Até o verão terminar

Colleen Hoover · Capítulo 19 de 37

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Até o verão terminar

Dezessete

Ao entrar em casa, agradeço por não ver ninguém na sala. Tranco a porta sorrateiramente e subo ao segundo andar. Antes de abrir a porta do meu quarto, dou uma olhada no de Sara.

Acho que quero contar a ela sobre o beijo. É estranho querer me abrir com outra garota. Nunca contei nem a Natalie sobre o lance entre mim e Dakota. Era tudo vergonhoso demais.

Bato à porta de Sara bem de leve, para não acordar mais ninguém. Ela não atende. Deve estar na praia.

Abro a porta para conferir se ela está dormindo, mas dou uma espiada fecho a porta de volta, bem depressa.

Marcos estava em cima dela. Estava de roupa, mas mesmo assim.

Por essa eu não esperava.

Cruzo o corredor, mas recordo o pedido de Sara, na praia, para que eu desse um sinal silencioso.

Volto até o quarto. Os dois param de se beijar e me olham. Avanço até a cama, faço um “joinha” e espalmo a mão diante dela.

Ela ri e bate a palma na minha.

— Arrasou! — sussurra ela, enquanto saio do quarto.

Dezessete

Os últimos dias foram os menos estressantes de toda a minha vida.

Parece que o tempo que passo com Samson libera em meu cérebro uma descarga hormonal que eu não recebia há dezenove anos.

Estou feliz. Já não me sinto o tempo todo à beira de um colapso.

Tenho certeza de que não é só Samson. É uma combinação de tudo o que nunca tive. Uma casa decente, e não apodrecida de tanto cupim. Três refeições por dia. Uma amizade constante bem ao meu lado, no mesmo corredor. O oceano. O nascer do sol.

É quase muita coisa boa ao mesmo tempo. Estou tendo uma overdose de coisas boas, ou seja, vou ter que trabalhar o desmame de tudo isso quando o verão acabar. Mas, como bem disse Sara, o verão foi feito para vivermos o presente, e apenas o presente. No dia três de agosto eu penso na parte dolorosa.

Samson concluiu que seria mais fácil subir até minha sacada usando uma escada, em vez de pular. Estou sentada no lugar de costume, comendo umas uvas que acabei de pegar da geladeira, quando o ouço apoiar a escada. Minha parte preferida desta rotina matinal é quando ele chega ao último degrau e sorri para mim.

Apesar de que ontem à noite talvez tenha sido melhor que as

manhãs. Ele me convenceu a voltarmos ao mar, e pudemos nos beijar sem nenhuma dor lancinante para interromper.

Beijar é um eufemismo.

A gente se amassou. O máximo que duas pessoas conseguem se amassar dentro d’água sem meter as mãos sob as roupas de banho.

Mas foi o único momento de contato físico que tivemos de fato nesses últimos dias, tirando as manhãs. Fico meio constrangida com demonstrações públicas de afeto, e estamos sempre com Sara e Marcos.

Samson chega ao alto da escada, e nós dois sorrimos.

— Bom dia.

— Oi.

Conduzo outra uva até a boca. Depois de subir no parapeito, ele se debruça, vem me dar um beijinho e se senta ao meu lado.

Pego uma uva do saquinho e levo a seus lábios. Ele sorri, mas mal abre a boca, forçando-me a empurrar a uva com o dedo. Fecha os lábios um segundo, então puxa, bem de leve. E começa a mastigar.

— Valeu.

Agora quero passar o dia comendo uva com ele.

Ele passa o braço pelas costas da cadeira. Eu me recosto a seu lado, mas não tão perto, para que ele não encare como um sinal para me abraçar. Vemos o sol nascer, em silêncio, e penso na reviravolta que minha vida sofreu desde que cheguei.

Achei que soubesse quem eu era, mas não fazia ideia de que as pessoas podem se tornar versões diferentes de si mesmas em cenários distintos. Aqui, onde tudo parece tão bom e perfeito, eu de fato estou em paz comigo mesma. Não durmo toda noite com um gosto amargo na boca. Não sou tão diligente no ódio a meu pai quanto antes. Nem tão descrente no amor. Aqui não sou cética, pois consigo olhar a vida através de lentes diferentes.

Isso me faz pensar que versão de mim mesma eu serei quando chegar à faculdade. Será que vou ser feliz por lá? Será que vou sentir saudade de Samson? Vou continuar prosperando, ou tornar a definhar, como era antes?

