Até o verão terminar

Colleen Hoover · Capítulo 26 de 37

Páginas do PDF

Até o verão terminar

Vinte e quatro

— Não responda nada antes de eu chegar.

Vinte e quatro

A salinha é tão pequena, que parece que não há ar para nós quatro.

Meu pai está sentado a meu lado em uma mesa minúscula, e eu estou inclinada para o lado, para tentar preservar meu espaço pessoal. Tenho os cotovelos colados à mesa e a cabeça entre as mãos.

Estou preocupada.

Meu pai está só irritado.

— A senhorita sabe há quanto tempo ele está morando naquela casa?

Fui informada de que a policial se chama oficial Ferrell. O nome do homem eu não sei. Ele não falou muita coisa. Está só tomando notas, e não sinto vontade de olhar para ninguém.

— Não.

— A Beyah veio para cá em junho. Mas o Samson está morando naquela casa desde o último recesso de primavera. Foi quando nos conhecemos.

— O senhor não conhece os proprietários? — pergunta a policial ao meu pai.

— Não. Já vi umas pessoas lá, mas deduzi que fossem inquilinos.

Passamos quase o ano todo em Houston, então ainda não conheço muito a nossa vizinhança.

— A senhorita sabe como Samson desligou o alarme? — pergunta ela a mim.

— Ele sabia a senha. Eu vi quando ele digitou, ontem à noite.

— A senhorita sabe como ele conseguiu a senha?

— Não.

— Conhece alguma das outras casas que ele ocupou?

— Não.

— Sabe onde ele fica quando os proprietários estão na casa?

— Não.

Não sei de quantas formas diferentes consigo dizer “não”, mas não sei responder quase nenhuma das perguntas.

Não sei de onde Samson é. Não sei o nome do pai dele. Não sei que dia ele nasceu, onde nasceu, onde cresceu, se tem a mãe viva ou não. Quanto mais perguntas eles fazem, mais constrangida eu fico.

Como é que não sei nada a respeito dele, mas sinto que o conheço tão bem?

Talvez eu não o conheça nem um pouco.

O pensamento me faz apoiar a cabeça nos braços. Estou cansada e quero respostas, mas sei que só vou ter alguma quando puder falar com Samson. A única coisa que quero agora é saber se ele de fato tem algum osso no coração. Se tem, será que está fraturado?

Porque o meu está.

— Ela não sabe mais nada, mesmo — diz meu pai. — Já está tarde. Vocês telefonam caso tenham outra pergunta, pode ser?

— Pode. Deixe só eu conferir uma coisinha bem rápido, antes de vocês irem. Nós já voltamos.

Ouço os dois policiais saírem da sala, então ergo a cabeça e me recosto na cadeira.

— Tudo bem com você? — pergunta meu pai.

Meneio a cabeça. Se eu disser que não estou bem, ele vai querer conversar. E eu prefiro não falar.

A porta está aberta, e vejo o movimento no exterior da sala. Vejo um homem claramente drogado, sendo levado a outra sala, mais

adiante no corredor. Passei o tempo todo ouvindo o sujeito soltar grunhidos ininteligíveis, sem qualquer razão. Toda vez que ele fazia isso, eu estremecia.

Eu devia estar acostumada a esse comportamento, pois era muito comum em casa. Minha mãe resmungava sozinha o tempo todo.

Sobretudo no último ano. Falava com gente que nem estava lá.

Quase esqueci como é viver com uma dependente química. Ver esse homem me entristece. A prisão não vai ajudá-lo a largar o vício, assim como não ajudou minha mãe. Na verdade, fez tudo piorar. A cada prisão, o ciclo de encarceramento e soltura se intensifica ainda mais.

Minha mãe foi presa inúmeras vezes. Não sei ao certo por que ela era presa, mas tinha sempre a ver com drogas. Posse. Intenção de compra. Lembro de uma vizinha vindo me buscar no meio da noite para dormir em sua casa, o que aconteceu algumas vezes.

Minha mãe precisava de mais ajuda do que eu era capaz de oferecer. Eu tentei, em mais de uma ocasião, mas não conseguia lidar com aquilo. Agora, em retrospecto, queria ter feito mais. Talvez devesse ter recorrido ao meu pai.

