Até o verão terminar

Colleen Hoover · Capítulo 30 de 37

Páginas do PDF

Até o verão terminar

Vinte e oito

Você acha que ele se importa com você? Ele só se importa com ele mesmo.

É sério isso?

Ele teve mesmo a audácia de dizer que me criou?

Cravo os olhos nele, com a mão na maçaneta da porta.

— Você não criou uma filha, ponto final. Se alguém tem mentindo aqui é você.

Abro a porta e saio do carro. Não há a menor chance de eu ficar presa nesse carro com ele até chegar à península Bolívar.

— Volta para o carro, Beyah.

— Não. Vou pedir a Sara para me buscar.

Eu me sento no meio-fio. Meu pai sai do carro enquanto pego meu celular. Dá um chute nas pedras do chão e aponta para o carro.

— Entra. Eu te levo para casa.

Depois de digitar o número de Sara, enxugo as lágrimas do rosto.

— Não vou entrar no seu carro. Pode ir.

Ele não vai. Sara concorda em vir me buscar, mas meu pai permanece sentado no carro, pacientemente, até ela chegar.

Vinte e oito

A semana foi agonizante, sem notícias de Samson. Nenhuma notícia. Tentei visitá-lo duas vezes, mas ele agora se recusa a me receber.

Não tenho absolutamente nenhuma forma de me comunicar com ele. Só tenho as lembranças do tempo que passamos juntos a que me agarrar, e já estou achando que elas vão começar a esvanecer se eu pelo menos não ouvir a voz dele.

Será que meu papel é mesmo apenas seguir em frente? Esquecê-lo? Ir para a faculdade como se ele não tivesse me forçado a mudar por completo neste verão, a me tornar uma versão melhor de mim mesma?

Parei de falar sobre Samson com as pessoas em casa. Não quero nem que mencionem o nome dele, pois isso só leva a mais discussão. Passei quase a semana toda enfiada no quarto. Ando ocupando meus dias com programas bobos de tevê e visitas à casa de Marjorie. Ela é a única com quem falo a respeito dele. É a única que está do meu lado.

Passei a semana toda alternando as duas camisetas que estavam na mochila de Samson, mas elas já não guardam o cheiro dele.

Agora têm o meu cheiro, e é por isso que estou agarrada à mochila dele, assistindo à maratona de um programa de confeitaria britânico.

Não sei o que fazer com as coisas dele. Duvido que ele esteja ligando para os itens de higiene, e não havia nada de valor na mochila além dos poemas escritos por seu pai. Mas não quero entregá-los a Marjorie para que ela leve para ele, pois sinto que são a última conexão que tenho com Samson.

Talvez um dia esses poemas sejam a única desculpa possível para que ele volte a falar comigo.

Alguma hora terei que seguir em frente. Sei que vou, mas enquanto eu ainda estiver aqui e ele ainda estiver na cadeia, não vou conseguir me dedicar a nada mais.

Ajeito a mochila nos braços, feito uma almofada, mas sinto uma pontada na têmpora. Abro a mochila para ver se deixei passar algum item, mas não vejo nada. Vou remexendo a mão lá dentro, então encontro um zíper que não tinha visto antes.

Na mesma hora, eu me sento e abro o zíper. Encontro um caderninho de capa dura. Deve ter uns dez centímetros de comprimento. Abro o caderninho e vejo vários nomes, endereços e listas que parecem de mercado.

Vou percorrendo várias páginas, incapaz de entender. Então chego a uma página com o nome e o endereço de Marjorie.

Marjorie Naples

Data de estadia: 04-02-15 a 08-02-15.

Comi 15 dólares em comida.

Consertei telhado. Consertei dois pedaços da calha na parte norte da casa destruídos pelo vento.

Depois do nome e endereço de Marjorie há vários outros, mas preciso entender a importância dessas datas. Pego meu celular e ligo para ela.

— Alô?

— Oi, é a Beyah. Uma pergunta, rapidinho. As datas de quatro a oito de fevereiro deste ano têm algum significado para você?

Marjorie reflete um instante.

— Tenho quase certeza de que foram os dias que passei no hospital, depois do infarto. Por quê?

— Só uma coisa que encontrei na mochila do Samson. Mais tarde levo aí, para você entregar ao Kevin.

Eu me despeço dela, finalizo a chamada e começo a espiar tudo o mais que ele escreveu. O endereço mais comum é o da casa ao lado, de David Silver. Há várias datas listadas. A maioria entre março e a semana passada. Sob o nome de David há uma lista de consertos.

Prendi várias ripas soltas no parapeito da sacada do quarto.

Troquei um fusível queimado no quadro de luz. Consertei um vazamento no chuveiro de fora.

A lista é enorme. Exibe uns trabalhos aleatórios que ele fez e quanto recebeu em pagamento, o que explica o fato de às vezes ter dinheiro para sair para jantar e fazer tatuagem. Também há listas de pessoas para quem ele trabalhou e de quem não recebeu pagamento algum.

Todos os dias dos últimos sete meses estão anotados. Cada item de comida que ele pegou da geladeira de alguém sem permissão.

Cada conserto que fez. Ele mantinha registro de tudo.

Mas por quê? Será que ele sentia que consertar essas casas sem cobrar nada compensava o fato de viver nelas sem permissão?

Seria essa a prova necessária para que a justiça entenda que ele não merece todas as acusações que estão sendo imputadas contra ele?

Corro para o andar de baixo e encontro meu pai e Alana no sofá da sala. Sara e Marcos estão aconchegados na poltrona. Estão todos vendo um programa de auditório, mas meu pai silencia o volume quando vê que desci as escadas hoje pela primeira vez.

Entrego o caderno a meu pai.

