Até o verão terminar

Colleen Hoover · Capítulo 14 de 37

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Até o verão terminar

Doze

— Ele estava me ajudando! — eu grito. — Solta ele!

Meu pai afrouxa um pouco a garganta de Samson, mas ainda não solta. Samson está com o nariz sangrando. Tenho certeza de que ele poderia revidar, mas não revida. Fica só balançando a cabeça, encarando meu pai com os olhos arregalados.

— Eu não estava... ela foi queimada por uma água-viva. Eu estava ajudando.

Meu pai olha por sobre o ombro, procurando por mim. Quando trocamos olhares, meneio a cabeça com vigor.

— É verdade. Ele estava botando vinagre na minha perna.

— Mas eu te ouvi falar... — Ao perceber o mal-entendido, meu pai fecha os olhos e dá um suspiro profundo. — Merda — diz ele, soltando Samson, que agora tem sangue escorrendo pelo pescoço.

Meu pai põe as mãos na cintura e passa uns segundos tentando recuperar o fôlego. Então, aponta para Samson.

— Vem para dentro — murmura ele. — Acho que quebrei o seu nariz.

Doze

Samson está debruçado na bancada da pia do banheiro de hóspedes, pressionando um pano no nariz para estancar o sangramento. Eu estou sentada na banheira vazia, com uma compressa quente. A porta do banheiro está entreaberta, e por mais que Alana e meu pai estejam no outro extremo do corredor, ouvimos toda a conversa.

— Ele vai processar a gente — diz meu pai.

Samson ri baixinho.

— Não vou processar — sussurra.

— Ele não vai fazer isso — devolve Alana.

— Você não sabe — diz meu pai. — A gente mal se conhece, e eu quebrei o nariz dele.

Samson olha para mim.

— Não está quebrado. Ele nem é tão forte assim.

Eu rio.

— Estou confusa — diz Alana, no corredor. — Por que você bateu nele?

— Os dois estavam no chuveiro lá de fora. Achei que ele estivesse...

— A gente está ouvindo! — eu grito. Não quero que ele conclua a frase. A situação já está constrangedora demais.

Meu pai caminha até o banheiro e escancara a porta.

— Você está tomando pílula?

Ai, meu Deus.

Alana tenta tirá-lo do banheiro.

— Brian, na frente do garoto não.

Samson tira o pano do nariz e espreme os olhos para mim.

— Garoto? — sussurra. Pelo menos não perdeu o senso de humor.

— Acho que é melhor você ir — digo. — Isso está ficando muito constrangedor.

Samson assente, mas meu pai volta à porta do banheiro.

— Não estou te proibindo de fazer sexo. Você já é quase adulta.

Só quero que você se proteja.

— Eu sou adulta. Não tem nada de quase adulta — devolvo.

Samson está parado junto a meu pai, que bloqueia toda a passagem. Não percebe que Samson está tentando se espremer junto à porta, para escapar.

— Só consigo sair por aqui — diz Samson a meu pai, apontando por sobre seu ombro. — Me deixe sair, por favor.

Ao perceber que está bloqueando a passagem, meu pai dá um passo para o lado.

— Desculpe pelo nariz.

Samson assente e vai embora. Eu queria poder fugir também, mas tenho certeza de que ainda há tentáculos presos à minha perna, e dói demais quando me mexo.

Meu pai volta a atenção a mim.

— Se você ainda não estiver tomando pílula, a Alana pode te ajudar.

— A gente não está... eu e o Samson não estamos... deixa para lá.

— Eu me ergo da banheira. — Essa é uma conversa muito intensa, e a minha coxa parece que está derretendo. Será que a gente pode continuar depois, por favor?

Os dois assentem, mas meu pai vem andando atrás de mim.

— Pode perguntar à Sara. Somos muito abertos em relação a essas coisas, caso queira conversar.

— Agora eu já sei disso. Obrigada — respondo, subindo a escada até meu quarto.

Eita... então é essa a sensação de ter pais presentes? Não sei bem se estou gostando.

Sigo direto até a janela do quarto e observo Samson entrar em casa. Ele acende a luz da cozinha, debruça o corpo sobre a bancada e se encolhe todo, pressionando a testa no granito. Segura o pescoço com as duas mãos.

Não sei o que pensar disso. Será um sinal de arrependimento? Ou será só o transtorno de ter levado dois socos sem revidar? A reação dele neste momento me enche de perguntas. E sei que ele provavelmente não vai responder nenhuma. Ele é um cofre, e eu queria muito ter a chave.

Ou uns explosivos.

Quero uma desculpa para ir até lá, para olhá-lo de perto e entender por que ele está tão aborrecido. Preciso saber se é porque quase me beijou.

Será que tentaria de novo, se eu desse chance?

Quero dar chance. Desejo esse beijo quase tanto quanto não desejo.

Estou com o cartão de memória dele. Posso ir devolver. Só que ainda não olhei as fotografias. E quero muito ver, antes de devolver o cartão.

Sara tem um computador no quarto. Pego o cartão de memória na mochila e vou até o computador dela.

Espero vários minutos até que todas as imagens apareçam. São muitas. As primeiras são todas fotos de natureza. Todas as coisas que ele falou que fotografava. Incontáveis sóis, nascendo e se pondo. Registros da praia. Mas não são necessariamente imagens bonitas. São de uma tristeza apaziguante. A maioria tem o foco em algo aleatório, como um objeto descartado na água ou umas algas sobre a areia.

