Até o verão terminar
Vinte e dois
Bem devagar, Samson ergue os olhos. Sua expressão não dá qualquer indício de seus pensamentos.
Então ele agarra meu rosto e me beija, tão forte e tão de repente, que desabo contra a porta do banheiro. Acho que ele gostou, então.
Ele abaixa as mãos até minhas coxas, desliza meu corpo pela porta, e eu enrosco as pernas nele, como se nos atássemos em um nó permanente.
Ele me beija com um frescor que eu ainda não havia sentido em nossos beijos. Agora que recebi a resposta, acho que nenhuma outra que ele desse ao ver a tatuagem seria apropriada.
Ele se aproxima de mim de um jeito que me faz gemer, mas assim que faço isso ele afasta a boca da minha, como se o gemido fosse um grande sinal vermelho. Ele baixa a testa junto à minha e diz, tomado de emoção:
— Eu poderia te ter aqui mesmo, se você não merecesse coisa melhor.
E eu deixaria.
Vinte e dois
— Não. A resposta de meu pai é incisiva.
— Por favor!
— Não.
— Eu tenho dezenove anos.
— Ela está tomando pílula — diz Alana.
Eu abaixo o garfo e levo a mão à testa. Não sei por que sequer perguntei a ele se poderia passar a noite com Samson. Eu devia ter simplesmente escapulido à noite e retornado de manhã, antes que ele acordasse. Mas estou tentando não infringir as regras.
Sara terminou de comer antes de a discussão começar, mas parece estar apreciando. Está sentada à mesa, com o joelho junto ao peito, observando a conversa como se estivesse assistindo televisão.
Só falta o saquinho de pipoca.
— A sua mãe deixa você passar a noite com rapazes? — pergunta meu pai.
Solto uma risada apática.
— A minha mãe nem ligava para onde eu passava a noite. Eu quero que você ligue. Mas também ia gostar muito se você confiasse em mim.
Meu pai esfrega o rosto, sem saber o que fazer. Encara Alana, procurando uma resposta.
— Você deixaria a Sara dormir com o Marcos?
— A Sara e o Marcos dormem juntos quase todo dia — devolve Alana.
Olho para Sara, que na mesma hora se empertiga na cadeira.
— Dormimos nada.
Alana vira a cabeça.
— Eu não sou burra, Sara.
O rosto de Sara é tomado por uma completa surpresa.
— Ah. Achei que fosse.
Eu rio da resposta, mas ninguém mais ri.
Com essa notícia, meu pai parece ainda mais dilacerado.
— Escuta, pai — digo, com a maior gentileza possível. — Na verdade eu não estava te pedindo permissão. Eu estava mais ou menos te informando, por educação, que vou passar a noite na casa do Samson, porque estou na sua casa e quero tentar ser respeitosa.
E seria muito mais fácil se você simplesmente dissesse que tudo bem.
Meu pai solta um grunhido e se recosta outra vez na cadeira.
— Que bom que larguei um soco naquele garoto quando tive a chance — resmunga ele. Então acena para a porta da frente. — Pois bem. Que seja. Só... não transforme isso em hábito. E esteja em casa antes de eu acordar, para que eu possa fingir que esta noite nunca aconteceu.
— Valeu — respondo, afastando-me da mesa. Mais que depressa, Sara sai da cozinha atrás de mim e sobe correndo as escadas.
Quando chegamos ao meu quarto, ela desaba na cama.
— Não acredito que a minha mãe sabe que o Marcos dorme aqui às vezes. Achei que a fôssemos tão discretos.
— Vocês podem até ser discretos, mas silenciosos não são.
Ela ri.
— O Marcos não pode descobrir. Ele curte o jeitão de coisa proibida.
Mando uma mensagem para Samson avisando que a noite está confirmada, então abro o armário e fico encarando as roupas.
— O que eu visto?
— Acho que não importa muito. O objetivo é acabar nua, não é? Sinto minha pele começar a arder de tanto nervoso. Já transei várias vezes, mas nunca numa cama. Nunca totalmente nua. E, óbvio, nunca com alguém de quem gostasse.
Samson responde minha mensagem com um emoji de fogos de artifício. Reviro os olhos e guardo o celular no bolso.
— Vocês dois ainda não transaram? — pergunta Sara.
Resolvo não trocar de roupa. Apenas jogo na mochila uma camiseta e uma calcinha limpa.
— Ainda não.
— Por que não?
— Ainda não tivemos oportunidade. Estamos sempre com você e o Marcos. E, quando ficamos sozinhos... a gente acaba fazendo outras coisas. Não isso.
