Até o verão terminar

Colleen Hoover · Capítulo 9 de 37

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Até o verão terminar

Sete

— Não é que ele estivesse tentando esconder o fato de que você existia. É só que... a gente não tem relação. Nenhuma. Desde que ele se casou a gente mal se fala. Na verdade eu até esqueci que ele era casado.

Sara parece prestes a dizer algo, mas é interrompida.

— Tudo bem com vocês? — pergunta Marcos.

Olhamos para cima e vemos Samson e Marcos nos encarando.

Sara ergue a caixinha de achocolatado.

— A Beyah falou para eu deixar de paranoia com meu corpo e me fez comer besteira.

Marcos dá uma risada e estende a mão para pegar um donut.

— A Beyah tem razão. Você é perfeita.

Samson está me encarando. Ele nunca sorri como Marcos. Marcos parece estar sempre sorrindo.

Sara se levanta do chão e me puxa também.

— Vamos indo.

Sete

Deixamos as compras todas no porta-malas, menos o celular pré-pago. Estou tentando descobrir como configurar, mas na escuridão do carro está difícil ler as instruções. Não sei nem como carregar o telefone.

— Quer ajuda? — pergunta Samson, ao ver meu esforço.

Olho para ele e vejo sua mão estendida. Entrego a caixa a ele, que usa a luz de seu próprio celular para enxergar as instruções.

Ele ainda está configurando tudo quando Marcos para o carro na balsa.

— Você vem? — pergunta Sara, abrindo a porta.

Aponto para o celular nas mãos de Samson.

— Daqui a pouquinho. Ele está configurando o meu telefone.

Sara abre um sorriso e fecha a porta, como se isso possa de alguma forma ensejar um romance de verão. Odeio ver que ela tem esse objetivo. Realmente não tenho o menor interesse em alguém que tem tão pouco interesse em mim.

Samson precisa digitar um número para finalizar a configuração, mas o celular avisa que é preciso aguardar dois minutos para ativação do sistema.

Dois minutos não parece tanto assim, mas me sinto adentrar a eternidade. Olho pela janela, tentando ignorar a tensão que preenche o espaço entre nós.

É de um desconforto tão incrível, que me pego esperando que ele quebre o silêncio depois de apenas dez segundos.

Depois de vinte segundos, começo a ficar nervosa, então solto a única coisa que consigo pensar em dizer:

— Por que você estava tirando fotos de mim hoje na balsa?

Olho para ele, que está com um cotovelo apoiado na junção entre a porta e a janela do carro. Está correndo os dedos de leve no lábio de baixo, mas afasta a mão quando vê que estou olhando. Ele cerra o punho e dá uma batidinha na janela.

— Por causa do jeito como você olhava o oceano.

A resposta se enrosca em minha espinha feito uma serpente.

— Como é que eu estava olhando?

— Como se fosse a primeira vez que você via o mar.

Eu me ajeito no banco, subitamente desconfortável com a forma como as palavras dele me envolvem feito seda.

— Você chegou a ver? — pergunta ele.

— Ver o quê?

— As fotos.

Balanço a cabeça.

— Bom. Quando vir, fique à vontade para apagar o que não quiser, mas eu gostaria muito de receber de volta o cartão de memória. Tem umas fotos lá que quero guardar.

Balanço a cabeça.

— O que mais você fotografa? Além de garotas em balsas?

Ele abre um sorrisinho.

— A natureza, basicamente. O oceano. O nascer do sol. O pôr do sol.Penso no crepúsculo que vi mais cedo e em como ele pode ter me fotografado diante do sol. Vou ver se Sara me empresta um computador, para que eu possa ver o conteúdo do cartão de memória. Agora fiquei curiosa.

— O pôr do sol estava lindo hoje.

— Espera só para ver o sol nascendo da sua sacada.

— Ah, mas não acordo tão cedo assim — respondo, com uma risada.

O celular avisa que a configuração foi concluída, e Samson olha o aparelho.

— Quer que eu anote o número do pessoal todo? — Ele busca o contato de Sara em seu próprio celular.

— Pode ser.

Ele adiciona o número de Sara. Depois o de Marcos. E o dele próprio. Mexe em algumas outras coisas e por fim me entrega o aparelho.

— Precisa de um tutorial?

Faço que não.

— Um amigo lá perto de casa tinha um igual a esse. Eu me viro.

— Onde é “lá perto de casa”?

É uma pergunta simples, mas que faz minha pele arder. É uma pergunta que fazemos a alguém que queremos conhecer melhor.

