Até o verão terminar
Dezenove
— Boa noite — sussurro.
— Boa noite, Beyah.
Ele desliga o chuveiro, e eu pego minha camisa, visto e vou embora.
Dezenove
Todas as cinco casas de Samson foram alugadas para o feriado de quatro de julho, então ele está passando uns dias com Marcos.
Faz uma semana que ele encontrou Rake. Não conversamos a respeito. Falta menos de um mês para o dia dois de agosto, quando terei todas as minhas respostas. Não estou nem um pouco ansiosa.
Dois de agosto, para mim, significa apenas o dia em que diremos adeus um para o outro.
Estou tentando manter o foco no presente.
Hoje a praia está tão louca, que não queremos ir para lá. Estamos na sacada de Marcos. A casa dele fica a umas quadras de distância da praia, por isso estamos aqui. Há tanta música, barulheira e gente bêbada quanto em frente a qualquer bar do Texas, e nenhum de nós está a fim de ficar perto daquela bagunça.
Hoje, jantamos com a família de Marcos. Ele tem duas irmãs pequenas, e não faltaram agitação, comilança e conversas. Samson parecia muito à vontade com a família de Marcos, o que me fez imaginar como ele deve se comportar diante da própria família.
Será que eles comem juntos, como meu pai e Alana gostam de fazer? Será que me aceitariam se chegassem a me conhecer? Algo
me diz que não, ou Samson não seria tão reservado em relação a eles.
Hoje, no entanto, eu me sinto aceita. Aceita e bem alimentada.
Meu objetivo de ganhar peso neste verão foi alcançado com louvor.
Não sei nem se ainda caibo na calça jeans que comprei no dia em que cheguei. Passei quase o verão todo de short e biquíni.
O sol acabou de se pôr, mas os fogos de artifício começaram faz um tempo. Agora, já quase noite, estão ficando mais intensos, estourando por toda a península.
— Os fogos de Galveston vão começar daqui a pouquinho — diz Sara. — Eu queria que desse para ver daqui.
— Do telhado da Marjorie a vista é boa — diz Samson.
— Será que ela deixa a gente usar? — pergunto.
Samson dá de ombros.
— Se estiver acordada, deixa.
Marcos se levanta.
— Ninguém consegue dormir com essa barulheira.
Caminhamos até a casa de Marjorie, junto com P.J., que nos aguardava atrás da casa de Marcos.
Ao nos aproximarmos, vemos que Marjorie está na varanda, assistindo à comoção na praia.
— Achei que vocês viessem mais cedo — diz ela, ao nos avistar, e aponta a porta da frente. — Fiquem à vontade.
— Valeu, Marjorie — responde Samson.
Dentro da casa, Sara e Marcos sobem a escada primeiro, depois eu vou. Quando chegamos à entradinha do telhado, Sara sobe, mas logo se ajoelha. Marcos tenta erguê-la, mas ela balança a cabeça.
— É muito alto. Não consigo me mexer.
Samson ri.
— Tenta subir até o meio. Daí só vai ver o céu, em vez do chão.
Sara engatinha até o centro do terraço. Vamos todos juntos, e eu me sento ao lado dela. Samson se senta comigo.
— Como é que você consegue andar aqui em cima? — pergunta Sara a ele.
— Não olho para baixo — responde Samson.
Sara cobre o rosto, tentando aliviar a tontura.
— Eu não fazia ideia de que tinha medo de altura.
— Vem cá, bebê — diz Marcos, passando o braço em volta dela.
Ela se aproxima de Marcos, e ao ver os dois abraçados percebo que Samson e eu não estamos nem nos tocando. Olho para ele, que observa os fogos de artifício estourando em algum ponto da praia.
— A Marjorie é sozinha? — pergunto a ele.
Ele me olha e sorri.
— Não. Tem um filho. É advogado, mora em Houston. Ele vem visitar umas duas vezes por mês.
Isso me deixa feliz.
