Até o verão terminar
Sete
— Não é que ele estivesse tentando esconder o fato de que você existia. É só que... a gente não tem relação. Nenhuma. Desde que ele se casou a gente mal se fala. Na verdade eu até esqueci que ele era casado.
Sara parece prestes a dizer algo, mas é interrompida.
— Tudo bem com vocês? — pergunta Marcos.
Olhamos para cima e vemos Samson e Marcos nos encarando.
Sara ergue a caixinha de achocolatado.
— A Beyah falou para eu deixar de paranoia com meu corpo e me fez comer besteira.
Marcos dá uma risada e estende a mão para pegar um donut.
— A Beyah tem razão. Você é perfeita.
Samson está me encarando. Ele nunca sorri como Marcos. Marcos parece estar sempre sorrindo.
Sara se levanta do chão e me puxa também.
— Vamos indo.
Sete
Deixamos as compras todas no porta-malas, menos o celular pré-pago. Estou tentando descobrir como configurar, mas na escuridão do carro está difícil ler as instruções. Não sei nem como carregar o telefone.
— Quer ajuda? — pergunta Samson, ao ver meu esforço.
Olho para ele e vejo sua mão estendida. Entrego a caixa a ele, que usa a luz de seu próprio celular para enxergar as instruções.
Ele ainda está configurando tudo quando Marcos para o carro na balsa.
— Você vem? — pergunta Sara, abrindo a porta.
Aponto para o celular nas mãos de Samson.
— Daqui a pouquinho. Ele está configurando o meu telefone.
Sara abre um sorriso e fecha a porta, como se isso possa de alguma forma ensejar um romance de verão. Odeio ver que ela tem esse objetivo. Realmente não tenho o menor interesse em alguém que tem tão pouco interesse em mim.
Samson precisa digitar um número para finalizar a configuração, mas o celular avisa que é preciso aguardar dois minutos para ativação do sistema.
Dois minutos não parece tanto assim, mas me sinto adentrar a eternidade. Olho pela janela, tentando ignorar a tensão que preenche o espaço entre nós.
É de um desconforto tão incrível, que me pego esperando que ele quebre o silêncio depois de apenas dez segundos.
Depois de vinte segundos, começo a ficar nervosa, então solto a única coisa que consigo pensar em dizer:
— Por que você estava tirando fotos de mim hoje na balsa?
Olho para ele, que está com um cotovelo apoiado na junção entre a porta e a janela do carro. Está correndo os dedos de leve no lábio de baixo, mas afasta a mão quando vê que estou olhando. Ele cerra o punho e dá uma batidinha na janela.
— Por causa do jeito como você olhava o oceano.
A resposta se enrosca em minha espinha feito uma serpente.
— Como é que eu estava olhando?
— Como se fosse a primeira vez que você via o mar.
Eu me ajeito no banco, subitamente desconfortável com a forma como as palavras dele me envolvem feito seda.
— Você chegou a ver? — pergunta ele.
— Ver o quê?
— As fotos.
Balanço a cabeça.
— Bom. Quando vir, fique à vontade para apagar o que não quiser, mas eu gostaria muito de receber de volta o cartão de memória. Tem umas fotos lá que quero guardar.
Balanço a cabeça.
— O que mais você fotografa? Além de garotas em balsas?
Ele abre um sorrisinho.
— A natureza, basicamente. O oceano. O nascer do sol. O pôr do sol.Penso no crepúsculo que vi mais cedo e em como ele pode ter me fotografado diante do sol. Vou ver se Sara me empresta um computador, para que eu possa ver o conteúdo do cartão de memória. Agora fiquei curiosa.
— O pôr do sol estava lindo hoje.
— Espera só para ver o sol nascendo da sua sacada.
— Ah, mas não acordo tão cedo assim — respondo, com uma risada.
O celular avisa que a configuração foi concluída, e Samson olha o aparelho.
— Quer que eu anote o número do pessoal todo? — Ele busca o contato de Sara em seu próprio celular.
— Pode ser.
Ele adiciona o número de Sara. Depois o de Marcos. E o dele próprio. Mexe em algumas outras coisas e por fim me entrega o aparelho.
— Precisa de um tutorial?
Faço que não.
— Um amigo lá perto de casa tinha um igual a esse. Eu me viro.
— Onde é “lá perto de casa”?
É uma pergunta simples, mas que faz minha pele arder. É uma pergunta que fazemos a alguém que queremos conhecer melhor.
