Até o verão terminar
Dedicatória
Kelly Garcia, este livro é para você, seu marido e sua eterna felicidade.
Sumário
Um
Dois
Três
Quatro
Cinco
Seis
Sete
Oito
Nove
Dez
Onze
Doze
Treze
Quatorze
Quinze
Dezesseis
Dezessete
Dezoito
Dezenove
Vinte
Vinte e um
Vinte e dois
Vinte e três
Vinte e quatro
Vinte e cinco
Vinte e seis
Vinte e sete
Vinte e oito
Vinte e nove
Trinta
Trinta e um
Trinta e dois
Agradecimentos
Um
VERÃO DE 2015
Na parede da nossa sala de estar há um quadro da Madre Teresa pendurado onde ficaria uma televisão, se tivéssemos dinheiro para comprar uma de pendurar na parede, ou mesmo uma casa com paredes que comportassem uma televisão.
As paredes de um trailer não são feitas do mesmo material de uma casa normal. Em um trailer, basta um arranhão e elas se esfarelam nos dedos feito giz.
Certa vez, perguntei à minha mãe, Janean, por que ela tinha um quadro da Madre Teresa na parede da sala.
— Aquela vagabunda era uma farsante — respondeu ela.
Palavras dela. Não minhas.
Quando se é uma pessoa horrível, imagino que buscar o que há de horrível nos outros seja uma espécie de tática de sobrevivência.
Levar o foco à obscuridade alheia, na esperança de mascarar a própria obscuridade. Foi assim que a minha mãe viveu a vida inteira.
Sempre buscando o pior em todo mundo. Até na própria filha.
Até na Madre Teresa.
Janean está deitada no sofá, na mesma posição em que estava há oito horas, quando saí para meu turno de trabalho no McDonald’s.
Encara o quadro da Madre Teresa, mas na verdade não está olhando para ele. É como se os olhos dela tivessem parado de enxergar.
Parado de absorver.
Janean é dependente química. Percebi esse fato lá pelos nove anos, mas naquela época os vícios se limitavam a homens, álcool e apostas.
Ao longo dos anos, os vícios foram ficando mais evidentes e muito mais letais. Acho que faz uns cinco anos, eu tinha cerca de quatorze, que a flagrei injetando metanfetamina pela primeira vez. Quando uma pessoa começa a usar metanfetamina com regularidade, sua expectativa de vida é drasticamente reduzida. Já pesquisei no Google, na biblioteca da escola. Quanto tempo vive um viciado em metanfetamina?
De seis a sete anos, segundo a internet.
Já vi minha mãe inconsciente várias vezes durante esses anos todos, mas agora parece diferente. Parece definitivo.
— Janean?
Minha voz soa uma calma que sem dúvida eu não deveria sentir neste momento. Sinto que minha voz deveria estar trêmula, ou indisponível. Eu me envergonho um pouco de minha falta de reação.
Largo a bolsa no chão e a encaro intensamente, no outro lado da sala. Está chovendo lá fora e ainda nem fechei a porta, de modo que estou ficando ensopada. Mas fechar a porta e proteger as costas da chuva é a menor das minhas preocupações neste momento, enquanto observo Janean encarando a Madre Teresa.
Um dos braços de Janean está apoiado na barriga, e o outro está largado sobre a lateral do sofá, com os dedos tocando bem de leve o carpete surrado. Ela está um pouco inchada, o que a faz parecer mais jovem. Não mais jovem que sua idade — ela só tem 39 —, porém mais jovem do que o vício a faz aparentar. As bochechas estão um pouquinho menos encovadas, e os vincos que nos últimos anos surgiram em torno de sua boca parecem suavizados por uma aplicação de Botox.
— Janean?
Nada.
A boca está entreaberta, revelando os dentes lascados, podres e amarelos. Parece que a vida se esvaiu de seu corpo bem no meio de uma frase.
Eu já havia imaginado este momento antes. Quando a gente odeia muito alguém, às vezes, é impossível não passar a noite em claro, na cama, pensando em como a vida seria se essa pessoa estivesse morta.
Eu imaginava uma cena diferente, algo muito mais dramático.
Encaro Janean por mais um instante, esperando para ver se ela não está apenas em algum transe. Dou uns passos à frente e paro ao ver seu braço. Bem na curva interna do cotovelo há uma agulha pendurada na pele.
