Até o verão terminar
Seis
— Gente tipo você não faz amizade com gente tipo eu.
Ele inclina um pouco a cabeça.
— Isso é meio presunçoso.
— Falou o cara que achou que eu fosse uma desabrigada.
— Você comeu pão do chão.
— Eu estava com fome. Você é rico, nunca vai entender.
Ele estreita os olhos um pouco, então torna a encarar o oceano.
Seu olhar é tão intenso, que parece que o mar está falando com ele.
Dando respostas silenciosas a suas perguntas silenciosas.
Por fim, Samson desvia os olhos, tanto de mim quanto da água.
— Vou voltar para o carro.
Eu o vejo descer as escadas e desaparecer.
Não sei por que estou tão na defensiva em relação a ele. Afinal de contas, se ele realmente pensou que eu fosse uma desabrigada, não ignorou esse fato. Ele me ofereceu dinheiro. Dentro daquele corpo deve haver uma alma.
Talvez a desalmada nessa história seja eu.
Seis
Dizer que fiquei aliviada quando Marcos e Samson se separaram de nós ao chegarmos na loja é pouco. Faz pouquíssimas horas que cheguei no Texas, e durante quase todo esse tempo estive na presença de Samson.
— Do que mais você precisa, além de roupas? — pergunta Sara, enquanto caminhamos pela seção de perfumaria.
— De tudo, basicamente. Xampu, condicionador, desodorante, escova e pasta de dentes. Tudo que eu roubava dos carrinhos de limpeza aos sábados.
Sara faz uma pausa e me encara.
— Isso foi piada? Ainda não conheço muito bem o seu estilo de humor.
Faço que não.
— A gente não tinha grana para comprar essas coisas. — Não sei por que estou sendo tão honesta com ela. — O pobre às vezes tem que ser criativo.
Viro no próximo corredor, e Sara leva um instante para vir atrás de mim.
— Mas o Brian não pagava pensão?
— Minha mãe era dependente química. Eu nunca vi um centavo do dinheiro dele.
Sara agora caminha ao meu lado. Tento não olhar para ela, pois sinto que minha verdade está dilacerando sua inocência. Mas talvez ela precise de uma dose de realidade.
— Você já contou isso ao seu pai?
— Não. Ele não vê a minha mãe desde que eu tinha quatro anos.
Naquela época ela não era usuária.
— Pois devia ter contado. Ele teria feito alguma coisa.
Coloco um frasco de desodorante no carrinho.
— Nunca senti que fosse meu dever informar a ele sobre a minha condição de vida. Um pai devia ter mais ciência do que se passa na vida de um filho.
Vejo que meu comentário aborrece Sara. Está óbvio que ela tem uma visão diferente da minha a respeito do meu pai, então talvez essa simples sementinha já baste para que ela comece a enxergar para além de sua casinha protegida na beira da praia.
— Vamos olhar as roupas — digo, mudando de assunto. Em silêncio, ela vai comigo até a seção de vestuário. Pego várias coisas, mas na verdade não sei se alguma roupa vai me servir. Nós vamos até os provadores.
— Você vai precisar de um biquíni também — diz Sara. — De uns dois, na verdade. A gente passa quase todos os dias na praia.
A área de roupas de banho fica perto dos provadores, então pego uns dois biquínis e vou até uma cabine, com todas as roupas.
— Vai experimentando e saindo, que eu quero ver como está ficando tudo.
É isso o que acontece quando as garotas vão às compras? Elas posam umas para as outras?
Visto o biquíni primeiro. A parte de cima fica meio larga, mas já ouvi dizer que os peitos são a primeira coisa que aumenta quando a gente ganha peso, e tenho certeza de que vou ganhar peso neste verão. Saio da cabine e me olho no espelho. Sara está sentada num banco, atenta ao celular. Ao erguer a cabeça, ela arregala os olhos.
— Uau. Dá até para pegar um tamanho menor.
Faço que não.
— Não, quero ganhar peso durante o verão.
— Por quê? Eu mataria para ter um corpo igual ao seu.
Que ódio desse comentário.
Ela me encara, fazendo biquinho. E imagino que ela esteja comparando nossos corpos, apontando falhas em si mesma.
— As suas coxas nem se encostam — sussurra ela, quase desejosa. — Eu sempre quis ter um vão entre as coxas.
Meneio a cabeça e retorno à cabine. Visto o segundo biquíni e ponho um short jeans por cima, para ver se cabe. Quando saio da cabine, Sara solta um grunhido.