Solto um pigarro.

— Kentucky — respondo. — E você, de onde é?

Ele pousa os olhos em mim por um instante, em silêncio. Então desvia o olhar e agarra a maçaneta da porta, como se arrependido de ter iniciado uma conversa comigo.

— Vou pegar um pouco de ar fresco — diz, abrindo a porta. Então a fecha e vai se afastando do carro.

Eu deveria ficar ofendida com essa reação estranha, mas não fico.

Na verdade, fico aliviada. Quero que ele sinta por mim o mesmo desinteresse que sinto por ele.

Ou o mesmo desinteresse que estou tentando sentir por ele.

Olho meu celular e adiciono o número de Natalie. Ela era uma das poucas amigas que eu tinha em minha cidade, e desde ontem à noite ando querendo falar com ela. Tenho certeza de que a mãe dela contou sobre a morte da minha, e ela deve estar doente de preocupação por não saber onde estou. Tem sido difícil mantermos contato desde que ela foi para a faculdade, já que não tenho celular.

Esse é um fato que contribui para que eu não tenha muitos amigos.

Os excluídos digitalmente têm muita dificuldade em manter contato com outras pessoas.

Saio do carro e vou até um cantinho vazio da balsa, para fazer a ligação. Olho a água, digito o número dela e aguardo o toque.

— Alô?

Ao ouvir a voz dela, solto um suspiro de alívio. Enfim um som familiar.

— Oi.

— Beyah? Puta merda, eu estava aqui morrendo de preocupação.

Soube o que aconteceu, lamento demais.

Sua voz está altíssima. Tento descobrir como tirar o som do alto-falante, mas a tela só exibe uns números. Olho em volta, mas não há ninguém por perto, então só abafo o telefone para que a ligação não incomode ninguém nos arredores.

— Beyah? Alô?

— Estou aqui, desculpa.

— Onde é que você está?

— No Texas.

— E o que você está fazendo no Texas?

— Meu pai se mudou para cá. Pensei em passar o verão com ele.

Como é Nova York?

— Diferente — responde ela. — Mas de um jeito bom. — Ela faz uma pausa, então diz: — Meu Deus, ainda não acredito que a Janean morreu. Tem certeza de que você está bem?

— Estou. Tive uma bela crise de choro, mas tipo... sei lá. Talvez eu esteja com defeito.

— Que seja. Ela era a pior mãe que eu já conheci.

É por isso que gosto de Natalie. Ela fala o que pensa. Nem todo mundo é tão expressivo assim.

— E o seu pai? — pergunta ela. — Não fazia um tempo que você não o via? Está estranho?

— Está. Talvez esteja até pior agora, que sou adulta. Mas ele mora de frente para a praia, então é uma grande vantagem. Mas está casado. E tem uma enteada.

— Que legal a casa na praia, mas, eita... uma enteada? Ela tem a sua idade?

— Um ano mais velha, mais ou menos. Ela se chama Sara.

— Nome de loira bonita.

— Ela é, mesmo.

— Você gostou dela?

Paro e penso um instante.

— Ainda não sei bem o que pensar. Acho que talvez ela seja uma mocinha de vestiário.

— Eca. Essas são as piores. Algum gatinho, pelo menos?

Bem na hora em que Natalie faz a pergunta, algo me chama atenção, e espio com o canto do olho. Viro a cabeça e vejo Samson caminhando em minha direção. Está me encarando, como se tivesse ouvido o final da conversa. Cerro a mandíbula.

— Não. Nenhum gatinho. Escuta, preciso ir. Salva meu número aí.

— Beleza, pode deixar.

Encerro a ligação e seguro o celular com força. Juro por Deus, esse cara só aparece nas piores horas.

Ele avança mais uns passos e para ao meu lado, junto à amurada.

Estreita os olhos para mim, de um jeito curioso.

— O que é uma mocinha de vestiário?

Que ódio por ele ter ouvido isso. Gosto de verdade da Sara. Não sei por que falei isso a Natalie.

Solto um suspiro, viro o corpo e me recosto na amurada.

— É como eu chamava as meninas malvadas da escola.

Samson assente, como se processasse minha resposta.

— Sabe... quando a Sara soube que você estava vindo, ela se mudou para o quarto de hóspedes. Queria que você ficasse com o melhor quarto.

Ele se afasta da amurada e ruma de volta para o carro.

Eu me viro, pressiono as mãos no rosto e solto um grunhido.