Assim que vejo isso, a realidade do momento me domina, feito uma membrana pegajosa, e me enche de náusea. Dou meia-volta e saio correndo da casa. Sinto que vou vomitar, então me apoio no corrimão apodrecido, tentando não forçar demais para que ele não entorte sob o meu peso.
Assim que vomito, sou tomada de alívio, pois já estava começando a me preocupar com minha falta de reação a este momento divisor de águas. Posso não estar histérica, como uma filha deveria, mas pelo menos sinto alguma coisa.
Limpo a boca na manga do uniforme do McDonald’s. Sento-me na escada, apesar da chuva que ainda desaba do céu escuro e impiedoso.
Meu cabelo e minhas roupas estão ensopados. Meu rosto também, mas nada do que escorre por minhas bochechas são lágrimas.
É só chuva.
Olhos molhados, coração seco.
Fecho os olhos e cubro o rosto com as mãos, tentando entender se essa indiferença é fruto de minha criação, ou se nasci com defeito. Fico pensando qual criação é pior para um ser humano. O tipo em que a pessoa é amada e protegida a ponto de só perceber a crueldade do mundo quando é tarde demais para que desenvolva as habilidades necessárias ao enfrentamento, ou o tipo de criação que
eu tive. A pior versão de uma família, cujo único aprendizado é o enfrentamento.
Antes de chegar à idade de poder trabalhar e comprar minha própria comida, passei muitas noites acordada, incapaz de dormir, com o estômago roncando de tanta fome. Certa vez, Janean disse que os roncos que saíam de meu estômago eram os rosnados de um gato esfomeado que morava lá dentro, e o gato continuaria rosnando se eu não o alimentasse. Depois disso, toda vez que eu sentia fome, imaginava aquele gato dentro da minha barriga, procurando uma comida que não estava lá. Meu medo era que ele devorasse minhas entranhas se não fosse alimentado, então às vezes eu comia coisas que não eram comida, só para satisfazer o gato faminto.
Uma vez ela me deixou sozinha por tanto tempo, que catei cascas de banana e de ovo no lixo e comi. Já tentei até comer o enchimento da almofada do sofá, mas era muito ruim de engolir. Passei a maior parte da infância morrendo de medo de estar sendo devorada por dentro, pouco a pouco, por aquele gato esfomeado.
Que eu saiba, ela nunca chegou a se ausentar por mais de um dia, mas para uma criança sozinha o tempo parece muito maior.
Lembro que ela entrava cambaleando pela porta, desabava no sofá e ficava horas lá deitada. Eu adormecia encolhidinha na outra ponta, tamanho era o medo de deixá-la sozinha.
Daí, na manhã seguinte, eu sempre acordava e encontrava minha mãe na cozinha, preparando o café. Nem sempre era um café da manhã tradicional. Às vezes era ervilha, às vezes ovo, às vezes uma lata de sopa de galinha com macarrão.
Lá pelos seis anos de idade, comecei a prestar atenção à forma como ela operava o fogão naquelas manhãs, pois percebi que eu precisaria me virar sozinha da próxima vez que ela desaparecesse.
Imagino quantas crianças de seis anos precisam aprender a mexer num fogão por medo de ser devoradas vivas pelo gato faminto que habita seu estômago.
É questão de sorte, eu acho. A maioria das crianças tem um pai e uma mãe que farão falta depois de morrer. O resto de nós têm um pai e uma mãe que serão melhores depois de mortos.
A melhor coisa que minha mãe fez por mim foi morrer.
•
Buzz mandou que eu esperasse na viatura de polícia, para sair da chuva e da casa, enquanto o corpo era recolhido. Assisti, paralisada, à remoção do corpo da minha mãe numa maca, coberto por um lençol branco. Ela foi enfiada nos fundos de um camburão. Nem se deram ao trabalho de colocá-la numa ambulância. Não havia motivo.
Quase todo mundo desta cidade que morre com menos de cinquenta anos morre por conta do vício.
Que tipo de vício não importa; no fim das contas, todos levam à morte.
Colo o rosto na janela da viatura e tento olhar o céu. Hoje não há estrelas. Não consigo nem ver a lua. Vez ou outra um relâmpago estoura, revelando uma massa de nuvens escuras.
Bem apropriado.
Buzz abre a porta traseira e se debruça. A chuva agora já quase parou, então o rosto dele está molhado, mas parece suor.
— Precisa de carona até algum lugar? — pergunta ele.
Faço que não.
— Precisa ligar para alguém? Pode usar o meu celular.