Eu me sinto como uma flor removida das sombras e colocada no sol. Estou desabrochando pela primeira vez desde que rompi a terra do solo.

— Quais são os planos para hoje? — pergunta Samson.

Dou de ombros.

— Acho que a essa altura já ficou nítido que não tenho nenhum plano até o dia três de agosto.

— Que bom. Quer alugar um carrinho de golfe e fazer um tour hoje à tarde? Conheço uma parte da praia super-reservada.

— Quero. Gostei da ideia.

Ainda mais ao ouvir a palavra reservada. Parece um convite para enfim passar um tempo a sós com ele.

O sol já nasceu, e neste momento Samson costuma ir embora, para que eu volte a dormir, mas hoje, em vez de se levantar, ele me desliza para seu colo, com as pernas abertas e de frente para ele.

Recosta a cabeça na cadeira e pousa as mãos em minha cintura.

— A gente devia ver o sol nascer nessa posição.

— Eu ia bloquear a sua vista.

Ele toca meu rosto, e seus dedos em minha pele são como pequenas labaredas.

— Você é mais bonita que a vista, Beyah.

Ele desliza a mão por trás de minha cabeça e me leva até sua boca. Engancha os braços em mim e me puxa para perto, mas eu me remexo um pouco, para que ele não faça isso. Não gosto quando ele me envolve enquanto nos beijamos, pois me faz pensar num abraço, e abraço para mim é mais pessoal que beijo, ou até que sexo.

Eu gosto de beijar Samson. Gosto de estar com ele. Mas não gosto da ideia de dividir algo tão íntimo com alguém que não quer compartilhar mais que umas semanas comigo.

Ele desce as mãos até minha cintura, como o eduquei a fazer durante os últimos dias. Beija minha mandíbula e a lateral de minha cabeça.

— Preciso ir — diz. — Tenho muita coisa para fazer hoje.

Todo dia ele faz algo diferente. Ajuda a consertar o telhado de alguém, refaz uma duna. A maioria parece trabalho duro. Não sei se de fato ele recebe dinheiro pelos trabalhos que faz.

Eu me afasto dele e o observo retornar à escada.

Sem olhar para mim, ele desce e desaparece. Inclino a cabeça no encosto da cadeira e jogo uma uva na boca.

Tenho certeza de que ele quer mais contato físico do que estou entregando, mas não posso dar mais se ele insiste em se manter na parte rasa. Carinhos e abraços podem parecer coisas rasas para ele, mas para mim estão enterradas no fundo da Fossa das Marianas.

Eu preferiria fazer sexo casual a deixar que ele me abrace.

Essa é a prova cabal de que tenho questões profundas e preciso fazer terapia. Mas que seja.

A terapia do oceano até agora tem feito maravilhas por mim, e é de graça.

•

Reservado era pouco.

Ele nos trouxe a um ponto tão afastado da praia, que já não vejo nem casas. Só uma ou outra, bem espalhadas. Não há ninguém por perto. Apenas as dunas atrás de nós e o oceano à nossa frente. Se eu pudesse escolher um lugar onde construir uma casa, seria aqui.

— Por que não tem muitas casas aqui? A maré sobe muito?

— Antigamente essa parte era cheia de casas. O furacão Ike destruiu tudo.

Samson dá uma golada na água. Trouxe sanduíches, água e um cobertor. Ele considera este nosso primeiro encontro oficial, já que as saídas com Sara e Marcos na verdade não contam. Foi até me buscar em casa no carrinho de golfe.

— Será que algum dia vai voltar a ser como era antes do furacão?

Ele dá de ombros.

— Talvez não como era antes. Durante a reconstrução a península toda sofreu muita gentrificação, mas está prosperando mais do que eu imaginei. Só que é um trabalho em curso, ainda. Vai levar tempo para chegar perto de como era antes. — Ele mostra um ponto atrás de nós. — Foi ali que encontrei o barco do Rake. Talvez ainda haja uns pedaços enterrados nas dunas. Desde o furacão ninguém vasculha muito esta área.

Dou um pedaço de pão a P.J. Ele veio no banco traseiro do carrinho de golfe.

— Será que esse cachorro era de alguém que teve a casa destruída?

— Acho que o único dono que ele já teve foi você.

