Até o verão terminar
Vinte e cinco
Mas meu pai já tem a cabeça feita.
— Preciso de um banheiro — digo. Preciso respirar um pouco antes de entrar no carro com meu pai.
A policial aponta para o fim do corredor. Corro até o banheiro, espero a porta se fechar e inspiro o máximo de ar que cabe em meus pulmões. Lentamente, solto o ar e caminho até o espelho.
Olho meu próprio reflexo. Antes de Samson, quando eu me olhava no espelho, via uma garota que não era importante para ninguém.
No entanto, desde que o conheci, toda vez que me olho no espelho vejo uma garota que é importante para alguém.
O que será que Samson vê quando se olha no espelho?
Será que ele tem ideia de quanto é importante para mim?
Queria ter dito isso a ele ontem à noite, quando tive a chance.
Vinte e cinco
São sete da manhã quando eu e meu pai encostamos o carro na garagem. Queijo Pepper Jack começa a abanar o rabo, esperando que eu abra a porta do passageiro.
Só quero ficar juntinho do meu cachorro.
Estou cansada de responder perguntas, e P.J. vai ser o primeiro ser vivo nas últimas vinte e quatro horas que não vai me interrogar.
Meu pai sobe as escadas, e eu escolho permanecer no térreo.
Sento-me à mesa de piquenique e coço a cabecinha de P.J.
enquanto olho a água. Consigo uns três minutos de paz, talvez, até que ouço alguém descendo a escada a passos ligeiros.
Sara.
— Ai, meu Deus, Beyah. — Ela corre até a mesa e se senta à minha frente. Estende a mão e aperta a minha, forçando um sorriso triste. — Como é que você está?
Balanço a cabeça.
— Só vou ficar bem quando conseguir falar com o Samson.
—Fiquei tão preocupada. O seu pai saiu daqui tão apressado, depois mandou uma mensagem de texto para a minha mãe avisando que o Samson tinha sido preso. O que foi que houve?
— A casa não é dele.
— Ele arrombou?
— Tipo isso.
Sara corre a mão pelo rosto.
— Lamento tanto. Estou me sentindo péssima. Fui eu que fiquei te empurrando para ele. — Ela se debruça sobre a mesa, segura meu punho e me encara com sinceridade. — Nem todos os caras são que nem ele, Beyah. Eu juro.
Ela está certa, mas é um alívio que Samson não seja como os outros caras. Ele podia ser igual a Dakota. Ou Gary Shelby. Prefiro me apaixonar por um cara que tem um passado suspeito, mas me trata como Samson, a me apaixonar por um que me trata feito bosta, mas fica posando de bacana.
— Não estou com raiva dele, Sara.
Ela ri, mas é uma risada nervosa. Iguais às que dava logo que nos conhecemos, quando não sabia dizer se eu estava ou não de brincadeira.
— Eu sei que o Samson está parecendo uma pessoa péssima.
Mas você não o conhece como eu. Ele não tinha orgulho do próprio passado. E planejava me contar tudo, só não queria que a verdade estragasse o resto do nosso verão.
Sara cruza os braços e se inclina mais para a frente.
— Beyah. Sei que você está angustiada e que se preocupa com ele. Mas ele mentiu para você. Mentiu para todos nós. Eu e o Marcos convivemos com ele desde março. Tudo o que ele contou para a gente é mentira.
— Tipo o quê?
Ela abana a mão em direção à casa ao lado.
— Que ele é dono daquela casa, para começar.
— Mas o que mais?
Ela aperta os lábios e se remexe na cadeira, pensativa.
— Sei lá. Não consigo pensar em nada específico agora.
— Exatamente. Ele mentiu sobre onde morava e seguiu em frente com a narrativa de garoto rico que vocês estipularam. Mas fez todo o possível para não falar de si mesmo, para não mentir para ninguém.
Ela estala os dedos.
— Aquele cara no jantar! O que chamou ele de Shawn. Ele mentiu que tinha frequentado um internato em Nova York com ele.
— Ele mentiu porque se sentiu forçado a dar uma resposta.
— Eu teria muito mais respeito por ele se ele simplesmente tivesse sido honesto com a gente naquele momento.
— Não é verdade. Ele teria sido julgado, como está sendo agora.
Para pessoas tipo a Sara tudo é tão “preto no branco”. O mundo real não opera sob um sistema simplório de certo e errado. Pessoas que jamais tiveram de vender a alma para conseguir um abrigo ou um prato de comida são incapazes de entender a quantidade imensa de decisões ruins que gente desesperada é forçada a tomar.
— Não quero mais falar sobre isso, Sara.
Ela suspira, como se não tivesse acabado de tentar me convencer a deixá-lo para trás.
Vai ser preciso muito mais que um passado questionável para que eu abandone um cara que não fez cara feia para o meu próprio passado questionável.
Sara obviamente pensa o mesmo que meu pai no que diz respeito a Samson. Todo mundo pensa, tenho certeza.
— Quero muito ficar sozinha agora.
— Tá bom — diz Sara. — Mas estou aqui se você quiser conversar.