Solto um pigarro.
— Kentucky — respondo. — E você, de onde é?
Ele pousa os olhos em mim por um instante, em silêncio. Então desvia o olhar e agarra a maçaneta da porta, como se arrependido de ter iniciado uma conversa comigo.
— Vou pegar um pouco de ar fresco — diz, abrindo a porta. Então a fecha e vai se afastando do carro.
Eu deveria ficar ofendida com essa reação estranha, mas não fico.
Na verdade, fico aliviada. Quero que ele sinta por mim o mesmo desinteresse que sinto por ele.
Ou o mesmo desinteresse que estou tentando sentir por ele.
Olho meu celular e adiciono o número de Natalie. Ela era uma das poucas amigas que eu tinha em minha cidade, e desde ontem à noite ando querendo falar com ela. Tenho certeza de que a mãe dela contou sobre a morte da minha, e ela deve estar doente de preocupação por não saber onde estou. Tem sido difícil mantermos contato desde que ela foi para a faculdade, já que não tenho celular.
Esse é um fato que contribui para que eu não tenha muitos amigos.
Os excluídos digitalmente têm muita dificuldade em manter contato com outras pessoas.
Saio do carro e vou até um cantinho vazio da balsa, para fazer a ligação. Olho a água, digito o número dela e aguardo o toque.
— Alô?
Ao ouvir a voz dela, solto um suspiro de alívio. Enfim um som familiar.
— Oi.
— Beyah? Puta merda, eu estava aqui morrendo de preocupação.
Soube o que aconteceu, lamento demais.
Sua voz está altíssima. Tento descobrir como tirar o som do alto-falante, mas a tela só exibe uns números. Olho em volta, mas não há ninguém por perto, então só abafo o telefone para que a ligação não incomode ninguém nos arredores.
— Beyah? Alô?
— Estou aqui, desculpa.
— Onde é que você está?
— No Texas.
— E o que você está fazendo no Texas?
— Meu pai se mudou para cá. Pensei em passar o verão com ele.
Como é Nova York?
— Diferente — responde ela. — Mas de um jeito bom. — Ela faz uma pausa, então diz: — Meu Deus, ainda não acredito que a Janean morreu. Tem certeza de que você está bem?
— Estou. Tive uma bela crise de choro, mas tipo... sei lá. Talvez eu esteja com defeito.
— Que seja. Ela era a pior mãe que eu já conheci.
É por isso que gosto de Natalie. Ela fala o que pensa. Nem todo mundo é tão expressivo assim.
— E o seu pai? — pergunta ela. — Não fazia um tempo que você não o via? Está estranho?
— Está. Talvez esteja até pior agora, que sou adulta. Mas ele mora de frente para a praia, então é uma grande vantagem. Mas está casado. E tem uma enteada.
— Que legal a casa na praia, mas, eita... uma enteada? Ela tem a sua idade?
— Um ano mais velha, mais ou menos. Ela se chama Sara.
— Nome de loira bonita.
— Ela é, mesmo.
— Você gostou dela?
Paro e penso um instante.
— Ainda não sei bem o que pensar. Acho que talvez ela seja uma mocinha de vestiário.
— Eca. Essas são as piores. Algum gatinho, pelo menos?
Bem na hora em que Natalie faz a pergunta, algo me chama atenção, e espio com o canto do olho. Viro a cabeça e vejo Samson caminhando em minha direção. Está me encarando, como se tivesse ouvido o final da conversa. Cerro a mandíbula.
— Não. Nenhum gatinho. Escuta, preciso ir. Salva meu número aí.
— Beleza, pode deixar.
Encerro a ligação e seguro o celular com força. Juro por Deus, esse cara só aparece nas piores horas.
Ele avança mais uns passos e para ao meu lado, junto à amurada.
Estreita os olhos para mim, de um jeito curioso.
— O que é uma mocinha de vestiário?
Que ódio por ele ter ouvido isso. Gosto de verdade da Sara. Não sei por que falei isso a Natalie.
Solto um suspiro, viro o corpo e me recosto na amurada.
— É como eu chamava as meninas malvadas da escola.
Samson assente, como se processasse minha resposta.
— Sabe... quando a Sara soube que você estava vindo, ela se mudou para o quarto de hóspedes. Queria que você ficasse com o melhor quarto.
Ele se afasta da amurada e ruma de volta para o carro.
Eu me viro, pressiono as mãos no rosto e solto um grunhido.