Até o verão terminar
Vinte e sete
Sua primeira casa seria um barco, eu decidi, mas agora reflito, Será este barco a casa de onde você vai escapar?
Se for,
em minha conta recai esse grave pesar.
Pois quando um homem diz vou para casa, é para o mar que ele deveria rumar.
—Rake Bennett
03-01-08
Há pelo menos uns vinte poemas e cartas no saquinho. Somente alguns estão endereçados a Samson, mas tomando tudo por base, tenho a impressão de que Samson me contou a verdade a respeito do pai. Rake vivia na água, mas a parte que Samson deixou de fora foi que ele próprio vivia na água com Rake.
Vinte e sete
— Beyah Grim?
Praticamente dou um pulo da cadeira. Meu pai também se levanta, mas não quero que ele entre comigo para ver Samson.
— Você não precisa vir.
— Não vou deixar que você entre sozinha. — A afirmação é categórica, como se não houvesse espaço para negociação.
— Pai, por favor. — Não sei se Samson vai querer ser honesto comigo, com meu pai sentado à sua frente. — Por favor.
Ele assente com firmeza.
— Te espero no carro.
— Obrigada.
O guarda me acompanha até uma sala grande e aberta. Vejo várias mesas, quase todas ocupadas por visitantes de outros detentos.
É deprimente. Mas não tanto quanto imaginei que seria. Imaginei que ficaríamos separados por uma vidraça, sem poder nos tocar.
Meus olhos logo procuram e encontram Samson, sentado sozinho a uma mesa do outro lado da sala. Está de macacão azul-escuro.
Vê-lo usando outra coisa além do costumeiro short de praia faz tudo isso parecer muito mais real.
Quando ele enfim ergue os olhos e me vê, levanta-se na mesma hora. Não sei por que imaginei encontrá-lo algemado, mas estou aliviada em ver que não está. Corro até ele e me jogo em seus braços. Ele me puxa, com os braços rígidos.
— Me desculpa — diz ele.
— Está tudo bem.
Ele me abraça por um instante, mas não quero que arrume problemas, então nos afastamos e eu me sento à frente dele. A mesa é pequena, então estamos próximos, mas parece que há um abismo entre nós.
Por sobre a mesa, ele apoia as duas mãos na minha.
— Eu te devo tantas respostas. Por onde você quer que eu comece?
— Tanto faz.
Ele reflete por um instante. Eu trago a outra mão para junto das dele e vejo nossas mãos na mesa, umas sobre as outras.
— Tudo o que te contei sobre a minha mãe era verdade. O nome dela era Isabel. Eu só tinha cinco anos quando tudo aconteceu, mas mesmo sem lembrar muito como era a minha vida antes da morte dela, sei que tudo mudou drasticamente depois que ela se foi. O
Rake é meu pai; isso eu omiti. Depois que a minha mãe morreu, ele parecia perdido quando não estava no mar. Parecia impensável para ele estar em qualquer lugar onde ela não estivesse, então ele me tirou da escola e passamos vários anos morando no barco dele. E
assim foi a minha vida, até que Darya tirou meu pai de mim.
— Então era disso que você estava falando quando disse que Darya destruiu o seu coração?
Ele assente.
— Onde você estava quando o furacão chegou?
Samson cerra a mandíbula, como se não quisesse reviver essa lembrança.
— Meu pai me deixou numa igreja — responde ele, encarando nossas mãos. — Muitos residentes buscaram abrigo por lá, mas ele se recusou a ficar comigo. Queria garantir que nosso barco estaria seguro, já que toda a nossa vida estava lá. Falou que voltava antes
de escurecer, mas depois daquela noite nunca mais o vi. — Ele me olha outra vez. — Eu queria continuar na península, mas não sobrou nada depois do furacão. Era difícil para um garoto de treze anos se esconder por lá, ou mesmo sobreviver, então eu tive que ir embora.
Sabia que seria jogado num orfanato se contasse a alguém que meu pai havia desaparecido, então passei os anos seguintes tentando passar despercebido. Acabei trabalhando com um amigo em Galveston, fazendo uns bicos, tipo cortar grama. É o cara que você conheceu no restaurante. Éramos muito novos e fizemos umas bobagens. Acabamos sendo presos.
— E a acusação de incêndio criminoso?