Ela me deixa com meus pensamentos e sobe a escada de casa.
Depois que ela entra, coço a orelhinha de P.J.
— Acho que somos só eu e você do lado do Samson.
P.J. levanta as orelhas assim que meu celular começa a vibrar. No mesmo instante dou um salto e tiro o telefone no bolso. Meu coração vai parar na boca quando leio “Número Privado” no identificador de chamadas. Mais que depressa, atendo.
— Samson?
— Você está sendo contatado por um detento da Penitenciária do Condado de Galveston — diz a gravação. — Pressione um para aceitar ou dois para...
Pressiono um e levo o celular à orelha.
— Samson? — Minha voz está tomada de pânico. Franzo a testa e torno a me sentar.
— Beyah?
Sua voz parece tão distante, mas eu enfim o sinto outra vez. Solto um suspiro de alívio.
— Tudo bem com você?
— Tudo. — A voz dele não está tomada de medo como a minha.
Na verdade ele parece calmo, como se esperasse este momento. —
Não posso falar muito. Eu só...
— Quanto tempo você pode falar?
— Dois minutos. Mas me avisaram que amanhã às nove já posso receber visitas.
— Eu sei. Estarei aí. Mas e hoje, o que é que eu posso fazer? Tem alguém para quem eu possa ligar?
Há uma pausa do outro lado. Fico em dúvida se ele ouviu a pergunta, mas Samson solta um suspiro e diz:
— Não. Não tem ninguém.
Meu Deus, que ódio disso. Eu e P.J. somos mesmo tudo o que ele tem agora.
— Não acho que o meu pai vá pagar a sua fiança. Ele está muito irritado.
— Não é responsabilidade dele. Por favor, não peça a ele para fazer isso.
— Mas vou pensar em alguma coisa.
— Vou passar um tempo aqui, Beyah. Eu fiz muita merda.
— É por isso que vou te ajudar a encontrar um advogado.
— Vou ter direito a um defensor público — diz ele. — Já passei por isso antes.
— Eu sei, mas esses caras vivem sobrecarregados. Não seria ruim encontrarmos um advogado com mais tempo para se preparar e brigar pelo seu caso.
— Não posso pagar advogado. Caso você ainda não tenha se ligado, eu não sou rico de verdade.
— Que bom. Você sabe que o dinheiro era a coisa que eu menos gostava em você.
Samson faz silêncio, mesmo que pareça ter muito a dizer.
— Vou passar o dia de hoje procurando emprego. Vou começar a juntar dinheiro para te ajudar a contratar um advogado. Você não está sozinho nessa, Samson.
— Os meus erros também não são responsabilidade sua. Não tem nada que você possa fazer. Além do mais, a primeira audiência deve ser só daqui a várias semanas. A essa altura você vai estar na Pensilvânia.
— Eu não vou para a Pensilvânia. — Ele está louco se acha que vou abandoná-lo. Ele acha mesmo eu vou deixá-lo preso numa cadeia e partir para o outro lado do país, como se o verão não tivesse feito nascerem ossos no meu coração? — E o filho da Marjorie? Que área do direito ele pratica?
Ele não responde a minha pergunta.
— Samson? — Afasto o celular do ouvido e vejo que a ligação foi encerrada. — Merda.
Pressiono o telefone na testa. Ele não vai conseguir me ligar outra vez. Vou ter que esperar até amanhã para conversarmos ao vivo. Já tenho muitas outras perguntas para acrescentar à lista.
Mas também tenho trabalho a fazer, então saio pela rua, rumo à casa de Marjorie. Bato à porta até que ela atenda.
Esqueci que ainda está supercedo. Ela abre a porta de camisola, amarrando o robe. E me olha de cima a baixo.
— Que consumição é essa?
— É o Samson. Ele foi preso.
Os olhos dela se enchem de preocupação, e ela deixa que eu entre.
— Por conta de quê?
— A casa onde ele estava não é dele. Ele foi preso hoje de manhã, porque os donos apareceram no meio da noite.
— O Samson? Tem certeza?
Meneio a cabeça.
— Eu estava junto. Ele vai precisar de um advogado, Marjorie.
Alguém que possa se dedicar mais ao caso do que um defensor público.
— Sim, boa ideia.
— O seu filho. Que área do direito ele exerce?
— Ele é... não. Não, não posso pedir isso ao Kevin.
— Por que não? Vou arrumar um emprego. Vou poder pagar.
Marjorie parece dividida. Não posso dizer que a culpo. No dia em que nos conhecemos, ela admitiu que mal conhecia Samson. Tenho
mais a perder nessa situação, mas ela não pode ignorar tudo o que ele fez por ela. Um dos gatos de Marjorie sobe na bancada da cozinha, a seu lado. Ela pega o bichano e o aperta junto ao peito.
— Quanto o Samson cobrou por todo o trabalho que fez aqui?
Ela leva um minuto para entender a pergunta. Sua postura desaba.
— Nada. Ele não aceitava receber dinheiro nenhum.
