Até o verão terminar
Trinta
Libero a raiva dirigida ao meu pai.
Libero até a raiva dirigida à minha mãe.
Deste ponto em diante, decido me agarrar única e exclusivamente às coisas boas.
Posso não terminar o verão com Samson a meu lado, mas vou terminar com algo que não tinha quando cheguei aqui.
Uma família.
Trinta
Minha colega de quarto é uma garota de Los Angeles. Seu nome é Cierra, com C.
A gente se dá bem, mas estou tentando manter o foco nos estudos e no voleibol, então não tenho passado muito tempo com ela fora do dormitório. Quando não estamos aqui, dormindo ou estudando, não a vejo muito. É estranho, pois passei um verão inteiro morando a um corredor de distância de Sara e mesmo assim eu a via mais do que vejo a pessoa com quem hoje divido o quarto.
Sinto saudade de Sara, mesmo trocando mensagens com ela todos os dias. Meu pai e eu também nos falamos.
Mas ninguém fala de Samson, desde aquela manhã em que decidi vir para a Pensilvânia. Preciso que todos acreditem que segui em frente, mas não sei ao certo como. Penso nele o tempo todo. Se vejo ou ouço alguma coisa, sinto a enorme necessidade de contar a ele.
Mas não posso, pois ele fez questão de cortar todos os meios de comunicação que poderia haver entre nós.
Escrevi uma carta, mas ele mandou devolver. Chorei uma tarde inteira, mas depois disso resolvi não escrever mais.
A audiência foi hoje de manhã. Com base em todas as acusações, a previsão é de que ele pegue vários anos de prisão. Passei o dia inteiro ao lado do celular, esperando uma ligação de Kevin.
É a única coisa que tenho feito. Encarar o celular. Esperar. Acabo me cansando e digito o número de Kevin. Sei que ele falou que me ligaria depois da leitura da sentença, mas de repente ele se enrolou.
Viro o pescoço, para conferir se Cierra ainda está no banho, e me empertigo na cama assim que Kevin atende.
— Eu ia te ligar agora mesmo.
— E aí?
Kevin suspira, e sinto todo o peso da sentença de Samson.
— Uma notícia boa e uma ruim. Conseguimos mudar a acusação de violação de domicílio para invasão. Mas não cederam quanto ao incêndio criminoso, por conta das câmeras de segurança.
Aperto o braço com força no estômago.
— Quanto tempo, Kevin?
— Seis anos. Mas ele deve sair em quatro.
Levo a mão à testa, e minha cabeça desaba entre os ombros.
— Por que tanto tempo? Isso é tempo demais.
— Podia ter sido muito pior. Ele ia pegar dez anos só pelo incêndio. Se já não tivesse violado uma condicional, provavelmente receberia uma punição leve. Mas esse não é o primeiro crime dele, Beyah.
— Mas você explicou ao juiz por que ele violou a condicional? Ele não tinha dinheiro. Como é que uma pessoa que não tem dinheiro vai pagar uma multa de condicional?
— Sei que não é a notícia que você queria, mas foi melhor que o previsto.
Estou tão angustiada. Honestamente, não achei que ele fosse pegar tanto tempo.
— Um estuprador pega menos tempo de prisão que isso. Qual é o problema com o nosso sistema judicial?
— Todos. Você está na faculdade. Podia virar advogada e começar a fazer algo para tentar mudar tudo isso.
Talvez eu vire, mesmo. Ainda não escolhi minha graduação principal, e nada me transtorna mais do pensar em todas as pessoas negligenciadas pelo sistema.
— Para qual penitenciária ele vai?
— Huntsville, Texas.
— Você tem algum endereço para correspondência?
Ouço a hesitação de Kevin do outro lado da linha.
— Ele não quer receber visitas. Nem cartas. Os únicos nomes na lista são o meu e o da minha mãe.
Imaginei. Samson vai bater o pé em relação a isso até o dia em que sair da cadeia.
— Vou te ligar todo mês, até ele ser solto. Mas por favor me liga se houver alguma mudança, ou se ele conseguir a condicional antes.
Qualquer coisa. Até se ele mudar de instituição.
— Posso te dar um conselho, Beyah?
Reviro os olhos, à espera de mais um sermão vindo de alguém que mal conhece Samson.
— Se você fosse minha filha, eu ia te dizer para tocar a vida. Você está se esforçando demais por esse cara, e ninguém o conhece tão bem a ponto de saber se ele vale toda essa energia.
