Até o verão terminar
Vinte
Samson beija meu ombro. E olha outra vez para a água.
— Fico feliz por você ter aparecido neste verão, Beyah.
— Eu também — sussurro.
Vinte
Não gosto de pílula anticoncepcional. Já faz quase uma semana que estou tomando e sinto as emoções todas bagunçadas. Estou começando a sentir as coisas com ainda mais intensidade do que quando cheguei aqui. Em alguns momentos sinto muita saudade da minha mãe. Em outros convenço a mim mesma de que estou apaixonada por Samson. Em certas horas me empolgo em levar uma conversa com meu pai.
Não sei quem estou me tornando, mas não sei ao certo se gosto.
Duvido que tenha qualquer coisa a ver com a pílula, mas é bom poder botar a culpa em algo.
Samson passou o dia na rua. Sara e eu ficamos um tempo a sós na praia, sem ele e Marcos. Já passou da hora do jantar e sentimos fome, e estamos recolhendo nossas coisas quando três caras começam a montar uma rede de vôlei na praia, entre nossa casa e a de Samson. Depois de guardamos as cadeiras no térreo de casa, olho de volta para os rapazes.
Sinto uma leve pontada no peito, como se sentisse falta do voleibol.
Jamais imaginei que isso fosse acontecer.
— Vou perguntar se posso jogar com eles — digo. — Quer vir também?
Sara balança a cabeça.
— Quero tomar um banho. Estou com areia na bunda. — Ela ruma para a escada. — Mas se divirta. Acabe com eles.
Quando chego perto dos caras, eles estão prestes a começar um jogo em dupla.
Um dos rapazes está sentado junto à linha lateral invisível, e os outros dois estão em posição para começar o jogo.
— Oi — digo, interrompendo-os. Todos se viram e olham para mim. Agora que estou mais perto, sinto-me um pouquinho intimidada.
Vi os tamanho dos caras, e talvez faça papel de idiota. — Precisam de mais um?
Os três se entreolham.
— Tem certeza? — diz o mais alto, com um sorrisinho afetado.
O sorriso me irrita.
— Tenho. Posso até ser justa e fazer dupla com o pior dos três.
Eles riem. Então dois deles apontam para o cara ainda sentado na areia.
— O pior é ele.
— Verdade — concorda o sujeito sentado. — Eu sou péssimo.
— Ótimo. Vamos jogar.
P.J. está sentado a meu lado. Eu o conduzo até um ponto fora do caminho e mando que sente.
Antes de começarmos, os caras se apresentam. Minha dupla se chama Joe. O mais alto se chama Topher, e o outro, Walker. Walker manda um saque direto para mim, e devolvo tranquilamente a bola por cima da rede.
Walker passa a bola a Topher, que tenta um corte em minha direção. Numa fração de segundo, dou um salto junto à rede e bloqueio.
— Impressionante — murmura Topher, quando marco o primeiro ponto.
Acerto três cortes antes mesmo de Joe tocar na bola.
Faz tempo que não me exercito, então percebo que me canso mais depressa do que de costume. Boto também na conta da pílula.
E da areia. Eu nunca havia jogado na areia.
Eles marcam mais dois pontos, até que enfim chega o nosso side-out. Estou prestes a sacar, quando vejo Samson parado na sacada.
Está me encarando, olhando nosso jogo. Eu aceno, mas ele não responde.
Será que está com ciúme?
Ele se afasta da sacada e entra em casa.
Que porra foi essa?
Não vou mentir, fico irritada para caramba. Samson sabe que jogo voleibol. Eu devia poder jogar uma partida inocente sem que ele achasse que estou dando em cima desses caras.
A raiva impulsiona meu saque, e aplico mais força do que pretendia. Por sorte, a bola não vai para fora, mas aterrissa bem na linha.
Era essa a minha preocupação. Quanto mais tempo passo com Samson, mais podem vir à tona partes dele que eu não necessariamente aprecio. Ciúme, sem sombra de dúvida, é uma coisa que não aprecio.
Concluímos um rally curto, e dou uma olhadela para a sacada. Ele ainda não saiu.
Direciono toda a raiva e energia para o jogo. Dou um impulso em direção à bola e caio de joelhos. Caio mais três vezes antes que Joe sequer toque a bola outra vez. Quando este jogo acabar vou estar da cor de uma berinjela.
Marcamos um ponto e empatamos em quatro a quatro. Joe se aproxima e bate a palma na minha.
— Acho que vai o primeiro jogo que vou ganhar na vida — diz ele.