Dou um sorriso quando ele diz isso, embora saiba que não sou a primeira pessoa que P.J. já amou. Ele responde aos comandos, ou seja, alguém um dia já se dispôs a treiná-lo.

Eu sempre quis um cachorro, mas nunca tive comida suficiente para alimentá-lo. Eu acolhia cães desgarrados, mas uma hora ou outra eles me deixavam por outras famílias que lhes davam de comer com mais frequência.

— O que você vai fazer com ele em agosto? — pergunta Samson, inclinando o corpo por sobre o meu para acariciar P.J.

— Não sei. Estou tentando não pensar nisso.

Neste momento os olhos de Samson encontram os meus, e um pensamento nos perpassa.

O que vou fazer com o cachorro?

O que vamos fazer com nós dois?

Qual será a sensação da despedida?

Samson espicha o corpo na areia. Estou de pernas cruzadas, então ele apoia a cabeça em meu colo e me encara, pensativo.

Corro a mão por seu cabelo, tentando não pensar em nada para além desde momento.

— O que os outros pensam de você? — pergunta Samson.

— Que pergunta estranha.

Samson me olha com expectativa, como se a estranheza da pergunta não importasse. Eu rio e olho para a água enquanto penso.

— Não sou uma pessoa passiva, então às vezes posso ser considerada meio escrota. Mas em casa, com a minha mãe, era igual. Quando você é julgado com base na pessoa que te criou, não dá para ser muito neutro. Ou você sucumbe a isso e vira quem os outros pensam que você é, ou luta com todas as forças para não ser.

— Olho para ele. — O que você acha que os outros pensam de você?

— Acho que as pessoas nem sequer pensam a meu respeito.

Balanço a cabeça, discordando.

— Eu penso. E quer saber o que eu acho?

— O que você acha?

— Acho que quero voltar para o mar com você.

Samson escancara um sorriso.

— Não tem vinagre aqui perto.

— Então faça valer a pena, caso eu me queime outra vez.

Samson se levanta de um salto, então me ergue também. Tiro o short, e ele, a camisa. Segura minha mão, e vamos rompendo as ondas e nos afastando da areia. Quando a água está no meu peito, paramos de avançar e ficamos de frente um para o outro, afundando até a água bater no pescoço.

Estreitamos a distância e nos beijamos.

Toda vez que nos beijamos, parece que deixamos mais um pouco de um dentro do outro. Eu queria saber mais sobre relacionamentos, sobre amor, todas as coisas para as quais me considerava boa demais, ou talvez não o bastante. Quero saber como prolongar essa sensação. Quero saber se um cara como Samson poderia se apaixonar por uma garota como eu.

Uma onda arrebenta perto de nós, afastando nossos corpos. A água lambe todo o meu cabelo. Passo a mão no rosto, às gargalhadas, quando Samson volta para perto de mim. Envolve o corpo com minhas pernas, mas mantém as mãos em minha cintura.

Vejo um lampejo de felicidade em seus olhos.

Pela primeira vez.

Já faz quase duas semanas que estou aqui, e é a primeira vez que ele parece totalmente à vontade. É bom saber que ele se sente assim comigo, mas me entristece que não seja algo mais corriqueiro.

— Quais são as coisas que te deixam feliz, Samson?

— Gente rica nunca se satisfaz — devolve ele, na mesma hora.

Que triste não ter nem precisado pensar.

— Então o ditado é verdadeiro? Dinheiro não compra felicidade?

— A pessoa pobre tem desejos a alcançar. Objetivos empolgantes.

Uma casa dos sonhos, talvez, umas férias, ou até um jantar num restaurante na sexta à noite. Quanto mais dinheiro a gente tem, mais difícil é encontrar coisas que nos empolguem. A casa dos sonhos já existe. Podemos ir a qualquer canto do mundo, a qualquer hora que seja. Contratar um chef para preparar qualquer prato. Quem não é rico acha que essas coisas preenchem a gente, só que não preenchem. Podemos lotar a vida de coisas bacanas, mas coisas bacanas não preenchem o vazio na nossa alma.

— E o que preenche o vazio de uma alma?

Os olhos de Samson analisam meu rosto por uns segundos.

— Pedacinhos da alma de outra pessoa.

Ele me ergue um pouco, tirando uma parte de mim de dentro da água. Roça a boca em minha mandíbula, e quando seus lábios encontram os meus eu estou ávida. Faminta.

