Até o verão terminar

Colleen Hoover · Capítulo 5 de 37

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Até o verão terminar

Três

Vejo-o assentir e me sinto meio mal, mas não sei quanto tempo ainda temos de viagem e realmente só quero fechar os olhos, tentar dormir e evitar perguntas que não sei se consigo responder.

Três

Um tranco violento faz minha cabeça sacolejar. Abro os olhos e meu corpo desperta com um tremor.

— Estamos subindo numa balsa — diz meu pai. — Desculpa, a rampa sempre dá uns solavancos.

Olho para ele, meio aturdida. Então, as lembranças começam a voltar.

Minha mãe morreu ontem à noite.

Meu pai ainda não faz ideia.

Tenho uma madrasta e uma irmã postiça.

Olho pela janela, mas há fileiras de carros bloqueando toda a minha visão.

— Por que é que a gente está numa balsa?

— O GPS indicou um engarrafamento de duas horas na rodovia 87. Deve ter sido acidente. Achei que a esta hora do dia seria mais rápido pegar a balsa até a península Bolívar.

— Balsa até onde?

— É onde fica a casa de verão da Alana. Você vai adorar.

— Casa de verão? — Arqueio uma sobrancelha. — Você casou com uma mulher que tem uma casa de verão?

Meu pai dá uma risadinha, mas não foi piada.

Da última vez que fui visitá-lo, ele morava numa quitinete barata em Washington, e eu dormi no sofá. Agora é casado com uma mulher que tem mais de uma casa?

Eu o encaro um instante e entendo de onde vem a mudança no visual. Não é a idade. É o dinheiro.

Ele nunca foi rico. Nunca chegou nem perto. Ganhava dinheiro suficiente para pagar a pensão da filha e morar numa quitinete, mas era o tipo de cara que economizava cortando o próprio cabelo e reutilizando copos de plástico.

Agora, olhando para ele, fica bem nítido que as pequenas mudanças se deram graças ao dinheiro. Corte de cabelo no salão.

Roupas de marca. Um carro com botões em vez de alavancas.

Olho o volante e vejo um felino reluzente e prateado bem no centro.

Meu pai dirige um Jaguar.

Sinto meu rosto se contorcer numa careta e me viro para a janela, antes que ele veja minha expressão de repugnância.

— Você agora é rico?

Ele solta outra risadinha. Que ódio. Eu odeio esse tipo de risadinha; é a mais condescendente de todas.

— Fui promovido faz uns dois anos, mas não a ponto de poder comprar uma casa de verão. A Alana ficou com alguns bens depois do divórcio, mas também é dentista, então vive muito bem.

Dentista.

Que coisa horrível.

Eu cresci num trailer com uma mãe dependente química, e agora estou prestes a passar o verão numa casa de praia, com uma madrasta com diploma de doutora, ou seja, a prole não deve passar de uma riquinha mimada, com quem não terei absolutamente nada em comum.

Eu devia ter ficado no Kentucky.

Já não me dou bem com outras pessoas em condições normais, mas sou ainda mais bicho do mato com gente endinheirada.

Preciso sair deste carro. Preciso de um momento sozinha.

Eu me estico no assento, e tento olhar a janela para ver se há mais alguém fora do carro. Nunca estive no oceano, nem numa

balsa. Durante quase toda a minha vida, meu pai morou em Spokane, que não fica perto do mar, então o Kentucky e Washington foram os dois únicos estados para onde já viajei.

— Posso sair do carro?

— A-hã — responde ele. — Tem um deque de observação no andar de cima. Temos mais uns quinze minutos.

— Você vai sair?

Ele balança a cabeça e pega o celular.

— Preciso dar uns telefonemas.

Saio do carro e olho para os fundos da balsa, mas há umas famílias jogando pedaços de pão para umas gaivotas. Na frente também há um grupo, assim como no deque de observação acima, então vou andando até me afastar da vista de meu pai. Do outro lado da balsa não tem ninguém, então começo a trançar os carros.

Quando chego à amurada, seguro firme e me debruço, observando o oceano pela primeira vez na vida.

Se a limpeza tivesse um cheiro, seria esse.

Tenho certeza de que nunca inalei ar mais puro do que o que estou inalando agora. Fecho os olhos e encho ao máximo os pulmões. A brisa tem um toque salgado, que libera uma sensação de clemência frente ao ar bolorento do Kentucky que ainda circula em meus pulmões.

O vento bagunça meu cabelo, então eu o prendo com as mãos, faço um coque e firmo com o elástico que passou o dia em meu pulso.