É interessante. Parece que ele leva o foco ao ponto mais triste da imagem capturada pela lente, mas de modo geral preservando a beleza da fotografia.

Minhas fotos começam a carregar. Há mais imagens do que imaginei, e ao que parece ele começou a me fotografar antes mesmo

de eu passar para a frente da balsa.

Na maioria das imagens eu estou na lateral da balsa, sozinha, olhando o pôr do sol.

Em todas as fotos o foco está em mim. Nada mais. Com base em todas as outras fotos, suponho que ele tenha me considerado a parte mais triste daquele cenário.

Uma imagem em especial me impressiona demais. O foco, bem ampliado, repousa num pequeno rasgo nas costas de meu vestido, que eu nem sabia que existia. Mesmo focada em algo triste como minha roupa, a imagem é impressionante. Meu rosto está fora de foco, e se a imagem retratasse qualquer outra pessoa eu diria ser uma bela obra de arte.

Só que sinto uma imensa vergonha por ele ter prestado tanta atenção em mim antes que eu sequer notasse sua presença.

Percorro todas as imagens e percebo que não há um único registro meu comendo o pão. Fico pensando por que razão ele não fotografou aquele momento.

Isso diz muito a respeito dele. Eu me arrependo de ter reagido como reagi aquele dia na balsa, quando ele tentou me oferecer dinheiro. Samson talvez seja um ser humano decente, e as fotografias do cartão de memória reforçam isso.

Puxo o cartão do computador, e embora ainda esteja com dor e deseje me enfiar na cama e dormir, desço as escadas, saio de casa e cruzo o quintal. Samson sempre usa a porta dos fundos, então caminho até lá. Subo a escada e bato à porta.

Espero um pouco, mas não ouço passos, e do ponto onde estou também não consigo ver a cozinha. Mas ouço um barulhinho atrás de mim. Dou meia-volta e vejo P.J. sentado na escada, a me observar. Abro um sorrisinho. Que bom saber que ele ainda está por perto.

Depois de um momento, Samson abre a porta. Do momento em que eu o observava pela janela ao instante em que bati à sua porta, ele trocou de roupa. Está usando uma das camisetas da HisPanic de Marcos, que parece ser a única coisa que usa quando não está sem camisa. Gosto de ver seu entusiasmo pela empreitada de Marcos. A amizade dos dois é meio adorável.

Samson está descalço, e observo os pés dele, não sei por quê.

Então ergo os olhos até seu rosto.

— Só vim trazer seu cartão de memória — digo, entregando o cartão a ele.

— Valeu.

— Não apaguei nada.

Samson entorta o cantinho esquerdo da boca.

— Imaginei que não fosse apagar.

Ele dá um passo para o lado e faz um gesto para que eu me aproxime. Espremida entre ele e o batente da porta, adentro a casa escura. Ele acende a luz. Tento disfarçar um arquejo, pois o interior da casa é ainda maior do que parece do lado de fora.

Tudo é branco, sem cor. As paredes, os armários, os acabamentos. O piso é de madeira escura, quase preta. Vou girando o corpo, admirando a beleza do ambiente, mas reconhecendo como essa casa não tem jeito de casa. Não tem alma aqui dentro.

— É meio... Estéril.

Assim que verbalizo isso, desejo não ter feito. Ele não pediu minha opinião a respeito de sua casa, mas é difícil não notar que ela parece não abrigar vida.

Samson dá de ombros, como se a minha opinião não o incomodasse.

— É uma casa de aluguel. São todas iguais. Bem genéricas.

— É tão limpa.

— Às vezes as pessoas alugam de última hora. Para mim é mais fácil deixar as casas preparadas. — Ele caminha até a geladeira, abre e abana a mão lá dentro. Está vazia, exceto por uns temperos na porta. — Nada na geladeira. Nada na despensa.

Ele fecha a porta da geladeira.

— Onde é que você guarda comida?

Ele aponta para um armário, perto da escada que leva ao andar de cima.

— As coisas que queremos deixar inacessíveis aos locatários a gente guarda naquele armário. Lá tem um frigobar. — Ele aponta para uma mochila junto à porta. — O resto das minhas coisas fica naquela mochila. Quanto menos eu tenho, mais fácil é me deslocar entre as propriedades.

Eu já o vi com essa mochila algumas vezes, mas não dei muita atenção. É meio irônico que nós dois transportemos a vida numa mochila, apesar do abismo social que nos separa.

Olho para uma moldura na parede próxima à porta. É a única coisa que confere personalidade à casa. Vou andando até lá. É a fotografia de um garotinho, de seus três anos de idade, caminhando na praia.

Atrás dele há uma mulher de vestido branco e florido. Está sorrindo para o fotógrafo, seja lá quem for.

— Essa é a sua mãe?

Parece aquelas fotos de família perfeita que ilustram os porta-retratos à venda.

Samson faz que sim.

— Então esse é você? Pequenininho?

Ele faz que sim outra vez.

O cabelinho do menino é tão loiro, que parece branco. Agora está mais escuro, mas eu ainda o consideraria loiro. Não sei se no inverno fica tão claro. Parece o tipo de cabelo que muda a cada estação.

Eu me pergunto como será o pai de Samson, mas não vejo nenhuma fotografia dele. Esta é a única foto que vejo ao meu redor.

Encaro a imagem e sou invadida por muitas outras perguntas. A mãe dele parece feliz. Ele parece feliz. O que será que aconteceu para torná-lo tão reservado e recolhido? Será que a mãe dele morreu? Duvido que ele falaria a respeito se eu perguntasse.