Faço que não outra vez.
— Está tudo bem — digo. — Posso voltar lá para dentro agora?
Não sei se quero mesmo voltar para o trailer onde minha mãe deu seu último suspiro, mas no momento não vejo alternativa mais atraente.
Buzz se afasta um pouco e abre um guarda-chuva, muito embora a chuva tenha estiado e eu já esteja ensopada. Ele vai andando atrás de mim, protegendo minha cabeça enquanto caminho em direção a casa.
Não conheço Buzz muito bem. Conheço o filho dele, Dakota.
Conheço Dakota de muitas formas — todas bastante indesejáveis.
Fico pensando se Buzz conhece o filho que criou. Buzz parece ser um cara decente. Nunca ligou muito para mim, nem para a minha mãe. Às vezes, durante as rondas, ele parava a viatura perto do nosso trailer. Sempre perguntava como é que eu estava, e tenho a sensação de que uma parte dele esperava que eu implorasse para ser resgatada dali. Mas eu não dizia nada. Gente como eu tem um
talento incrível para fingir que está tudo bem. Eu sempre sorria e respondia que estava ótima, então ele soltava um suspiro, como se aliviado por eu não lhe dar uma razão para chamar o Conselho Tutelar.
Quando retorno à sala de casa, é inevitável não encarar o sofá.
Parece diferente agora. Como se alguém tivesse morrido ali.
— Você vai passar bem a noite? — pergunta Buzz.
Ao me virar, eu o vejo parado diante da porta com o guarda-chuva sobre a cabeça. Ele me olha, como se tentasse expressar simpatia, mas deve mesmo estar pensando em toda a papelada que essa situação vai ocasionar.
— Estou bem.
— Amanhã você pode ir até a funerária, para organizar tudo.
Falaram que qualquer hora depois das dez está ótimo.
Meneio a cabeça, mas ele não vai embora. Hesitante e incerto, ele fica mais um pouco se balançando para lá e para cá. Fecha o guarda-chuva do lado de fora da porta, como se fosse supersticioso, e dá um passo para dentro.
— Sabe — diz ele, franzindo o cenho com força e enrugando toda a testa e uma parte da careca. — Se você não aparecer na funerária, vão enterrá-la como indigente. Você não vai ter direito a velar o corpo, mas pelo menos ninguém vai te forçar a pagar nenhuma conta.
Ele parece envergonhado por ter feito essa sugestão. Ergue os olhos ao quadro da Madre Teresa, então encara os próprios pés, como se a Madre o tivesse repreendido.
— Valeu — respondo. De todo modo, duvido que alguém fosse aparecer se eu organizasse um velório.
É triste, mas é verdade. Minha mãe era solitária, para dizer o mínimo. Ela se reunia com a turminha de sempre no bar que frequentou por quase vinte anos, mas ninguém dali era seu amigo.
Eram só outras pessoas solitárias, procurando alguém com quem dividir a solidão.
Até esse grupinho acabou definhando, graças ao vício que destruiu esta cidade. E o tipo de gente com quem a minha mãe saía não é o tipo que comparece a um funeral. A maioria provavelmente tem mandados de prisão não cumpridos e evita qualquer tipo de
evento, para não correr o risco de se dar mal caso haja alguma batida da polícia.
— Você precisa ligar para o seu pai? — pergunta Buzz.
Eu o encaro por um instante; sei que vou acabar fazendo isso, mas por quanto tempo será que consigo adiar?
— Beyah — diz ele, esticando o som do “e”.
— É Bay-uh que se fala.
Sei lá por que falei isso. Ele fala errado desde que a gente se conhece, e até agora nunca me dei ao trabalho de corrigir a pronúncia.
— Beyah — corrige ele. — Sei que isso não é da minha conta, mas... você precisa sair desta cidade. Você sabe o que acontece com gente como... — Ele se cala, como se soubesse que as próximas palavras me ofenderiam.
— Gente como eu? — pergunto, concluindo a frase.
Ele agora parece ainda mais constrangido, por mais que eu saiba que ele só quis dizer gente como eu num geral. Gente com mães como a minha. Gente pobre, sem condições de sair daqui. Gente que acaba trabalhando em redes de fast food até morrer por dentro, daí o chapeiro oferece uma dosezinha para que o restante do turno pareça uma pista de dança, e em dois tempos a pessoa não consegue mais passar um segundo da vida sem uma dose atrás da outra, perseguindo a sensação com mais afinco do que persegue a segurança da própria filha, até começar a injetar direto na veia e encarar a Madre Teresa, e aí a pessoa morre, por acidente, sendo que tudo o que ela queria era escapar de tanta feiura, tanta desgraça.
