Até o verão terminar

Colleen Hoover · Capítulo 13 de 37

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Até o verão terminar

Onze

Dou uma risada.

— Por quê?

— Por que não?

Olho para o cachorrinho. Não parece um pedaço de queijo. Acho que nenhum cachorro parece queijo.

— Pepper Jack — repito, experimentando o nome. — Você se sente um Pepper Jack?

— Queijo Pepper Jack — corrige Marjorie. — A criatura merece o nome completo.

Gosto de Marjorie. Ela é estranha.

— Obrigada pelas nozes. — Olho o cachorrinho. — Vamos para casa, Queijo Pepper Jack.

Onze

Frequentei uma escola primária pequena. Foi onde conheci Natalie.

Ficava a poucas quadras de distância de casa, e de tão pequena só havia um professor por série. Nosso grupinho era o povo da nossa série. No ensino fundamental, ninguém se preocupava com dinheiro, pois éramos muito pequenos para entender dessas coisas.

À medida que crescemos, a coisa mudou de figura. O campus da escola ficou bem maior, e era o dinheiro que definia as companhias de cada um. Exceto para os que tinham uma beleza estonteante. Ou os famosos do YouTube, no caso de Zackary Henderson. Ele não era rico, mas seu status nas redes sociais o catapultou à turma dos ricos.

Para muita gente da minha idade, seguidores são uma moeda mais valiosa que dinheiro vivo.

Eu morava na pior área da cidade, e todo mundo sabia disso.

Pouco a pouco, a garotada da minha vizinhança que era tão pobre quanto eu começou a definhar. Vários seguiram os passos dos pais e procuraram as drogas. Nunca me senti parte desse grupo, pois sempre fiz o possível para ser o extremo oposto de minha mãe e de gente igual a ela.

Na escola, porém, isso não fazia diferença. Natalie foi minha única amiga até que eu entrasse para a equipe de voleibol. Algumas garotas do vôlei me aceitaram, ainda mais depois que me revelei a melhor jogadora, mas a maioria não gostava de mim. E me tratavam como se eu fosse inferior. Mas não era um bullying típico. Ninguém me xingava, ninguém me empurrava nos corredores. Acho que minha figura intimidava, de modo que elas não me importunavam.

Eu revidaria, e elas sabiam muito bem.

Na verdade, eu era evitada. Ignorada. Nunca era incluída em nada. Tenho certeza de que grande parte disso se devia ao fato de que eu era uma das poucas pessoas na escola que não tinha celular nem computador nem telefone fixo. Não havia como me contatar quando eu estava fora da escola, o que hoje em dia prejudica muito as relações sociais de qualquer um. Ou talvez essa seja só a justificativa que encontrei para a exclusão que sofri por quase seis anos.

É difícil não se amargurar quando passamos tanto tempo sozinhos. E é ainda mais difícil não se amargurar com o sistema de classes e o povo endinheirado, pois quanto mais rica é a pessoa, mais pareço invisível a ela.

Por tudo isso, estar aqui nesta praia, com o tipo de gente que decerto nem me olharia na época da escola, é difícil para mim.

Quero acreditar que Sara teria me tratado da mesma forma que me trata se eu a tivesse conhecido na escola. Quanto mais a conheço, menos a vejo como alguém que desprezaria alguém de propósito.

E Samson. Como será que ele tratava os desprezados?

Nem todos os ricaços da minha escola eram babacas, mas muitos eram, então acho que acabei botando todos no mesmo saco. Em parte, imagino se as coisas teriam sido diferentes se eu tivesse me esforçado mais. Sido mais aberta. Será que eu teria sido aceita?

Talvez a única razão pela qual não fui aceita foi não ter desejado ser. Era mais fácil ficar na minha. Eu tinha Natalie quando precisava, mas ela tinha celular, além de outros amigos que a mantinham ocupada, então não éramos inseparáveis. Não dá nem para dizer que éramos melhores amigas.

Só sei que eu nunca fazia essas coisas. Nunca saía com grupinhos. Quando completei idade para ter um emprego, trabalhava

o máximo que podia. Então fogueiras, churrascos e diversão com gente da minha idade são coisas totalmente desconhecidas. Estou tentando achar um jeito de ficar à vontade com esse pessoal, mas vai levar tempo. Levei muitos anos para me tornar a pessoa que sou.

É difícil mudar nossa essência num intervalo de poucos dias.