Samson acende outras lâmpadas e se apoia no balcão da cozinha.

Não sei como ele pode parecer tão displicente, sendo que todos os meus músculos estão rígidos de tanta tensão.

— A sua perna está melhor? — pergunta ele.

Percebo que ele não quer falar da foto, nem da mãe, nem de nada que desvende uma camada mais profunda. Entro na cozinha e paro à frente dele, debruçada do outro lado da grande bancada. É onde Cadence estava sentada umas noites atrás, quando vi os dois se beijando.

Afasto o pensamento.

— Um pouco. Mas duvido que eu tenha coragem de entrar na água outra vez.

— Você vai ficar bem. É raro isso acontecer.

— Pois é, foi o que você disse mais cedo, e daí aconteceu.

Ele sorri.

Desejo retornar ao nosso momento. Quero a sensação que tive quando ele me puxou para perto e beijou meu ombro. Mas não sei como recuperar. Está tão claro aqui. A atmosfera está diferente da que pairava no mar.

Acho que talvez eu não goste desta casa.

— E o seu rosto, como está? — pergunto, e ele corre a mão pela mandíbula.

— A mandíbula dói mais que o nariz. — Ele baixa a mão e a segura a lateral da bancada. — O seu pai foi bacana.

— Acha que ele foi bacana por ter te atacado?

— Não. Acho que o jeito como ele te protegeu foi bacana.

De fato, eu não tinha pensado nisso. Meu pai não pensou duas vezes ao ouvir meu pedido para que ele parasse. Só não sei ao certo se foi por proteção a mim. Ele teria protegido qualquer pessoa nessa situação, tenho certeza.

— Onde é que você fica quando esta casa é alugada? —

pergunto, para mudar de assunto.

— A gente só aluga quatro casas por vez, então eu sempre tenho onde ficar. Esta aqui é a mais cara, então sempre acaba ficando menos tempo alugada. Passo setenta e cinco por cento do tempo aqui.

Olho em volta, tentando encontrar algo similar à fotografia, que me dê uma pista sobre o passado dele. Não encontro nada.

— É meio irônico — comento. — Você tem cinco casas, mas nenhuma é sua casa de verdade. A geladeira fica vazia. Você guarda suas coisas numa mochila. É surpreendente, mas de fato nós vivemos vidas muito parecidas.

Ele não responde. Apenas me observa. Faz muito isso, e eu gosto.

Não me interessa o que ele pensa ao me olhar. Só gosto de saber que ele me considera intrigante a ponto de me encarar, mesmo que seus pensamentos não sejam totalmente positivos. Significa que ele me vê. Não estou acostumada a ser vista.

— Qual é o seu sobrenome? — indago.

Samson parece achar graça.

— Você pergunta demais.

— Eu avisei que perguntaria.

— Acho que agora está na minha vez.

— Mas não consegui descobrir nada. Suas respostas são horríveis.

Ele não discorda, mas também não responde. Espreme o cantinho dos olhos e pensa em sua própria pergunta.

— O que você pretende fazer da vida, Beyah?

— Que pergunta abrangente. Parece um orientador educacional.

Ele dá uma risadinha, e eu sinto um frio na barriga.

— O que você vai fazer depois que o verão acabar? — explica ele.

Eu reflito. Será que devo ser honesta? Se eu for honesta, talvez ele se abra um pouco mais comigo.

— Eu até conto, mas você não pode falar para ninguém.

— É segredo?

Concordo com a cabeça.

— É.

— Não vou falar para ninguém.

Eu confio nele. Não sei o motivo, visto que não confio em ninguém.

Ou sou uma idiota, ou estou profundamente atraída por ele, e não fico feliz com nenhuma das opções.

— Ganhei uma bolsa integral na Universidade da Pensilvânia. Me mudo para a república no dia três de agosto.

Ele ergue de leve a sobrancelha.

— Você ganhou uma bolsa?

— Ganhei.

— Por conta de quê?

— Voleibol.

Ele faz aquela coisa com os olhos, vai me olhando de cima a baixo. Não de um jeito sedutor, mas curioso.

— Dá para ver. E que parte disso é segredo? — pergunta, ao tornar a encontrar meus olhos.

— Tudo. Eu não contei a ninguém. Nem ao meu pai.

— O seu próprio pai não sabe que você conseguiu uma bolsa?

— Não.

— Por que você não disse a ele?

— Porque isso faria ele pensar que fez alguma coisa certa. E eu precisei lutar por essa bolsa justamente porque ele fez tudo errado.

Samson assente, como se entendesse do que estou falando.

Desvio os olhos um instante, pois meu corpo todo esquenta quando eu o encaro demais. Temo que fique muito óbvio.

— O voleibol é a sua paixão?

Eu me detenho na pergunta. Ninguém nunca me perguntou isso antes.

— Não. Para ser honesta, eu nem gosto tanto assim.

— Por que não?

— Sempre me esforcei porque sabia que era a única rota de saída da cidade onde cresci. Mas ninguém nunca ia me ver jogar, então o esporte em si começou a ficar meio deprimente. As meninas da minha equipe recebiam os pais em todos os jogos, para torcer por elas. Eu nunca tinha ninguém me incentivando, e acho que isso impediu que eu amasse o esporte tanto quanto poderia. — Dou um suspiro e largo mais alguns pensamentos ao vento. — Às vezes fico pensando se estou fazendo a coisa certa em me submeter a mais quatro anos disso. Integrar uma equipe de pessoas com vidas tão diferentes da minha às vezes me traz uma solidão ainda maior do que não fazer parte de equipe nenhuma.

