Até o verão terminar
Cinco
Primeiro, ele me vê comendo pão roubado no deque de uma balsa. Depois me oferece dinheiro, e ainda não sei bem qual foi a motivação daquela oferta. Então, descubro que ele é vizinho da casa onde vou passar o verão.
Agora ele acaba de testemunhar a primeira crise de choro que tenho em anos.
Que beleza.
Foda-se esse verão.
Foda-se essa gente.
Foda-se toda a minha situação atual.
Cinco
Dei meu primeiro beijo aos doze anos.
Era um sábado de manhã. Eu estava parada em frente ao fogão, começando a preparar uns ovos mexidos. Não tinha ouvido minha mãe chegar na noite anterior, então deduzi que estava sozinha em casa. Eu havia acabado de quebrar dois ovos na frigideira quando ouvi a porta do quarto da minha mãe se abrir.
Ergui os olhos e vi um desconhecido saindo do quarto dela, segurando um par de botinas. Ao me ver diante do fogão, ele para.
Eu nunca tinha visto aquele homem antes. Minha mãe estava sempre ficando com alguém novo, ou terminando um relacionamento. Eu fazia o possível para não atrapalhar, quer ela estivesse começando a se apaixonar ou sofrendo uma desilusão. As duas situações eram igualmente dramáticas.
Nunca vou esquecer o jeito como aquele homem olhou para mim.
Foi uma encarada lenta, de cima a baixo, como se ele estivesse com fome e eu fosse um prato de comida. Foi a primeira vez que um homem me olhou daquele jeito. No mesmo instante senti um calafrio e voltei a atenção outra vez ao fogão.
— Não vai me dar oi? — disse o homem.
Eu o ignorei, na esperança de que ele fosse embora caso me achasse grosseira. Em vez disso, ele foi cruzando a cozinha e se debruçou no balcão junto ao fogão. Não tirei os olhos dos ovos mexidos.
— Tem para mim também?
Fiz que não.
— Só tinha dois ovos.
— Para mim está bom. Estou morrendo de fome.
Ele caminhou até a mesa e começou a calçar as botinas. Quando terminou, os ovos já estavam prontos. Eu não sabia o que fazer.
Estava com fome e só havia dois ovos, mas ele estava ali, sentado à mesa, como se esperando que eu o alimentasse. Eu não sabia nem quem era aquele cara, caramba.
Passei os ovos para um prato, peguei um garfo e tentei sair da cozinha e correr para o meu quarto. Ele me alcançou no corredor, agarrou meu pulso e me imprensou contra a parede.
— É assim que você trata as visitas?
Ele segurou minha mandíbula e me beijou.
Lutei para me desvencilhar. Ele tinha uma boca dolorosa. O
restolho de barba espetava meu rosto, e ele fedia a comida podre.
Mantive os dentes cerrados, mas ele foi apertando minha mandíbula cada vez mais forte, tentando abrir minha boca. Por fim, usei toda a minha força e o acertei com o prato de ovos na cabeça.
Ele se afastou e largou um tapa na minha cara.
Então foi embora.
Nunca mais o vi. Nunca soube nem o nome dele. Horas depois, minha mãe acordou e viu o prato quebrado e os ovos mexidos largados sobre a lata de lixo. Gritou comigo por ter desperdiçado os dois últimos ovos.
Desde esse dia não como nenhum ovo.
Mas já estapeei muitos namorados da minha mãe.
Conto isso pois quando saí do chuveiro, minutos atrás, senti um cheiro forte de ovo. O cheiro ainda paira no ar.
Está embrulhando meu estômago.
Assim que termino de me vestir, alguém bate à minha porta. Sara enfia a cabeça pela porta.
— Jantar batismal em cinco minutos.
Não faço ideia do que isso significa. Será que eles são super-religiosos ou coisa assim?
— O que é jantar batismal?
