Até o verão terminar

Colleen Hoover · Capítulo 12 de 37

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Até o verão terminar

Dez

Passo vários minutos num completo transe, enquanto a brisa se intensifica. Bem devagar, o brilho do sol que acaba de nascer é ofuscado pela tempestade que se aproxima. O céu traga cada nuance de cor que tentava despontar, e depois de um tempo tudo assume um opaco tom de cinza.

Nessa hora, a chuva começa. Estou protegida pelo teto da sacada e o vento não está muito forte, então continuo do lado de fora, observando um dia que começou promissor há não mais de quinze minutos pouco a pouco se transformar em trevas.

Fico pensando se Samson sabia que uma tempestade se seguiria à alvorada. Olho a casa dele e o vejo parado junto à porta, apoiado no batente, segurando uma xícara de café. Ele não está olhando a chuva, nem o céu, nem o oceano.

Está olhando para mim.

Vê-lo me olhar causa em mim uma confusão que não quero sentir.

Eu o encaro de volta por um instante, imaginando se ele acorda todos os dias para ver o sol nascer ou se só queria saber o que eu faria com o alarme programado em meu celular.

Talvez ele de fato aprecie a alvorada. Será que é um dos poucos que dá valor a essa vista?

Penso que talvez haja uma chance de eu ter me enganado a respeito dele. Talvez eu o tenha julgado um pouco cedo demais.

Mas, por outro lado, e daí se eu estiver errada? As coisas entre nós dois são estranhas, e não vejo isso mudando a não ser que um de nós sofra um transplante de personalidade.

Desvio o olhar, volto para o quarto e me aconchego na cama.

Acho que vou ficar por aqui.

Dez Passei a maior parte dos três últimos dias no quarto. A chuva, somada à semana que tive, me deixou sem a menor vontade de encarar o mundo. Além do mais, este quarto está se tornando meu lugar favorito, pois me sinto segura aqui, rodeada por estas quatro paredes. Tenho uma vista livre do oceano e uma televisão que finalmente aprendi a operar, além de meu próprio banheiro.

Eu realmente poderia ficar neste quarto pelo resto de minha estada aqui e ser muito feliz.

A questão são as outras pessoas que moram nesta casa.

Meu pai veio inúmeras vezes conferir como estou. Eu disse a ele que estava com dor de cabeça e garganta, que doía para falar, e agora ele sobe toda hora para saber de mim.

Sara fica me trazendo coisas. Água, comida, remédios desnecessários. Ontem, num dado momento, ela se enfiou na cama comigo e passou uma hora vendo Netflix, antes de sair com Marcos.

Não conversamos muito, mas por mais estranho que pareça, a companhia dela não me incomodou.

Ela tem uma energia boa. Às vezes me sinto um buraco negro perto dela. Como se eu tragasse toda a vida que há nela apenas por

estar em sua inocente presença.

Ando observando a rotina de Samson mais do que gostaria de admitir. Não sei por que tenho tanta curiosidade em relação a ele.

Mas a rotina dele me intriga.

Mantive o alarme do celular, pois parece que o nascer do sol virou uma coisa nossa. Toda manhã ele surge na sacada. Assistimos ao dia clarear, sozinhos, porém juntos. Toda vez que me viro de volta para o quarto, cruzamos olhares por um breve instante. Ele, no entanto, não fala comigo.

Ou ele não é uma pessoa matutina, ou prefere apreciar o sol nascer em silêncio. Seja como for, o momento parece íntimo, de certa forma. Como se tivéssemos um encontro secreto e silencioso todos os dias.

Quando acaba, eu costumo voltar para a cama, mas Samson sempre sai de casa. Não sei aonde ele vai tão cedo de manhã, mas ele sai quase todo dia. Quando volta, já é noite e a casa está sempre escura. Ele só acende a luz do cômodo em que está, e apaga assim que sai.

Ele parece já viver uma vida de precisão militar. Pelo que vejo de minha janela, a casa é impecável. Isso me faz pensar no tipo de pai que ele tem. Se vai virar militar, talvez tenha crescido num ambiente militar. Talvez por isso pareça tão controlado e mantenha a casa tão limpa.