— Você não está animada para ir?

Dou de ombros.

— Estou orgulhosa de mim por ter conseguido a bolsa. E estava animada para sair do Kentucky. Mas, agora que estou aqui e tive a primeira trégua do voleibol depois de tantos anos, acho que não sinto falta. Estou começando a pensar se não devia ficar por aqui e arrumar um emprego. Tirar um ano sabático, quem sabe.

A última frase sai com um toque de sarcasmo, mas bem que começa a parecer bastante atraente. Passei muitos anos me esforçando feito uma condenada para sair do Kentucky. Agora que saí, sinto que preciso respirar. Reavaliar a minha vida.

— Você está pensando em abrir mão de uma bolsa numa universidade ótima só porque o esporte que te levou até lá às vezes te traz solidão? — pergunta ele.

— A sensação é mais complicada do que você está dando a entender.

— Quer saber o que eu acho?

— O quê?

— Acho que você devia usar um protetor auricular durante os jogos e simplesmente fingir que todo mundo está lá torcendo por você.

Dou uma risada.

— Achei que você fosse dizer algo profundo.

— Achei que isso fosse profundo — responde ele, com um sorriso, e percebo que sua mandíbula está arroxeada. Mas ele fecha o sorriso e inclina um pouco a cabeça. — Por que você chorou na sacada, na noite em que chegou aqui?

Ao ouvir essa pergunta, fico tensa. É um salto muito distante da conversa sobre voleibol. E não sei como responder. Ainda mais num lugar tão iluminado. Talvez, se este recinto não parecesse uma sala de interrogatório, eu me sentisse mais à vontade.

— Você pode apagar alguma dessas luzes? — pergunto, e ele parece confuso com o meu pedido. — Está muito claro aqui. Estou ficando desconfortável.

Samson vai até os interruptores e desliga todos, menos um. As luzes que adornam os armários ainda estão acesas, então o ambiente fica bem mais escuro, e eu relaxo quase no mesmo instante. E compreendo por que ele mantém a casa escura. A iluminação agressiva e as paredes muito brancas dão a sensação de um hospital psiquiátrico.

Ele retorna a seu lugar na bancada.

— Está melhor?

Faço um gesto em sinal positivo com a cabeça.

— Por que você estava chorando?

Solto o ar numa bufada, e desabafo antes que eu mude de ideia e decida mentir.

— A minha mãe morreu na véspera de eu vir para cá.

Samson não demonstra qualquer reação. Estou começando a achar que talvez a falta de reação seja sua forma de reagir.

— Isso também é segredo — digo. — Ainda não contei ao meu pai.A expressão dele é séria.

— Como foi que ela morreu?

— Overdose. Encontrei o corpo quando cheguei do trabalho.

— Eu sinto muito — diz Samson, com sinceridade. — Você está bem?

Dou de ombros, meio indecisa, e parece que alguns dos sentimentos que me fizeram chorar na sacada começam a me invadir outra vez. Eu não estava preparada para falar disso. Não queria, honestamente. Sendo bem sincera, não acho que seja justo que eu não consiga deixar de responder às perguntas dele, mas ele não se abra em relação a nada.

Perto dele eu me sinto feito uma cachoeira, desabando aos borbotões e espalhando meus segredos.

Ao ver meus olhos se encherem de lágrimas, a expressão de Samson ganha um ar de empatia.

Ele se afasta da bancada e começa a vir em minha direção, mas no mesmo instante eu enrijeço as costas e balanço a cabeça.

Estendo a mão contra o peito dele, impedindo que ele me toque.

— Não. Não me abrace. Vai parecer condescendente, agora que você sabe que nunca fui abraçada desse jeito.

Samson balança a cabeça bem de leve e me encara.

— Eu não ia te abraçar, Beyah.

Seu rosto está tão próximo do meu, que sinto o sopro de sua respiração quando ele fala. Sinto-me quase deslizando até o chão, então seguro a pontinha da bancada atrás de mim.

Ele baixa a cabeça até tocar os lábios nos meus. Sua boca é suave, feito um pedido de desculpas, e eu aceito.

Ele empurra minha boca com a língua; eu o recebo, puxo-o para mim e entrelaço os dedos em seus cabelos. Nossos corpos se encontram, e uma língua desliza na outra, quentes, macias e molhadas.

Eu quero este beijo, por mais que só esteja acontecendo porque ele tem atração por coisas tristes.

Ele me puxa mais para perto. Num movimento ligeiro, ergue meu corpo por sobre a bancada e me acomoda entre suas pernas.

Desliza a mão esquerda por minha coxa, escorrega os dedos pela parte interna.

Sou invadida por sensações que não costumo sentir. Calor, luz, energia.

E isso me assusta.

O beijo dele me assusta.

Não sou impenetrável a essa boca. Sou vulnerável, e me sinto baixar a guarda. Eu entregaria todos os meus segredos a ele agora, e não sou assim. Seu beijo é tão potente, que me transforma em alguém que não reconheço. Que amo, e ao mesmo tempo odeio.

Por mais que eu tente manter o foco no presente, é difícil não evocar a imagem do que aconteceu entre ele e Cadence. Não quero ser só mais uma garota que ele agarra na bancada da cozinha.

Não sei bem se conseguiria lidar com ser descartada por Samson como fui por Dakota. Prefiro não ser beijada a permitir que isso torne a acontecer, que eu olhe pela janela do meu quarto e veja alguém neste mesmo lugar, sentindo as mesmas coisas que ele está me fazendo sentir agora.

