Até o verão terminar
Trinta e dois
— Você acreditou em mim primeiro, Samson. Isso era o mínimo que eu podia fazer.
Trinta e dois
Quando enfim chegamos à praia, ele nem parou para apreciar a vista. Saiu do carro, tirou a camisa e foi direto ao seu encontro. Estou na areia faz um tempo, a observá-lo. Ele é a única pessoa na água, e eu sou a única na praia. Está vazia, pois é outubro, e Samson é doido de pular numa água tão gelada.
Mas eu entendo. Ele precisa. São anos de terapia contidos num único mergulho.
Num dado momento ele retorna, então desaba na areia ao meu lado. Está molhado e arquejante, mas parece feliz. Falou muito pouco no caminho para cá, mas eu também não perguntei muita coisa. Ele passou tanto tempo privado de tudo o que ama, que quero lhe dar tempo para absorver tudo antes de bombardeá-lo com perguntas sobre os últimos anos.
Ele olha para trás.
— Não tem ninguém morando na casa da Marjorie?
— Não.
Ele pergunta pois está muito óbvio que a casa não anda recebendo cuidados desde que ficou vazia. Há umas telhas faltando no telhado. A grama está alta.
Marjorie faleceu em março, então Kevin deve pôr a casa à venda em breve. Fiquei péssima por Samson não ter podido comparecer ao funeral. Sei o quanto ela significava para ele. Ela chegou a visitá-lo na prisão algumas vezes.
Samson se deita na areia e acomoda a cabeça em meu colo. Ele me encara com um olhar de paz e alegria. Corro os dedos por seu cabelo molhado e abro um sorriso.
— Cadê o Queijo Pepper Jack? — pergunta ele.
Inclino a cabeça para minha casa.
— Agora fica dentro de casa. Ele e meu pai criaram laços.
— E seu pai e você?
Eu sorrio.
— Também criamos laços. Ele está sendo ótimo.
Samson leva minha mão à boca e dá um beijo. Une as duas mãos à minha, pressiona junto ao peito e permanece assim.
Assim que nos encontramos, quase tudo voltou a se encaixar.
Parece que não se passou um único minuto. Não faço ideia do que o amanhã trará, mas tudo de que preciso está contido neste momento.
— Você está diferente — diz ele. — Melhor. Mais feliz.
— Eu estou. — Sinto o coração dele batendo na palma de minha mão. — Não vou mentir, fiquei com muita raiva no início, mas você tinha razão. Foi a melhor coisa. Senão eu nunca teria ido embora.
— Foi horrível — devolve ele, com um sorriso contraditório. —
Uma tortura completa. Não sei nem te dizer quantas vezes quase desmoronei e pedi o seu endereço ao Kevin.
Dou uma risada.
— Que bom saber que você pensava em mim.
— A todo minuto — responde ele, confiante, erguendo a mão e tocando meu rosto. Inclino a cabeça por sobre a mão dele. — Posso te fazer uma pergunta pessoal?
Concordo com a cabeça.
— Você ficou com outros caras?
Pisco os olhos duas vezes. Esperava que ele me perguntasse isso, mas talvez não tão cedo.
Ele se apoia no braço e fica de frente para mim. Estende a mão e faz um carinho reconfortante em minha nuca.
— Só estou perguntando por que espero que a resposta seja sim.
— Você espera que eu tenha ficado com outros caras?
Ele dá de ombros.
— Não estou dizendo que não sinto ciúme. Só espero que você tenha se divertido na faculdade, que não tenha encarado o quarto do dormitório como uma cela de prisão.
— Eu fiquei com uns caras. Tive até um namorado durante um tempinho, no primeiro ano.
— Ele era bacana?
— Era. Mas não era você. — Inclino o corpo e o beijo rapidamente.
— Eu fiz amigos. Saí. Tirei boas notas. Até adorei a minha equipe de voleibol. Nós éramos muito boas.
Samson escancara um sorriso e volta à posição inicial, com a cabeça entre as minhas coxas.
— Que bom. Então não me arrependo da minha decisão.
— Que bom.
— Como é que vai a Sara? Ela e o Marcos ainda estão juntos?
— Se casaram no ano passado. Ela está grávida de quatro meses.