— O Marcos e o Samson jantam com a gente todo domingo. É
nossa forma de comemorar a partida dos turistas. A gente come junto e dá adeus aos viajantes. — Ela abre mais a porta. — Esse vestido ficou lindo em você. Quer que eu faça sua maquiagem?
— Para jantar?
— A-hã. Você vai conhecer o Samson.
Ela sorri, e percebo o quanto odeio encontros armados, por mais que seja minha primeira experiência nesse sentido. Abro a boca para explicar que já conheci Samson, mas resolvo guardar a informação com todos os outros segredos que já escondi na vida.
— Não quero me maquiar. Desço em uns minutinhos.
Sara parece decepcionada, mas vai embora. Pelo menos sabe pegar as deixas.
Segundos depois, ouço no andar de baixo vozes que não pertencem aos moradores da casa.
Observo o vestido amassado que usei o dia inteiro. Está todo embolado no chão, ao lado da cama. Pego o vestido e visto outra vez. Não quero tentar impressionar ninguém. No máximo, quero o efeito oposto.
Meu pai é o primeiro a me ver quando chego à base da escada e vou caminhando para a cozinha.
— Está com uma carinha renovada — diz ele. — Gostou do quarto?
Faço que sim, com os lábios contraídos.
Sara se vira para me olhar, e percebo sua surpresa ao ver que botei meu vestidinho novamente. Mas ela disfarça bem o choque.
Marcos está parado a seu lado, servindo um copo de chá gelado. Ao fazer contato visual comigo, ele me olha outra vez, para conferir. É
óbvio que não esperava ver a garota da balsa no jantar.
Samson não deve ter contado a ele que me viu aos prantos na sacada mais cedo.
Falando em Samson, ele é o único que não me olha. Está com a cara enfiada na geladeira quando Sara ergue a mão e aponta para mim.
— Marcos, esta é minha irmã postiça, Beyah. Beyah, este é o meu namorado, Marcos. — Ela aponta com o polegar por sobre o ombro.
— Aquele ali é o Samson, vizinho da casa ao lado e nossa vela.
Samson dá um giro e me olha por um instante. Ergue o queixo em um meneio de cabeça e abre uma lata de refrigerante. Quando ele leva a latinha aos lábios e dá um gole, só consigo pensar na visão de sua boca no pescoço de outra garota.
— Bem-vinda ao Texas, Beyah — diz Marcos, fingindo que não nos vimos na balsa mais cedo.
Fico grata quando percebo que os dois não vão trazer o assunto à tona.
— Valeu — murmuro. Entro na cozinha, sem saber ao certo o que fazer. Não me sinto à vontade a ponto de pedir uma bebida ou fazer meu próprio prato de comida. Fico ali parada, olhando todo mundo circular tranquilamente.
Por mais faminta que eu esteja, estou morta de medo desse jantar.
Seja lá por que razão, as pessoas tendem a suavizar o desconforto com perguntas cujas respostas ninguém está de fato muito interessado em saber. Tenho a sensação de que o jantar inteiro vai ser assim. Eles decerto vão me bombardear de perguntas, e eu realmente só queria fazer um prato de comida, levar para o quarto, comer em silêncio e me deitar para dormir.
Por dois meses seguidos.
— Espero que você curta café da manhã, Beyah — diz Alana, trazendo para a mesa um prato de biscoitinhos. — Às vezes a gente gosta de trocar as refeições e tomar café da manhã no jantar.
Meu pai bota na mesa uma travessa de ovos mexidos. O bacon e as panquecas já estão na mesa. Todos se acomodam, então faço o mesmo. Sara se senta entre Marcos e sua mãe, o que significa que sobrou para mim o lugar ao lado de meu pai. Samson é o último a se sentar, e faz uma pausa ao perceber que o lugar dele é ao lado do meu. Ele se acomoda com relutância. Talvez seja só impressão, mas parece que ele está tentando sutilmente desviar a atenção de mim.
Todos começam a passar a comida. Pulo os ovos, naturalmente, mas o cheiro domina tudo. Assim que dou a primeira mordida na panqueca, meu pai dá início à rodada de perguntas.