As mesmas coisas que Dakota me fez sentir, imediatamente antes de se afastar de mim e arruinar vários anos de minha vida com um único gesto.

Meu Deus, e se o Samson se afastar e me olhar como o Dakota me olhou aquela noite, em sua picape?

O pensamento me deixa nauseada.

Preciso de ar. Preciso de ar fresco. Que não seja dos pulmões dele, nem desta casa estéril.

Interrompo o beijo abruptamente, sem aviso. Empurro Samson e desço da bancada, deixando-o confuso. Evito seu olhar e corro até a porta. Saio da casa e agarro o parapeito da sacada, tentando respirar.

Já passei muitas coisas na vida, e não quero ver um cara mudar tudo o que mais aprecio em mim mesma. Sempre tive orgulho da minha determinação impenetrável, mas ele tem o poder de se infiltrar em mim, de alguma forma, como se eu fosse cheia de buraquinhos.

Dakota nunca tocou tão fundo dentro de mim.

Ouço Samson vindo atrás de mim. Não me viro para encará-lo.

Respiro fundo outra vez, então fecho os olhos. Mas posso senti-lo perto. Quieto, introvertido, sexy, contido. Por que interrompi o beijo, então?

Acho que talvez Dakota tenha me estragado.

Quando abro os olhos, Samson está debruçado no parapeito, encarando o chão.

Nossos olhares se encontram, e é como se eu visse meus próprios medos me encarando de volta. Não desviamos os olhos. Nunca encarei tanto alguém em silêncio quanto já fiz com ele. Olhamos muito e falamos pouco, mas as duas coisas parecem igualmente produtivas. Ou improdutivas. Não sei nem o que pensar sobre o que está acontecendo entre nós. Em certos momentos parece grandioso, importante, e em outros parece a coisa mais ínfima.

— Foi o pior momento para te beijar — diz ele. — Me desculpa.

Acho que muita gente concordaria que beijar uma garota logo depois de ela contar que a mãe morreu — ou por causa disso — é um péssimo movimento.

Talvez eu seja doida das ideias, mas achei perfeito. Até que deixou de ser.

— Não foi por isso que eu saí.

— O que houve, então?

Solto um suspiro silencioso, pensando em como responder. Não quero mencionar meu medo de que ele no fundo não seja melhor que Dakota. Não quero mencionar Cadence, nem o fato de que ele só fica com garotas que vêm passar o fim de semana. Ele não me deve nada. Fui eu quem bati à porta dele, querendo que isso acontecesse.

Balanço a cabeça.

— Não quero responder isso.

Ele dá meia-volta e se debruça no parapeito, ao meu lado. Cutuca uma lasca de tinta e puxa, até revelar um pedacinho de madeira crua. Dá um peteleco na lasca, e nós observamos o fragmento voar até cair no chão.

— Minha mãe morreu quando eu tinha cinco anos — diz ele. — A gente estava nadando a uns oitocentos metros daqui, e ela foi levada pela maré. Quando conseguiram resgatar, não deu mais tempo.

Ele me olha, certamente para avaliar minha reação. Mas não é o único capaz de esconder bem as emoções.

Tenho a sensação de que ele não disse isso a muita gente.

Segredo por segredo. Talvez seja assim que vai ser. Talvez seja assim que vou conseguir remover as camadas de Samson — só depois de remover as minhas próprias.

— Que coisa terrível — sussurro.

Mantenho os braços cruzados sobre o parapeito, mas me inclino de leve para perto dele. Pressiono a boca em seu ombro. E o beijo bem ali, como ele fez comigo dentro da água.

Quando me afasto, ele leva a mão ao meu rosto. Corre o polegar por minha bochecha, mas inclina a cabeça para tentar me beijar outra vez, e eu no mesmo instante me afasto.

Eu me encolho, pois sinto vergonha de minha própria indecisão.

Ele se afasta do corrimão, alisa o cabelo e me olha, atrás de uma explicação. Sei que estou dando sinais muito confusos, mas é um reflexo do que está se passando dentro de mim. Eu me sinto mexida e caótica, como se meus sentimentos atuais e as experiências passadas tivessem sido jogados todos num liquidificador ligado na potência máxima.

— Me desculpa — digo, frustrada comigo mesma. — Não tive experiências muito boas com os homens, então me sinto...

— Hesitante? — sugere ele.

Gesticulo a cabeça positivamente.

— Isso. E confusa.

Ele começa a cutucar a madeira, no mesmo ponto de antes.

— Qual foi a sua experiência com os homens?

Solto uma risada apática.

— Homens é um exagero. Só fiquei com um.

— Achei que você tivesse dito que nunca sofreu uma dor de amor.

— E não sofri. Não foi esse tipo de experiência.

Samson me olha de soslaio, esperando que eu elabore. Não há como elaborar isso.

— Ele te forçou a fazer algo que você não queria? — pergunta Samson, com a mandíbula cerrada, como se já tomado pela raiva.

— Não — respondo rapidamente, para que ele tire essa ideia da cabeça. Então penso em minha vida no Kentucky e no tempo que passei com Dakota. Agora que já saí daquela situação, enxergo as coisas de um jeito diferente.

Dakota nunca me forçou a fazer nada. Mas com certeza não facilitou as coisas para mim. Em termos de vantagem, ocupávamos posições muitíssimo desiguais.