Há cerca de oito pessoas junto à fogueira, mas nenhuma delas é Samson. Ele desceu e pegou um hambúrguer, mas comeu e logo voltou para casa. Os dois únicos conhecidos são Sara e Marcos, mas estão sentados do outro lado da fogueira. Acho que também não conhecem esse povo muito bem. Ouvi Marcos perguntar a um dos caras de onde ele era.

Deve ser coisa de praia. Sair com pessoas aleatórias e desconhecidas. Estranhos reunidos em torno de uma fogueira, trocando perguntas superficiais até estarem bêbados a ponto de fingir que são todos amigos de infância.

Acho que Sara percebeu que comecei a me encolher. Ela se aproxima e se senta ao meu lado. Queijo Pepper Jack está deitado na areia, junto à minha cadeira. Sara olha o cachorrinho e acaricia sua cabeça.

— Onde foi que você achou essa coisinha?

— Ele me seguiu até a casa hoje mais cedo.

— Já deu um nome para ele?

— Queijo Pepper Jack.

Ela olha para mim.

— Sério?

Dou de ombros.

— Acho que gostei — diz ela. — A gente podia dar um banho nele mais tarde. Tem um chuveiro no térreo.

— Será que a sua mãe me deixaria ficar com ele?

— Dentro de casa, não, mas a gente pode preparar um cantinho para ele do lado de fora. Honestamente, ela não vai nem reparar.

Eles mal param em casa.

Eu já tinha percebido isso. Os dois chegam em casa tarde e costumam ir dormir logo em seguida. E saem bem cedo de manhã.

— Por que eles passam tanto tempo fora?

— Os dois trabalham em Houston. O trânsito é horrível, então durante a semana eles jantam na cidade para fugir do

engarrafamento. Mas no verão têm as sextas-feiras de folga, então ficam com três dias de fim de semana.

— Então por que se dão ao trabalho de voltar para cá de segunda a quinta? A casa principal não fica em Houston?

— A minha mãe fica muito preocupada comigo. Ela nem é tão rígida, porque já tenho quase vinte anos, mas ainda precisa conferir se venho dormir em casa toda noite. E ela ama o oceano. Acho que dorme melhor aqui.

— E fora do verão, alguém reside na casa?

— Não, a gente aluga por temporada. E vimos nos feriados, ou às vezes escapamos aos fins de semana. — Ela para de afagar Queijo Pepper Jack e olha para mim. — Para onde você vai em agosto, quando as suas aulas começarem? Vai voltar para a casa da sua mãe?

Meu estômago revira diante dessa pergunta. Todo mundo ainda acha que vou frequentar alguma faculdade comunitária no Kentucky.

Sem mencionar que ainda não falei nada sobre a minha mãe.

— Não. Eu vou...

Antes que eu termine a frase, Marcos aparece e puxa Sara da cadeira. Dá um rodopio nela, que solta um gritinho e o abraça. Os dois correm em direção à água. Queijo Pepper Jack se levanta e começa a latir, agitado com a comoção.

— Está tudo bem — digo a ele, pousando a mão em sua cabeça.

— Deita aí.

Ele torna a se acomodar na areia. Olho a casa de Samson, imaginando o que ele está fazendo. Será que está com alguma garota? Isso explicaria por que não está aqui na praia com o pessoal.

Não gosto de ficar aqui sozinha, enquanto Sara e Marcos estão no mar. Não conheço ninguém, e o povo está começando a ficar meio bruto. Acho que sou a única que não está bebendo.

Eu me levanto para dar uma caminhada e me afastar das pessoas, antes que alguém resolva brincar de girar a garrafa ou outra coisa igualmente terrível. Queijo Pepper Jack vem atrás de mim.

Estou começando a gostar deste cachorro. Sua lealdade é bacana, mas o nome é comprido demais. Acho que vou chamá-lo de P.J.

A poucos metros do grupo, vejo um castelo de areia semidestruído. P.J. corre até lá e começa a farejar. Eu me sento junto

à construção e começo a ajeitar uma das paredes.

A vida é estranha. Um dia a pessoa encontra a mãe morta no sofá, e dias depois está sozinha numa praia escura, ajeitando um castelo de areia na praia, ao lado de um cachorro com nome de queijo.

— Daqui a uma hora a maré leva.

Olho para cima e vejo Samson parado atrás de mim. Sinto um alívio extremo ao vê-lo aqui, o que me incomoda. Estou começando a sentir um estranho conforto na presença dele.