Não acho que ela teria sido má pessoa, se não estivesse doente.

E o vício em drogas é isso, não é? Uma doença. Uma doença que eu também posso contrair, mas que estou determinada a jamais ter.

Fico pensando como ela seria se tivesse uma dependência química. Será que se pareceria comigo em algum aspecto?

Olho para meu pai.

— Como era a minha mãe quando vocês se conheceram?

Ele parece meio aturdido com a pergunta. Balança a cabeça.

— Não lembro muito bem. Desculpa.

Não sei por que razão esperava que ele lembrasse. Foi uma noitada, e ele tinha praticamente a minha idade. Os dois deviam estar bêbados. Às vezes desejo perguntar como eles se conheceram, mas não sei bem se quero saber. Tenho certeza de que foi num bar, sem qualquer romantismo do qual ele se recorde.

Imagino como meu pai acabou levando uma vida normal, enquanto minha mãe se transformou na pior versão de si mesma. Será que foi tão somente por conta do vício? Terá sido um desequilíbrio entre o inato e o adquirido?

— Você acha que a espécie humana é a única que adquire vícios?

— pergunto a meu pai.

— Como assim?

— Tipo drogas e álcool. Será que os animais adquirem algum vício?

Ele me perscruta, como se não compreendesse as perguntas que saem de minha boca.

— Já li em algum lugar que os ratinhos de laboratório podem se viciar em morfina.

— Não é disso que estou falando. Quero saber se um animal desenvolve algum vício em seu ambiente natural. Ou será que o ser humano é a única espécie que destrói a si mesmo e todos à sua volta com seus vícios?

Meu pai coça a testa.

— A sua mãe é viciada, Beyah? É isso o que você está me dizendo?

Não acredito que até agora não contei a ele que minha mãe morreu. Não acredito que ele ainda não descobriu.

— Ela não é mais.

Ele aperta os olhos, preocupado.

— Eu nem sabia que ela tinha sido. — Ele me encara com inquietude. — Está tudo bem com você?

Reviro os olhos quando ouço essa pergunta.

— Estamos sentados numa delegacia em plena madrugada. Não, não está tudo bem.

Ele pisca os olhos duas vezes.

— Pois é, eu sei. Mas essas perguntas. Só... não fazem muito sentido.

Dou uma risadinha. Igual à do meu pai. A mais recente caraterística que odeio em mim.

Eu me levanto e estico as pernas. Caminho até a porta e olho para fora, esperando avistar Samson, mas não o encontro.

Parece que há um abismo entre o instante em que me sentei na viatura de polícia e a hora em que falarei com Samson outra vez.

Um imenso abismo emocional, onde não sinto nada e não me importo com nada além dessa potencial conversa.

Eu me recuso a me abrir ao que está acontecendo, seja lá o que for, e talvez seja por isso que meus pensamentos estão a toda, enquanto espero. Se eu me abrir para este exato momento, posso acabar me convencendo de que Samson é um completo estranho.

Ontem à noite, porém, isso estava longe de ser verdade.

Pela segunda vez neste verão, estou impressionada com o quanto a vida pode mudar de um dia para o outro.

A oficial Ferrell retorna, segurando um copo de café. Chego para o lado e me encosto na porta. Meu pai se levanta.

— Já organizarmos todas as informações de vocês. Estão liberados.

— E o Samson? — pergunto.

— Ele vai passar a noite sob custódia. Deve levar um tempo até ser solto, a não ser que alguém pague a fiança.

As palavras me pesam no peito. Quanto tempo é “um tempo”?

Ponho uma mão sobre meu estômago.

— Posso falar com ele?

— Ele ainda está sendo fichado e terá que ver o juiz daqui a umas horas. Amanhã a partir das nove já terá permissão de receber visitas.

— A gente não vem visitar — diz meu pai.

— Vem, sim — rebato.

— Beyah, você provavelmente nem sabe o nome verdadeiro desse cara.

— O nome dele é Shawn Samson — respondo, na defensiva.