— E se o Samson fosse seu filho? — devolvo. — Você ia querer que todo mundo desistisse dele?
Kevin suspira fundo.
— Bom argumento. Mês que vem a gente se fala.
Ele encerra a ligação. Apoio o telefone na mesinha de cabeceira, completamente desorientada. Impotente.
— Você tem um namorado na cadeia?
Ao ouvir a voz de Cierra, eu me viro depressa. Meu primeiro instinto é mentir, pois foi isso o que sempre fiz. Esconder minha verdade de todos ao meu redor. Mas acho que não quero mais ser essa pessoa.
— Não, ele não é meu namorado. É só alguém com quem eu me preocupo.
Cierra olha o espelho e segura uma camiseta na frente do corpo.
— Que bom. Porque vai rolar uma festinha hoje à noite, e quero que você vá. Vai estar cheio de carinhas por lá. — Ela joga a camiseta de lado e segura outra. — De garotas também, se for a sua praia.
Encaro Cierra diante do espelho. Seu olhar é vigoroso e quase nada machucado. Neste exato momento, eu queria ser ela. Uma
pessoa empolgada com as partes divertidas da vida universitária, que não carrega o peso de tudo o que passou para chegar até aqui.
Não parecia justo de minha parte ficar me divertindo enquanto Samson está atrás das grades, então as únicas coisas que tenho feito desde cheguei no campus foram estudar, jogar vôlei e pesquisar meios de tirar uma pessoa da cadeia.
Nem a maior apatia mudará o destino de Samson. E, por mais que ele tenha cortado toda a comunicação comigo, sei exatamente o motivo pelo qual fez isso. Ele sabe que eu ficaria muito presa e preocupada se mantivéssemos contato constante. Não dá para sentir raiva dele por isso.
Se não dá para sentir raiva dele, como é que eu vou esquecê-lo?
No entanto, ninguém fará Samson mudar de ideia. É um fato, e eu sei disso, pois se fosse a situação inversa eu desejaria exatamente as mesmas coisas para ele.
Compreendo suas intenções em cada parte de mim. Como ele reagiria se descobrisse que passei todo o período universitário deprimida e solitária, como vivia na escola?
Ele ficaria muito decepcionado se eu desperdiçasse esses anos.
Ou escolho seguir por uma estrada solitária, guardando uma esperança que talvez nunca chegue, ou posso descobrir quem sou enquanto estou neste cenário.
Que versão de mim posso ser enquanto estiver aqui?
Esfrego os olhos. Estou sensível por diversas razões, mas sobretudo por sentir que preciso verdadeiramente me libertar de Samson neste momento, ou ele vai passar os próximos anos me puxando para baixo. Não quero isso. Ele também não.
— Eita — diz Cierra, dando um giro para me olhar. — Não era minha intenção te aborrecer. Você não precisa ir.
Abro um sorriso.
— Não, eu quero ir. Eu quero ir à festa com você. Talvez eu até seja uma pessoa divertida.
Cierra faz um biquinho, como se minhas palavras a entristecessem. — Mas lógico que você é divertida, Beyah. Aqui. — Ela joga para mim a camiseta que está segurando. — Esta cor vai ficar melhor em você.
Eu me levanto e ergo a roupa diante do corpo. Olho meu reflexo no espelho. Sinto a tristeza dentro de mim, mas não a vejo estampada em meu rosto. Sempre escondi muito bem meus sentimentos.
— Quer que eu faça a sua maquiagem?
Faço um gesto de concordância com a cabeça.
— A-hã. Quero, sim.
Cierra retorna ao banheiro. Olho a porta e vejo a imagem da Madre Teresa, que pendurei na parede ao lado bem no dia em que cheguei.
Fico pensando... que versão de si mesma minha mãe poderia ter sido, se não fosse dependente química? Eu queria ter conhecido essa versão.
Pelo bem dela, é essa a versão da qual escolherei sentir saudade.
A pessoa que ela nunca teve a chance de ser.
No caminho para o banheiro, beijo meus dedos e toco a imagem.
Cierra está separando a maquiagem. Quando a conheci, prometi a mim mesma que não me precipitaria em julgá-la e rotulá-la como uma mocinha de vestiário, como quase fiz com Sara. A despeito da trajetória de Cierra na escola, ou da minha trajetória, somos todos muito maiores que nossos comportamentos passados, quer tenham sido bons ou maus.
Já não quero ser a versão de mim que julgava os outros antes de aceitá-los. Na verdade, eu estava projetando todos os comportamentos dos quais me ressentia.