Se gasto tanto tempo pensando nisso, estou mesmo precisando de alguma ocupação para minha cabeça. Talvez eu deva arrumar um emprego. Não posso ficar enfiada neste quarto para sempre.

Eu poderia comprar uma bola de vôlei e praticar um pouco, mas isso não me parece nada atraente. O treinador da universidade já divulgou todos os horários dos treinos, mas eu nem sequer abri o e-mail. Não sei por que, mas não tenho a menor vontade de olhar para uma bola de vôlei antes de chegar à Pensilvânia. Passei os últimos cinco anos de minha vida respirando voleibol. E estou prestes a passar os próximos quatro fazendo a mesma coisa.

Mereço um ou dois meses sem a obrigação de pensar nisso.

A chuva parou, e hoje o sol resolveu sair. Se eu continuar fingindo que estou doente pelo quarto dia seguido, meu pai pode acabar de fato me levando a um médico. Já não tenho uma boa desculpa para

ficar no quarto, e talvez seja um dia bom para sair à procura de emprego. Talvez eu consiga arrumar um trabalho de garçonete e guardar as gorjetas para a hora de partir para a faculdade.

Eu daria tudo por mais um dia como os últimos três. Mas acho que não vai rolar, pois tem alguém batendo à porta do meu quarto.

— Sou eu — diz Sara. — Posso entrar?

— Óbvio.

Já vou me sentando na cama e me recosto na cabeceira. Sara sobe na cama e se senta ao meu lado. Ela cheira à canela.

— Está se sentindo melhor?

Faço que sim e forço um sorrisinho.

— Um pouco.

— Que bom. A chuva parou, até que enfim. Quer dar uma chegada na praia mais tarde?

— Não sei. Estava pensando em ir procurar um emprego de verão, de repente. Preciso juntar um dinheiro para a faculdade.

Ela dá uma risada.

— Não. Aproveite o seu último verão antes da vida adulta. Tire vantagem disso tudo — diz, abanando a mão no ar.

Ela está toda animadinha. E eu, ainda com cara de ontem. É muito óbvia a nossa incompatibilidade neste momento. Ela percebe, pois fecha o sorriso e estreita os olhos para mim.

— Está tudo bem, Beyah?

Eu sorrio, mas o esforço é muito grande, e meu sorriso desaba no meio de um suspiro.

— Sei lá. Isso aqui é tudo... meio estranho para mim.

— O quê?

— Estar aqui.

— Você quer voltar para casa?

— Não.

Não sei nem onde fica minha casa agora, mas não é disso que estou falando. Eu me sinto num limbo, e é uma sensação estranha.

Uma sensação deprimente.

— Você está triste? — pergunta ela.

— Acho que sim.

— Tem alguma coisa que eu possa fazer?

Balanço a cabeça.

— Não.

Ela se vira de lado e apoia a cabeça na mão.

— A gente precisa tirar você dessa bad. Você acha que em parte é porque se sente uma estranha nessa casa?

Faço que sim. De fato, estou meio deslocada aqui.

— Isso contribui, provavelmente.

— Então temos que dar uma acelerada na nossa amizade. — Ela se vira de costas. — Vamos nos conhecer. Me faz umas perguntas.

A bem da verdade é que tem muita coisa que quero saber a respeito dela, então apoio a cabeça na cabeceira da cama e penso em algo.

— Você tem uma boa relação com a sua mãe?

— Tenho. Eu amo a minha mãe, ela é minha melhor amiga.

Sortuda.

— Cadê o seu pai?

— Ele mora em Dallas. Os meus pais se divorciaram faz cinco anos.

— Vocês costumam se ver?

Sara faz que sim.

— A-hã. Ele é um pai bacana. Parece bastante o seu.

Mantenho o semblante firme ao ouvir esse comentário.

Ela tem um bom pai, uma boa mãe e um padrasto que parece conhecê-la melhor do que conhece a própria filha. Espero que dê valor a isso.

Sara não passou por muitas dificuldades. Só de olhar, dá para ver.

Ela ainda é cheia de esperança.

— Qual foi a pior coisa que já te aconteceu? — pergunto a ela.

— O divórcio dos meus pais foi muito difícil para mim.

— Qual foi a melhor coisa que já te aconteceu?

Ele escancara um sorriso.

— O Marcos.