— Não foi culpa minha, tecnicamente. A fiação elétrica da casa era péssima, mas se eu não tivesse invadido aquela noite e acendido as luzes, o incêndio jamais teria acontecido. Então, no papel, a culpa foi minha. — Samson entrelaça os dedos nos meus. — Quando eu soube que tinha sido expedido um novo mandado de prisão para mim, resolvi voltar aqui uma última vez antes de me entregar. Não sei se estava buscando um ponto final ou se esperava achar o meu pai, mas acabei encontrando as duas coisas. Também encontrei você, e não quis mais ir embora. — Com o polegar, Samson acaricia o dorso de minha mão esquerda. — Eu sabia que ia passar um tempo na cadeia, então quis estender meu tempo com você antes de você ir embora. — Ele suspira. — O que mais você quer saber?
— Como é que você sabia a senha do alarme da casa?
— A senha é o próprio número da casa. Coisa mais fácil de adivinhar.
É difícil julgá-lo, pois seria extremamente hipócrita da minha parte.
No mínimo, admiro suas habilidades de sobrevivência.
— E a coisa da Academia da Força Aérea? Nada daquilo era verdade?
Ele olha para baixo, incapaz de me encarar nos olhos. Balança a cabeça.
— Eu queria ir para a Força Aérea. Esse era o plano, só que ferrei com tudo. Mas em relação a algumas coisas eu menti, tipo a tradição de família. Falei muita coisa que não era verdade. Mas precisei sustentar minha permanência naquela casa, e disse mentiras que jamais quis te contar. Por isso eu não respondia às suas perguntas.
Eu não queria ser desonesto com você. Nem com ninguém. Eu só...
— Não teve escolha — digo, completando o pensamento. — Eu entendo. Passei por isso a vida inteira. Foi você quem disse que as decisões erradas podem vir da força ou da fraqueza. Você não mentiu por fraqueza, Samson.
Ele inspira devagar, como se temesse o que virá em seguida.
Quando me encara, toda a sua postura muda. Seu olhar faz o peso da sala inteira se avultar por sobre mim.
— Ontem à noite, no telefone, você falou que não ia para a Pensilvânia.
É uma afirmação, mas vejo que ele quer uma resposta.
— Não posso te deixar.
Ele balança a cabeça e afasta as mãos das minhas. Esfrega o rosto, como se estivesse frustrado comigo, então agarra minhas duas mãos com ainda mais força.
— Você vai para a faculdade, Beyah. Não cabe a você arrumar a minha bagunça.
— A sua bagunça? Samson, você não fez nada de tão ruim. Você praticamente se criou na rua. Como é que você ia se reerguer depois de ser solto da cadeia pela primeira vez? Tenho certeza de que todo mundo vai entender se você explicar como o incêndio começou, e porque você violou a condicional.
— Para a justiça não importa por que eu infringi a lei; só importa o fato de que infringi.
— Bom, devia importar.
— O sistema é falho, Beyah, e não faz a menor diferença. Nós dois não vamos mudar isso da noite para o dia. Devo passar vários anos na cadeira, e não tem nada que eu ou você possamos fazer a respeito, então não tem motivo para você ficar aqui no Texas.
— Você já é motivo suficiente. Como é que vou te visitar se estiver morando na Pensilvânia?
— Não quero que você me visite. Quero que você vá para a faculdade.
— Eu posso fazer faculdade aqui.
Ele ri, mas não sorri. É uma risada exasperada.
— Por que tanta teimosia? Era exatamente esse o nosso plano, seguirmos por caminhos separados quando você fosse para a universidade.
Suas palavras penetram em mim e reviram minhas entranhas.
— Achei que as coisas tinham mudado — digo, num sussurro. —
Você falou que tinham nascido ossos no nosso coração.
Samson sente meu comentário com o corpo inteiro. Afunda um pouquinho na cadeira, como se tivesse levado um golpe. Não quero machucá-lo, mas ele vale mais que isso. Ele para mim não era descartável.
— Não posso ficar tão longe de você — digo, baixinho. —
Telefonemas e cartas não vão bastar.