Samson vê o alívio em meu rosto, então se inclina e me dá um selinho.
— Você é um amor — sussurra ele. Agarra minha mão, entrelaça os dedos nos meus, e olhamos os fogos de artifício em silêncio.
Quanto mais tempo se passa, mais fogos estouram. Estão por toda a baía, vindo de Galveston. De alguma forma, há fogos estourando até no meio do oceano.
Marcos olha para Sara e diz:
— Teria sido um ótimo momento te pedir em casamento, com esse cenário cheio de fogos. Pena que a gente só se conheceu no feriado de primavera.
— Me traz aqui de volta ano que vem — diz ela. — Eu finjo que essa conversa nunca aconteceu.
Os dois me fazem rir.
Uns minutos depois, Sara diz a Marcos que precisa descer, pois está enjoada. Os dois descem, mas Samson e eu permanecemos no telhado de Marjorie.
Percebo que estou olhando mais para ele do que para os fogos.
Ele parece fascinado por tudo.
— Nunca vi Darya tão bonita — sussurra Samson.
Calma aí. Oi? Darya é o nome da garota que ele disse ter partido seu coração.
— Olha como reflete os fogos de artifício — diz ele, apontando para o oceano. Olho para onde ele aponta, então volto para ele, confusa.
— Você está chamando o oceano de Darya?
— Isso — responde ele, num tom pragmático. — Darya quer dizer mar. Era assim que o Rake a chamava.
— Você me falou que Darya foi uma ex-namorada que destruiu o seu coração.
Samson ri.
— Eu falei que Darya destruiu o meu coração, mas nunca disse que era uma garota.
Tento voltar àquela conversa. Ele estava falando da água o tempo todo?
— Como é que o oceano pode destruir o coração de alguém?
— Eu vou te contar no...
— Dia dois de agosto — concluo, revirando os olhos. Eu me remexo e meto a mão no bolso, atrás do celular. — Estou anotando.
Você me deve muitas explicações.
Samson ri.
— Posso ver a lista?
Acrescento o último tópico e entrego o celular a ele. Samson começa a ler.
— Por que você não gosta de falar dos negócios do seu pai?
Quem era o cara no restaurante? Qual foi a pior coisa que você já fez? Por que você não gosta de falar da sua família? Qual é a história toda com o Rake? Com quantas garotas você já transou? —
Ele para e me olha um instante, então retorna à lista. — Qual é o seu nome completo? Por que o oceano destruiu o seu coração?
Ele encara meu celular um instante, então me devolve.
— Dez — diz ele. — Mas na verdade só me lembro de nove.
Minha memória de uma das garotas é meio turva.
Dez. É muito, se comparado a mim, mas não tanto em relação ao que imaginei sobre seu passado. Ele poderia ter dito cinquenta, e não sei se ficaria surpresa.
— Dez não é muita coisa.
— Comparado ao seu único cara, é — devolve ele, provocativo.
— Só achei que fossem mais. Do jeito que a Sara falava de você, parecia que você transava com uma garota por semana.
— Eu raramente transo com elas. Mas não faço ideia de com quantas fiquei. E, por favor, não me pergunte isso no dia dois, que eu não terei condições de responder.
Uma forte rajada de fogos de artifício começa a estourar bem à nossa frente. Samson desvia a atenção de mim, mas eu continuo a
encará-lo.
— Às vezes fico pensando se realmente quero as respostas de todas essas perguntas. Acho que o mistério que te rodeia talvez seja uma das coisas que mais gosto a seu respeito. Ao mesmo tempo é uma das coisas que eu menos aprecio em você.
Samson não me olha.
— Quer saber qual é a coisa que eu mais gosto em você?
— Qual?
— Você é a única pessoa que já conheci que gostaria mais de mim se eu fosse pobre.
Essa é a pura verdade.
— Tem razão. O dinheiro é a coisa de que eu menos gosto em você, com certeza.