— Há quanto tempo vocês estão juntos?

— Desde o recesso de primavera.

— Só isso?

— Pois é, faz poucos meses. Mas aposto a minha vida que um dia a gente vai casar.

— Não faça isso.

— Casar com ele? — pergunta ela, virando-se de barriga para baixo.

— Não aposte a sua vida nisso. Vocês só se conhecem faz uns meses.

Ele escancara um sorriso.

— Ah, mas não pretendo me casar tão cedo. Só depois de terminar a faculdade. — Ela ainda sorri, de um jeito sonhador. — Vou pedir transferência para poder ficar mais perto dele.

— Ele também está na faculdade?

— Está, faz graduação em moda na Universidade de Houston.

Com ênfase em negócios.

— Ele está cursando moda?

Ela assente.

— Ele quer fundar uma marca de roupas chamada HisPanic.

— Isso explica as camisetas.

— Pois é, muito sagaz. Ele nasceu em Chiapas, então pretende doar uma parte dos lucros para o enfrentamento da pobreza por lá, se a marca decolar. Ele já tem cinco mil seguidores no Instagram.

— Isso é bom? Não entendo muito de redes sociais.

— É melhor que não ter cinco mil seguidores. — Sarah se senta na cama e cruza as pernas. Ela não para quieta. Eu queria ter metade dessa energia. — Posso te fazer uma pergunta?

Eu concordo com a cabeça.

— Eu já te fiz umas dez, então é mais que justo.

— O que é que te deixa feliz? — Sua expressão revela uma curiosidade genuína.

Preciso desviar os olhos antes que ela veja o meu próprio semblante, pois honestamente... não sei o que me deixa feliz.

Também tenho curiosidade de saber. Passei a vida inteira só tentando sobreviver; nunca cheguei a pensar em nada para além disso.

Comer uma refeição costumava me deixar feliz. As noites em que minha mãe não trazia homens estranhos para casa me deixavam feliz. O dia de pagamento no McDonald’s me deixava feliz.

Não entendo por que a pergunta desperta tantos gatilhos em mim, mas percebo pela primeira vez desde que cheguei aqui que as

mesmas coisas que costumavam me deixar feliz já não são sequer questões em minha vida.

O que é que me deixa feliz?

— Não sei. — Olho a janela, vejo a água e sinto uma onda de sossego. — O oceano, eu acho.

— Então aproveite o oceano enquanto tem. Não arrume emprego nenhum. Você vai ter o resto da vida para trabalhar. Transforme este verão na sua prioridade. Acho que você merece ser um pouquinho egoísta, para variar.

Eu assinto, em concordância.

— Mereço, mesmo.

Sara sorri.

— Que bom que você sabe disso. — Ela sai da cama. — Prometi ao Marcos que iria com ele cortar o cabelo e comer alguma coisa.

Pode vir com a gente, se quiser.

— Não, preciso tomar um banho. Talvez mais tarde eu dê uma caminhada na praia.

Sara sai do meu quarto.

— Beleza. Daqui a umas horas a gente volta. Não jante nada, a gente vai cozinhar na praia hoje.

•

Sara mencionou que havia uma grande parte da península Bolívar chamada Zoo Beach. Lá é permitida a entrada de veículos e carrinhos de golfe na areia, então a circulação e o agito são constantes.

A área onde Sara mora ainda tem um pouco de gente, mas não é nem de longe tão movimentada quanto certas partes da península. A uns três quilômetros da casa começa um mundo novo e totalmente diferente. Não necessariamente melhor. Acho que isso depende do nosso humor de cada momento, mas agora sem dúvida não estou para música alta e masculinidade tóxica.

Dou meia-volta para retornar antes de me aproximar demais da área lotada. Vejo uns caras sentados na traseira de uma picape, tentando atrair um cachorro com um hambúrguer.

Dá para ver as costelas do cachorro por sob a pelagem. Observo o cão se aproximar lentamente dos dois rapazes, como se soubesse que há um preço a pagar pela comida que lhe está sendo oferecida.

Na mesma hora me identifico com o cachorro.

— Isso aí — diz um dos rapazes, estendendo o hambúrguer. —

Chega mais pertinho.