Mesmo dentro da água, eu o sinto enrijecer. Ainda assim, nós apenas nos beijamos. O beijo se estende por vários minutos. É ao mesmo tempo pouco e mais do que suficiente.

— Beyah — sussurra ele, junto à minha boca. — Por mim eu fico aqui o resto da vida, mas talvez seja melhor a gente voltar antes que escureça.

Faço que sim, mas volto a beijá-lo. Não quero nem saber se vai escurecer. Samson ri, mas logo se cala e retribui o beijo, com ainda mais urgência.

Queria que ele tivesse mais partes acessíveis. Não consigo parar de alisar seu tórax, os ombros, as costas. Termino nos cabelos, enquanto ele escorrega a boca em meu peito. Sinto o calor de sua respiração em minha pele, bem entre os seios. Ele segura minha nuca, e sinto seu toque no laço de meu biquíni.

Ele me encara em silêncio, pedindo permissão. Eu assinto, e ele puxa lentamente o cordão.

A tira de meu biquíni cai, e Samson se inclina para a frente e beija o alto de meus seios. Bem devagar, começa a baixar os lábios e chega ao mamilo.

Solto um arquejo trêmulo. A sensação de sua língua arrepia toda a minha pele. Fecho os olhos e colo o rosto ao alto de sua cabeça, sem querer que ele pare.

Mas ele para, graças ao som de um motor a distância.

No mesmo instante, quando ouvimos o barulho, ele se afasta. Há uma picape na praia, vindo em nossa direção.

Samson ergue a tira do meu biquíni e a amarra de volta em meu pescoço. Solto um gemido, acho que até faço um bico. Retornamos à areia, embora a picape tenha dado meia-volta e retornado antes de se aproximar.

Em silêncio, ajeitamos nossas coisas no carrinho de golfe. O sol começa a se pôr no outro lado da península, lançando um brilho vermelho e roxo no céu. A brisa do oceano aumentou, e olho

Samson por um instante. Ele está contra o vento, de olhos fechados.

Guarda uma calma que se estende até mim.

Os humores dele são contagiosos. Fico feliz por ele demonstrar um ou dois, apenas. Nunca me senti tão estável como desde que comecei a passar tantas horas com ele.

— Você já fechou os olhos e simplesmente escutou o oceano? — pergunta ele, abrindo os olhos e se virando para mim.

— Não.

Ele encara a água outra vez, então torna a fechar os olhos.

— Tenta.

Fecho os olhos também, e exalo o ar. A mão de Samson encontra a minha, e ficamos ali parados, em silêncio, de frente para a água.

Tento escutar o mesmo que ele.

Gaivotas.

Ondas.

Paz.

Esperança.

Não sei quanto tempo ficamos ali, pois acabo me envolvendo na meditação. Não sei se alguma vez fiquei parada, de olhos fechados, e simplesmente abandonei os pensamentos.

Deixo tudo ir. Todos eles.

Em dado momento, é como se o mundo entrasse em completo silêncio.

Sou arrancada desse silêncio ao sentir Samson beijando minha nuca. Abro os olhos e respiro fundo.

Então, tudo termina. Jantar, sessão de amasso e um alívio na tensão. Que encontro!

— Cadê seu cachorro? — pergunta ele, enquanto subimos no carrinho de golfe.

Olho em volta, mas não vejo Queijo Pepper Jack em lugar algum.

Eu o chamo, mas ele não vem. Meu coração acelera um pouco, o que não passa despercebido.

Samson chama por ele.

Começo a me preocupar, pois estamos longe de casa, e se não o encontrarmos pode ser que ele não consiga voltar.

— De repente ele foi para trás das dunas — diz Samson.

Caminhamos em direção aos montes altos de areia. Samson toma minha mão e me ajuda a escalar as dunas. Quando chegamos ao topo e olhamos o outro lado, sinto um alívio imediato ao ver P.J.

— Ai, graças a Deus — digo, descendo pelo outro lado da duna.

— O que ele está fazendo? — pergunta Samson, vindo atrás de mim. P.J. está a uns três metros de distância, escavando a areia com muita fúria.

— Vai que ele achou uns caranguejos.

Ao me aproximar, fico paralisada. Seja lá o que ele encontrou, não é um caranguejo. Parece...

— Samson? O que é isso?

Samson se ajoelha e começa a revelar o que parecem ossos, no formato de uma mão.