Pensar nisso é revolver pensamentos obscuros. Sensações obscuras. Lágrimas começam a me arder os olhos, e Samson

percebe que prendo o ar para tentar contê-las. Ele se vira de costas para o parapeito, para ver meu rosto melhor.

— O que aconteceu com você, Beyah?

Dou uma risada, pois é absurdo que eu sequer esteja pensando nisso agora. Na maior parte do tempo, faço uso de meus talentos para não pensar a respeito. Sinto uma lágrima descer por meu rosto.

E esfrego, mais que depressa.

— Não é justo — sussurro.

— O quê?

— Por que é que eu acabo querendo responder todas as perguntas que você me faz?

— Você não precisa me contar o que aconteceu.

Faço contato visual com ele.

— Mas eu quero.

— Então conta — devolve Samson, com delicadeza.

Olho tudo à minha volta, menos ele. Olho o teto da sacada, o chão, o oceano à minha frente.

— O nome dele era Dakota. Eu tinha quinze anos. Estava no primeiro ano do ensino médio. Ele estava no último. O cara com quem todas as garotas da escola queriam ficar. O cara que todos os outros queriam ser. Eu tinha uma quedinha por ele, como todo mundo. Nada de mais. Daí, uma noite, ele me viu andando para casa depois de uma partida de vôlei e me ofereceu carona. Recusei, por vergonha de que ele visse onde eu morava, por mais que todo mundo soubesse. Mas ele me convenceu a entrar na picape mesmo assim.

Resolvo olhar de volta para Samson. Ele está outra vez com a mandíbula tensa, como se esperasse que a história tomasse o rumo que ele havia suposto. Mas não toma.

Nem sei por que estou contando isso a ele. Talvez seja um desejo inconsciente de que depois de ouvir a história ele me deixe em paz pelo resto do verão, e eu me livre dessa intensa e constante distração.

Ou talvez eu queira que ele me diga que não fiz nada de errado.

— Ele me levou para casa, e passamos meia hora conversando.

Ele se sentou na entrada da minha garagem e não me julgou. Me escutou. Conversamos sobre música e voleibol e como ele odiava ser filho do delegado de polícia. Então... ele me beijou. E foi perfeito.

Por um instante, achei que o que eu imaginava que os outros pensavam de mim talvez não fosse verdade.

Samson ergue as sobrancelhas.

— Por que só por um instante? O que aconteceu depois que ele te beijou?

Eu sorrio, mas não porque é uma lembrança afetuosa. Sorrio porque a lembrança me traz uma sensação de ignorância. Como se eu não pudesse ter esperado outra coisa.

— Ele puxou duas notas de vinte da carteira e me entregou. E

abriu o zíper da calça jeans.

A expressão de Samson é vaga. A maioria das pessoas presumiria ser esse o fim da história. Presumiria que eu tinha devolvido o dinheiro a Dakota e saído da picape. Mas, pelo olhar de Samson, vejo que ele sabe que não foi bem assim.

Cruzo os braços na frente do peito.

— Quarenta dólares era muito dinheiro — digo, enquanto outra lágrima desce por meu rosto. No último instante, faz uma curva e cai em meu lábio. Consigo sentir o gosto salgado quando a afasto. —

Depois disso, ele passou a me dar carona uma vez por mês. Nunca falava comigo em público. Mas eu nem esperava isso. Eu não era o tipo de garota com quem ele podia desfilar pela cidade. Era o tipo de garota sobre quem ele não contava nem para os amigos mais próximos.

Desejo que Samson diga alguma coisa, pois enquanto ele só me encara eu continuo balbuciando.

— Então, respondendo a sua pergunta, não, ele não me forçou a fazer nada. Para ser honesta, ele nunca nem jogou isso na minha cara. Até que era um cara decente, comparado aos...

— Você tinha quinze anos quando aconteceu pela primeira vez, Beyah — interrompe Samson. — Não chama esse cara de decente.

O final de minha frase fica entalado na garganta, então engulo em seco.

— Um cara decente teria te oferecido dinheiro sem esperar nada em troca — continua ele. — O que ele fez foi... — Samson parece tomado de repulsa. Não sei bem se é por Dakota ou por mim. Ele

corre a mão frustrada pelo cabelo. — Aquele dia, na balsa, quando te dei dinheiro... foi isso o que você pensou...

— Foi — respondi, baixinho.

— Você sabe que não era a minha intenção, né?

Concordo com a cabeça.

— Agora eu sei. Mas, mesmo assim... fiquei com medo quando você me beijou. Por isso vim aqui para fora. Temi que você me olhasse do mesmo jeito que o Dakota. Prefiro não ser beijada nunca mais a me sentir tão sem valor.

— Eu te beijei porque gosto de você.

Fico pensando se isso é verdade. Será que são palavras honestas ou convenientes? Será que ele já disse isso antes?

— Você gosta da Cadence também? E de todas as outras garotas com quem já ficou?

Não estou querendo jogar na cara dele. Estou curiosa de verdade. Como é que uma pessoa se sente quando beija outras com tamanha frequência?

Samson parece não se ofender com minha pergunta, mas ainda sinto que o deixei desconfortável. Ele enrijece um pouquinho a postura.

— Sinto atração por elas. Mas com você é diferente. Um tipo de atração diferente.

— Melhor ou pior?

Ele para e reflete um instante.

— Mais assustadora.

Dou uma risada curta. Acho que não deveria tomar isso como um elogio, mas tomo, pois quer dizer que ele está provando um pouco do medo que eu mesma sinto quando estamos juntos.