— Eu e o Marcos transamos o tempo todo. A gente transou até enquanto vocês faziam as tatuagens, na semana passada.
Olho para ela e estremeço.
— No banco traseiro do carro?
— Sim. Duas vezes.
Que nojo. Eu e o Samson voltamos para casa naquele banco.
— Você vai me dar todos os detalhes amanhã? Ou vou ganhar outro joinha mixuruca?
Sara tem sido paciente comigo, tendo em vista o pouco que compartilho em relação a certos aspectos de minha vida e o quanto sou direta em relação a outros.
— Vou te contar tudo — digo, logo antes de sair do quarto. —
Prometo.
— Quero todos os detalhes! Anota, se for preciso!
Por sorte, meu pai e Alana não estão mais na cozinha, então escapulo sem maiores debates quanto ao fato de que vou fazer sexo com meu vizinho hoje à noite. Definitivamente não estou acostumada a ter uma família que discute tudo às claras, como eles fazem.
Samson está me aguardando no térreo.
— Está tão animado assim? — provoco.
Ele me beija e pega minha mochila.
— Desesperado.
Começamos a caminhar para a casa de Samson. P.J. vem atrás, mas Samson não tem caminha de cachorro.
— P.J., volta para casa.
Aponto para a escada. P.J. para. Repito a ordem, e ele enfim se vira e torna a subir a escada.
Samson entrelaça a mão na minha e entra em casa comigo.
Tranca a porta da frente, ativa o alarme e tira os sapatos.
Olho em volta, pensando onde é que tudo vai acontecer. Como vai acontecer. Parece meio estranho saber o que está por vir. Quando o assunto é sexo, prefiro espontaneidade a planejamento. Dakota me tratava como se eu fizesse parte de uma rígida escala rotativa.
— Está com sede? — pergunta Samson.
Balanço a cabeça.
— Estou de boa.
Ele joga minha mochila junto à parede, perto da dele. Pega minha mão e vira o punho, para ver a tatuagem. Já faz uma semana que fizemos, e ambas cicatrizaram muito bem. Fiquei com certa vontade de fazer outra, mas sinto que é melhor esperar a motivação apropriada. Essa com Samson me pareceu importante. Vou aguardar outro momento de vida importante para me tatuar outra vez.
— Ficou muito boa mesmo — diz ele, correndo os dedos por minha pele.
— Você nunca chegou a dizer se gostou da sua.
— Eu te disse que amei na hora em que vi. Só não foi com palavras.
Ele entrelaça os dedos nos meus e me conduz por um lance de escadas. Abre a porta de seu quarto e me deixa entrar.
As portas da sacada estão abertas. Uma brisa sopra, fazendo drapejar a cortina fina do quarto. A cama está arrumada à perfeição, e eu ainda não consigo entender como é que ele deixa tudo tão limpo. Samson acende uma luminária junto à cama.
— Que lindo — digo, aproximando-me da sacada. Saio pela porta e olho meu próprio quarto. Acabei esquecendo a luz acesa, então vejo minha cama claramente. — Você consegue ver o meu quarto todinho.
Samson agora está de pé ao meu lado.
— Pois é, eu sei. Você não deixa aquela luz acesa tanto quanto deveria.
Olho seu sorriso escancarado. Empurro de leve o ombro dele e retorno ao quarto. Vou até a cama e me sento na beirada do colchão.
Tiro os sapatos, me deito e fico olhando para Samson. Ele contorna a cama bem devagar, encarando-me de todos os ângulos.
— Parece que estou sendo rodeada feito uma presa — digo.
— Bom, não quero ser o tubarão neste cenário. — Samson se joga na cama, a meu lado, e apoia a cabeça na mão. — Pronto. Agora sou um plâncton.
— Melhor assim — respondo, sorrindo.
Ele afasta uma mecha de cabelo do meu rosto, com o semblante pensativo.
— Está nervosa?
— Não. Eu me sinto à vontade com você.
Minha frase leva um toque de preocupação a seu rosto — quase como se ele não se sentisse à vontade por eu me sentir à vontade com ele. No mesmo instante em que apareceu, o olhar desaparece.
— Eu vi esse pensamento — digo, baixinho.
— Quer pensamento?
— O pensamento negativo que você acabou de ter. — Levo o dedo ao ponto entre suas sobrancelhas. — Estava bem aqui.
Em silêncio, ele digere minhas palavras.
