Deixa ele em paz — diz Marcos, também notando o desconforto de Samson.
Sara abana a mão para mim, na defensiva.
— Estou tentando juntar a minha irmã-postiça com ele, então acho que é direito nosso saber se ele é um criminoso.
— Tudo bem — diz Samson. — Ele estava falando de sair da cidade. Nós fomos colegas de internato, e ele sempre soube o quanto eu odiava Nova York.
Percebo seu pomo-de-adão subindo e descendo devagar, como se ele engolisse uma mentira. Quais são as chances de alguém topar com um cara de Nova York numa península do Texas?
Pouquíssimas, mas isso é realmente da conta de Sara? É da minha conta? Ninguém deve explicações aos outros sobre o próprio passado.
Não sei por que sinto um ímpeto de defendê-lo, mas sei o quanto ele detesta falar de si mesmo. Talvez essa seja uma característica dele que Sara desconhece.
Mais tarde descubro a verdade. Agora só quero dissipar esse climão, então me pronuncio:
— Nunca fui à Nova York. Além do Texas, só estive em outros dois estados.
— Sério? — indaga Sara.
Assinto em concordância.
— Sério. Eu só saía do Kentucky quando ia a Washington para ver meu pai. Não fazia ideia de que o Texas era quente assim. Não sei se gosto muito.
Marcos ri.
O garçom chega com as entradas que Sara pediu. Pega meu copo para servir um refil, e Samson pega um pedaço de lula e enfia na boca.
— Você já comeu lula, Beyah?
Pego um pedaço.
— Não.
Marcos revira a cabeça.
— Parece que você cresceu em outro planeta.
Desta vez, Sara não espera por mim. Põe um pouco da entrada no prato e começa a comer. Esse breve momento pode não ser importante para ninguém à mesa, mas fico aliviada em saber que Sara não está botando tanta pressão em si mesma quanto estava na noite em que cheguei.
Ela então começa a perguntar que outras comidas nunca provei, e o foco da conversa passa de Samson a assuntos não relacionados ele.Depois de uns minutos, Samson estende o braço por sob a mesa e pega minha mão. Aperta um pouco, depois solta. Quando olho para ele, vejo um agradecimento silencioso.