Até o verão terminar
Vinte e três
Samson não me parece um mentiroso. Parece protetor, não desonesto.
Neste momento, mesmo sem dizer uma palavra, Samson é mais honesto do que nunca.
Nunca me senti tão valorizada quanto agora.
Não apenas valorizada, mas apreciada. Respeitada. Desejada.
Talvez até amada.
Vinte e três
— Me desculpa.
As palavras de Samson parecem um bloco de concreto se arrastando por meu corpo. Ainda nem abri os olhos, mas sua voz guarda mais pesar que qualquer som que já ouvi na vida.
Será que foi um sonho?
Um pesadelo?
Toco o travesseiro dele e abro os olhos, mas não encontro nada.
Adormeci abraçada a ele, mas agora ele sumiu, e meus braços estão vazios. Quando viro o corpo para porta, eu o vejo. Ele está com as mãos para trás. Um policial segura seu braço e o empurra para fora do quarto.
No mesmo instante, eu me sento.
— Samson?
Ao dizer seu nome, vejo uma policial do outro lado da cama, com a mão na cintura, tocando uma pistola. Cubro meu corpo. Ela vê o medo em meus olhos e ergue a mão.
— Pode se vestir, mas sem movimentos bruscos.
Com o coração disparado, tento entender o que está acontecendo.
A policial se agacha e joga minha camiseta para mim. Com as mãos
trêmulas, tento vestir a roupa sob o cobertor.
— O que é que está acontecendo?
— Preciso que você desça comigo — responde a mulher.
Ai, meu Deus, o que está acontecendo? Como é que ontem à noite estávamos fazendo amor, e hoje vejo Samson algemado? Só pode ser algum equívoco. Ou uma piada de mau gosto. Não pode ser verdade.
— A gente não fez nada de errado.
Saio da cama e procuro meu short. Não lembro onde está, mas não tenho tempo de ficar procurando. Preciso impedir que levem Samson.
Corro até a porta.
— Pare! — grita a policial.
Eu paro e me viro para ela.
— Você precisa terminar de se vestir. Tem mais gente lá embaixo.
Mais gente?
Vai ver alguém arrombou a casa. Talvez estejam confundindo Samson com outra pessoa. Ou de repente alguém descobriu o que ele fez com os restos mortais de Rake.
Será que é por causa disso?
O pensamento me faz entrar em pânico, pois eu estava junto. Vi o que ele fez e não avisei à polícia, o que me torna tão culpada quanto Samson.
A policial sai do quarto enquanto eu visto meu short. Ela me aguarda, então segue depois de mim em direção à escada. Quando adentro a sala de estar de Samson, vejo mais dois policiais.
— O que houve? — sussurro para mim mesma. Olho pela janela e vejo que o sol ainda não nasceu, ou seja, ainda é de madrugada.
Samson e eu adormecemos depois da meia-noite.
Olho o relógio da parede. São duas e meia da manhã.
— Sente-se — diz a policial.
— Eu vou ser presa?
— Não. São só umas perguntas.
Agora estou assustada. Não sei aonde levaram Samson.
— Eu quero o meu pai. A gente mora na casa aqui do lado. Será que alguém pode ir lá avisar a ele o que está acontecendo?
Ela assente para um dos outros policiais e sai da casa.
— Cadê o Samson? — pergunto.
— É esse o nome que ele deu para você? — O policial puxa um bloquinho e anota alguma coisa.
— Isso. Shawn Samson. Esta é a casa dele, e vocês acabaram de tirá-lo da própria cama no meio da madrugada.
A porta da frente se abre e outro policial entra, seguido de um homem com uma criança no colo. Atrás dele entra uma mulher. Deve ser a esposa, pois o abraça assim que os dois entram na casa.
Por que é que tem tanta gente aqui?
A mulher parece familiar, mas não sei dizer de onde a conheço.
Parece ter chorado. O homem entrega a criança à esposa e me encara com desconfiança.
— Há quanto tempo a senhorita está morando aqui? — pergunta o policial.
Faço que não com a cabeça.
— Eu não moro aqui. Moro na casa ao lado.
— Qual é a sua relação com o rapaz?
Eu me sinto tonta e assustada, e quero que meu pai chegue logo.
Não gosto dessas perguntas. Quero saber onde está Samson. Será que preciso de um advogado? Será que Samson precisa?
— Como foi que você entrou? — pergunta o homem com a criança no colo.
— Como eu entrei?
— Na nossa casa.
A casa é dele?
Olho a esposa. Olho a criança. E o porta-retratos junto à porta. É
ela na fotografia. E o garotinho da foto está agora em seus braços. — Esta casa é de vocês? — pergunto ao homem.
— É.
— Vocês são os donos?
— Somos.
— O Samson é filho de vocês?
O homem balança a cabeça.
— A gente não conhece o rapaz.
Torno a olhar a fotografia. A foto que Samson disse ser dele e da mãe. Ele mentiu em relação a isso também?
Balanço a cabeça, em total e completa confusão, e vejo meu pai entrando às pressas pela porta.
— Beyah? — Ele corre pela sala, mas para quando a policial o segura pelo ombro e se planta entre nós.
— O senhor pode esperar do lado de fora, por gentileza?
— O que foi que aconteceu? — pergunta meu pai. — Por que é que eles estão sendo presos?
— A sua filha não está sendo presa. Não acreditamos que ela tenha tido participação.
— Participação no quê? — pergunto.
A policial solta um suspiro lento, como se não quisesse dizer o que estava prestes a dizer.
— Esta casa pertence a esta família — diz ela, apontando para o homem, a mulher e a criança. — O seu amigo não tinha permissão de estar aqui. Ele está sendo acusado de violação de domicílio.
— Que filho da puta — diz meu pai, entre os dentes cerrados.
Sinto as lágrimas ardendo nos olhos.
— Não pode ser — sussurro. Esta casa é do pai do Samson. Ele até ativou o alarme ontem à noite. Ninguém invade uma casa se sabe a senha do alarme. — Deve estar havendo algum equívoco.
— Não há equívoco nenhum — devolve a policial, guardando o bloquinho no bolso. — A senhorita se incomoda de vir conosco até a delegacia? Vamos ter que preencher um relatório e ainda temos muitas perguntas.
Meneio a cabeça e me levanto. Eles podem até ter perguntas para mim, mas eu certamente não tenho as respostas.
Meu pai dá um passo à frente e aponta para mim.
— Ela não fazia ideia de que a casa não era dele. Fui eu quem deu permissão para que ela passasse a noite aqui.
— É só formalidade. O senhor também pode ir até a delegacia, e se tudo estiver nos conformes ela poderá ir embora com o senhor.
Meu pai assente.
— Não se preocupe, Beyah. Vou logo atrás de você.
Não me preocupar?
Eu estou muito apavorada.
Antes de sair da casa, pego minha mochila e a de Samson, que ainda estão junto à porta, e entrego a meu pai.
— Você pode levar as minhas coisas para casa? — Não digo a ele que uma das mochilas pertence a Samson.
Ele pega as duas e me olha com firmeza.