— Meu Deus, tudo fica bem em você. — Ela se levanta e se posiciona ao meu lado. Olha nossos reflexos no espelho. Ela também é bastante alta, talvez uns cinco centímetros mais baixa que eu. Sara se vira de lado e põe a mão por sobre a blusa, bem em cima do estômago. — Quanto você pesa?
— Não sei.
Sei, sim, mas dizer meu peso a ela só a levaria ainda mais a perseguir um objetivo totalmente desnecessário.
Ela suspira, meio frustrada. Senta-se outra vez no banco da área dos provadores.
— Ainda faltam uns nove quilos para eu atingir minha meta de verão. Preciso me esforçar mais. Qual é o seu segredo?
Meu segredo?
Solto uma risada e olho novamente meu reflexo no espelho, correndo a mão de leve por minha barriga côncava.
— Passei fome quase a vida inteira. Nem todo mundo tem comida em casa o tempo todo. — Olho diretamente para Sara, que me encara com uma expressão indecifrável.
Seu olhar vagueia, então pousa no celular. Ela pigarreia.
— É verdade isso?
— É.
Ela dá uma mordida na bochecha e diz:
— Então por que é que você mal comeu hoje?
— Porque tive as piores vinte e quatro horas da minha vida e estava sentada numa mesa com cinco pessoas desconhecidas, numa casa onde nunca tinha colocado os pés, num estado onde nunca estive. Até gente faminta perde o apetite às vezes.
Sara não me olha. Não sei se estou deixando a garota desconfortável com minha franqueza, ou se ela está enfrentando o fato de termos vidas tão diferentes. Quero mencionar o que percebi mais cedo, no jantar — que ela só comia quando eu comia. Mas não menciono. Sinto que já a machuquei o suficiente no dia de hoje, e nós duas acabamos de nos conhecer.
— Você está com fome? — pergunto. — Porque eu estou morrendo.
Ela assente, com um sorrisinho, e pela primeira vez, sinto que fazemos uma conexão.
— Estou com tanta fome que estou quase passando mal.
Solto uma risada.
— Então somos duas.
Retorno ao provador e visto minhas roupas. Quando saio, pego a mão de Sara e a levanto do banco.
— Vamos. — Largo as roupas no carrinho e vou rumando para a área de alimentação.
— Aonde é que a gente vai?
— Vamos comer.
Caminhamos até a parte dos pães. Paro o carrinho em frente a uns pãezinhos e bolos embalados.
— Qual é o seu preferido?
Sara aponta para um saquinho de donuts de chocolate.
— Aqueles ali.
Pego o saquinho da prateleira e o abro. Pego um donut, enfio na boca e entrego o saco a ela.
— Vamos precisar de leite também — digo, com a boca cheia.
Sara me olha como se eu fosse louca, mas me acompanha até a seção de laticínios. Pego duas caixinhas de leite achocolatado e aponto para uma área perto dos ovos. Vou empurrando o carrinho, então me sento e me recosto no comprido refrigerador horizontal que abriga os ovos.
— Senta aí — digo a ela.
Ela olha em volta um instante, então se abaixa bem devagar e se acomoda no chão, ao meu lado. Entrego a ela uma das caixinhas de achocolatado.
Abro a minha, dou uma golada e apanho outro donut.
— Você é doida — diz Sara, baixinho, mas pega um donut também.
Dou de ombros.
— Existe uma linha tênue entre a fome e a loucura.
Ela dá um gole no achocolatado e inclina a cabeça no refrigerador.
— Meu Deus. Isso é o paraíso.
Ela espicha as pernas, e nós ficamos ali sentadas durante um tempo, em silêncio, comendo donuts e vendo os olhares de estranheza dos outros clientes.
— Desculpa se eu falei alguma coisa ofensiva sobre o seu peso —
diz Sara, por fim.
— Não me ofendeu. Só não gostei de te ver se comparando a mim.
— É difícil não comparar. E não ajuda o fato de que estou passando o verão na praia. Eu me comparo com todas as garotas de biquíni.
— Pois não devia. Mas eu entendo. Só que é estranho, não é? Por que as pessoas julgam as outras com base no grau de proximidade entre a pele e os ossos? — Enfio outro donut na boca, para me calar.
— Amém — murmura Sara, dando outra golada no achocolatado.
Um funcionário passa por nós e para ao nos ver comendo no chão.
— A gente vai pagar — digo, abanando a mão para ele. O homem balança a cabeça e sai andando.
Passamos mais alguns minutos em silêncio, então Sara diz:
— Eu estava nervosa de te conhecer. Com medo de que você me odiasse.
Dou uma risada.
— Até o dia de hoje eu nem sabia que você existia.
Parece que meu comentário magoa Sara.
— O seu pai nunca falou de mim?
Faço que não.