Quando o cachorro chega ao alcance de seu braço, o sujeito recolhe a comida, e o outro cara mais que depressa agarra o cachorro e o puxa. Às gargalhadas, venda os olhos do animal e torna a soltá-lo. Sem enxergar nada, o cachorro começa a cambalear.

Corro até ele, que tenta arrancar a venda com a pata. Removo o pedaço de pano. Ele me olha, assustado, e foge correndo.

— Faz o favor! — diz um dos rapazes. — A gente estava só se divertindo.

Jogo a venda em cima deles.

— Babacas.

O cachorro está fugindo para longe. Vou andando, tomo o hambúrguer da mão do sujeito e disparo atrás do cachorro.

— Vadia — murmura um deles.

Sigo para o lado de onde vim, afastando-me da multidão e me aproximando do cachorro. O bichinho se esconde atrás de uma lata de lixo azul, todo encolhido. Eu me aproximo, devagar, e a cerca de meio metro de distância jogo com delicadeza o hambúrguer para ele.

O cachorro dá uma cheiradinha, então começa a comer. Sigo andando, agora morrendo de raiva. Às vezes não entendo os humanos. Odeio isso, pois me pego desejando que toda a humanidade sofresse só um tantinho mais do que já sofre. Se todos vivessem um pouco do que esse cachorro já viveu, talvez pensassem duas vezes antes de agir feito babacas.

Na metade do caminho para casa, percebo que o cachorrinho está me seguindo. Deve achar que tenho outros hambúrgueres.

Eu paro, e ele para.

Nós nos encaramos, avaliando um ao outro.

— Não tenho mais comida.

Recomeço a caminhar, e o cachorro vem atrás de mim. Vez ou outra dá uma desviada, mas logo olha para cima, torna a me

encontrar e corre para me alcançar. Enfim chego em casa, com o bichinho ainda a tiracolo.

Tenho certeza de que não poderei entrar em casa com um cachorro tão fedido, mas pelo menos consigo alimentá-lo mais um pouco. Na base da escada da frente, eu me viro e aponto para ele.

— Fica.

O cachorro se senta, direitinho. O que me surpreende. A audição é boa, pelo menos.

Pego umas fatias de peru na geladeira, ponho água numa vasilha e levo até ele. Sento-me no primeiro degrau e acaricio sua cabeça enquanto ele come. Não sei se alimentá-lo aqui na casa é uma boa ideia. Agora que ganhou comida, decerto vai ficar nos rodeando, mas talvez isso não seja tão ruim. Eu ia gostar da companhia de alguém que não me julga.

— Beyah!

Ao ouvir meu nome, o cachorro levanta as orelhinhas. Ergo a cabeça e olho em volta, tentando localizar a pessoa que gritou, mas não vejo ninguém.

— Aqui em cima!

Olho a casa diagonalmente oposta à nossa, na segunda fileira atrás de um trecho vazio de praia. Vejo um cara na beirada de um telhado altíssimo. Está tão alto, que levo uns segundos para perceber que o sujeito é Samson.

Ele acena para mim. Feito uma idiota, olho em volta para confirmar que ele está falando comigo, embora ele tenha chamado meu nome.

— Sobe aqui! — grita ele.

Samson está sem camisa. Eu me levanto na mesma hora, sentindo-me tão patética e faminta quanto o cachorro.

Abaixo a cabeça e olho o bichinho.

— Já volto. Fica aí.

Assim que começo a caminhar pela rua, o cachorro vem atrás de mim.

Cruzo o jardim da casa onde Samson está. Agora o vejo perigosamente próximo à beirada do telhado, olhando para baixo.

— Sobe a escada do térreo e entra pela porta. No corredor, entra na primeira porta à esquerda. É o acesso ao telhado. Quero te mostrar uma coisa.

Daqui de baixo vejo o suor brilhando na testa dele. Olho para baixo um segundo, tentando decidir o que fazer. Nós até agora não tivemos as melhores interações. Por que eu me exporia a mais?

— Tenho medo de altura! — digo, bem alto, olhando para ele.

Samson ri.

— Você não tem medo de nada, sobe aqui.

Não sei por que ele diz isso com tanta confiança, como se me conhecesse. Mas ele tem razão. Não tenho medo de muita coisa. Viro-me para o cachorro e aponto para a escada.