— Então é melhor você me ajudar a construir um muro de contenção.

Samson se senta do outro lado do castelo de areia e olha para o cachorro.

— Ele gostou de você.

— Dei comida a ele. Se ele pegasse um hambúrguer da sua mão, tenho certeza de que também ficaria no seu pé.

Samson se inclina para a frente e começa a juntar areia na lateral do castelo. Abro um sorriso. Um cara gostoso, sem camisa, brincando com areia.

Lanço uns olhares furtivos, impressionada com sua concentração.

— O nome dele é Queijo Pepper Jack — comento, rompendo um longo instante de silêncio.

Samson sorri.

— Você conheceu a Marjorie?

— Como é que você sabe que foi ideia dela?

— Ela tem dois gatos. Muçarela e Queijo Cheddar.

Dou uma risada.

— Que mulher interessante.

— É, mesmo.

A maré se aproxima e lambe um pouco da área onde estamos trabalhando. Samson interrompe as batidinhas na areia.

— Já entrou na água?

— Não. Sou meio desconfiada.

— Por quê?

— Água-viva, tubarão. Tudo o que fica sob a superfície e que a gente não vê.

Samson ri.

— Agora há pouco a gente estava no telhado de uma casa de três andares. O oceano é bem mais seguro que aquele telhado. — Ele se levanta e bate a areia do short. — Vem.

Vai caminhando até a água, sem esperar por mim. Procuro Marcos e Sara, mas eles estão bem afastados.

O oceano é imenso, então não sei por que entrar na água com Samson me parece tão íntimo. Eu me levanto, tiro o short e jogo ao lado de Queijo Pepper Jack.

— Fica de olho — digo a ele.

Entro na água. É mais quente do que imaginei que seria. Samson está uns metros à minha frente. Vou andando, surpresa em ver o quanto preciso entrar no mar até que a água comece a cobrir meus joelhos. Samson fura uma onda e desaparece debaixo da água.

Quando estou coberta de água até o peito, ele ressurge, irrompendo da água a cerca de meio metro de mim. Alisa o cabelo para trás e me dá uma olhada.

— Viu? Não tem nada de assustador.

Ele baixa o corpo, deixando que a água cubra seu pescoço.

Nossos joelhos se tocam acidentalmente, mas ele finge que não percebeu. Não faz menção de se afastar, mas chego um tantinho para trás, para garantir que não torne a acontecer. Não o conheço tão bem, e não sei se quero passar essa ideia. Há poucas noites ele estava com uma garota no colo. Não tenho a menor intenção de ser mais um troféu.

— A Marjorie te deu noz-pecã hoje? — pergunta ele. Faço que sim, e ele dá uma risada. — Cacete, eu estou entulhado de noz-pecã. Passei até a deixar na porta dos outros.

— É isso que ela faz o dia todo? Descasca noz-pecã?

— Basicamente.

— Onde é que ela arruma? Nem tem árvores no quintal dela.

— Não faço ideia. Eu não a conheço muito bem. Só nos conhecemos faz uns meses. Eu estava passando em frente a casa, e ela me parou e perguntou se eu pretendia passar na mercearia. Perguntei de que ela estava precisando, e ela falou que queria umas pilhas. Perguntei de que tamanho, e ela respondeu “me faça uma surpresa”.

Abro um sorriso, mas não exatamente pelo que ele diz. É porque gosto do jeito como ele fala. Algo no jeito como ele mexe o lábio inferior me chama atenção.

Samson volta a olhar meu rosto, mas não meus olhos. Percebo que ele olha minha boca, mas desvia o olhar outra vez. Ele nada um pouco mais para longe.

A água já está cobrindo meu pescoço. Preciso bater os braços para me manter numa área que meus pés alcancem a areia.

— A Sara falou que você estava doente — diz ele.

— Não ando me sentindo bem, mas é mais emocional do que físico.

— Está com saudade de casa?

Balanço a cabeça.

— Não. Zero saudade de casa, definitivamente. — Parece que ele está bem falante hoje, o que é atípico. Tento tirar vantagem. —

Aonde é que você vai todo dia? O que mais você faz, além de ajudar senhorinhas sem cobrar nada?

— Só tento passar despercebido — responde ele.

— Como assim?

Samson desvia os olhos e encara a lua cheia, equilibrada bem na beirinha da água.

— A explicação é longa. Não estou a fim de explicações longas agora.

Que surpresa. Quando o assunto é conversa, ele parece querer ficar na parte rasa.