Afasto P.J., mas ele luta para se desvencilhar. Samson agora está cavando, afastando a areia, e vai revelando mais e mais do que obviamente é um braço humano.

— Ai, meu Deus — sussurro, cobrindo o rosto com as mãos. P.J. se desvencilha e sai correndo. Dispara para o lado de Samson, mas ele o afasta.

— Senta — ordena ele ao cachorro.

P.J. se senta, mas choraminga.

Eu me ajoelho perto de Samson e observo, enquanto ele continua revelando mais da ossada.

— De repente é melhor não encostar — sugiro.

Samson não diz nada. Só continua cavando, até chegar ao ombro do esqueleto. Ainda há uma camiseta presa ao corpo. Rasgada e desbotada, com uma estampa xadrez vermelha. Samson toca um pedaço, que se desintegra em sua mão.

— Será que é um corpo inteiro?

Samson ainda não me responde. Torna a se sentar, encarando a areia.

— Vou pegar meu celular e chamar a polícia — digo, começando a me levantar, mas Samson segura meu punho. Olho para ele e vejo a súplica em seus olhos.

— Não.

— Oi? — Balanço a cabeça. — A gente tem que informar.

— Não, Beyah. — Nunca vi sua expressão tão resoluta. — Esse é o cara de quem te falei. O Rake. Estou reconhecendo a camisa. —

Ele torna a olhar o que acabou de descobrir. — A polícia vai enterrar ele como indigente.

— Mesmo assim, a gente tem que informar. É um cadáver. Uma pessoa desaparecida.

Ele balança a cabeça outra vez.

— Ele não era uma pessoa desaparecida. Como te disse, ninguém nem deu pela falta dele. — Pela postura de Samson, vejo que ele não vai mudar de ideia. — Ele ia querer estar no oceano. É o único lugar ao qual ele pertence.

Ambos ficamos em silêncio, refletindo.

Seja lá por que razão, não sinto que essa decisão caiba a mim.

Mas também não quero ficar aqui nem mais um segundo.

Samson se levanta e desaparece por detrás da duna. Não tenho qualquer intenção de ficar sozinha com os restos mortais de um ser humano, então vou atrás dele.

Samson caminha rumo à água, então para, a poucos centímetros do mar. Entrelaça os dedos atrás da cabeça. Paro de andar, pois parece que ele precisa de um minuto para processar tudo.

Ele encara a água por um tempo que parece uma eternidade. Dou uns passos atrás, dividida entre fazer o que sei que é certo ou deixar a decisão nas mãos dele. Era ele quem conhecia o sujeito. Não eu.

Depois de um tempo, enfim quebro o silêncio:

— Samson?

Ele não me olha.

— Preciso que você pegue o carrinho de golfe e volte para casa —

diz, num tom firme.

— Sem você?

Ele assente, ainda olhando para o outro lado.

— Mais tarde eu te encontro.

— Não vou te deixar aqui. É muito longe para voltar a pé no escuro.

Ele se vira, e agora parece uma pessoa totalmente diferente de quem era há dez minutos. Suas feições estão rígidas; algo acabou de se partir dentro dele.

Ele se aproxima de mim e segura meu rosto. Tem os olhos vermelhos, como se estivesse à beira de um colapso.

— Por favor. Vai. Preciso fazer isso sozinho.

Sua voz guarda uma dor. Uma dor que não me é familiar.

Uma agonia que eu esperava sentir ao encontrar minha mãe morta. Mas em vez disso me senti dormente, vazia.

Não sei por que ele precisa disso, mas vejo que sua necessidade de que eu deixe tudo a cargo dele é maior que a minha de discutir.

— Tá bom — sussurro, meneando a cabeça.

Pela primeira vez na vida, sinto uma vontade devastadora de abraçar alguém. Mas não abraço. Não quero que nosso primeiro abraço fique atrelado a um momento tão estranho. Subo no carrinho de golfe.

— Leva o P.J. — diz ele.

Espero enquanto ele retorna à duna, para buscá-lo. Samson retorna com P.J. e o acomoda ao meu lado no carrinho de golfe.

Segura o teto do carrinho e diz, num tom impassível:

— Vou ficar bem, Beyah. Mais tarde a gente se vê.

Ele se afasta do carrinho e caminha de volta em direção à duna. Dirijo para casa, deixando Samson numa cena sobre a qual sei que ele jamais me dará explicação, e sobre a qual certamente não voltará a falar.