— Fica. — O animal vai até o ponto onde indiquei e se senta. —

Caramba, cachorro. Você é esperto para caramba.

Subo a escada e chego à porta da casa. Será que bato? Resolvo bater, mas ninguém atende.

Presumo que Samson esteja sozinho lá dentro, ou teria ido me receber pessoalmente.

Empurro a porta, sentindo-me estranhíssima por entrar numa casa desconhecida. Avanço depressa até a porta à esquerda e abro. É

uma escada, que leva a uma área de estar circular. Mais parece o topo de um farol, bem no meio e no alto da casa. É rodeada de janelas, com uma vista de 360 graus.

É impressionante. Não entendo por que toda casa não tem uma área assim. Eu viria aqui toda noite, para ler um livro.

Uma das janelas se abre, e Samson está à minha espera, no telhado, segurando a abertura do vão.

— Que demais isso aqui — digo, olhando para fora. Levo um instante para reunir coragem e subir ao telhado. Realmente não tenho medo de altura, como argumentei, mas esta casa é erguida sobre pilastras e ainda por cima tem dois andares.

Samson pega minha mão, me ajuda a subir e fecha a janela.

Eu me situo e prendo o ar, meio trêmula, pois só agora percebo a que altura estamos. Não ouso olhar para baixo.

Daqui de cima tudo parece diferente. Desta altura, todas as outras casas parecem pequenas.

Bem aos pés de Samson, vejo umas telhas empilhadas e uma caixa de ferramentas.

— Esta é uma das suas cinco casas de aluguel?

— Não. Só estou ajudando minha amiga Marjorie. Ela está com um vazamento.

O telhado tem dois níveis, um cerca de meio metro mais alto que o outro. Samson sobe ao nível de cima e põe as mãos na cintura.

— Vem cá.

Quando me ponho a seu lado, ele aponta para a direção oposta ao oceano.

— Daqui de cima dá para ver o pôr do sol na baía.

Olho para onde ele aponta. Do outro lado da península, o céu está incandescente. Vermelho, roxo, rosa e azul, tudo misturado.

— A Marjorie tem a casa mais alta de todas. Dá para ver a península inteira.

Giro o corpo devagar, admirando a vista. A baía está iluminada por nuances tão vibrantes, que mais parece um filtro fotográfico. Vejo a praia inteira, até onde a vista alcança.

— Que lindo.

Samson encara o pôr do sol por um momento, então desce à parte mais baixa do telhado. Vai até a caixa de ferramentas e se ajoelha.

Coloca uma das telhas no lugar e começa a martelar.

Só de observar como ele circula aqui em cima, como se estivesse no térreo, fico cambaleante. Então me sento.

— Era só isso o que eu queria — diz ele. — Sei que você gosta de ver o sol nascer, então queria que você visse o pôr do sol daqui de cima.

— Na verdade hoje o nascer do sol me deprimiu.

Ele assente, como se compreendesse muito bem.

— Pois é. Certas coisas são tão lindas, que deixam tudo um pouco menos impressionante.

Eu o observo em silêncio por uns instantes. Ele prende umas cinco telhas, enquanto o céu devora quase toda a luz. Ele sabe que estou observando, mas por algum motivo não me constranjo desta vez.

Acho que ele prefere que eu esteja aqui. Tipo durante as manhãs, quando nos sentamos, cada um em sua sacada, mas não trocamos uma palavra.

Seus cabelos estão molhados de suor, um pouco mais escuros que o normal. Ele usa um colar no pescoço, e vez ou outra, quando se mexe, percebo a marquinha de bronze deixada pela corrente. Ele

não deve tirar esse colar nunca. É um cordão preto, de tranças finas, com um pedaço de madeira como pingente.

— Seu colar significa alguma coisa?

Ele assente, mas não explica o quê. Apenas segue trabalhando.

— Você vai me contar?

Ele balança a cabeça.

Beleza, então.

Solto um suspiro. O que é que estou fazendo tentando levar uma conversa com ele? Eu esqueci como é.

— Você arrumou um cachorro hoje? — pergunta ele.

— Fui dar uma volta. E ele me seguiu até em casa.

— Vi que você deu comida a ele. Agora mesmo é que não vai te largar.