— Não consigo te desvendar — digo.

— Achei que você não quisesse — devolve ele, com a mesma expressão, mas um toque de bom humor na voz.

— Isso é porque eu achava que já tinha desvendado. Mas já te disse que estava enganada. Você tem camadas.

— Camadas? — repete ele. — Tipo um bolo, ou tipo uma cebola?

— Cebola, sem dúvida. Suas camadas são do tipo que a gente tem que descascar.

— É isso que você está tentando fazer?

Dou de ombros.

— Não tenho mais nada a fazer. Talvez passe o verão inteiro descascando camadas, até que você se digne a me responder uma

pergunta.

— Respondi uma. Contei sobre o meu colar.

Meneio a cabeça.

— Verdade, não posso negar.

— E você acha que é fácil te desvendar? — pergunta ele.

— Sei lá.

— Pois não é.

— Você está tentando?

Ele sustenta meu olhar um instante.

— Se você estiver.

A resposta dele deixa meus joelhos pesados feito duas âncoras.

— Tenho a sensação de que a gente não vai muito longe um com o outro — digo. — Gosto de guardar meus segredos. Acho que você também.

Ele assente.

— Uma coisa eu prometo: comigo, você não vai passar da primeira camada.

Algo me diz que vou, sim.

— Por que você é tão reservado? A sua família é famosa ou coisa assim?

— Ou coisa assim.

Ele continua se aproximando. O que me faz pensar que a atração talvez seja mútua. Isso é difícil de entrar em minha cabeça. Que um cara tão rico e bonito como ele tenha qualquer interesse por mim.

A cena me faz lembrar da sensação que tive depois de meu primeiro beijo em Dakota. Por isso me afasto de Samson. Não quero que ele diga ou faça nada que me lembre como Dakota me fez depois de nosso primeiro beijo.

Não quero sentir aquilo nunca mais, mas não consigo deixar de imaginar se as coisas seriam diferentes com Samson. O que ele diria depois do beijo? Será que seria insensível como Dakota?

Acabamos nos deslocando um pouco, e agora estou de costas para a praia. É como se estivéssemos nos movendo, mas de um jeito quase imperceptível, de tão lento. Há umas gotas no lábio inferior de Samson, e não consigo parar de olhar.

Nossos joelhos se roçam de novo. Desta vez não me afasto, mas o toque leva apenas um segundo. Quando passa, eu me sinto

esvaziar.

Fico pensando no que será que ele está sentindo. Não deve estar tão confuso quanto eu em relação a seus desejos.

— E você, que razão tem para ser tão reservada? — pergunta ele.

Paro e penso um instante.

— Acho que nunca encontrei ninguém com quem desejasse compartilhar as coisas.

Seu olhar revela certa compreensão.

— Nem eu — diz ele, quase num sussurro. Mergulha e desaparece. Segundos depois, ouço sua respiração na superfície.

Dou um giro, e ele se aproxima ainda mais de mim. Nossas pernas estão se tocando, sem dúvida, mas nenhum de nós se afasta.

Acho que nunca me senti assim, com o sangue tão acelerado nas veias. Minhas interações com os homens sempre me deixavam com vontade de me afastar. Não é comum que eu deseje estreitar a distância mim e o outro.

— Me faça umas perguntas — diz ele. — Eu talvez não responda a maioria, mas quero saber o que te deixa curiosa a meu respeito.

— Mais coisa do que você vai entregar, sem dúvida.

— Arrisca.

— Você é filho único?

Ela assente.

— Quantos anos você tem?

— Vinte.

— Onde você cresceu?

Ele balança a cabeça, recusando-se a responder essa.

— Nem foi uma pergunta invasiva — retruco.

— Se você soubesse a resposta, veria que foi, sim.

Ele tem razão. Isso vai ser um desafio. Mas acho que ele não sabe o quanto gosto de competir. Conquistei minha vaga na Universidade da Pensilvânia com bolsa integral graças a meu comprometimento em vencer.

— A Sara falou que você vai para a Academia da Força Aérea.

— Isso.

— Por quê?

— É uma tradição familiar.

— Ah — respondo. — Uma migalha. Então o seu pai era da Força Aérea?

— Isso. Meu avô também.

— Como é que a sua família tem tanta grana? Militar nem ganha tão bem assim.

— Algumas pessoas viram militares por apreço, não por dinheiro.

— Você quer ir para a Força Aérea, ou está indo porque é o esperado?