— Isso aqui é do Samson. — Ele pega o caderno e começa a passar as folhas. — É uma lista detalhada de todos os lugares onde ele já ficou e tudo o que consertou.

Meu pai se levanta, ainda folheando o caderno.

— Pode ser que ajude — prossigo. Pela primeira vez desde que ele foi preso, minha voz se enche de esperança. — Se a gente conseguir provar que ele estava tentando fazer a coisa certa, pode ser que ajude a defesa dele.

Antes mesmo de passar outras páginas, meu pai solta um suspiro.

Fecha o caderno e entrega de volta para mim.

— É uma lista detalhada de tudo o que ele fez de errado. Isso vai prejudicar, não ajudar.

— Você não sabe disso.

— Beyah, ele só está sendo acusado de duas violações de domicílio. Se você levar isso à polícia e mostrar quantas casas mais ele ocupou, isso tudo vai ser somado às acusações, não ajudar a suavizá-las. — Ele se aproxima de mim, com o olhar frustrado. —

Esquece isso, por favor. Você é muito jovem para deixar que um cara que mal conhece consuma a sua vida desse jeito. Ele errou e precisa pagar por isso.

Alana, agora de pé, segura o braço de meu pai, demonstrando apoio a ele.

— O seu pai tem razão, Beyah. Não tem nada que você possa fazer, só seguir em frente.

Sara e Marcos ainda estão sentados na poltrona, me olhando de um jeito que me faz sentir patética.

Todos eles me acham patética.

Ninguém quer saber o que vai acontecer a Samson. Ninguém acredita no que a gente tinha. Pela primeira vez na vida, eu tinha alguém que realmente gostava de mim, e esses quatro me consideram incapaz de saber o que é o verdadeiro amor.

Sei o que é o amor, pois passei a vida inteira sabendo o que não é. — A minha mãe morreu.

Parece que todo o ar do recinto se esvai depois do que digo.

Alana leva a mão à boca.

Meu pai balança a cabeça, incrédulo.

— Oi? Quando?

— Na noite em que te liguei e pedi para vir para cá. Ela teve uma overdose, porque é dependente química desde que eu me entendo por gente. Não tive ninguém para me apoiar. Nem você. Nem a minha mãe. Ninguém. Passei a porra da vida inteira sozinha. O

Samson é a primeira pessoa que veio torcer por mim.

Meu pai se aproxima de mim, com o rosto contorcido por pena e confusão.

— Por que você não me contou essas coisas? — Ele corre a mão pelo rosto. — Meu Deus, Beyah.

Ele tenta me abraçar, mas eu me afasto.

Eu me viro para subir a escada, mas meu pai me chama:

— Espera. A gente tem que falar sobre isso.

Agora que a raiva veio à tona, me sinto sufocada por ela. Preciso tirar tudo isso de mim enquanto é chance. Dou um giro e olho meu pai outra vez.

— Falar sobre o quê? Sobre todas as outras coisas eu escondi de você? Que saber a mentira que eu contei lá no aeroporto? A companhia aérea não perdeu a minha bagagem. Eu nunca tive nada, porque a Janean ficava com cada centavo do dinheiro que você me mandava. Tive que começar a dar para um cara por dinheiro aos quinze anos, para ter o que comer. Então, Brian, vai se foder. Você não é meu pai. Nunca foi e nunca será!

Não espero a reação de ninguém. Subo a escada a passos firmes e bato a porta com força.

Trinta segundos depois, meu pai abre a porta.

— Sai, por favor — digo, totalmente desprovida de emoção.

— A gente precisa conversar.

— Quero ficar sozinha.

— Beyah — diz ele, em tom de súplica, entrando no quarto.

Avanço até a porta, recusando-me a ser afetada por seu olhar.

— Você passou dezenove anos sendo um pai ausente. Não estou no clima para ver você vir pagar de paizão do ano. Por favor, me deixa sozinha.

Tanta coisa passa pelos olhos do meu pai neste momento.

Tristeza. Arrependimento. Empatia. Mas não permito que esses sentimentos afetem os meus. Encaro-o com firmeza, até que ele enfim assente e sai do meu quarto.

Fecho a porta.

Desabo na cama e puxo o caderno de Samson.

Para eles, este caderno pode ser uma lista de todo mundo da península a quem ele fez mal, mas para mim é a prova cabal de que

suas intenções eram boas. Ele tentou fazer a coisa certa usando meios inexistentes.

Folheio o caderno outra vez e leio cada página, tocando as palavras com a ponta do dedo, traçando a caligrafia relaxada. Leio os endereços de todos os lugares por onde ele já passou. Metade do caderno está preenchido. Está meio rasgado e difícil de ler em algumas partes, como se ele escrevesse tudo com pressa e fechasse o caderno antes de ser pego.

Vou até as últimas páginas e paro numa que é diferente do resto.

É diferente porque tem o meu nome, bem no alto.

Trago o caderno ao peito e fecho os olhos. O que está escrito é bem curtinho, mas tem meu nome.

Inspiro e expiro várias vezes, até que meus batimentos retornem ao normal. Então afasto o caderno do peito e leio as palavras.

Beyah,

Meu pai um dia me disse que o amor é como a água.

Pode ser tranquilo. Raivoso. Ameaçador. Apaziguante.

A água pode ser muitas coisas, mas em todas as suas formas sempre será água.

Você é a minha água.

Acho que talvez eu seja a sua, também.

Se você estiver lendo isso, quer dizer que evaporei.

Mas não quer dizer que você deva evaporar, também.

Vá inundar a porra do mundo todo, Beyah.

Essa é a última coisa escrita no caderno. Como se ele temesse ser preso antes de se despedir de mim.