Então estremeço e olho a policial, imaginando se há ainda mais mentiras. — Esse não é o nome dele?

— O nome completo é Shawn Samson Bennett — corrige a policial.

Meu pai gesticula em direção à policial enquanto olha para mim.

— Viu? — Ele põe as mãos na cintura e encara a oficial Ferrell. —

Será que eu tenho que me preocupar? Pelo que exatamente ele está sendo indiciado, quanto tempo vai ficar preso?

— Duas acusações de violação de domicílio. Uma de violação de condicional. Uma de incêndio criminoso.

A última me faz engasgar.

— Incêndio criminoso?

— No fim do ano passado um incêndio destruiu parcialmente uma residência. Ele estava ocupando a casa sem permissão quando o fogo começou. Foi registrado pelas câmeras de segurança e recebeu um mandado de prisão. Logo depois ele deixou de se apresentar ao oficial de condicional, o que levou aos mandados de prisão não cumpridos, bem como às novas acusações.

— Por que ele estava em liberdade condicional, para começo de conversa? — pergunta meu pai.

— Roubo de automóvel. Cumpriu seis meses de pena.

Meu pai começa a andar de um lado a outro.

— Então esse é um padrão do rapaz?

— Pai, tenho certeza de que ele é só o produto de um sistema cheio de falhas. — Meu pai para de andar e me encara, como se não entendesse como uma afirmação tão ridícula pudesse ter saído de minha boca. Olho a policial. — E os pais dele?

— Ambos falecidos. Ele alega que o pai desapareceu depois do furacão Ike e que desde então vem vivendo sozinho.

O pai dele desapareceu?

Será que Rake era o pai dele? Isso explica tanto de seu comportamento quando encontramos os restos mortais na praia.

Quero retornar àquele momento, em que ele parecia sentir tanta dor.

Quero voltar e abraçá-lo, como devia ter feito.

Começo a fazer as contas. Se Samson tiver sido honesto em relação à própria idade, tinha apenas treze anos na época do furacão Ike.Ele vive sozinho desde os treze? Não à toa foi tão fácil perceber que ele tinha traumas.

— Para de sentir pena, Beyah — diz meu pai. — Eu estou vendo, está na sua cara.

— Ele era uma criança quando perdeu o pai. A gente não faz ideia do tipo de vida que ele levou depois disso. Tenho certeza de que ele fez tudo por necessidade.

— E essa desculpa é válida para um rapaz de vinte anos? Ele podia ter arrumado um emprego, feito gente normal.

— O que ele ia fazer depois de ser solto pela primeira vez, se estava sozinho? Ele não deve ter nem documento de identificação,

se não tinha a ajuda dos pais. Não tinha família, não tinha dinheiro.

As pessoas são negligenciadas, pai. Isso acontece.

Aconteceu comigo e você nunca percebeu.

Meu pai pode achar que o comportamento de Samson é um padrão que ele próprio escolheu, mas para mim era uma vida da qual ele não teve saída. Sei muito bem o que é fazer péssimas escolhas por pura necessidade.

— Será que a gente consegue uma medida protetiva contra ele?

Não quero esse sujeito perto da minha propriedade, nem da minha filha.

Não estou acreditando. Ele nem sequer conversou com Samson, nem ouviu o lado dele, e está se sentindo ameaçado?

— Ele é inofensivo, pai.

Meu pai me olha, como se a irracional fosse eu.

— Certamente é seu direito proteger a sua propriedade —

responde a oficial Ferrell —, mas sua filha é adulta, então teria ela mesma que solicitar a medida protetiva de urgência para se defender.

— Me defender de quê? Ele é uma boa pessoa.

Parece que ninguém está me ouvindo.

— Ele estava fingindo ser uma boa pessoa, Beyah. Você nem conhece esse cara.

— Conheço mais do que conheço você — murmuro.

Meu pai aperta os lábios, mas permanece em silêncio.

Seja lá quais delitos Samson tenha cometido no passado, ele não fez essas escolhas por vontade própria. Estou convencida disso.

Samson nunca foi ameaçador. Ele vem sendo a parte mais segura e reconfortante do Texas para mim.