Até o verão terminar
Quatorze
Jogo o resto de café na pia e lavo a caneca. Quando me viro e olho meu pai, ele parece triste. Confuso. Abre a boca como se fosse dizer algo, mas então fecha e balança a cabeça.
Sei que é muita coisa para processar. Nós não conversamos sobre a minha mãe. Essa deve ser a primeira vez que falo algo negativo em relação a ela. Além disso, por mais que eu fosse amar contar a ele que espécie de mãe ela nunca foi, são seis e meia da manhã, e não tenho condições de ter essa conversa agora.
— Vou voltar para a cama — digo, rumando para a escada.
— Beyah, espera.
Eu paro no segundo degrau e me viro lentamente. Ele está de pé, com as mãos na cintura, me encarando atentamente.
— Estou orgulhoso de você.
Assinto, mas assim que me viro e começo a subir a escada, sinto a bola de raiva crescer dentro de mim.
Não quero que ele sinta orgulho de mim.
Foi exatamente por isso que não falei nada.
Por mais que ele pareça se esforçar comigo agora, não consigo evitar um profundo ressentimento por ter passado a maior parte da vida sem ele.
Não vou permitir que suas palavras me alegrem, nem vou permitir que elas sejam uma desculpa para seu péssimo desempenho como pai. Óbvio que você está orgulhoso de mim, Brian. Agora, sinta orgulho de mim apenas porque eu milagrosamente sobrevivi à infância sozinha.
Quatorze Por mais que tenha me esforçado, não consegui voltar a dormir hoje de manhã depois que Samson foi embora. Acho que a conversa com meu pai me deixou agitada.
Sara abriu espreguiçadeiras e um guarda-sol na praia depois do almoço, e eu com certeza caí no sono na espreguiçadeira em algum momento, pois acabo de acordar. Com saliva no braço.
Estou de barriga para baixo, e quando abro os olhos vejo que meu rosto está virado para o lado oposto à espreguiçadeira de Sara.
Limpo o braço e ergo o corpo, para me virar de costas.
Quando me situo, olho para Sara, mas não é Sara que eu vejo.
É Samson.
Ele está dormindo na espreguiçadeira dela.
Eu me sento e olho para a água. Sara e Marcos estão bem ao longe no mar, sentados sobre pranchas de stand-up paddle.
Pego meu celular e olho a hora. São quatro da tarde. Dormi uma hora e meia.
Eu me recosto e olho Samson, adormecido. Ele está de barriga para baixo, com a cabeça apoiada nos braços. Tem um boné de
beisebol na cabeça, virado para trás, e está de óculos escuros. Sem camisa, o que não é nada mal.
Eu me viro de lado, apoio a cabeça no ombro e fico um tempo olhando para ele. Sei muito pouco sobre as partes que compõem seu todo, mas sinto que já conheço o tipo de pessoa que se formou com a soma dessas partes.
Talvez não seja preciso conhecer a história de alguém para saber quem ela é hoje. E a pessoa que estou percebendo que ele é por dentro torna seu exterior ainda mais atraente. A ponto de me fazer pensar nele quase todos os segundos do meu dia.
Quando dou por mim, estou olhando sua boca. Não sei por que surtei durante aquele beijo, ontem à noite. Talvez ainda esteja tentando entender a realidade da última semana que vivi.
Foi muita coisa ao mesmo tempo, e tudo pareceu se avultar sobre mim, aos berros, durante o beijo de ontem. Fico pensando... se ele me beijasse hoje à noite outra vez, será que eu reagiria da mesma forma? Ou me permitiria de fato dar um passo além e aproveitar o beijo por inteiro, como aproveitei nos primeiros segundos?
Encaro os lábios dele, convencendo a mim mesma de que vale a pena uma segunda tentativa. E uma terceira, e talvez uma quarta. Se nos beijarmos o bastante, talvez até chegue ao ponto da perfeição.
— Você está ligada de que estou com os olhos abertos, né?
Merda.
Achei que ele estivesse dormindo. Cubro o rosto com as mãos.
Não há como esconder minha vergonha.
— Não esquenta — diz ele, com a voz rouca, arranhada na garganta. — Eu te olhei o tempo todo em que você estava dormindo.
Ele estende a mão e toca meu cotovelo. — Como você arrumou essa cicatriz?
Eu me viro de lado e torno a olhar para ele.
— Num jogo de vôlei.
A espreguiçadeira dele está a uns trinta centímetros da minha, mas parece um quilômetro quando ele afasta a mão do meu braço.
— O seu time era bom mesmo?
— Fomos bicampeãs estaduais — respondo. — Você jogava algum esporte na escola?