— Eu quero ir.

— Que bom.

Não sei se é ele ou a maré, mas estamos ainda mais perto. Uma de minhas pernas está entre os joelhos dele, e minha coxa vez ou outra roça a dele. Acho que estou fazendo de propósito, o que me surpreende. Talvez ele esteja também.

— Qual é o seu animal favorito? — pergunto.

— Baleia.

— Comida favorita?

— Frutos do mar.

— Atividade favorita?

— Nadar.

Dou uma risada.

— Respostas típicas de rato de praia. Não vou chegar a lugar nenhum.

— Faça umas perguntas melhorzinhas — devolve ele, sem rodeios.

Mais um desafio. Trocamos um olhar denso, enquanto penso numa pergunta para a qual realmente quero resposta.

— A Sara falou que você não se relaciona com ninguém... que só fica com as garotas que vêm de férias. Por quê?

Ele não responde. Outra pergunta proibida, eu acho.

— Beleza, muito particular. Vou pensar em outra mais fácil.

— Não, essa eu vou responder. Só estou pensando em como. —

Ele baixa o corpo, cobrindo todo o pescoço de água. Faço o mesmo. Gosto de sentir que toda a nossa atenção está nos olhos um do outro. Embora os dele não sejam muito reveladores.

— Para mim não é fácil confiar.

Eu não esperava essa resposta. Esperava ouvi-lo dizer que gosta de ser solteiro, ou algum clichê parecido.

— Por quê? Alguém partiu seu coração?

Ele aperta os lábios e reflete.

— Isso — responde, impassível. — Meu coração ficou destruído.

Darya era o nome dela.

Ao ouvir o nome em voz alta, sinto um inesperado fio de ciúme brotar em minhas entranhas. Quero perguntar o que aconteceu, mas na verdade não quero ouvir a resposta.

— Como é a sensação? — pergunto a ele.

— De ter o coração destruído?

Faço que sim.

Ele afasta um pedaço de alga.

— Você nunca se apaixonou?

Dou uma risada.

— Não. Nunca cheguei nem perto. Nunca amei ninguém, nem fui amada por ninguém.

— Foi, sim. A família conta.

Torno a balançar a cabeça. Mesmo que a família conte, minha resposta não muda em nada. Meu pai mal me conhece. Minha mãe foi incapaz de me amar.

Eu me afasto dele e olho o mar aberto.

— Não tenho esse tipo de família — respondo, baixinho. — Nem todo mundo tem a mãe igual à minha. Nem lembro dela me abraçando. Nenhuma vez. — Volto a encará-lo. — Agora, pensando bem, não sei nem dizer se algum dia fui abraçada por alguém.

— Como que pode isso?

— Tipo, eu já abracei as pessoas, como cumprimento. Aquele abraço ligeiro, quando a gente chega ou vai embora. Mas ninguém nunca... não sei nem como dizer.

— Te envolveu nos braços?

Faço que sim.

— Isso. É uma descrição melhor, eu acho. Ninguém nunca me envolveu nos braços. Não conheço essa sensação. Sendo bem sincera, tento até evitar. Imagino que seria estranho.

— Depende de quem te envolveria, eu acho.

Sinto a garganta apertar. Engulo em seco e mexo a cabeça, mas não digo nada.

— Me surpreende você não achar que seu pai te ama. Ele parece um cara bacana.

— Ele não me conhece. Esta é a primeira vez que nos vemos desde os meus dezesseis anos. Sei mais a seu respeito do que a respeito dele.

— Não é muita coisa.

— Pois é — respondo, olhando para ele outra vez.

O joelho de Samson roça entre minhas coxas, e agradeço por ele não estar vendo meu corpo do queixo para baixo, pois estou completamente arrepiada.

— Não achei que houvesse no mundo muita gente como eu.

— Você acha que somos parecidos? — Quero rir da comparação, mas não há o menor traço de humor na expressão dele.

— Acho que a gente tem muito mais em comum do que você pensa, Beyah.

— Você se considera tão sozinho neste mundo quanto eu?

Ele pressiona os lábios e meneia a cabeça. É a coisa mais honesta que já presenciei. Jamais imaginei que alguém com tanta grana tivesse uma vida tão bosta quanto a minha, mas vejo pela forma como ele olha para mim. De súbito, tudo a respeito dele me parece familiar.

Ele tem razão. Somos parecidos, mas apenas no sentido mais triste.