Olho para o oeste. O sol está quase se pondo, e o céu exibe um turbilhão de rosa, vermelho e laranja. Já vi o pôr do sol inúmeras vezes, mas jamais tinha visto o sol separado de mim apenas pelo oceano e por uma fina lasquinha de terra. Mais parece uma bola de fogo flutuante, equilibrada sobre o solo.

É o primeiro pôr do sol que me toca tão fundo. Sinto meus olhos lacrimejarem diante de tamanha beleza.

O que isso diz a meu respeito? Ainda não verti uma lágrima sequer por minha mãe, mas desabo diante de um fenômeno cotidiano da natureza?

Mas é impossível não me comover pelo menos um pouco com tudo isso. Tantas cores enfeitam o céu, que é como se a terra usasse

as nuvens para escrever um poema, para comunicar sua gratidão aos que dela cuidam.

Respiro fundo outra vez, desejando guardar para sempre essa sensação, esse aroma e o som das gaivotas. Temo que a força dessa cena comece a se esvair se eu vivenciá-la mais vezes. Será que as pessoas que moram na praia apreciam menos esse cenário do que as que passam a vida olhando os fundos da bosta da casa de seu senhorio? Sempre tive essa curiosidade.

Olho em volta, imaginando se as pessoas nesta balsa estão negligenciando toda essa vista. Há algumas apreciando o pôr do sol.

Várias continuam dentro dos carros.

Se eu passar o verão olhando essa vista, será que também começarei a dar pouca importância a ela?

Alguém no fundo da balsa avisa que viu uns golfinhos. Por mais que eu fosse adorar ver um golfinho, gosto da ideia de me afastar ainda mais da multidão. O povo na frente da balsa avança até o fundo, como mariposas atraídas por uma lâmpada.

Aproveito a chance para passar à frente da balsa, que agora está vazia e isolada dos carros.

Percebo uma embalagem de pão de forma aberta no deque da balsa, junto a meus pés. Era o pão que as crianças estavam dando às gaivotas. Na correria para ver os golfinhos, alguém deve ter deixado cair.

Meu estômago ronca assim que vejo o pão, e lembro que faz vinte e quatro horas que não como nada. Tirando um saquinho de pretzels do avião, não como desde o almoço de ontem, no trabalho, que na verdade foi só uma porção pequena de fritas.

Olho em volta, para conferir se não há ninguém por perto, e pego a embalagem de pão. Meto a mão no saco plástico, tiro uma fatia e devolvo a embalagem ao lugar onde estava.

Debruço-me na amurada e vou partindo o pão em pedacinhos, enrolando e enfiando na boca.

Sempre comi pão assim. Bem devagar.

É uma ideia equivocada, pelo menos no meu caso, que pessoas que vivem na miséria engolem depressa a comida quando têm a chance de se alimentar. Eu sempre saboreio tudo, pois nunca sei quando tornarei a comer. Quando criança, sempre que chegava ao

fim de uma embalagem de pão de forma, eu fazia a última fatia durar o dia inteiro.

Terei que me acostumar a isso neste verão, ainda mais se a nova mulher do meu pai souber cozinhar. Eles provavelmente jantam em família.

Vai ser tão estranho.

É triste que me cause estranheza a ideia de me alimentar regularmente.

Levo outro pedaço de pão à boca e me viro de costas, para olhar a balsa. Na lateral do deque superior, escrito em grandes letras brancas, leio o nome Robert H. Dedman.

Uma balsa chamada Dedman? “Homem morto”? Não é nada reconfortante.

A essa altura, várias pessoas já retornaram à frente do deque superior. Os golfinhos devem ter ido embora.

Meu olhar é atraído para um cara, que segura uma câmera como se fosse um pedaço de papel. Não está nem com a tira presa ao punho. A câmera está toda frouxa na mão dele, como se ele tivesse várias outras em casa.

A câmera está apontada para mim. Pelo menos é o que parece.

Olho para trás, mas não vejo nada, então não sei bem o que mais ele poderia estar fotografando.

Olho de volta para ele, que ainda me encara. Por mais que esteja um andar acima de mim, meu mecanismo de defesa é ativado na mesma hora. Isso sempre acontece quando topo com alguém atraente.

De certa forma, ele me lembra dos caras do Kentucky que voltavam às aulas depois de passar o verão inteiro em suas fazendas, sob um sol escaldante. Tinham a pele bronzeada e os cabelos aloirados pelo sol.

Fico pensando que cor terão os olhos dele.

Não. Não fico pensando coisa nenhuma. Não dou a mínima.