— Você acha que as garotas com quem fica gostam da sua companhia? — pergunto. — O que é que elas ganham com uma ficada de fim de semana?

— A mesma coisa que eu.

— O quê?

Agora é muito evidente o desconforto de Samson. Ele suspira e se debruça outra vez sobre o parapeito.

— Você não gostou do nosso beijo de mais cedo?

— Gostei — respondo. — Mas ao mesmo tempo não.

Eu me sinto à vontade em sua presença isenta, e é confuso, pois se eu me sinto à vontade e atraída, por que entrei em pânico quando ele me beijou?

— Esse Dakota pegou uma coisa que deveria ser gostosa e transformou numa vergonha para você. Não é assim com todas as garotas. As garotas com quem eu estive... elas aproveitam tanto quanto eu. Se não, não permitiriam que acontecesse.

— Eu gostei um pouquinho — admito. — Só não o tempo todo.

Mas a culpa não foi sua, óbvio.

— Também não foi culpa sua. E não vou te beijar outra vez. Só se você me pedir.

Não digo nada. Não entendo como isso pode parecer ao mesmo tempo um cavalheirismo e uma punição.

Ele abre um sorriso gentil.

— Não vou te beijar, não vou te abraçar, não vou te levar de novo para o mar.

— Meu Deus, que divertida que eu sou — respondo, revirando os olhos.

— É mesmo, não tenho dúvida. E eu, então? Só que a gente carrega muita coisa nos ombros, e não tem como saber como somos quando não estamos sob pressão.

Eu assinto, concordando totalmente.

— A Sara e o Marcos são divertidos. Mas... eu e você? Somos só... deprimentes.

Samson ri.

— Deprimentes, não. Somos profundos. Tem uma diferença.

— Se você diz...

Não sei como conseguimos terminar esta noite e esta conversa com os dois sorrindo. Mas receio que, se não for embora agora, um de nós vai acabar estragando o momento. Dou um passo e me afasto dele.

— Nos vemos amanhã?

O sorriso dele se esvai.

— A-hã. Boa noite, Beyah.

— Boa noite.

Vou andando e desço a escada. Queijo Pepper Jack se levanta e vem atrás de mim. Quando chegamos ao térreo de minha casa, eu

me viro e olho para ele. Samson ainda não entrou. Está debruçado no parapeito da sacada, olhando para mim. Dou mais uns passos em direção à casa.

Quando ele sai do meu campo de visão, paro de andar e me apoio numa das pilastras. Fecho os olhos e corro a mão pelo rosto. Não vou conseguir passar o verão todo ao lado dele e não querer ser totalmente consumida. Mas também não quero ser consumida por alguém de quem em breve terei que me despedir.

Às vezes posso até me sentir invencível, mas não sou a Mulher--

Maravilha.

•

Quando entro em casa, Alana está na cozinha. Está em frente à bancada, com uma taça de sorvete. Tira a colher da boca e sorri para mim.

— Está se sentindo melhor?

— Estou. Obrigada.

— E o Samson? Ele está bem?

Assinto com a cabeça.

— Está bem. Falou que meu pai nem é tão forte assim.

Alana ri.

— Fiquei surpresa em ver essa atitude nele. Não sabia que ele guardava isso dentro de si. — Ela aponta para o sorvete. — Quer um pouco?

Realmente, um pote de sorvete neste momento vai ser o paraíso.

Preciso me esfriar um pouco.

— Eu adoraria.

Alana pega uma tacinha no armário, e eu me sento. Ela tira o pote de sorvete do congelador e serve um pouco.

— Desculpe se a gente constrangeu você mais cedo.

— Tudo bem.

Alana empurra a taça de sorvete sobre a bancada. Provo um pouco, e é tão gostoso que sinto vontade de gemer. Mas como em silêncio, como se sorvete fosse algo corriqueiro em minha vida. Na realidade, nunca nem tivemos sorvete em casa. Aprendi a não guardar muita coisa congelada, pois quando a luz é cortada por falta

de pagamento é uma desgraça ter um congelador cheio de comida derretida e estragada para limpar.

— Posso te fazer uma pergunta? — diz Alana.

Eu assinto, mas não tiro a colher da boca. Estou nervosa pelo que ela vai perguntar. Só espero que não pergunte sobre minha mãe. Alana parece bacana, e não sei ao certo se posso mentir para ela, mas certamente não quero contar a verdade neste momento.

— Você é católica?

Por essa eu não esperava.

— Não. Por quê?

Ela estende a mão para o teto.

— Vi a imagem da Madre Teresa no seu quarto.

— Ah. Não. É só... é tipo uma recordação.

Ela meneia a cabeça.

— Então você não tem uma religião que pregue contra os métodos contraceptivos.

Ah, pronto. Desvio o olhar para o sorvete.

— Não. Mas atualmente não estou tomando nada. Eu não estou...

você sabe.

— Com vida sexual ativa? — Ela fala de um jeito tão corriqueiro.

— Isso. Não mais, pelo menos.

— Bom. Que bom saber. Mas, se ao longo do verão você perceber que essa situação pode mudar, não é má ideia estar preparada.

Posso marcar uma consulta para você.

Dou outra colherada no sorvete, para adiar a resposta. Ela deve estar vendo o rubor em meu rosto.

— Não há nada de que se envergonhar, Beyah.

— Eu sei. Só não estou acostumada a conversar sobre essas coisas.

Num gesto displicente, Alana joga a colher na taça vazia e caminha até a pia.

— Sua mãe nunca conversa com você?