— Para alguém que não sabe muito a meu respeito, você com certeza sabe muito a meu respeito.
— Na verdade, as coisas que você não quer me contar nem são as mais importantes.
— Como é que você tem certeza, se não sabe quais segredos estou guardando?
— Não preciso saber nada sobre o seu passado para ter certeza de que você é uma pessoa boa. Dá para ver pelas suas atitudes. Dá para ver pelo jeito como você me trata. Que importância tem a sua família, o dinheiro que você tem e as pessoas que vieram antes de mim? — O pensamento negativo retorna, e eu aliso as ruguinhas em sua testa. — Para... você pega muito pesado consigo mesmo.
Samson se recosta na cama e apoia as mãos sobre o peito.
Encara o teto. Eu me aproximo dele e apoio minha cabeça na mão.
Toco seu colar e vou subindo os dedos até o pescoço, depois aos lábios.
Ele inclina a cabeça junto à minha.
— Será que é melhor a gente não fazer nada? — diz ele. As palavras saem mais como uma pergunta, e no mesmo instante eu balanço a cabeça.
— Eu quero.
— Não é justo com você.
— Por quê? Porque não sei de tudo a seu respeito?
Ele assente.
— Acho que você não ia querer se soubesse toda a verdade.
Pressiono os lábios nos dele, só um pouquinho.
— Você está sendo dramático.
— Não estou coisa nenhuma. Só que eu vivi uma vida dramática, e pode ser que você não goste.
— Eu também. Nós dois somos dramáticos porque temos pais dramáticos e um passado dramático. E poderíamos estar fazendo um sexo dramático agora, se você não se culpasse tanto.
Ele sorri. Eu me sento e tiro a camiseta. A preocupação se esvai de seus olhos. Ele me puxa para perto, e eu monto por cima dele.
Ele já está pronto, mas ergue a mão e corre o dedo lento pelo bordado do meu sutiã, sem a menor pressa.
— Eu só transei na picape do Dakota — digo. — Vai ser a minha primeira vez numa cama.
Samson corre o dedo por minha barriga e para no botão do short.
— Vai ser a minha primeira vez com uma garota por quem sinto alguma coisa.
Tento manter a compostura ao ouvir isso, mas as palavras me invadem com tanta força que franzo o cenho.
Ele toca minha boca e desliza os dedos por meus lábios.
— Por que o que falei te deixou triste?
Cogito balançar a cabeça para evitar a pergunta, mas se tem uma coisa que aprendi neste verão é que os segredos de fato não são tão valiosos quanto eu costumava imaginar. Então opto pela honestidade.
— Quando você diz esse tipo de coisa, fico com medo da nossa despedida. Não estava esperando terminar o verão com o coração
despedaçado.
Samson inclina a cabeça e me olha, com o mais completo carinho.
— Não se preocupe. Coração não tem osso. Não despedaça de verdade.
Samson me vira de costas e tira a camisa, o que basta para me acalmar por dois segundos, mas logo meus pensamentos retornam ao ponto onde estavam antes de ele se despir.
Ele se abaixa para me beijar, mas antes eu me pronuncio:
— Se um coração não pode se despedaçar, por que é que o meu parece que vai se partir inteirinho, quando chegar a hora de eu me mudar mês que vem? Você não sente isso no seu coração?
Os olhos de Samson perscrutam meu rosto por um instante.
— Sinto. Sinto, sim. Vai ver nasceram uns ossos no nosso coração.
Assim que ele diz isso, seguro sua nuca e o trago até minha boca.
Quero sorver ao máximo possível essas palavras, aprisionar todas dentro de mim. A frase fica pairando no ar, como se as palavras flutuassem à nossa volta e me penetrassem durante o beijo.
Pode ser que ele esteja certo. De repente nós, de fato, temos ossos no coração. Mas... e se a única forma de confirmar isso for sentindo a agonia causada pela fratura?
Tento não pensar em nosso adeus iminente, mas é difícil vivenciar algo tão perfeito sem recordar a vívida certeza de que acabará em breve.
Samson se ajoelha. Remexe o botão do meu short até abri-lo.
Com os olhos fixos aos meus, vai baixando o zíper e começa a puxar meu short. Eu ergo o quadril, depois as pernas, para ajudá-lo a se livrar de minha roupa. Ele joga o short longe e contempla a visão por um instante. Gosto de me ver através de suas expressões. Ele faz eu me sentir mais bonita do que provavelmente sou.