— Tudo bem.

Samson me olha e seca o suor da testa com o braço.

— O que a Sara e o Marcos vão fazer hoje à noite?

Dou de ombros.

— Ela falou alguma coisa sobre cozinhar na praia.

— Que bom. Estou morrendo de fome — diz ele, ainda ajeitando as telhas no telhado.

— Quem é Marjorie? — pergunto.

— A dona desta casa. O marido morreu faz uns dois anos, então de vez em quando venho ajudar.

Fico pensando quanta gente da vizinhança será que ele conhece.

Será que cresceu no Texas? Em que escola estudou? Por que está indo para a Força Aérea? Tenho tantas perguntas.

— Há quanto tempo você tem casas aqui?

— Eu não tenho casas aqui — diz ele. — O meu pai é que tem.

— Há quanto tempo o seu pai tem casas aqui?

Samson leva um segundo para responder.

— Não quero falar sobre as casas do meu pai.

Mordo o lábio. Parece que há várias perguntas proibidas. Que ódio, isso me deixa ainda mais curiosa. Não costumo encontrar pessoas que guardam segredos como eu. A maioria quer alguém que as escute. Alguém em quem possam despejar tudo. Samson não quer um ouvinte. Nem eu. O que explica por que as conversas

que tenho com ele são diferentes das que tenho com outras pessoas.

Nossas conversas parecem uns borrões. Como um grande espaço em branco com respingos de tinta.

Samson começa a guardar as ferramentas na caixa. Ainda há luz lá fora, mas não será assim por muito tempo. Ele se levanta, retorna à parte mais alta do telhado e se senta ao meu lado.

Sinto o calor de seu corpo, de tão perto que ele está.

Ele apoia os cotovelos nos joelhos. É uma pessoa muito bonita. É

difícil não ficar encarando gente como ele. Mas acho que seu carisma vem menos da aparência e mais da forma como ele se movimenta. Talvez ele tenha um lado artístico.

Ele guarda certa quietude, sem dúvida, que o faz parecer introspectivo. Ou talvez seja apenas cauteloso.

Seja lá o que o constitua como um todo, eu me vejo olhando um projeto no qual desejo embarcar. Um desafio. Quero desvendá-lo, ver o que esse cara tem para ser a única pessoa no planeta que me desperta curiosidade genuína.

Samson corre o polegar pelo lábio inferior, de um jeito tão natural que fico encarando sua boca.

— Tinha um pescador que costumava vir bastante aqui — diz ele.

— O nome dele era Rake. Ele morava no próprio barco e cruzava a costa de cima a baixo, daqui até South Padre. Às vezes ancorava o barco bem ali, nadava até a praia e se juntava a um grupo de pessoas aleatórias, gente que estava cozinhando. Não lembro de muita coisa a respeito dele, mas sei que ele escrevia poemas em uns pedaços de papel e entregava às pessoas. Acho que era isso o que mais me fascinava nele. Era um pescador destemido que escrevia poesia. — Samson sorri. — Eu me lembro de achar que ele era tipo uma criatura mítica intocável. — Ele faz uma pausa e vai fechando o sorriso. — Em 2008, o furacão Ike atingiu a costa. Destruiu quase toda a ilha. Eu estava ajudando na remoção dos destroços quando encontrei o barco do Rake mais para o canto da península, em Gilchrist. Estava todo destruído. — Com os olhos fixos no pingente, ele corre os dedos pelo colar. — Peguei um pedaço do barco e fiz este colar.

Ainda tocando o colar, ele torna a olhar o oceano e vai deslizando o pingente de madeira pelo cordão.

— O que aconteceu com o Rake?

Samson me olha.

— Não sei. Ele não era morador da área, tecnicamente, então não foi computado entre os mortos e desaparecidos. Mas ele jamais abandonaria o barco, nem durante um furacão. Para ser honesto, não sei de alguém que o tenha procurado ativamente. Não sei nem se alguém deu falta dele depois do furacão.

— Você deu.

A expressão de Samson muda. Há uma tristeza nele, e um pouco dessa tristeza escapa. Eu não gosto, pois ao que parece a tristeza é uma sensação à qual me conecto. Sinto seu olhar tocar fundo em minha alma.