— Pois é. Ele não é má pessoa, Marjorie, e você sabe disso. —
Entrego meu celular a ela. — Por favor. Liga para o seu filho. Você deve esse favor ao Samson.
Ela deixa o gato no chão e dispensa meu telefone.
— Não sei usar essas coisas.
Dá uns passos, pega um aparelho de telefone fixo e começa a discar o número do filho.
•
Kevin concordou em entrar em contato com Samson, mas só por saber o quanto ele ajudou Marjorie nos últimos meses. Não concordou em pegar o caso sem cobrar honorários; não concordou nem em pegar o caso, na verdade, mas já estou um passo à frente de onde estava antes de chegar à casa de Marjorie.
Na saída, ela me empurra um quilo de noz-pecã.
— Semana que vem vou ter amêndoas — diz.
Dou um sorriso.
— Obrigada, Marjorie.
Quando chego de volta em casa, deixo as nozes sobre a mesa e pego as duas mochilas que meu pai trouxe mais cedo. Estou subindo as escadas quando o vejo despontar no corredor.
— Beyah?
Continuo andando.
— Vou passar o resto do dia no quarto. Vou ficar deitada e prefiro não ser incomodada.
— Beyah, espera — diz ele.
Quando chego ao topo da escada, ouço a voz de Alana:
— Ela pediu para ficar sozinha, Brian. Deve estar falando sério.
Alana tem razão. Eu estou falando sério. Não estou a fim de ouvir palestrinha do meu pai dizendo que Samson é uma pessoa horrível.
Estou triste demais para isso. E muito cansada.
Acho que tive umas duas horas de sono ontem à noite, no máximo, e mesmo com a adrenalina correndo solta em minhas veias desde que acordei, meus olhos vão ficando mais pesados a cada segundo que passa.
Largo as mochilas junto à cama e desabo no colchão. Fico deitada, encarando as portas de vidro da sacada. Está tão claro lá fora. Tão quente. Tão alegre.
Eu me levanto, fecho as cortinas e volto para a cama. Só quero que o dia acabe, e ainda não chegou nem a hora do almoço.
Eu me viro, reviro e passo mais de uma hora encarado o teto. Não consigo parar de pensar no que vai acontecer. Por quanto tempo ele vai ficar preso? Será que vai ser condenado a muito tempo de prisão? Se realmente há tantas acusações contra ele, de quanto tempo estamos falando? Seis meses? Dez anos?
Não vou conseguir dormir sem ajuda. Minha mente está muito acelerada. Abro a porta e espero até sentir que não há ninguém na cozinha. Desço as escadas e vou até a despensa. Sei onde ficam os remédios. Percorro os frascos, mas não encontro nada que me ajude a dormir.
De repente eles guardam nos banheiros. Meu pai e Alana já devem estar a caminho do trabalho, então vou até a suíte deles e abro o armário de remédios. Só vejo uma pasta de dentes e uma escova reserva. Uma pomada qualquer. Um potinho com cotonetes.
Bato a porta do armário, mas levo um susto ao ver Alana atrás de mim, pelo reflexo do espelho.
— Desculpa. Achei que vocês estivessem no trabalho.
— Tirei o dia de folga — responde ela. — O que você estava procurando?
Eu me viro para ela, desesperada.
— Só queria um calmante, alguma coisa. Preciso dormir. Ainda não consegui dormir, minha mente está acelerada. — Balanço as mãos junto à cabeça, tentando conter as lágrimas que por um milagre estou evitando desde ontem à noite.
— Posso fazer um chá para você.
Chá? Ela quer me fazer um chá?
Ela é dentista, com certeza nesta casa deve haver um tranquilizante que derrube um leão.
— Não quero chá, Alana. Preciso de uma coisa mais forte. Não quero estar acordada agora. — Cubro o rosto com as mãos. —
Pensar dói demais — sussurro. — Não quero nem sonhar com ele.
Só quero dormir, sem sonhar, sem pensar, sem sentir nada.
Sinto umas pontadas bem no meio do peito.
Tudo o que Samson disse ao telefone me atinge com tanta força, que me apoio na pia para não cair. Sua voz ecoa em minha cabeça.
“Vou passar um tempo aqui, Beyah.”
Quanto mais preciso enfrentar até ser feliz de novo?
Não quero voltar a ser quem era antes de conhecê-lo. Não havia nada em mim além de raiva e amargura. Não havia ternura, alegria, aconchego.
— E se ele ficar tanto tempo preso, que quando sair já não queira fazer parte da minha vida?
Eu não pretendia dizer isso em voz alta. Ou talvez pretendesse.
As lágrimas irrompem de meus olhos, e Alana responde na mesma hora. Não diz nada que me deixe mal por estar triste. Apenas me abraça e deita minha cabeça em seu ombro.
É uma sensação de aconchego totalmente desconhecida, mas da qual necessito desesperadamente. O conforto de uma mãe.
Agarrada a ela, passo vários minutos chorando de soluçar. Eu não sabia que precisava tanto disso. De alguém com um pouquinho de compaixão.
— Queria que você fosse minha mãe — digo, em meio às lágrimas.
Sinto o suspiro dela.