Até o verão terminar
Nove
Ela se senta no sofá e pega o controle remoto. Inclina a cabeça para trás e me olha de cabeça para baixo.
— Fico feliz por você estar aqui, Beyah.
Ela liga a tevê e desvia a atenção de mim, mas suas palavras me fazem sorrir.
Acredito mesmo que ela esteja feliz com minha presença. É uma sensação boa. Não é sempre que sinto que minha presença é apreciada. Ou sequer notada.
Vou para o meu quarto, fecho a porta e tranco.
Vou até a sacada e abro a porta, querendo escutar o som do oceano enquanto durmo. Mas também quero ver o que Samson está fazendo.
Marcos e Beau ainda estão junto da fogueira. Cadence vai se afastando do grupo, caminhando na direção oposta à da casa de Samson.
Samson vai andando pelo cruzamento das dunas, em direção a sua casa. Sozinho.
Por que isso me alegra?
Não quero que ele me veja aqui em cima, então retorno ao quarto e fecho a porta da sacada.
Antes de me deitar, tiro a Madre Teresa do saco plástico e apoio o quadro na penteadeira. Parece super deslocado neste quarto chique, o que me deixa ainda mais feliz por tê-lo trazido. Preciso de um pedacinho de casa para me lembrar de que este quarto, esta casa e esta cidade não são a minha realidade.
Nove
Caramba, que barulho é esse?
Ponho a mão sobre o ouvido, confusa com o barulho que me força a acordar de um sono perfeito e profundo. Está vindo do outro lado do quarto. Abro os olhos, ergo a cabeça do travesseiro, e o som fica mais alto. Olho para fora e mal vejo luz. O horizonte está cinzento, como se o mundo ainda se preparasse para acordar.
Solto um grunhido e afasto as cobertas, para localizar a fonte da barulheira. Parece vir da penteadeira, então me aproximo.
É meu celular novo. Esfrego os olhos sonolentos e olho a tela. São 5h59 da manhã.
Um alarme foi ativado em meu telefone. Com uma mensagem: Vá ver o sol nascer.
Só isso.
Desligo o alarme, e o quarto fica outra vez em silêncio. Olho a sacada trás de mim.
Samson.
É bom que valha a pena.
Pego o edredom da cama e envolvo meu corpo. Vou até a sacada e olho a de Samson. Está vazia.
Acomodo-me numa cadeira e puxo o edredom até o queixo.
Encaro o horizonte escuro. Ao leste, vejo uma diminuta faixa de sol despontando no oceano. Ao norte, um e outro relâmpago irrompem no céu sombrio. Parece que há uma tempestade a caminho, ameaçando extinguir a luz.
Sentada na sacada, olho o sol, que ilumina lentamente a península. Escuto o som das ondas arrebentando na praia. Trovões ribombam a distância, e as gaivotas começam a chiar por perto.