Ele puxa a coberta por sobre nós, então se deita a meu lado e tira o próprio short. Não me sinto nada desconfortável, então não hesito ao remover meu sutiã e a calcinha. Ele próprio demonstra conforto, como se já tivéssemos feito isso dezenas de vezes, mas em mim se avulta a expectativa de quem experimenta essa sensação pela primeira vez.
Completamente nus sob as cobertas, nós nos olhamos, deitados de lado. Samson leva a mão delicada à minha boca e a deixa ali.
— Você ainda parece triste.
— Estou.
Ele corre a mão por meu pescoço e ombro. Seu olhar acompanha a mão, então não está olhando diretamente para mim.
— Eu também.
— Então por que a gente tem que se despedir? Eu posso ir para a faculdade, você, para a Academia da Força Aérea, mas a gente mantém contato, se vê...
— Não dá, Beyah. — Ele volta a me encarar nos olhos, mas logo desvia o olhar a outro ponto. — Não vou para a Força Aérea. Isso nunca esteve nos meus planos.
Por suas palavras e a expressão em seu rosto, meu coração já começa a fraturar. Desejo perguntar o que ele está querendo dizer, mas tenho muito medo de saber a verdade, então não chego a formular a pergunta.
Samson dá um suspiro pesado e se inclina para perto de mim.
Segura meu braço com mais força e pressiona os lábios em meu ombro. Ao sentir sua respiração, fecho os olhos com força. Quero tanta coisa dele agora. Quero sua honestidade, mas também seu silêncio, o toque, o beijo. Algo me diz que não posso ter tudo. Ou vivo este momento, ou encaro a verdade.
Ele acomoda o rosto na dobra de meu pescoço.
— Por favor, não pergunte o que estou querendo dizer, pois se você perguntar eu vou acabar sendo honesto. Não posso mais mentir para você. Mas quero viver esta noite mais do que já quis qualquer coisa na vida.
Essas palavras me invadem como uma onda, arrebentando em mim com tanta força, que eu estremeço. Acaricio os cabelos de Samson, inclino a cabeça, e nós nos encaramos.
— Você vai ser honesto comigo amanhã, quando a gente acordar?
Ele faz que sim. Não responde em voz alta, mas eu acredito.
Acredito porque ele parece ter medo de me perder. E pode ser que perca. Mas hoje à noite ele me tem, e isso é tudo o que importa.
Eu o beijo, para que ele saiba que a verdade pode esperar até amanhã. Neste momento, só quero sentir o que sempre mereci
durante o sexo — que meu corpo é respeitado e meu toque vale mais que qualquer dinheiro.
Samson se afasta, apenas para pegar uma camisinha na mesinha de cabeceira. Sob as cobertas, ele a ajeita, depois vira o corpo sobre o meu. E me beija, paciente, à espera do momento exato de estar dentro de mim.
Quando enfim chega a hora, ele me olha de frente, observando minha expressão. Solto um arquejo, prendendo todo o ar até que estejamos o mais conectados possível. Ele solta um suspiro trêmulo.
Vai saindo de mim no mesmo ritmo lento com que entrou, e pousa a boca junto à minha.
Dou um gemido quando ele entra de novo, impressionada com a sensação de novidade trazida por Samson. Não há um milímetro de mim que não queira estar aqui neste momento, e isso faz toda a diferença do mundo.
Samson apoia a cabeça na minha.
— Tudo bem?
Balanço a cabeça.
— Está muito melhor do que bem.
Sinto a risada dele em meu pescoço outra vez.
— Concordo — diz ele, num tom contido, como se quisesse pegar leve por medo de me quebrar.
Colo a boca em seu ouvido e acaricio seus cabelos.
— Não precisa ser delicado comigo.
Enrosco as pernas nele e beijo seu pescoço, até sentir sua pele se encrespar em arrepios sob minha língua.
Minhas palavras o fazem gemer, e é como se ele subitamente ganhasse vida. Sua boca encontra a minha. Ele me beija com avidez e me toca com mãos vorazes.
A cada minuto, a coisa fica melhor. Encontramos nosso ritmo corporal, o compasso perfeito dos beijos, a cadência dos gemidos. É
um sexo que jamais experimentei.
Estamos fazendo amor.
Seja lá que verdades o amanhã traga, já sei que nada vai mudar o que sinto por ele, mesmo que ele acredite que sim. Não sei ao certo se ele entende o quanto isso significa para mim. Não sinto qualquer ameaça em saber que enfim descobrirei toda a verdade sobre ele. Samson me faz pensar se há diferença entre um mentiroso e alguém que mente para proteger outra pessoa da verdade.