Buzz parece desconfortável, parado na porta de casa. Eu só queria que ele fosse embora. Sinto mais pena dele que de mim mesma, e fui eu que acabei de encontrar minha mãe morta no sofá.
— Não conheço o seu pai, mas sei que ele paga o aluguel deste trailer desde que você nasceu. Só isso já me diz que ele é uma alternativa melhor do que continuar nesta cidade. Se você tem uma saída, é melhor agarrar. Essa vida que você anda levando aqui... não é nada boa.
Acho que foi a coisa mais bacana que alguém já falou para mim. E
justo o pai de Dakota, entre todas as pessoas.
Ele me encara por um instante, como se quisesse dizer algo mais.
Ou talvez queira uma resposta. Seja como for, ficamos em silêncio até que ele meneia a cabeça e vai embora. Até que enfim.
Depois que ele bate a porta, eu me viro e encaro o sofá. Fico olhando por tanto tempo, que parece que estou num transe. É
estranho como a vida pode mudar por completo no intervalo entre o momento que a gente acorda e a hora que vai dormir.
Por mais que eu odeie admitir, Buzz tem razão. Não posso ficar aqui. Nunca cheguei a planejar nada, mas pensava ainda ter o verão todo para organizar minha saída.
Venho trabalhando feito uma condenada para sair desta cidade, e logo no comecinho de agosto estarei num ônibus rumo à Pensilvânia.
Consegui uma bolsa para estudar e treinar voleibol na Universidade Estadual da Pensilvânia. Em agosto largo esta vida, e não vai ser por nada do que minha mãe fez para mim, nem porque meu pai me tirou daqui. Vai ser graças a mim mesma.
Eu quero essa vitória.
Eu quero ser a razão de me tornar o que me tornarei.
Eu me recuso a permitir que Janean leve qualquer crédito por tudo de bom que me acontecer no futuro. Nunca contei a ela sobre a bolsa de estudos. Não contei a ninguém. Fiz meu treinador jurar segredo e não permiti nenhuma menção no boletim ou uma sessão de fotos para o anuário escolar.
Também não contei nada ao meu pai. Nem sei se ele sabe que jogo voleibol. Meus treinadores garantiram que nada me faltasse em termos de equipamentos e uniforme. Eu sempre fui tão boa, que ninguém da escola permitiu que a minha situação financeira me impedisse de integrar a equipe.
Não tive que pedir aos meus pais absolutamente nada relacionado ao voleibol.
É até estranho chamar esses dois de pais. Eles me deram a vida, mas essa foi a única coisa que recebi deles.
Sou fruto de uma noitada. Meu pai morava em Washington e estava no Kentucky a trabalho quando conheceu Janean. Eu já tinha três meses quando ele soube que Janean havia engravidado. Só descobriu que era pai quando recebeu a papelada do pedido de pensão.
Até meus quatro anos, ele vinha me visitar todo ano; depois começou a pagar minhas passagens de avião para ir vê-lo em Washington.
Ele não sabe nada sobre a minha vida no Kentucky. Não sabe nada sobre os vícios da minha mãe. Não sabe nada a meu respeito além das coisas que revelo, que são poucas.
Sou muitíssimo reservada em relação a todos os aspectos da minha vida. Os segredos são a única moeda de troca que tenho.
Não contei ao meu pai sobre a bolsa de estudos pela mesma razão por que jamais contei à minha mãe. Não quero que ele sinta orgulho pelas minhas conquistas. Ele não merece sentir orgulho de uma filha a quem dedica tão pouco esforço. Acha que um cheque mensal e uns telefonemas esporádicos para o meu trabalho são suficientes para disfarçar o fato de que ele mal me conhece.
É o tipo de pai que marca presença duas semanas por ano.
O fato de estarmos em pontos tão distantes do mapa acaba sendo uma justificativa conveniente para sua ausência em minha vida.
Desde os quatro anos passo quatorze dias com ele todo verão, mas nos últimos três anos simplesmente não o vi.
Quando fiz dezesseis e passei a integrar a equipe oficial da escola, o voleibol ganhou ainda mais espaço em minha rotina diária, então parei de visitá-lo. Já faz três anos que invento desculpas para não ir.