— Que bacana. Eu esperava muito que desse certo. E a marca de roupas dele? Decolou, afinal?
Aponto para uma casa ao longe, na praia. Samson ergue o cotovelo para olhar.
— Aquela ali é a casa deles. Terminaram de construir faz seis meses.
— A amarela?
— Isso.
— Cacete.
— Pois é, a marca está indo bem. Ele tem muitos seguidores no TikTok, o que alavancou demais os negócios.
— TikTok? — pergunta Samson, balançando a cabeça.
Eu rio.
— Mais tarde eu te mostro, quando você tiver um celular novo.
— Parece que o jogo virou, não é mesmo? — Samson torna a se sentar, então limpa a areia do corpo. — A gente pode visitar eles?
— A Sara e o Marcos? Tipo agora?
— Agorinha, não. Quero ficar mais um pouco botando o papo em dia com você. E também queria ver o seu pai. Devo um pedido de desculpas a ele.
— Pois é, isso não vai ser fácil.
— Eu sei. Mas sou persistente.
Samson me abraça e me puxa para perto. Beija o topo da minha cabeça.
— Como é que devo te chamar? Shawn ou Samson?
— Samson — responde ele, na mesma hora. — Nunca me senti tão à vontade quanto naquele verão, com você. É exatamente aquilo que eu quero ser. Para sempre.
Abraço os joelhos e escondo a boca no cotovelo, para disfarçar o sorriso.
— Onde é que você está morando? — pergunta Samson.
Inclino a cabeça para a casa de praia de meu pai.
— Esta semana estou com meu pai e a Alana, mas tenho um apartamento em Houston. Estou estudando direito.
— Mentira.
Eu rio.
— Estou. Comecei o primeiro semestre agora em agosto.
Samson balança a cabeça, com um misto de orgulho e incredulidade.
— Não sabia que era isso o que você queria fazer.
— Nem eu. Descobri depois da sua prisão. O Kevin ajudou demais. Eu inclusive vou começar a estagiar no escritório dele.
Samson abre um sorrisinho.
— Que orgulho.
— Obrigada.
— Fiz umas aulas durante a detenção. Vou tentar estudar também, se alguma faculdade me aceitar.
Ele desvia os olhos, como se estivesse preocupado com todos os desafios que tem pela frente.
— Como é que foi a prisão?
Ele suspira.
— Foi uma merda, muito ruim. De zero a dez, nota um. Não recomendo.
Eu rio.
— E qual é o próximo passo? Onde você vai morar?
Samson dá de ombros.
— O Kevin é que sabe. Ele falou que arrumou um lugar temporário para mim. Eu até tinha que ter ligado para ele assim que saí da prisão.
— Samson! — exclamo, boquiaberta. — Já se passaram quatro horas. Você não ligou para ele?
— Não tenho telefone. Ia pedir para usar o seu, mas me distraí um pouquinho.
Reviro os olhos e pego meu celular.
— Se você violar a condicional por uma bobagem dessa, eu mesma te devolvo para a cadeia.
Samson tira areia das mãos e pega o celular depois que eu digito o número de Kevin. Ele atende ao segundo toque.
— Ainda não tive notícias — diz Kevin, pensando falar comigo. —
Prometi que ligaria assim que tivesse.
— Sou eu, Kevin — responde Samson, abrindo um sorriso para mim. — Já saí.
Há uma pausa do outro lado da linha.
— Esse é o número da Beyah — diz Kevin. — Você está com ela?
— Sim.
— Onde é que você está?
— Na praia.
— A Beyah está ouvindo? — pergunta Kevin.
— Estou — respondo, aproximando-me do telefone.
— Acho que você estava certa em relação a ele.
— Lógico que estava — respondo, com um sorriso.
— Com todo esse comprometimento, já disse que você vai ser uma grande advogada — diz Kevin. — Escuta, Samson. Está escutando?
— A-hã.
— Vou te mandar um e-mail hoje com as informações sobre o seu oficial de condicional. Você tem sete dias para se apresentar. A sua chave está debaixo da pedra, à direita da lata de lixo.
Samson olha para mim e ergue a sobrancelha.
— Que chave?
— A chave da casa da minha mãe.
Samson olha para trás, para a casa de Marjorie.
— Não estou entendendo.