— O que você andou fazendo desde a formatura?
Engulo a comida.
— Trabalho, durmo, repito.
— O que é que você faz? — pergunta Sara, de um jeito rico. Não
“onde você trabalha?” , mas “o que você faz?” , como se fosse uma habilidade.
— Sou caixa do McDonald’s.
Percebo que ela fica meio aturdida.
— Ah — diz ela. — Legal.
— Que bacana você escolher trabalhar ainda na escola — diz Alana.
— Não foi escolha. Eu precisava comer.
Alana solta um pigarro, e percebo que minha resposta honesta a deixou constrangida. Se isso a incomoda, imagino como ela vai receber a notícia de que a minha mãe morreu de overdose.
— Você deve ter mudado de ideia em relação aos cursos de verão — diz meu pai, tentando mudar de assunto. — Resolveu começar no outono?
A pergunta me confunde.
— Não me inscrevi para nenhum curso de verão.
— Ah. Quando eu mandei dinheiro para o outono a sua mãe falou que precisava de mais, para as inscrições.
Minha mãe pediu dinheiro para inscrições?
Ganhei uma bolsa integral para a Universidade da Pensilvânia.
Nem preciso pagar inscrição.
Quanto dinheiro será que ele deu à minha mãe sem que eu nunca ficasse sabendo? Obviamente em algum momento ele me enviou um celular que nunca cheguei a receber. E agora fico sabendo que ela pediu dinheiro para uma inscrição escolar sobre a qual nunca nem se deu ao trabalho de me perguntar.
— Pois é — respondo, tentando inventar uma desculpa para o fato de estar no Texas e não fazendo os cursos de verão que ele pagou.
— Demorei muito a me inscrever. As vagas esgotaram.
De súbito, perco totalmente o apetite. Mal consigo engolir a segunda garfada de panqueca.
Minha mãe nunca me perguntou sobre a faculdade. Mesmo assim, pediu a meu pai dinheiro para me inscrever em cursos de verão, dinheiro que provavelmente deve ter ido parar no caça-níqueis de
algum cassino ou injetado na veia de seu braço. E ele deu, sem nem questionar. Se tivesse simplesmente me perguntado, eu teria dito que poderia frequentar a faculdade comunitária de graça. Mas eu não quis ficar naquela cidade. Eu precisava me afastar o máximo possível da minha mãe.
Acho que meu desejo enfim se concretizou.
Eu baixo o garfo. Acho que vou vomitar.
Sara também baixa o garfo e dá um gole no chá enquanto me observa.
— Você já sabe o que vai querer estudar? — pergunta Alana.
Faço que não e pego o garfo, para fingir que estou interessada na comida. Percebo que Sara pega o dela também, no mesmo instante.
— Ainda não decidi — respondo.
Cutuco uns pedaços de panqueca, mas não ponho nada na boca.
Sara faz o mesmo.
Abaixo o garfo. Sara também.
Outras conversas percorrem a mesa, mas eu faço o possível para ignorar quase todas. Não me sai da cabeça o fato de que Sara está imitando todos os meus movimentos, mesmo tentando ser discreta.
Vou ter que ficar ligada nisso o verão inteiro. Acho que essa garota precisa ser informada de que deve comer quando sentir vontade, não basear sua alimentação na quantidade de comida que eu como.
Faço questão de comer pelo menos um pouco, por mais que esteja nervosa e nauseada e que cada garfada seja uma luta.
Por sorte, a refeição é rápida. Vinte minutos, no máximo. Samson não abriu a boca enquanto comia. E ninguém agiu com estranheza.
Tomara que ele sempre seja assim, quieto. Vai ser mais fácil prestar menos atenção a ele.
— A Beyah precisa de umas coisas do Walmart — diz Sara. — A gente pode ir hoje à noite?
Não quero ir hoje. Quero dormir.
Meu pai puxa várias notas de cem dólares da carteira e me dá uma.
Mudei de ideia. Quero ir ao Walmart.