Ele finge que fica triste.
Eu finjo que estou ocupada e peço desculpas.
Desculpa, Brian, mas mandar um cheque por mês faz de você uma pessoa responsável; não um pai.
A batida súbita à porta me assusta tanto, que solto um ganido. Dou um giro e vejo o proprietário do trailer pela janela da sala.
Normalmente não abriria a porta para Gary Shelby, mas não estou muito em posição de ignorá-lo. Ele sabe que estou acordada. Tive que usar o telefone dele para chamar a polícia. Além do mais, preciso saber o que fazer com esse sofá. Não quero mais isso dentro de casa.
Quando abro a porta, Gary me entrega um envelope e vai forçando a entrada, para escapar da chuva.
— O que é isso? — pergunto a ele.
— Aviso de despejo.
Se fosse qualquer pessoa além de Gary Shelby, eu me surpreenderia.
— Ela literalmente acabou de morrer. Não dava para esperar uma semana?
— Ela estava devendo três meses de aluguel, e não alugo para adolescentes. Ou a gente assina contrato com uma pessoa maior de idade, ou você sai.
— Mas é o meu pai que paga o aluguel. Como assim, estamos devendo três meses?
— Sua mãe falou que já faz uns meses que ele parou de mandar os cheques. O Sr. Renaldo está querendo um lugar maior, então acho que vou trocar...
— Você é um babaca, Gary Shelby.
Gary dá de ombros.
— São negócios. Já mandei dois avisos. Tenho certeza de que você tem para onde ir. Não pode ficar aqui sozinha, só tem dezesseis anos.
— Fiz dezenove na semana passada.
— Que seja, tem que ter vinte e um. São os termos do contrato.
Além de pagar o aluguel, lógico.
Tenho certeza de que o despejo de um inquilino requer algum tipo de processo legal, até que ele possa de fato me expulsar desta casa.
Mas não faz sentido lutar, sendo que nem quero mais morar aqui.
— Quanto tempo tenho?
— Vou te dar uma semana.
Uma semana? Tenho vinte e sete dólares no bolso e nenhum lugar aonde ir.
— Não pode ser dois meses? Em agosto vou para a universidade.
— Talvez, se você não estivesse devendo três meses de aluguel.
Mas daí vão ser três meses, mais esses dois, e não tenho condições de conceder a ninguém quase meio ano de isenção no aluguel.
— Você é tão babaca — murmuro, entre os dentes.
— Já falamos sobre isso.
Percorro mentalmente a lista de amigos com quem poderia passar os próximos dois meses, mas Natalie partiu para a faculdade no dia seguinte à nossa formatura, para já ir se adiantando nas disciplinas de verão. Minhas outras amigas já saíram de casa, engatando a
marcha para serem novas Janean na vida, ou têm famílias que já sei que não permitiriam minha presença.
Penso em Becca, mas ela tem aquele padrasto sórdido. Prefiro morar com Gary a ficar perto daquele homem.
Só me resta uma alternativa.
— Preciso usar seu telefone.
— Está ficando tarde — diz ele. — Amanhã você usa.
Eu o empurro e vou descendo a escada.
— Então você que esperasse até amanhã para me dizer que agora sou uma sem-teto, Gary!
Vou caminhando sob a chuva em direção à casa dele. Gary é o único na área dos trailers que ainda tem telefone fixo, e como a maioria de nós é pobre demais para ter celular, todo mundo usa o telefone dele. Bom, pelo menos quem está com o aluguel em dia e não vive tentando evitá-lo.
Já faz quase um ano desde a última vez que liguei para meu pai, mas sei o número de cabeça. Já faz oito anos que ele tem o mesmo número. Ele liga para o meu trabalho uma vez por mês, mas quase sempre fujo da ligação. Não dá para ter muita conversa com um sujeito que eu mal conheço, então prefiro nem falar a ter que soltar mentiras do tipo “tudo bem com a mamãe, tudo bem na escola, tudo bem no trabalho, tudo bem na vida”.
Com esforço, engulo o orgulho e ligo para ele. Fico esperando que caia na caixa postal, mas meu pai atende ao segundo toque.
— Aqui é o Brian Grim. — diz ele, com a voz rascante. Eu o acordei.
Solto um pigarro.
— Humm. Oi, pai.
— Beyah? — Agora que sabe que sou eu, parece mais desperto e preocupado. — O que foi que houve? Está tudo bem?