Samson não tem nada a ver com a pessoa que achei que fosse quando o conheci. Não sei como processar isso. Admitir que ele é o contrário do que imaginei me deixa decepcionada comigo mesma. Nunca me considerei uma pessoa preconceituosa, mas acho que sou. Eu o julguei. Julguei Sara.

Desvio os olhos de Samson e me levanto. Vou até o nível inferior do telhado e me viro para a janelinha. Trocamos um olhar silencioso, por pelo menos cinco segundos.

— Eu estava errada a seu respeito.

Samson assente, ainda me encarando.

— Tudo bem — diz ele, com sinceridade, como se não guardasse qualquer mágoa de mim.

Não costumo topar com muita gente com quem sinto que posso aprender algo, mas talvez ele já tenha me desvendado mais do que eu o desvendei. Acho isso atraente.

Saio do telhado e desço as escadas com uma sensação de peso bem maior do que quando subi.

Ao sair da casa, vejo o cachorro no mesmo lugar. Ele me olha, empolgado, e balança o rabinho quando chego ao térreo.

— Olha só, que obediente.

Eu me abaixo e faço um carinho nele. Sua pelagem é opaca e emaranhada. Essa pobre criaturinha abandonada me remete tanto a mim mesma.

— Esse cachorro é seu?

Localizo a voz e vejo uma mulher sentada a uma mesa de piquenique, na área inferior da casa. Ela tem um saco no colo e remexe alguma coisa dentro. É mais velha, talvez uns setenta anos.

Deve ser Marjorie.

— Não sei — respondo, olhando o cachorro. — A gente acabou de se conhecer.

Eu me aproximo da mesa. O cachorro vem atrás.

— Você é amiga do Samson? — pergunta ela.

— Não sei — repito. — A gente também acabou de se conhecer.

Ela ri.

— Bom... se você o compreender, me avise. Esse rapaz é uma incógnita.

Pelo visto não sou a única que pensa isso dele.

— Ele me chamou para olhar a vista do seu telhado. É

estonteante. — Agora, mais de perto, vejo que ela está abrindo nozes-pecãs. Eu me recosto numa das pilastras que sustentam a casa. — Há quanto tempo você conhece o Samson?

Ela ergue a cabeça, pensativa.

— Desde o começo do ano, talvez. Sofri um infarto em fevereiro.

Já não me locomovo como antes, então ele passa aqui de vez em quando e eu o encho de trabalho. Ele não reclama. Nem me cobra, então não sei bem o que ele ganha com isso.

Dou um sorriso. Gosto de saber que ele não tira dinheiro dela. Não que ela não tenha condições de pagar. Mora na maior casa do bairro mais bacana desta península. Não é a mais moderna. Na verdade é até meio antiga, mas tem personalidade. Parece bastante usada, ao contrário de várias outras casas, idênticas e arrumadinhas para aluguel.

— Adorei a sua casa — comento, olhando em volta. — Como é que se chama esse piso aqui?

— É o piso pilotis — responde ela, e aponta para o alto da cabeça.

— O de cima a gente diz que é o primeiro andar.

Olho as outras casas à nossa volta. Algumas fecharam o piso pilotis. Algumas transformaram em garagem. Gosto da de Marjorie.

Ela tem um bar de bebidas, uma mesa de piquenique e umas redes presas a algumas das pilastras.

— Tem gente que gosta de transformar o piso pilotis em quarto extra — diz ela. — Os imbecis aqui do lado fecharam a área toda e construíram um quarto de hóspedes. Fica meio escuro, mas eles não pediram a minha opinião. Daqui a pouco vão se dar conta. Às vezes o oceano é nosso vizinho, mas às vezes dorme na nossa cama. —

Ela acena para que eu me aproxime. — Vem cá. Toma, para você.

Ela me entrega um grande saco de nozes-pecãs com casca.

— Não precisa me dar — digo, tentando devolver.

Ela abana a mão.

— Pode ficar. Já tenho muitas.

Não faço ideia do que vou fazer com meio quilo de noz-pecã. Acho que vou dar para Alana.

— Valeu.

Marjorie meneia a cabeça para o cachorro.

— Já deu um nome para ele?

— Não.

— Devia chamar de Queijo Pepper Jack.