Furo a bola de sorvete.

— Não.

Ela se vira e me olha por um instante, em silêncio.

— Como é que ela é?

— Minha mãe?

Ela assente.

— Isso. Seu pai nunca chegou a conhecê-la direito, e tenho curiosidade. Parece que ela te criou muito bem.

Dou uma risada.

Preferia não ter rido, pois percebo que minha reação fez brotar em Alana uma dúzia de outras perguntas. Abocanho outra colherada no sorvete e dou de ombros.

— Ela é bem diferente de você.

Minha intenção era fazer um elogio, mas Alana parece confusa com minha resposta. Espero que ela não tenha levado como insulto, mas na verdade não quero me aprofundar ainda mais nessa história, senão vou acabar contando a verdade. Quero guardar a notícia sobre minha mãe para meu pai. Sinto que devo contar a ele antes de dizer a Alana.

Eu devia ter contado a ele antes de falar com Samson, lógico.

Mas, por alguma razão, parece que não consigo segurar meus segredos quando estou perto de Samson.

Empurro a taça de sorvete, ainda pela metade.

— Quero começar a tomar pílula, sim. Não que o Samson e eu estejamos... — Olho para o teto e solto um suspiro. — Você entendeu. Mas quero estar segura, só por garantia.

Meu Deus, como é difícil falar disso. Ainda mais com uma mulher que é quase uma estranha.

Alana sorri.

— Amanhã marco uma consulta. Sem problemas.

— Valeu.

Alana se vira para lavar minha taça. Aproveito o ensejo e escapo rumo à minha privacidade no andar de cima. Quando estou quase entrando no quarto, escuto Sara:

— Espera aí, Beyah. Quero o relatório detalhado.

Paro e olho o quarto dela. A porta está aberta, e ela está sentada na cama com Marcos. Olha para ele e o dispensa com um abano de mão.

— Já pode ir para casa.

Ele faz uma cara de quem não está acostumado a ser dispensado.

— Beleza, então. — Ele se levanta, inclina o corpo e beija Sara. —

Eu te amo, mesmo você me expulsando.

Ela sorri.

— Também te amo, mas agora tenho uma irmã, então você vai ter que me dividir. — Ela dá uma batidinha no colchão onde Marcos estava e olha para mim. — Vem cá.

Marcos me cumprimenta ao sair do quarto de Sara.

— Fecha a porta — diz Sara a ele. Vou até a cama e me sento. Ela pausa o programa de tevê e se posiciona de frente para mim. —

Como é que foi?

Eu me recosto na cabeceira da cama.

— Sua mãe me encurralou com sorvete na cozinha e perguntou sobre a minha vida sexual.

Sara revira os olhos.

— Nunca caia no truque do sorvete. Ela usa comigo o tempo todo.

Mas não estou falando disso, e você sabe muito bem. Eu te vi andando até a casa do Samson mais cedo.

Penso se devo contar a Sara que nos beijamos, mas parece que é melhor guardar essa informação por enquanto. Pelo menos até eu descobrir se quero que aconteça de novo.

— Não rolou nada.

Ela murcha e se deita de costas.

— Aff. Quero os detalhes sórdidos.

— Não tem nenhum. Foi mal.

— Você pelo menos tentou flertar com ele? — pergunta ela, sentando-se de volta. — O Samson não precisa de muito estímulo para meter a boca numa garota. Se tiver peito e respirar, para ele já está bom.

Meu estômago vem até a boca com esse comentário.

— Esse comentário é para me fazer ficar com vontade? Porque não está ajudando em nada.

— Estou exagerando. Ele é rico e gostoso, então as garotas se jogam em cima, e às vezes ele pega. Que cara não pegaria?

— Não me jogo em cima de ninguém. Eu evito gente.

— Mas você foi até a casa dele.

Ergo uma sobrancelha, mas não respondo.

Sara sorri, como se para ela isso bastasse.

— De repente a gente podia sair de casal amanhã à noite.

Não quero encorajá-la, mas também não sei se me oponho à ideia.

— Vou levar seu silêncio como um sim — diz ela.

Dou uma risada, então solto um grunhido e cubro o rosto com as mãos.

— Argh. Isso é tudo tão confuso. — Abaixo os braços e me deito de barriga para cima, encarando o teto. — Acho que estou dando muita importância a isso. Fico tentando refletir sobre todas as razões pelas quais essa não é uma boa ideia.

— Fale algumas — diz Sara.

— Não sou boa de relacionamentos.

— Nem o Samson.

— Vou embora em agosto.

— O Samson também.

— E se a despedida for dolorosa?

— Vai ser, provavelmente.

— Então por que é que eu ia querer me sujeitar a isso?

— Porque na maioria das vezes a diversão que conduz à dor vale super a pena.

— Sei lá. Eu nunca me diverti.

— Pois é, dá para ver. Sem ofensa.

— Não me ofendi.

Viro a cabeça e olho para Sara. Ela está deitada de lado com a cabeça apoiada na mão.

— Nunca gostei de ninguém antes. Se isso acontecer, será que vou sofrer muito quando o verão terminar?

Sara balança a cabeça.

— Para com isso. Você está antecipando demais. O verão foi feito para a gente pensar no presente, e apenas no presente. Não no passado, nem no futuro. Pense em hoje. O que é que você quer agora?

— Agora? — pergunto.

— Isso. O que é que você quer agora?

— Outra taça de sorvete.

Sara se senta e abre um sorriso.

— Caramba, eu adoro ter uma irmã.