A Janean morreu está na ponta da minha língua, mas não consigo falar. Ele mal conhecia a minha mãe. Já faz tanto tempo desde a última vez que ele esteve no Kentucky e a viu, que ela ainda era meio bonita, não parecia um esqueleto ambulante.
— Sim. Está tudo bem — respondo.
É estranho demais avisar sobre a morte dela por telefone. Vou esperar para contar ao vivo.
— Por que você está ligando tão tarde? O que foi que houve?
— Estou trabalhando até tarde, e fica difícil arrumar um telefone.
— Foi por isso que te mandei o celular.
Ele me mandou um celular? Nem me dou ao trabalho de perguntar nada. Tenho certeza de que minha mãe vendeu para conseguir o troço que agora está petrificado em suas veias.
— Escuta — digo a ele. — Sei que já faz um tempo, mas andei pensando se eu não podia ir te visitar antes de começar a faculdade.
— Lógico que pode — responde meu pai, sem hesitar. — É só falar a data, que eu compro a passagem.
Olho para Gary. Ele está a poucos centímetros de mim, encarando meus seios, então viro as costas para ele.
— Eu estava na esperança de poder ir amanhã.
Há uma pausa. Ouço um movimento do outro lado da linha, como se ele estivesse se levantando da cama.
— Amanhã? Tem certeza de que está tudo bem, Beyah?
Inclino a cabeça para trás e fecho os olhos enquanto minto de novo.
— A-hã. A Janean... só preciso de um descanso. E estou com saudade de você.
Não estou, nada. Mal o conheço. Mas apelo para qualquer coisa que me bote num avião e me leve para bem longe daqui.
Ouço um barulho de digitação, como se meu pai estivesse no computador. Ele murmura uns horários e nomes de companhias aéreas.
— Tem um voo da United para Houston amanhã de manhã. Mas você tem que estar no aeroporto daqui a cinco horas. Quantos dias vai querer ficar?
— Houston? Por que Houston?
— Estou morando no Texas agora. Já faz um ano e meio.
Isso é algo que uma filha deveria saber a respeito do pai. Pelo menos ele não mudou o número do celular.
— Ah, esqueci. — Toco minha nuca. — Você não pode comprar uma passagem só de ida por enquanto? Ainda não sei quanto tempo vou querer ficar. Umas semanas, talvez.
— Tudo bem, vou comprar agora. Quando chegar ao aeroporto você procura um guichê da United e pede para imprimirem o cartão
de embarque. Encontro você na esteira de bagagem.
— Valeu.
Antes que ele diga outra coisa, eu desligo. Quando me viro de volta, Gary aponta com o polegar para a porta da frente.
— Posso te levar ao aeroporto — diz ele. — Mas tem um preço.
Ele escancara um sorriso, um esgaçar de lábios que faz meu estômago revirar. Quando Gary Shelby oferece um favor a uma mulher, o preço nunca é pago em dinheiro.
Agora, se eu tiver que trocar favores com alguém por uma carona até o aeroporto, prefiro que seja com Dakota, não Gary Shelby.
Com Dakota já estou acostumada. Por mais desprezo que eu sinta por ele, pelo menos dá para confiar.
Torno a pegar o telefone e digito o número de Dakota. Meu pai falou que só preciso chegar ao aeroporto daqui a cinco horas, mas se ficar muito tarde Dakota pode acabar dormindo e não atender minha ligação. Preciso aproveitar a oportunidade.
Quando Dakota atende, eu sinto um alívio.
— Oi? — diz ele, meio sonolento.
— Oi. Preciso de um favor.
Faz-se um instante de silêncio.
— Sério, Beyah? É madrugada.
Ele nem pergunta de que preciso, ou se está tudo bem. Fica irritado comigo no mesmo instante. Seja lá o que essa relação for, devia ter terminado assim que começou.
Solto um pigarro.
— Preciso de uma carona até o aeroporto.
Ouço Dakota suspirar, como se eu fosse uma amolação. Sei que não sou. Posso até ser só um passatempo para ele, mas um passatempo do qual ele não se cansa.
Então ouço um estalido, como se ele estivesse se sentando na cama.
— Não tenho dinheiro.
— Eu não... não quero dinheiro. Só preciso de uma carona até o aeroporto. Por favor.
— Me dá meia hora — diz ele, com um grunhido, então desliga.
Também desligo.
Passo por Gary, saio da casa dele e bato a porta com força.