Dou uma risada, mas meu sorriso murcha quando vejo Samson descendo a escada de casa. Se ele vier até aqui e fizer cena, vou ficar com muita raiva.
Ele está vindo. Está vindo para cá.
E está trazendo... uma cadeira.
— Atenção — grita Joe.
Olho para cima e vejo a bola voando até mim, quase saindo do meu alcance. Mergulho para defender e encho a boca de areia, dando sem querer um passe que meu parceiro não consegue pegar.
— Levanta, Beyah! — grita Samson.
Eu me levanto e olho para ele, que vem caminhando em nossa direção, segurando a cadeira. Acomoda-a no chão, perto de P.J., a cerca de um metro e meio da rede, então se senta e ajeita os óculos escuros na cabeça.
— Vai, Beyah! — grita ele, com as mãos em concha junto à boca.
O que ele está fazendo?
A bola desta vez vai para Joe, que enfim consegue fazer um passe à perfeição. Mal sabem eles que eu era a melhor atacante da minha equipe.
Lanço a bola bem entre Topher e Walker. Quando ela toca a areia e marcamos ponto, Samson dá um pulo da cadeira.
— Isso aí! — grita ele. — Manda mais, Beyah!
Quando me dou conta, meu queixo desaba. Samson se lembrou do que eu disse a ele, que ninguém nunca foi a nenhum dos meus jogos.
Ele veio até aqui para torcer por mim.
— Quem é esse cara? — pergunta Joe, olhando para Samson.
Samson sobe na cadeira.
— Beyah! Beyah! — entoa ele.
Talvez seja a coisa mais cafona que já vi na vida. Um cara, sozinho em meio a uma plateia invisível, gritando a plenos pulmões para uma garota que ele sabe que nunca teve torcida.
É a coisa mais tocante que alguém já fez por mim.
Topher saca a bola, e fico chocada em ver que consigo acertá-la, em meio à nuvem de lágrimas sobre meus olhos.
Bosta de emoções. E pode pôr na conta da pílula, também.
Por um longo intervalo, Samson não fecha a matraca. Sinto que ele está irritando os caras, mas acho que nunca sorri tanto em toda a minha vida. Eu sorrio em todas as quedas, todos os pontos, todas as vezes em que perco o fôlego. Sorrio porque nunca aproveitei tanto um jogo de voleibol. Sorrio, porque Samson me fez perceber como eu estava com saudades de jogar. Vou comprar uma bola de vôlei hoje. Preciso retomar os treinos.
Não que eu esteja tão ruim quanto Joe. Ele está fazendo o melhor que pode, mas estou sustentando esse jogo sozinha. Num dado momento, ele perde o fôlego de tal forma que simplesmente chega
para o lado, e passo uns bons trinta segundos fazendo todo o trabalho sozinha.
Quase no fim do jogo, estamos só um ponto atrás, milagrosamente. Se eu conseguir mais um pontinho, saio vencedora.
Ao erguer a bola para sacar, percebo que Samson está calado. Ele me encara atentamente, como se estivesse curtindo de verdade.
Então abre um sorrisinho sutil e faz um joinha cafona. Prendo a respiração, completo o saque e torço para que caia na areia, do outro lado da rede.
O saque é curto. Topher e Walker mergulham para pegar, mas eu sei que nenhum vai conseguir. ACE! Quando a bola toca a areia com um baque surdo, Samson pula da cadeira.
— Você conseguiu!
Fico parada, em estado de choque.
Eu consegui. Diria conseguimos, mas Joe de fato não ajudou muito. Bato minha palma na dele e recebo os cumprimentos dos outros dois.
— Você é muito boa mesmo — diz Topher. — Quer jogar mais uma?
Olho Samson e balanço a cabeça, esforçando-me para recuperar o fôlego.
— Hoje não. Mas, se vocês voltarem amanhã, estarei por aqui.
Eu me despeço deles e corro até Samson, que me recebe com o maior sorrisão. Penduro os braços em seu pescoço, e ele me ergue e dá um rodopio. Quando meus pés retornam à areia, ele não me solta.
— Você é lendária, porra — diz ele, limpando a sujeira do meu rosto. — Uma lenda imunda.
Eu dou uma risada e Samson me puxa mais para perto. Pressiona a bochecha no topo de minha cabeça e me aperta.
Ao mesmo tempo que ele, eu percebo o que está acontecendo entre nós. Sinto seu corpo dar uma pausa, como se estivesse em dúvida entre me soltar ou apertar com mais força.
Pressiono o rosto em sua camisa.