Atração desperta confiança, que desperta amor, e não quero ter nada a ver com essas coisas. Treinei a mim mesma para me desinteressar ainda mais depressa do que sou capaz de me interessar. Num passe de mágica, o rapaz, antes atraente, passa a ser horroroso a meus olhos.

Daqui de baixo, não consigo decifrar sua expressão. Não sei interpretar muito bem as pessoas da minha idade porque, sendo bem sincera, nunca tive muitos amigos. Agora, a coisa piora com gente rica da minha idade. Esses, sim, eu não consigo interpretar.

Olho minhas roupas. Meu vestido desbotado e amarrotado. O

chinelo de dedo, que consegui preservar intacto por dois anos. A metade da fatia de pão ainda na mão.

Olho o sujeito outra vez, ainda apontando a câmera para mim, e de súbito me sinto constrangida.

Há quanto tempo esse cara está tirando fotos de mim?

Será que me fotografou roubando o pão largado no chão? Será que me fotografou comendo?

Será que ele vai jogar minhas fotos na rede na esperança de viralizarem, feito aquelas publicações do People of Walmart? Amor, atração, confiança e decepção são alguns sentimentos dos quais aprendi a me defender, mas ao que parece a vergonha ainda é algo que tenho dificuldade de processar. Dos pés à cabeça, sou tomada por uma onda de calor.

Olho nervosa à minha volta, reconhecendo a mistura de pessoas na balsa. O povo de férias em seus jipes, de chinelo e filtro solar. O

pessoal dos negócios, ainda de terno, sentados em seus carros.

E eu. A garota que não tem condições de ter um carro e nem de tirar férias.

Não pertenço a essa balsa, transportando carros chiques, cheios de gente chique, que segura uma câmera como se segurasse um bolinho de mercado.

Olho outra vez para o cara da câmera. Ele ainda me encara, decerto imaginando o que estou fazendo nesta balsa com minha roupa desbotada, o cabelo cheio de pontas duplas, unhas sujas e meus segredos indecentes.

Olho para a frente e vejo uma porta que leva a uma área restrita da balsa. Saio correndo e entro ali. Logo à minha direita há um banheiro. Entro nele e tranco a porta.

Eu me olho no espelho. Meu rosto está vermelho, e não sei se é por conta da vergonha ou do forte calor do Texas.

Arranco o elástico do cabelo e tento desembaraçar as mechas com os dedos.

Não acredito que vou conhecer a nova família do meu pai com essa cara. A mãe e a filha devem ser bem o tipinho que faz cabelo e unha no salão, que suaviza as imperfeições em procedimentos médicos. Devem falar bem e exalar perfume de gardênia.

Já eu estou suada, pegajosa e cheirando a um misto de bolor e gordura, direto da fritadeira do McDonald’s.

Jogo o resto do pão na lata de lixo do banheiro.

Olho outra vez para o espelho, mas vejo apenas a versão mais triste de mim. Talvez a perda de minha mãe ontem à noite esteja me afetando mais do que eu gostaria de admitir. Talvez tenha sido precipitada a decisão de ligar para meu pai, pois não quero estar aqui.

Mas também não queria estar lá.

Neste exato momento, é simplesmente difícil estar, seja lá onde for. Ponto.

Prendo o cabelo de volta no coque, solto um suspiro e abro a porta do banheiro. É uma porta pesada de aço, que bate com força ao se fechar atrás de mim. Dou dois passos e paro, pois alguém desponta no estreito corredor e bloqueia minha passagem.

Eu me vejo encarando os olhos impenetráveis do sujeito da câmera. Ele me olha de volta, como se soubesse que eu estava no banheiro e tivesse vindo até aqui com uma finalidade.

Agora que estou bem mais perto, acho que estava errada; ele não tem a minha idade. Deve ser uns anos mais velho. Ou talvez a riqueza faça as pessoas parecerem mais velhas. Ele exala um ar de confiança, e posso jurar que o cara cheira a dinheiro.

Nem conheço esse homem, mas já sei que não gosto dele.

Da mesma forma que não gosto de outras pessoas com grana.

Esse cara não vê problema em fotografar uma garota pobre num momento vulnerável e embaraçoso, e fica por aí segurando a própria câmera feito um babaca descuidado.

Tento me desviar dele para chegar à porta de saída, mas ele dá um passo ao lado e permanece na minha frente.