— Pois é, eu sei. A minha mãe me fez prometer que não te contaria até você ser solto, e foi por isso que pedi que você me ligasse assim que saísse. Você é péssimo para seguir instruções. A escritura está no meu escritório, levo para você em algum momento durante a semana. Tentei ajeitar um pouco a casa, mas a vida anda muito ocupada. Está precisando de muito conserto.
O olhar de incredulidade no rosto de Samson é tamanho, que eu queria poder tirar uma foto. Tenho certeza de que o meu está igualzinho.
— Você está de brincadeira? — pergunta Samson.
— Não. Você fez umas belas bobagens, mas também fez bem a muitas pessoas dessa comunidade. E minha mãe foi uma delas. Ela achava que você merecia chamar esse lugar de lar, pois sabia o quanto era importante para você.
Samson solta um suspiro trêmulo e larga meu celular na areia.
Então se levanta, deixando Kevin do outro lado da linha. Bem perto d’água, ele para e coça a nuca.
Pego o telefone e tiro o excesso de areia.
— A gente pode te ligar depois, Kevin?
— Está tudo bem?
Olho Samson, em sua luta para absorver tudo o que Kevin acabou de dizer.
— Acho que ele só precisa de um tempinho para processar a notícia.
Depois de encerrar a ligação, eu me aproximo de Samson. Paro diante dele e seco as lágrimas de seu rosto, como ele fez tantas vezes comigo.
Ele balança a cabeça.
— Não mereço aquela casa, Beyah.
Pego seu rosto com as duas mãos e o viro para mim.
— Você já foi punido, agora chega. Aceite todas as coisas boas que a vida está te oferecendo.
Ele exala o ar depressa, então me puxa para perto. Não deixo que ele me abrace por muito tempo, pois estou ansiosa demais para encontrar a chave. Pego a mão dele e começo a caminhar.
— Vem, quero ver a sua casa.
Encontramos a chave exatamente onde Kevin disse que estaria.
Ao encaixá-la na fechadura, Samson está tremendo. Precisa parar um instante e se apoiar no batente da porta.
— Isso não pode ser verdade — sussurra ele.
A casa está escura, mas vejo a camada de poeira no piso antes que ele acenda a luz. O recinto cheira a sal e bolor. Conhecendo Samson, no entanto, sei que até amanhã ele já terá dado um jeito nisso.
Ele vai andando pela casa, tocando em tudo. Nos armários, nas paredes, nas maçanetas, em toda a mobília de Marjorie. Percorre todos os cômodos e vai suspirando, como se não acreditasse que essa é a sua vida.
Eu também não estou acreditando.
Por fim, Samson abre a porta da escadinha do telhado. Eu subo com ele. Ao chegarmos lá em cima, ele se senta. Abre as pernas e faz um gesto para que eu me sente com ele, à sua frente.
Eu me acomodo, recostada junto ao ombro de Samson. Ele me abraça. Por mais bela que seja a vista daqui de cima, fecho os olhos com força, tamanha era minha saudade de tudo o que sinto por ele.
Mais do que eu imaginava.
Passei tanto tempo tentando evitar, que já começava a achar que não sentia mais nada. Mas os sentimentos nunca se apagaram.
Nunca se foram. Eu apenas forcei tudo a hibernar, para aliviar a dor.
Vez ou outra, Samson balança a cabeça, totalmente incrédulo. Sei que ele é quieto, desde que o conheci, mas ele nunca ficou tão calado perto de mim. Adoro essa reação. Adoro assistir à mudança de sua vida para melhor, bem diante dos meus olhos.
Olhe só para nós. Duas crianças solitárias, negligenciadas, agora de volta ao topo do mundo.
Samson toca meu rosto, pedindo que eu olhe para ele. Então me encara do mesmo jeito que fez tantas vezes naquele verão: como se eu fosse a coisa mais interessante dessa península.
Ele me beija, depois baixa a cabeça e leva os lábios ao meu ombro. Fica um tempo assim, com a boca colada à minha pele, como se para compensar todos os anos que não pôde me beijar.
— Eu te amo.
As três palavras tocam minha pele feito um sussurro fraco, mas sua força é tamanha, que cicatriza os ossos no meu coração.
Inclino a cabeça para trás, apoio-a em seu ombro, e olho o mar.