— Quando te conheci, naquela balsa — digo, num sussurro —, deu para ver que você guardava feridas.

Ele vira a cabeça para a direita, e vejo um lampejo em seus olhos.

— Você acha que fui ferido?

— Acho.

Ele se aproxima ainda mais por debaixo da água, só que, sendo bem sincera, já não há muito espaço entre nós. É deliberado, e uma boa parte do meu corpo está tocando o dele.

— Tem razão — diz ele, baixinho, deslizando a mão por trás de meu joelho esquerdo. — De mim só sobrou a merda dos escombros.

Ele me puxa para si, enganchando minhas pernas em seu corpo.

Mas só isso. Não tenta me beijar. Só conecta nossos corpos, como

se isso bastasse, enquanto os braços permanecem flutuando.

Muito depressa, vou sucumbindo a ele. Não sei bem de que maneira. De todas, talvez. Pois neste exato momento preciso que ele faça alguma coisa. Qualquer coisa. Que me prove. Me toque. Me arraste para baixo.

Nós nos olhamos por um instante, e quase sinto que estou encarando um espelho quebrado. Ele inclina o corpo bem devagar, mas não em direção à minha boca. Pressiona os lábios em meu ombro, com tamanha delicadeza que mais parece um leve carinho.

Fecho os olhos e sorvo o ar.

Nunca senti nada tão sensual. Tão perfeito.

Uma de suas mãos some por debaixo da água e encontra minha cintura. Quando abro os olhos, seu rosto está a poucos centímetros do meu.

Olhamos a boca um do outro por um breve segundo, então sinto um ardor tomar conta de toda a minha perna.

— Merda!

Alguma coisa me mordeu.

Fui mordida bem na hora que ia ser beijada, que grande sortuda eu sou.

— Merda, merda, merda — repito, agarrando os ombros de Samson. — Alguma coisa me mordeu.

Ele balança a cabeça, como se para sair do transe. E entende o que acabou de acontecer.

— Água-viva — diz.

Samson agarra a minha mão e me puxa em direção à areia, mas minha perna dói tanto que está difícil andar.

— Ai, meu Deus, que dor.

— A Sara guarda uma garrafa de vinagre no chuveiro de fora. Vai aliviar a ardência.

Ao perceber que estou lutando para caminhar, ele se abaixa e me pega no colo. Quero aproveitar o fato de que ele me pegou nos braços, mas não consigo.

— Onde foi que ela encostou? — pergunta ele.

— Na perna direita.

Quando a água está bem abaixo dos joelhos, ele consegue caminhar mais depressa. Cruzamos depressa a fogueira rumo à

porta do chuveiro, no térreo da casa de Sara.

— O que foi que houve? — grita Sara atrás de nós.

— Água-viva! — responde Samson, por sobre o ombro.

Quando entramos no chuveiro, quase não há espaço para nós dois. Ele me acomoda, e eu viro o corpo e empurro a mão contra a parede.

— Pegou bem no alto da minha coxa.

Ele começa a jogar o vinagre em minha perna, e parece que minha coxa está sendo golpeada por pequeninas facas. Fecho os olhos e pressiono a testa na parede do chuveiro. Solto um grunhido de agonia.

— Ai, meu Deus.

— Beyah — diz Samson, com a voz grave e contida. — Por favor, não faz esse barulho.

A dor é muito forte para que eu assimile o comentário. O vinagre em minha pele só intensifica ainda mais o sofrimento.

— Samson, está doendo. Para, por favor.

— Ainda não — diz ele, molhando minha perna para garantir que toda a ferida foi coberta. — Daqui a pouquinho vai melhorar.

Que mentira, eu quero morrer.

— Não, está doendo. Para, por favor.

— Já estou quase acabando.

De repente, ele para de falar, mas não por escolha própria. E

desaparece, em um lampejo de confusão. Dou um giro e espicho o pescoço bem a tempo de testemunhar meu pai desferir um soco na cara de Samson.

Samson cambaleia para trás, então desaba sobre o parapeito de concreto da casa.

— Ela mandou parar, seu filho da puta! — grita meu pai.

Samson se levanta com esforço e se afasta de meu pai. Ergue as mãos para se defender, mas meu pai avança para socá-lo outra vez.

Agarro seu braço, mas não alivio muito o impacto do segundo soco.

— Para, pai!

Sara aparece. Olho para ela, implorando por ajuda. Ela corre e tenta segurar o outro braço de meu pai, mas ele está agarrado à garganta de Samson.