— Também não quero telefonemas nem cartas. Quero que você vá viver sua vida, sem ter que carregar o peso da minha. — Ele vê o choque em meu rosto, mas não me dá tempo de discutir. — Beyah... nós passamos a vida toda ilhados, sozinhos. Por isso nos conectamos, pois reconhecemos no outro toda essa solidão. Só que você agora tem a chance de escapar dessa ilha, e eu me recuso a te segurar durante sei lá quantos anos, enquanto estiver preso.
Sinto as lágrimas. Vejo uma cair na mesa.
— Você não pode me excluir. Não vou conseguir sem você.
— Você já conseguiu sem mim — retruca ele, determinado.
Estende a mão por sobre a mesa e ergue meu rosto, forçando-me a encará-lo. Parece tão dilacerado quanto eu. — Não tive nada a ver com as suas conquistas. Não tive nada a ver com a pessoa que você se tornou. Por favor, não me transforme numa razão para abandonar tudo.
Quanto mais ele insiste que não quer manter contato comigo, mais irritada eu fico.
— Não é justo. Você espera que eu simplesmente vá embora e não tenha mais nenhum contato com você? Por que você permitiu que eu me apaixonasse, para começo de conversa, se seria esse o resultado?
Ele solta um suspiro profundo.
— A gente combinou que ia terminar em agosto, Beyah. A gente concordou em ficar no raso.
Reviro os olhos.
— Você mesmo disse que as pessoas se afogam no raso. — Eu me debruço sobre a mesa, atraindo seu olhar. — Eu estou me afogando, Samson. E você está me prendendo debaixo da água.
Esfrego os olhos, cheia de raiva.
Samson pega minhas mãos outra vez, mas agora é diferente.
— Me perdoa — diz ele, com a voz tomada de dor. Não diz mais nada, mas sei que é um adeus.
Ele se levanta, encerrando a conversa, mas me olha, como se quisesse que eu me levantasse também. Cruzo os braços diante do peito.
— Não vou te abraçar. Você não merece mais o meu abraço.
Samson assente.
— Nunca mereci, desde o início.
Ele dá meia-volta, e no mesmo instante perco o chão ao imaginar que nunca mais vou vê-lo. Samson só assume esse semblante quando está falando muito sério. Ele não vai permitir que eu torne a vê-lo. É isso. Acabou.
Quando ele começa a caminhar, eu dou um pulo.
— Samson, espera!
Ele se vira bem a tempo de me segurar, quando largo os braços em torno dele. Enterro o rosto em seu pescoço. Quando ele me abraça, começo a chorar.
Penso tanta coisa ao mesmo tempo. Já sinto saudade dele, mas por outro lado nunca senti tanta raiva. Eu sabia que este momento chegaria — a despedida. Mas não sabia que seria assim. Eu me sinto impotente. Queria que nosso adeus fosse uma escolha na qual eu tivesse participação, mas acabou que não estou tendo escolha nenhuma.
Ele beija minha cabeça.
— Aceite a bolsa, Beyah. E se divirta. Por favor. — No por favor, a voz dele falha.
Ele me solta e caminha até um guarda parado junto à porta. Eu me sinto pesada sem ele, como se tivesse perdido meu principal apoio e já não pudesse me manter de pé sozinha.
Samson é conduzido para fora da sala, sem nem olhar a destruição que deixou para trás.
Quando chego ao carro de meu pai, estou aos prantos. Bato a porta, raivosa e desconsolada. Não consigo nem começar a absorver o que acabou de acontecer lá dentro. Por essa eu não esperava. Eu esperava o exato oposto. Achei que fôssemos agir em parceria, mas em vez disso ele me deixou totalmente sozinha, como todas as outras pessoas em minha vida.
— O que aconteceu?
Balanço a cabeça. Não consigo falar.
— Só dirige.
Meu pai agarra o volante com força, embranquecendo os nós dos dedos. Dá partida no carro e engata a marcha à ré.
— Eu devia ter acabado com ele no dia do chuveiro.
Nem sequer tento explicar que ele, naquela noite, não estava me protegendo de Samson. Samson estava me ajudando, mas a essa altura qualquer explicação seria em vão. Então, opto por uma afirmação genérica.
— Ele não é má pessoa, pai.
Meu pai põe o carro em ponto morto. Olha para mim com o semblante inflexível.
— Não sei onde foi que errei como pai, mas não criei uma filha para defender um cara que passou o verão inteiro mentindo para ela.