Seus olhos (azul-claros e estonteantes, infelizmente) perscrutam meu rosto, e odeio a proximidade que há entre nós. Ele dá uma olhadela para trás, como se para confirmar que estamos a sós, então

põe discretamente algo na palma da minha mão. Olho para baixo e vejo uma nota de vinte dólares dobrada.

Encaro o dinheiro, então levo o olhar a ele, compreendendo a oferta. Estamos perto de um banheiro. Ele sabe que sou pobre.

Está achando que estou desesperada a ponto de arrastá-lo até o banheiro para agradecer as vinte pratas que ele acabou de botar na minha mão.

O que é que eu tenho, que faz os caras pensarem desse jeito?

Que vibração é essa que estou emanando?

Fico tão furiosa, que amasso a nota numa bolinha e jogo em cima dele. Miro no rosto, mas ele se desvia com elegância.

Arranco a câmera da mão dele. Vou virando até encontrar a ranhura do cartão de memória. Abro, puxo o cartão e jogo a câmera de volta. Ele não pega. A câmera desaba no chão, faz uma barulheira, e um pedaço se parte e cai em cima do meu pé.

— Para que isso? — pergunta ele, e se agacha para pegar.

Dou um giro, preparada para sair correndo, mas topo com uma terceira pessoa. Como se já não fosse ruim estar encurralada num corredor com um cara que acabou de me oferecer vinte pratas por um boquete, agora estou encurralada entre dois caras. O outro cara não é tão alto quanto o da câmera, mas exala o mesmo cheiro. De golfe. Golfe é um cheiro? Devia ser. Eu podia engarrafar e vender para esses babacas.

O segundo cara usa uma camisa preta com a palavra com a palavra Hispanic estampada, mas his e panic estão grafadas em fontes diferentes, um trocadilho entre hispânico e algo como “o terror dele”, em inglês. Reservo um momento de respeito à camiseta, porque é muito sagaz, e depois faço uma tentativa de escapar.

— Foi mal, Marcos — diz o cara da câmera, tentando encaixar a parte solta.

— O que rolou? — pergunta o sujeito de nome Marcos.

Por um breve instante, fico achando que talvez esse Marcos possa ter visto nossa interação e vindo ao meu resgate, mas ele parece mais preocupado com a câmera do que comigo. Agora, sabendo que a câmera não pertence ao primeiro cara, eu me sinto meio mal por ter a arremessado.

Eu colo as costas à parede, esperando passar despercebida pelos dois.

O cara da câmera aponta a mão hesitante para mim.

— Eu trombei com ela por acidente e deixei cair.

Marcos olha para mim, depois para o Babaca de Olho Azul. O jeito como os dois se entreolham guarda alguma coisa... algo não dito.

Como se eles se comunicassem numa língua que não compreendo.

Marcos se espreme entre mim e o outro cara e abre a porta do banheiro.

— Te encontro no carro, a balsa já vai atracar.

Eu me vejo sozinha outra vez com o cara da câmera, mas meu único desejo é sair dali e retornar ao carro do meu pai. O cara tem os olhos atentos à câmera de Marcos e tenta unir a parte solta.

— Eu não estava te propondo nada. Vi que você pegou o pão e achei que de repente pudesse ajudar.

Inclino a cabeça quando ele faz contato visual comigo, observando sua expressão e tentando detectar a mentira. Não sei o que é pior: ele me propor algo ou sentir pena de mim.

Quero dar uma resposta esperta, mas não digo nada, apenas permaneço parada, encarando o sujeito nos olhos. Alguma coisa nesse cara mexeu comigo, como se a aura dele tivesse garras.

Ele tem um olhar meditativo e meio pesado, que eu pensava existir apenas em pessoas iguais a mim. O que pode ser tão terrível sobre a vida desse cara que me leva a crer que ele tenha sofrido?

Dá para ver que ele passou por alguma coisa. Uma pessoa ferida reconhece outra. É como um clube que ninguém quer fazer parte.

— Pode me devolver o meu cartão de memória? — pergunta ele, estendendo a mão.

Não vou devolver as fotos que ele tirou de mim sem permissão. Eu me agacho, pego a nota de vinte do chão e ponho na mão dele.

— Toma aí seus vinte contos. Compra um cartão novo.

Com isso, dou um giro e escapo pela porta, segurando com força o cartão de memória. Vou trançando as fileiras de carros até chegar ao do meu pai.

Pulo no banco do carona e fecho a porta bem baixinho, pois meu pai está ao telefone. Parece uma ligação de trabalho. Estendo o braço para o banco traseiro e enfio o cartão de memória na mochila.

Quando me viro outra vez para a frente, os dois caras estão deixando a área restrita da balsa.