Solto o pescoço de Samson e desço meus braços até sua cintura.
Fecho os olhos, absorta nessa proximidade.
Ele me aperta um pouco mais, corre as mãos por minhas costas e solta um suspiro. Ajeita o corpo um tantinho, e eu me encaixo ainda mais a ele.
E ficamos assim, enquanto o mundo gira à nossa volta. Ele me abraçando. Eu permitindo.
E querendo.
Eu não fazia ideia de que seria tão bom. Nada disso. Todos os momentos que passo com ele são empolgantes, emocionantes, e sinto todos bem no meio do peito. É como se ele despertasse uma parte de mim que passou dezenove anos adormecida. Eu gosto de tanta coisa que jamais pensei ser capaz de gostar.
Gosto de ser beijada por alguém que me respeita de verdade. Amo saber que ele me ergueu do chão e deu um rodopio, de tanto orgulho de mim. Que saiu de casa para gritar feito idiota na torcida de um jogo besta de vôlei de praia, só para me animar.
Num dado momento do abraço, eu começo a chorar. Não é um choro perceptível, mas sinto umas lágrimas descendo por minhas bochechas.
Honestamente, não sinto que estamos perto o suficiente, por mais que estejamos colados um ao outro. Quero me fundir com ele. Quero ser parte dele. Quero ver se o faço se sentir tão vivo quanto ele me faz.Parece que ele sabe que não quero soltá-lo. Ele me ergue até que eu consiga enganchar as pernas em sua cintura, então me leva direto para sua casa, para longe da praia, para longe dos caras.
Quando chegamos, ele me põe de pé. Com relutância, me afasto e olho para ele, mas no térreo da casa, com o sol já se pondo, não consigo vê-lo tão bem quanto gostaria. Não sobrou muita luz, e seus olhos estão cobertos pela sombra. Ele estende as mãos e seca minhas lágrimas com os polegares. Então me beija.
O gosto é uma mistura de lágrimas e grãos de areia.
Eu me afasto.
— Preciso tomar um banho. Estou com areia por todo lado.
— Usa o chuveiro aqui de fora — responde ele, apontando para o box.
Não desfaço nossas mãos dadas enquanto caminhamos até lá.
Meu corpo todo dói, e ainda estou meio sem fôlego. Samson tira a
camiseta, larga no chão e entra debaixo do chuveiro. Abre a água e dá espaço para que eu entre. Abro a boca, para lavar um pouco da areia. E beber um pouco de água.
Tiro o chuveirinho do suporte e lavo meu corpo cheio de areia.
Samson se recosta na parede e não tira os olhos de mim.
Eu gosto de como ele me olha. Por mais escuro que esteja, ainda mais neste chuveiro, ele parece sorver cada milímetro do meu corpo.
Quando termino de me lavar, recoloco o chuveirinho no suporte.
Samson sai do alcance de minha visão. Então, eu o sinto atrás de mim. Ele vem deslizando o braço e pressiona a mão espalmada em meu estômago.
Inclino a cabeça em seu ombro e viro o rosto para ele. Samson encosta a boca na minha.
Nós nos beijamos nessa posição — eu de costas para ele, ele me abraçando por trás. Sua mão vem subindo até desaparecer por sob o meu biquíni.
Ele cobre meu seio com a mão em concha, e eu solto um arquejo, sorvendo sua respiração. Então, a outra mão começa a descer até minha barriga. O polegar entra pela bordinha do biquíni, e ele afasta a boca da minha. Ao me olhar nos olhos, recebe a resposta.
Não quero que ele pare.
Deixo os lábios entreabertos, antecipando o próximo passo.
Ele encara meu rosto, e sua mão desaparece por entre minhas pernas. Arqueio o corpo, solto um gemido, e ele aplica ainda mais pressão.
Desde a noite do primeiro beijo eu imagino como seria essa sensação. O toque real dele deixa minha imaginação no chinelo.
Meu tempo de reação é curtíssimo. Numa rapidez constrangedora, meu corpo todo começa a estremecer entre seus dedos. Estendo o braço para trás e agarro sua coxa. Ele se apoia na parede e vem me puxando junto, sem interromper o ritmo. Por sorte, quando não aguento a intensidade, ele cobre minha mão com a sua e abafa todos os meus sons.
Quando tudo acaba, ele ainda está me beijando. Recolhe a mão que está entre minhas pernas e me vira de frente para si.
Desabo por cima dele, totalmente sem fôlego, com os braços moles e as pernas doloridas. Solto um suspiro pesado.
— Quero fazer uma tatuagem — diz Samson.