— Vamos esperar até amanhã para irmos a um lugar melhor, em Houston — sugere Alana.
— O Walmart está ótimo — respondo. — Não preciso de muita coisa.
— Aproveita e compra um daqueles celulares pré-pago — diz meu pai, entregando-me mais dinheiro.
Arregalo os olhos. Nunca segurei tanto dinheiro na vida. Devo ter uns seiscentos dólares nas mãos neste momento.
— Você dirige? — pergunta Sara a Marcos.
— Dirijo.
De súbito volto a não querer ir, se esses dois caras forem também.
— Eu não vou — diz Samson, enquanto pega o prato e leva até a pia. — Estou cansado.
Que bom. Agora que o Samson não vai, eu quero ir.
— Não seja grosseiro — diz Sara. — Você vai.
— É, você vai — repete Marcos.
Vejo que Samson me olha de soslaio. Pelo menos está tão desinteressado em mim quanto estou nele. Sara começa a caminhar em direção à porta.
— Vou pegar meu sapato — murmuro, e subo ao segundo andar.
•
Ao que parece, não tem nenhum Walmart na península Bolívar, ou seja, precisamos pegar a balsa até a ilha de Galveston. Não faz o menor sentido para mim. Ter que pegar uma balsa do continente até uma ilha para fazer compras. Este lugar é confuso.
A balsa leva cerca de vinte minutos de um ponto a outro. Assim que Marcos estacionou o carro, todo mundo saiu. Sara percebeu que eu ainda não tinha aberto minha porta, então abriu-a para mim.
— Vem, vamos para o deque lá de cima — disse ela.
Não foi exatamente um convite, mas uma ordem.
Menos de cinco minutos depois, Sara e Marcos deram no pé me deixaram sozinha com Samson. Está ficando tarde, já era por volta de nove e meia, portanto, a balsa estava bem vazia. Ficamos os dois encarando a água, fingindo que a situação não é constrangedora.
Mas é, pois eu não sei o que dizer. Não tenho nada em comum com esse cara. Ele não tem nada em comum comigo. Já tivemos duas
péssimas interações desde que cheguei, há umas horas. Duas a mais do que eu gostaria.
— Estou com a sensação de que eles estão tentando juntar a gente — diz Samson.
Olho para ele, que observa a água.
— Não é uma sensação. É um fato.
Ele assente, mas não diz nada. Não sei por que ele trouxe isso à tona. Talvez para suavizar a tensão. Ou talvez esteja entretido com a ideia.
— Só para você saber, eu não estou interessada — digo. — E não é que esteja fingindo desinteresse e esperando que você tente mesmo assim, porque gosto de joguinhos. Não estou interessada, real. Não só em você, mas em outras pessoas, de modo geral.
Ele dá um sorrisinho, mas ainda não me olha. Como se fosse bom demais para fazer contato visual.
— Não me lembro de ter expressado interesse — responde Samson, com frieza.
— Não expressou desinteresse, então achei melhor avisar logo.
Para não haver confusão.
Ele vira a cabeça bem devagar e me olha nos olhos.
— Valeu por explicar uma coisa que não estava nem confusa, para começo de conversa.
Meu Deus, como ele é bonito. Mesmo enquanto é um babaca.
Sinto meu rosto arder. Desvio os olhos depressa, sem saber ao certo como sair dessa. Todos os encontros que tive com ele foram humilhantes, e não sei ao certo se a culpa foi dele ou minha.
Deve ter sido minha, por me deixar constranger por ele. Quando a gente não dá a mínima para a presença de alguém, não há como se constranger. Isso deve significar que lá no fundo, em algum lugar, estou me importando com o que ele pensa.
Samson se afasta da amurada e endireita o corpo. Sou alta para uma garota. Um metro e setenta e sete. Mesmo assim, ele avulta por sobre mim. Deve ter pelo menos um e noventa.
— Amigos, então — diz ele, enfiando as mãos nos bolsos.
Sem querer, dou uma risada seca.