— Não. Não frequentei uma escola típica.
— Que tipo de escola você frequentou?
Samson balança a cabeça, indicando que não vai responder.
Reviro os olhos.
— Por que é que você faz isso? Por que me faz perguntas, depois eu pergunto a mesma coisa e você se recusa a responder?
— Já te contei mais coisas do que a qualquer outra pessoa. Na vida — diz ele. — Não seja gananciosa.
— Então para de me fazer perguntas que você mesmo não está disposto a responder.
Ele sorri.
— Para de responder as minhas.
— Você acha que me contar em que escola estudou é mais íntimo que enfiar a língua na minha boca? Ou ficar sabendo sobre o Dakota? Ou me contar sobre a sua mãe? — Ajeito os braços atrás da cabeça e fecho os olhos. — A sua lógica é meio burra, Samson.
Não faz mesmo o menor sentido tentar conversar, se ele só fica rodopiando pelos assuntos feito uma bailarina.
— Estudei num internato em Nova York — diz ele, enfim. — E odiei cada segundo.
Dou um sorriso, sentindo que de alguma forma venci essa batalha, mas por dentro me entristeço um pouco com a resposta. Internato não parece divertido. Não me admira ele não querer falar a respeito.
— Valeu.
— Não há de quê.
Viro a cabeça e olho para Samson. Ele tirou os óculos escuros, e o reflexo do sol deixa seus olhos quase translúcidos. Alguém com olhos tão transparentes assim não devia ser fechado desse jeito.
Nós nos encaramos, como sempre, mas desta vez é diferente.
Agora conhecemos o gosto um do outro. Ele já sabe o meu segredo mais sombrio, e mesmo assim me olha como se eu fosse a coisa mais interessante desta península.
Ele baixa os olhos e encara o espaço entre nossas cadeiras.
Arrasta um dedo na areia.
— Como é que se soletra o seu nome?
— B-e-y-a-h.
Eu o vejo escrever meu nome na areia. Quando termina, arrasta o dedo e faz um traço no meio, então corre a mão inteira até que meu
nome desapareça.
Não sei como é possível sentir isso sob a pele, mas sinto.
Samson olha para a água.
— A Sara e o Marcos estão voltando. — Ele põe os óculos escuros e se levanta com vigor.
Mantenho as mãos atrás da cabeça, fingindo estar relaxada, apesar de sentir que acabei de ser eletrocutada. Samson caminha até Sara, que está lutando com a prancha. Ele toma a frente e arrasta a prancha para fora d’água para ela.
Ao se aproximar, Sara puxa o rabo de cavalo e se acomoda na espreguiçadeira de onde Samson acabou de sair. Torce o cabelo para tirar a água.
— A sonequinha foi boa? — pergunta ela.
— A-hã. Não acredito que peguei no sono.
— Você ronca — diz ela, rindo. — Perguntou ao Samson se ele quer sair de casal hoje à noite?
— Não. O assunto não surgiu.
Marcos e Samson se aproximam, trazendo as pranchas.
— Samson, a gente vai sair de casal hoje — diz Sara. — Esteja pronto às seis.
— Quem é o meu par? — devolve Samson, de bate-pronto.
— A Beyah, imbecil.
Samson me olha, como se refletisse.
— É tipo um encontro de amigos?
— Só vamos comer alguma coisa — diz Marcos. — Não deixa a Sara ficar rotulando.
— Vamos comer frutos do mar? — pergunta Samson.
— E você ia deixar que a gente comesse outra coisa, por acaso?
Samson olha para mim.
— Beyah, você gosta de camarão?
— Sei lá. Acho que nunca comi.
Samson inclina a cabeça.
— Não sei dizer se você está sendo sarcástica.
— Eu sou do Kentucky. Lá não tem muitos restaurantes de frutos do mar baratos.
— Você nunca foi nem ao Red Lobster? — pergunta Marcos.
— Vocês esquecem que para muita gente o Red Lobster é um restaurante chique.
— Então eu que vou escolher o seu prato — diz Samson.
— Eita, que mandão — provoco.
Sara veste a saída de praia e se levanta.
— Vem, vamos nos arrumar.
— Mas já? A gente só deve sair tipo daqui a duas horas.
— Sim, mas vamos ter muita coisa para fazer com você.
— Tipo o quê?
— Vou fazer uma transformação em você.
Nego com a cabeça.
— Não. Não, por favor.
Ela assente.
— Sim. Vou fazer cabelo, unha, maquiagem. — Ela me puxa pela mão e me ergue da cadeira. Aponta para o que trouxemos para a praia mais cedo. — Os homens fortes que cuidem de todas as coisas, tá bom?